A administração Trump contra a ciência

16 Maio 2020

Publicado originalmente em 15 de maio de 2020

A crítica pública do presidente Trump ao seu especialista para pandemia do novo coronavírus, Dr. Anthony Fauci, faz parte de uma política mais ampla de negar a ciência e apelar para os elementos sociais mais retrógrados e reacionários dos Estados Unidos. A Casa Branca está buscando criar um movimento fascista para impulsionar as exigências das grandes empresas para “reabrir” a economia dos EUA, independentemente do custo para a saúde e do risco à vida das pessoas trabalhadoras.

Os comentários cautelosos de Fauci em seu depoimento à Comissão de Saúde do Senado na terça-feira expressaram o consenso de epidemiologistas e outros especialistas em saúde pública. Ele alertou que os governos estaduais que abandonaram em grande parte as restrições às operações comerciais nas últimas três semanas estão abrindo o caminho para um ressurgimento desastroso da COVID-19 e “sofrimento e morte desnecessários”.

Na audiência no Senado, Fauci deixou claro que a pandemia não está “sob controle”, que o número real de pessoas que morreram de COVID-19 é maior do que a cifra oficial de 80.000, que a eficácia do tratamento com o antiviral remdesivir é “modesta” e que a recuperação da COVID-19 não garante imunidade.

Após a audiência, o médico Rick Bright deu um depoimento devastador a uma Comissão da Câmara, mostrando seus repetidos e fracassados esforços para alertar a administração Trump da pandemia de COVID-19 que se aproximava e assegurar um fornecimento adequado de testes, equipamentos de proteção e tratamento. Bright deixou claro que as decisões da administração estão levando a inúmeras mortes.

Ao invés de ouvir os seus alertas, as autoridades de saúde dos EUA, agindo de acordo com os esforços de Trump para minimizar a pandemia, demitiram Bright, que era diretor da Autoridade de Pesquisa e Desenvolvimento Biomédico Avançado.

Falando a repórteres na quarta-feira, enquanto se reunia com dois governadores – um democrata e outro republicano – que derrubaram a maioria das medidas de restrição relacionadas ao coronavírus, Trump declarou que a crítica de Fauci à reabertura da economia nos estados “não foi uma resposta aceitável”.

“Olha, ele quer jogar todos os lados da equação”, disse Trump, destacando a afirmação de Fauci de que nenhuma vacina ou outro tratamento médico para a COVID-19 estaria pronto em agosto, quando as escolas e faculdades normalmente retomam as aulas. “Eu não considero nosso país voltando se as escolas estiverem fechadas”, disse Trump.

Trump descartou os relatos de uma nova e mortal síndrome que afeta as crianças que sobreviveram à COVID-19, dizendo: “Agora quando você tiver um incidente, um em um milhão, um em 500.000, algo vai acontecer? Talvez ... mas você pode estar dirigindo para a escola e algumas coisas ruins também podem acontecer”. Ele passou a repetir as alegações refutadas de que o perigo da COVID-19 estaria limitado aos idosos e àqueles com problemas preexistentes de saúde.

Trump condenou Bright na quinta-feira, chamando-o de “descontente”, enquanto o Secretário de Saúde e Serviços Humanos, Alex Azar, mentiu dizendo que tudo o que Bright pediu tinha sido realizado.

O presidente dos EUA continuou seu ataque na manhã de quinta-feira, dizendo à Fox Business Network que ele “discorda totalmente” de Fauci sobre suas ressalvas quanto à reabertura dos sistemas escolares. Ele continuou dizendo à sua entrevistadora entusiasta de Wall Street, Maria Bartiromo, que “Temos que abrir nosso país ... o mais rápido possível. Não podemos continuar assim.”

O Dr. Fauci tornou-se um alvo de ataque da extrema-direita por vários meses, com a hashtag #firefauci (#demitafauci) aparecendo nas redes sociais de extrema-direita. Comentaristas no Breitbart.com, Fox News e outros meios de comunicação do gênero denunciaram Fauci como um opositor político de Trump, uma vez que ele se recusou a apoiar os supostos remédios contra o coronavírus defendidos por Trump e admitiu que uma resposta mais rápida do governo dos EUA à pandemia teria salvado vidas.

Em uma visita na quinta-feira a uma empresa da Pensilvânia que distribui suprimentos médicos, Trump adotou uma política de supressão deliberada de informações sobre a pandemia. “Quando você testa, você tem um caso”, disse. “Quando você testa, você descobre que algo está errado com as pessoas. Se não fizéssemos nenhum teste, teríamos muito poucos casos”. Mais tarde ele acrescentou: “Pode ser que os testes sejam, francamente, superestimados. Talvez sejam superestimados.” No dia da visita de Trump ao Vale de Lenigh, na Pensilvânia – onde ele novamente se recusou a usar máscara –, o número de mortes por coronavírus na vizinha Filadélfia passou de 1.000.

Enquanto atacava a ciência e o conhecimento médico, Trump endossou protestos na Pensilvânia e Michigan contra o lockdown por causa da pandemia. Ele também saudou a decisão de quarta-feira do tribunal de Wisconsin, que revogou o lockdown no estado.

Trump está fazendo um apelo aos elementos de direita mais retrógrados e confusos, incluindo fundamentalistas cristãos, grupos de milícias e aqueles contrários à vacinação. Esses grupos têm pouco apoio popular – na manifestação de quinta-feira em Lansing, Michigan, por exemplo, apareceram apenas 200 pessoas –, mas recebem ampla cobertura da mídia corporativa e são apresentados como a expressão da hostilidade em massa contra aqueles que defendem uma abordagem da pandemia que prioriza a saúde pública.

A cobertura da mídia da decisão do tribunal de Wisconsin, por exemplo, focou na reabertura de bares e restaurantes e seus clientes felizes, ignorando o fato de que a grande maioria da população do estado apoia o lockdown e vem cumprindo-o de maneira consciente. Já são quase 11.000 casos de COVID-19 no Wisconsin e 421 mortos pela doença.

As consequências dessas ações serão mortais. Enquanto os surtos iniciais de COVID-19 nos Estados Unidos estavam concentrados em áreas urbanas, quatro dos dez condados com as maiores taxas de mortalidade estão agora no sul rural, incluindo três condados na Geórgia e a Paróquia de São João Batista na Louisiana.

No ataque cada vez mais feroz aos especialistas em ciência e medicina, a administração Trump fala pela oligarquia financeira. Enquanto Trump tem sido o mais firme e consistente defensor do retorno prematuro ao trabalho, esta política está sendo levada adiante por governadores democratas e republicanos.

Se os princípios da matemática violassem os interesses de classe, Lênin observou uma vez, eles encontrariam uma amarga oposição. Não se trata aqui dos fundamentos da matemática, mas das mais básicas medidas científicas e de saúde pública necessárias para combater a pandemia do coronavírus e salvar incontáveis milhares de vidas.

Os bilionários e seus representantes políticos, tanto democratas quanto republicanos, após terem recebido seu maciço resgate financeiro do Congresso e do Federal Reserve, não se preocupam com o destino dos trabalhadores. Agora, eles querem fazer com que os trabalhadores voltem ao trabalho para poderem retomar a extração de mais-valia de sua mão de obra.

Esta campanha não envolverá apenas a ameaça de cortar o seguro desemprego e outros benefícios. Isso pode ser o suficiente para obrigar milhões de trabalhadores a voltarem aos seus locais de trabalho, mas não será suficiente para mantê-los lá, já que o número de infecções e de mortes continua crescendo.

A presença de manifestantes exibindo armas automáticas no Capitólio do Estado de Michigan, em Lansing, e em outros protestos contra os lockdowns é um alerta do que está sendo preparado para os trabalhadores que se opõem ao retorno ao trabalho e que se recusam a trabalhar em condições inseguras e mesmo mortais.

O Partido Socialista pela Igualdade se opõe à campanha de retorno ao trabalho que está sendo levada adiante pelas grandes empresas e seus representantes políticos em ambos os partidos. Todos os envolvidos nesse esforço, do presidente Trump ao seu “opositor” democrata Joe Biden, passando pelos democratas e republicanos no Congresso que votaram unanimemente a favor do resgate corporativo, até os governadores de ambos os partidos agora relaxando ou revogando os lockdowns, terão o sangue de dezenas de milhares de trabalhadores em suas mãos, se não muito mais.

Patrick Martin