Os operários no México, a COVID-19 e a luta contra a campanha de retorno ao trabalho

Por Andrea Lobo
14 Maio 2020

Publicado originalmente em 11 de maio de 2020

O discurso a seguir foi proferido por Andrea Lobo, apoiador do Comitê Internacional da Quarta Internacional que vive na Costa Rica e tem escrito extensivamente sobre as lutas da classe trabalhadora na América Latina, para o Comício Online do Dia Internacional do Trabalhador de 2020, realizado pelo World Socialist Web Site e pelo Comitê Internacional da Quarta Internacional em 2 de maio.

A campanha de retorno ao trabalho assumiu um caráter particularmente urgente para o imperialismo dos EUA nas fábricas mexicanas, que são indispensáveis para a retomada da produção estadunidense. O número de mortes por COVID-19 e o de casos confirmados da doença batem recordes quase todos os dias no México.

Um médico hondurenho entrevistado recentemente pelo WSWS observou que notícias sobre a pandemia lembram o romance policial Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel García Márquez. Quase todos na história perdem uma oportunidade atrás da outra para alertar a vítima de um conhecido plano para assassiná-la, até que é tarde demais.

Os governos hoje estão respondendo com negligência e mentiras aos alertas generalizados sobre a pandemia. Seria um erro, entretanto, considerar a classe dominante e seus representantes políticos como observadores neutros, que simplesmente preferem “não dizer nada”. Eles são os protagonistas com interesses definidos na execução e ao encobri-la.

O discurso de Andrea Lobo começa à 1:56:44 do vídeo

No caso da pandemia, as vítimas, diante das fatalidades em massa e da privação econômica, podem ver o crime se desenrolar diante de seus olhos e podem decifrar o resto da trama. Este protagonista, a força social com poder para enfrentar as oligarquias e seus estados e deter este crime contínuo, é a classe trabalhadora.

Após ações semelhantes na Europa e nos Estados Unidos, milhares de trabalhadores mexicanos em fábricas da indústria manufatureira, que são chamadas de maquiladoras, entraram em greve para forçar o fechamento de fábricas não essenciais e para exigir equipamentos de proteção em fábricas essenciais.

As greves no México começaram em Matamoros, do outro lado da fronteira de Brownsville, no Texas. Os trabalhadores mexicanos entraram em greve um dia depois que o governo do presidente Andrés Manuel López Obrador (conhecido como AMLO) ordenou a interrupção da produção não essencial. As fábricas, no entanto, se recusaram a fechar, com as empresas citando a indefinição deliberada do decreto oficial.

No ano passado, os trabalhadores de Matamoros realizaram a maior onda de greves em décadas na América do Norte. Eles protestaram contra o salário de US$ 8 por turnos de 12 horas e contra os esforços das empresas para roubar seus bônus. A partir dessa experiência, muitos concluíram que as autoridades locais e federais e os sindicatos haviam apoiado incondicionalmente as corporações e que os trabalhadores só podiam contar com a sua própria iniciativa.

Com a propagação dos surtos e das mortes por COVID-19, isso também ficou claro para trabalhadores em cidades como Ciudad Juarez, Tijuana, Mexicali e Reynosa, que se juntaram à onda de greves.

As ondas de greves internacionais só começaram a mostrar o vasto potencial revolucionário da classe trabalhadora, além da necessidade de unir seu vasto poder entre todas as etnias, gêneros e nacionalidades, porque todos os trabalhadores compartilham os mesmos interesses.

O pai do marxismo russo, Georgi Plekhanov, escreveu que “não basta o médico simpatizar com a condição de seu paciente: ele tem que contar com a realidade física do organismo, para a partir dela combatê-la. Se o médico considerasse se limitar à indignação moral contra a doença, mereceria o ridículo mais cruel”.

Os trabalhadores precisam entender a realidade física da situação que enfrentam. Em apenas três décadas, o México passou por uma enorme transformação em sua composição de classe. Segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe da ONU, os produtos agrícolas, minerais e de baixa tecnologia foram responsáveis por 70% das exportações em 1986. Desde então, as exportações têm crescido 10,4% ao ano, e agora os bens de alta e média tecnologia respondem por 75% das exportações. A maioria vai para os Estados Unidos e Canadá.

A força de trabalho nas fábricas maquiladoras cresceu e chegou a cerca de 3 milhões de trabalhadores, que operam em elos cruciais e altamente rentáveis de todos os níveis das cadeias de fornecedores globais e através de indústrias de vital importância para a elite dominante dos EUA. A plataforma industrial na América do Norte foi construída e interligada a partir do esforço do imperialismo dos EUA para compensar a sua posição econômica em declínio, competindo com a Europa e o Japão, inicialmente, e agora com a China.

A curto prazo, à medida que os mercados financeiros recebem trilhões em resgates do Federal Reserve, a oligarquia está desesperada para extrair valor real através da exploração dos trabalhadores. Nesse processo, as maquiladoras do México são fundamentais. Por outro lado, a rentabilidade dos baixos salários do México é um grande incentivo para que a manufatura relacionada à guerra seja afastada dos potenciais rivais dos EUA.

Os trabalhadores de uma fábrica da Amphenol em Ciudad Juarez, que produz fios e conectores para as indústrias automotiva e de defesa, entraram em greve em 17 de abril após vários deles adoecerem. A empresa foi obrigada a fechar a fábrica, mas reabriu apenas uma semana depois, sabendo que tinha a permissão de fato do governo mexicano e o apoio do imperialismo dos EUA para colocar em perigo a vida dos trabalhadores. As ações da Amphenol subiram quase 15% naquela semana e 19% durante o mês. O CEO Richard Norwitt recebeu US$ 10 milhões em 2018, principalmente em ações.

Ray Scott, o CEO da fabricante de assentos e sistemas elétricos automotivos Lear Corp., onde pelo menos 14 trabalhadores em Ciudad Juarez morreram de COVID-19 por causa da demora em fechar a fábrica, também recebeu quase US$ 10 milhões – mais de 3.500 vezes o salário anual divulgado de um operário mexicano.

Alguns dias depois que Donald Trump publicou seu plano de “Abrir os EUA de novo”, ele telefonou pessoalmente para o presidente mexicano López Obrador para pressioná-lo a reabrir fornecedores para empresas dos EUA. O Pentágono, o embaixador dos EUA no México, um grupo bipartidário de senadores e vários grupos empresariais aderiram à campanha de pressão.

AMLO anunciou agora que reabrirá a economia a partir de 16 de maio, enquanto o ministro da Economia Arturo Herrera disse ao jornal El Pais que o governo estava procurando “algum mecanismo para que as empresas do lado mexicano ligadas às cadeias de fornecimento dos EUA abrissem antes”. O governo busca alcançar “a imunidade de rebanho”, explicou, já que “o que mata a pandemia não é evitar as infecções”. Supondo que as pessoas que já tiveram a COVID-19 estejam protegidas contra uma segunda infecção, o que ainda não existe evidência científica, a “imunidade de rebanho” faria com que mais da metade dos 135 milhões de mexicanos fossem infectados. Centenas de milhares, se não milhões, morreriam.

Seria ingênuo pensar que um governo disposto a sacrificar tantos para servir ao imperialismo estadunidense não utilizará tropas e forças especiais, treinadas e armadas com o apoio dos Estados Unidos, para impor o retorno ao trabalho. Um recente memorando interno da Guarda Nacional, que foi criada pelo próprio AMLO, indica que ela se prepara para se posicionar contra a “agitação social”.

Os sindicatos corruptos e nacionalistas e seus defensores em todos os países estão se alinhando por trás da campanha de retorno ao trabalho de seus governos. Os trabalhadores devem construir novas organizações, comitês de base, para decidir democraticamente quando e sob quais condições devem retornar ao trabalho, independentemente dos sindicatos, e para coordenar suas lutas entre diferentes categorias e países.

Há oitenta anos, pouco antes de ser assassinado por um agente stalinista perto da Cidade do México, Leon Trotsky escreveu: “Somente sob sua própria direção revolucionária o proletariado das colônias e semicolônias é capaz de realizar uma colaboração invencível com o proletariado dos centros metropolitanos e com a classe trabalhadora mundial como um todo. Somente essa colaboração pode levar os povos oprimidos à emancipação completa e final, através da derrubada do imperialismo em todo o mundo”.