Trabalhadores de base convocam greve nacional dos entregadores de aplicativos no Brasil

Por Letícia Silva
21 Maio 2020

Publicado originalmente em 20 de maio de 2020

Desde abril, entregadores de aplicativos controlados por grandes empresas transnacionais se engajaram em uma série de greves e paralisações em países como o Brasil, Espanha, Equador e Argentina. Suas reivindicações são as mesmas: melhores taxas de entrega, condições seguras de trabalho e que as empresas multimilionárias forneçam equipamentos essenciais que têm sido pagos pelos próprios trabalhadores.

No Brasil, essas mobilizações estão fortemente ligadas a outras greves e protestos, como dos operadores de telemarketing e profissionais de saúde, que tiveram seus trabalhos decretados como serviços essenciais durante a pandemia do coronavírus mas não receberam condições seguras de trabalho.

Greve dos entregadores em Jundiaí, no Primeiro de Maio. (Crédito: Motoboys de Jundiaí)

As paralisações não param. No dia 14 deste mês, entregadores em Vitória, a capital do Espírito Santo, organizaram um protesto, desligando o aplicativo do iFood por duas horas.

Em Jundiaí, interior de São Paulo, os entregadores estão convocando seus colegas de trabalho de todo o Brasil para uma greve no dia 30 de maio. Desde abril os trabalhadores fazem planos para a realização de uma greve unificada nacional e internacionalmente, confrontando as empresas de entrega por aplicativo.

"Os motoboys aqui, a gente tá conversando e todo mundo está se unindo. Desta vez um mês antes a gente está anunciando a greve… Vamos parar pessoal, vamos fazer acontecer porque de braço cruzado ninguém consegue nada, só consegue se for na luta", afirma o entregador Carlos Alberto num vídeo divulgado pela página do Facebook Motoboys de Jundiaí.

O WSWS conversou com Carlos Alberto, que é um dos organizadores do movimento e é entregador há nove anos. Segundo ele, esse chamado foi impulsionado pelas paralisações dos entregadores na capital paulista, que se tornaram um exemplo para trabalhadores de outras regiões. "A ideia é a gente ganhar força e reivindicar nossos direitos. Não dá para continuar desse jeito", ele disse.

Durante a crise da COVID-19, as condições de trabalho dos entregadores, que já eram essencialmente precárias, foram pioradas. O desligamento dos trabalhadores sem justificativa e a falta de comunicação com as empresas é generalizada.

"Tem muito colega nosso sendo banido por nada, as contas deles são bloqueadas sem nenhuma satisfação. Não chega nenhum e-mail, nenhum SMS, nenhum WhatsApp. É muito triste a gente ver uma coisa dessas acontecendo com os companheiros da gente", ele disse. "Fala para mim, que gasto eles tem? Nenhum! Eles tem um sistema, esse sistema tem um servidor e poucas pessoas por trás".

Carlos Alberto (à direita) com entregadores de aplicativo de Jundiaí chamando uma greve unificada. (Crédito: Motoboys de Jundiaí)

Com as quarentenas do coronavírus, a compra de refeições online aumentou, assim como os índices do desemprego. Ser entregador se tornou uma das poucas opções possíveis, sendo um dos poucos mercados de trabalho que atualmente cresce. Só no mês de março, o aplicativo iFood recebeu 175 mil inscrições de candidatos para entregadores, o dobro do que em fevereiro.

O diretor financeiro do iFood, Diego Barreto afirmou à revista Exame, no final de abril, que: "Esse movimento forte ainda continua, ele tem uma correlação quase que proporcional, quase de um para um, com o que está acontecendo na economia. Na medida em que as pessoas perdem seus empregos, elas começam a procurar alternativas".

De forma cínica, ele assume que "As empresas, em sua grande maioria, não estão contratando. É natural que as pessoas façam essa migração, então a gente espera que esse número continue forte, continue crescendo tanto neste mês de maio, quanto no mês de junho".

O iFood prometeu fornecer um auxílio aos entregadores do chamado "grupo de risco" que tiveram seus cadastros eliminados pela empresa. Contudo, os trabalhadores não foram informados das condições para receber esse benefício e nada indica que estão sendo pagos.

A verdadeira resposta das empresas de entrega por aplicativo às condições impostas pela crise do coronavírus foi utilizar o aumento de trabalhadores disponíveis para rebaixar seus pagamentos. Disponibilizando corridas cada vez mais longas e diminuindo a porcentagem de ganho por cada corrida, obrigam os entregadores a passar mais tempo "logados", em busca de um rendimento um pouco melhor.

Carlos Alberto conta que "O número de motoboys aumentou sim. Só que é o seguinte, por que eles mexeram na taxa e diminuiu? E daí que tem muito motoboy na rua, não é verdade?... Eles mexeram no dinheiro da gente, mas no deles ninguém mexeu, ninguém tirou nada... A taxa, o cliente paga quinze reais, doze reais para o iFood. O iFood repassa sete reais, oito reais para nós, o resto fica para eles. Os trabalhadores têm que se ajudar entre si, porque os aplicativos estão tirando proveito."

A segurança no trabalho também é uma reivindicação urgente dos trabalhadores da categoria, que estão sendo obrigados a pagar do seu próprio bolso por equipamentos de proteção individual. "A gente sente medo de pegar [o coronavírus] e levar para casa. Como você pode ver, eu tenho filha", disse Carlos. "Tem motoboys aqui em Jundiaí que estão em quarentena, doentes".

"Neste momento estamos entrando em contato com os motoboys de outros estados do Brasil para a gente fazer paralisação nacional, para a gente fortalecer de célula em célula. Para que no dia que a gente falar 'a gente vai parar', vários estados pararem consecutivamente."

O movimento dos entregadores expressa a disposição de amplos setores da classe trabalhadora a resistir às condições colocadas pelo capitalismo, que prova ser incapaz de organizar a sociedade. E ele aponta para a necessidade de uma orientação política unificada para combater as empresas transnacionais que exploram os trabalhadores globalmente. A tarefa urgente é a construção de partidos revolucionários da classe trabalhadora em todos os países.