Bolsonaro exige retorno ao trabalho em meio ao colapso da saúde brasileira

Por Tomas Castanheira
11 Maio 2020

A pandemia do coronavírus está se espalhando em ritmo acelerado e atingindo uma dimensão catastrófica na América do Sul, com mais de 250 mil casos e cerca de 13 mil mortes registrados. Nos países que lideram os índices no continente, Brasil, Peru e Equador, as curvas de contágio e de mortes estão em pleno crescimento.

O Brasil responde por cerca de 140 mil casos e 10 mil mortes oficialmente confirmados. Mas, há semanas, pesquisadores alertam que os índices reais são muito superiores e estão sendo escondidos por um dos índices de testagem mais baixos de todo o continente.

Um estudo recente, publicado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, aponta que o país pode ter mais de 2 milhões de infectados, o colocando como o possível epicentro global da pandemia.

Bolsonaro caminha com ministros e empresários ao Supremo Tribunal Federal [Crédito: Planalto/Marcos Correa]

E mesmo esse número assustador pode ser uma subestimação dos índices reais. A projeção feita pelos pesquisadores se baseia no total de mortes por COVID-19 reportadas, "apesar de também haver relatos de subnotificação dos óbitos", como afirma o estudo, o que aumentaria os números significativamente.

A situação se manifesta no colapso do sistema de saúde e funerário em uma série de cidades brasileiras, criando uma reencenação macabra das cenas registradas em Guayaquil, no Equador, há cerca de um mês.

Em cidades como Manaus, capital do Amazonas, e Belém, capital do Pará, as autoridades não sabem mais o que fazer com os mortos. Imagens divulgadas no último final de semana mostram uma fila de dezenas de carros funerários parados em frente ao Instituto Médico Legal (IML) de Belém. Com o IML lotado, famílias aguardam por dias a liberação dos corpos de seus entes queridos, que ficam em alguns casos largados sob sol e chuva.

Ao menos quatro estados – Roraima, Pernambuco, Rio de Janeiro e Roraima – e oito capitais – Manaus, Recife, Rio de Janeiro, Fortaleza, Boa Vista, São Luís, Belém e São Paulo – já têm mais de 90% dos leitos de UTI ocupados, afirmou a Folha de São Paulo na sua edição de quinta-feira. Uma série de outros estados e cidades caminham a passos largos na mesma direção.

Esse é o resultado da negligência nefasta de todos os governos brasileiros, que não se prepararam minimamente para uma situação previsível. O aprofundamento da crise têm sido evidenciado pelas greves e manifestações de enfermeiros em todo o país, que além de exigir equipamentos de proteção individual, estão denunciando as condições extremamente precárias nos hospitais.

Com a doença começando a se disseminar nos bairros pobres das grandes cidades, a classe trabalhadora brasileira tem a sua frente uma perspectiva ainda mais sombria.

Em São Paulo, a maior cidade do país e que lidera o ranking de contaminação por COVID-19, os 20 distritos mais pobres tiveram um aumento de quase 50% de casos entre 17 e 24 de abril, enquanto nos 20 mais ricos houve um aumento de cerca de 20%. O bairro da cidade com mais mortes é a Brasilândia, com mais de 260 mil habitantes, nenhum hospital e mais de 100 mortos.

A calamidade sanitária se funde com a crescente miséria, que foi agravada durante a pandemia pelos cortes salariais, demissões e perda de renda por milhares trabalhadores "informais".

Seus efeitos se expressam em termos numéricos na queda de 50% a 100% da renda da maioria das famílias das chamadas classes D e E, que representam os 58 milhões de brasileiros mais pobres, com renda per capita abaixo de R$500 (menos de US$100) mensais. As cenas de trabalhadores passando a noite em longas filas para obter o auxílio emergencial do governo, de apenas R$600, deixam clara a dimensão da crise social.

Mas essa catástrofe para a esmagadora maioria da população não representa nenhum impedimento aos planos da classe dominante. Nenhuma consideração sobre os custos humanos pode frear o seu ímpeto selvagem pela extração de lucros. Na verdade, ela pretende explorar o desespero econômico da classe trabalhadora para forçar um retorno prematuro ao trabalho.

O presidente fascista Jair Bolsonaro, que foi apontado como um lunático pela imprensa brasileira e mundial, surge como um representante sóbrio e consistente dos interesses criminosos de toda a classe capitalista.

Bolsonaro em coletiva de imprensa após encontro no STF [Crédito: Planalto/Marcos Correa]

Acompanhado de ministros e um grupo empresários, atravessou a pé a Praça dos Três Poderes em Brasília, na manhã desta-quinta, e se dirigiu ao Supremo Tribunal Federal (STF). Ele fez, pessoalmente, um apelo em nome da burguesia nacional pela quebra imediata de todas as restrições às atividades econômicas em todo o território nacional.

Nesta semana, quatro estados brasileiros entram num suposto lockdown, com regras muito frouxas, permitindo o funcionamento de uma série de atividades econômicas. Mas mesmo isso é demais do ponto de vista dos interesses capitalistas. A direção deve ser justamente o sentido oposto, a flexibilização ainda maior das medidas de confinamento.

Bolsonaro apelou a Dias Toffoli, presidente do STF, pela revisão da decisão que dá autoridade aos governos locais para restringir as atividades, afirmando que os estados "já foram longe demais". Ele também deixou claro que não irá respeitar nenhum impedimento e anunciou que já estava assinando decretos para configurar uma série de atividades industriais como essenciais durante a pandemia.

Entre os industriais que o acompanhavam, estavam os representantes das associações da indústria química, de máquinas e equipamentos, de construção, elétrica e eletrônica, têxtil, fabricantes de veículos, do comércio exterior, entre outros. Eles apresentaram sua preocupação com a retomada mundial das operações econômicas, inclusive na Ásia, que traria uma competição ameaçadora às empresas brasileiras. Segundo eles, todas as condições para a retomada geral da produção no país já estariam prontas.

Ao lado de fora, um grupo fascista apoiador de Bolsonaro pressiona pelo fechamento do Congresso e do STF. Ele são financiados e assistidos por quadros de seu governo e deputados da sua base e organizam abertamente treinamentos de "Técnicas de revolução não violenta e desobediência civil, técnicas de estratégia, inteligência e investigação, organização e logística de movimentos contra revolucionários."

Ao colocar suas demandas sobre o Supremo, Bolsonaro fez um alerta em nome de toda a classe dominante ao perigo de um levante da classe trabalhadora:

"Nós temos um bem muito maior do que a própria vida, que é a liberdade", ele disse. "A continuar como está caminhando a questão econômica, [podemos assistir a] saques, assistir a manifestações populares, que nós já vimos no passado em situações sequer próximas a essa… As medidas econômicas tomadas pelo Paulo Guedes… do auxílio emergencial de 600 reais, entre outras, é que está mantendo a população numa situação ainda de equilíbrio, de razão acima da emoção".

Contudo, a explosão aberta da luta de classes no Brasil é incontornável.

O retorno forçado das atividades econômicas significará a morte de milhares e milhares de pessoas. E a classe trabalhadora está ciente disso. As greves selvagens que, desde março, contestam as condições mortais locais de trabalho apenas anteciparam a resistência que a classe trabalhadora está disposta a oferecer aos comandos dos capitalistas.

Essa resistência tende a ganhar um caráter cada vez mais amplo e encontrar apoio num movimento internacional da classe trabalhadora, que em todas as partes será obrigada a enfrentar a pressão assassina dos governos capitalistas por um retorno ao trabalho.

Somente o movimento político independente da classe trabalhadora, repudiando qualquer forma de nacionalismo, é capaz de esmagar o crescimento do fascismo promovido pela classe dominante e seu Estado.

A situação objetiva exige dos trabalhadores que se organizem para governar a sociedade. É necessário que as gigantescas fortunas concentradas pelos capitalistas sejam expropriadas e que sejam redirecionadas a financiar, em primeiro lugar, a saúde e a sobrevivência econômica das amplas massas de trabalhadores.

Todo o sistema de saúde, incluindo as instalações possuídas por empresas privadas, devem ser colocados a disposição de toda a população e geridos pelos próprios profissionais de saúde. E a decisão sobre qual produção é necessário e sob quais condições realizá-la devem ser definidas pelos próprios trabalhadores.

 

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