Presidente Brasileiro Bolsonaro chama manifestantes de "terroristas", ameaça repressão militar

Por Miguel Andrade
8 Junho 2020

Publicado originalmente em 6 de junho de 2020

Em um rompante fascista durante a abertura de um hospital de campanha para tratar pacientes da COVID-19, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, denunciou mais uma vez os manifestantes que se juntaram às marchas em cinco cidades brasileiras realizadas em solidariedade aos protestos nos Estados Unidos como "terroristas" e "marginais" que tinham o objetivo de "quebrar o país".

Ele apelou aos governadores que mobilizassem a Força Nacional de Segurança Pública contra os manifestantes que participassem das novas marchas anti-governamentais programadas para domingo, dia escolhido como resposta às manifestações semanais fascistas realizadas pelos seus partidários aos domingos. As manifestações fascistas dominicais contam com a participação do próprio Bolsonaro, clamam regularmente por um golpe militar e saúdam a história brutal de tortura e execuções da ditadura militar de 1964-1985.

As últimas ameaças de Bolsonaro vieram na sequência de de uma reação frenética e aterrorizada do presidente e seu ministério às manifestações do último domingo, realizadas por jovens que se juntaram à onda global de protestos contra o assassinato de George Floyd e a desigualdade social, a brutalidade policial e o racismo, assim como a sua promoção pelo governo Bolsonaro. As manifestações foram recebidas uma com brutal repressão, desencadeada por soldados das polícias militares estaduais, que por sua vez protegeram provocadores fascistas com bandeiras do Setor de Direita, uma organização neonazista ucraniana. Os protestos também respondiam ao fato de os partidários de Bolsonaro terem reagido às marchas nos EUA realizando marchas noturnas com tochas, ao estilo da Ku-Klux-Klan, contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso, num apelo aos membros mais atrasados e desorientados da sociedade brasileira.

O mais significativo, porém, é que o discurso de Bolsonaro veio apenas três dias depois de um artigo de opinião assinado pelo vice-presidente, Gen. Hamilton Mourão e publicado pelo jornal mais antigo do Brasil, o Estado de S. Paulo, clamando pela prisão "sob vara" dos manifestantes. No artigo, Mourão endossou totalmente as denúncias anteriores feitas Bolsonaro, imitando os discursos de Donald Trump contra os "antifa," e defendendo que os manifestantes eram "terroristas" que deveriam ser proscritos.

No artigo de opinião, Mourão declarou que "apresentação das últimas manifestações contrárias ao governo como democráticas constitui um abuso", e que "é um abuso esquecer quem são eles, bem como apresentá-los como contraparte dos apoiadores do governo na tentativa de transformá-los em manifestantes legítimos," concluindo que "baderneiros são caso de polícia, não de política."

Ele também ressuscitou conhecidos argumentos autoritários sobre "agitadores externos" para denunciar manifestantes por "trazer ao nosso país problemas e conflitos de outros povos e culturas". Ele ainda se insurgiu contra o decano do STF, Celso de Mello, que alertou no domingo sobre os paralelos entre o Brasil e a República de Weimar nos anos que antecederam a aquisição de Hitler, chamando a comparação de "irresponsável", minimizando os discursos fascistas de Bolsonaro como "excessos retóricos", cuja condenação poderia levar "todos a perderem a razão" - ou seja, justificaria uma reação violenta de Bolsonaro contra a Corte.

Mourão é um notório golpista de ultra-direita, que foi punido duas vezes enquanto estava na ativa por declarações políticas contra tentativas impotentes do Congresso de investigar os horrendos crimes da ditadura militar de 1964-1985. Ele também presidiu o Clube Militar, uma associação ultra-direitista de altos oficiais aposentados que foi um dos proponentes ativos do golpe de 1964.

Mas Mourão escreveu sua coluna caluniosa de terça-feira com a autoridade de alguém insistentemente retratado como o "adulto na sala" do governo Bolsonaro, que é atravessado por uma série de crises, pelos ex-candidatos à presidência da oposição - Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores (PT), Guilherme Boulos, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), Ciro Gomes, do Partido Democrático do Trabalhista (PDT) e pelo governador Flávio Dino, do Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

As manifestações de domingo foram a expressão inicial de uma raiva de classe há muito reprimida contra Bolsonaro e contra a profunda desigualdade social que define o capitalismo brasileiro. Em um ato de covardia política, o PT pediu que seus apoiadores não se juntassem às manifestações marcadas para o domingo seguinte, para não dar ao governo "aquilo que ele exatamente deseja, o ambiente para atitudes arbitrárias." Horas depois, o partido afirmou ser "solidário" com os manifestantes e conclamou-os a "redobrar os cuidados" e "não entrar em provocações".

Há um profundo significado no desencadeamento da brutal violência policial sobre manifestantes pacíficos e na ressurreição ameaçadora da linguagem reacionária da ditadura por Bolsonaro e Mourão - "terrorismo" e "infiltrados" e "incitação externa" - após uma semana em que a oposição burguesa a Bolsonaro celebrava as batidas policiais contra seus partidários como um sinal do fim iminente de seu governo.

As batidas haviam sido ordenadas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que preside um inquérito sobre o incitamento de manifestações de extrema-direita contra o STF por partidários de Bolsonaro. A investigação é paralela a outra, presidida pelo ministro citado por Mourão, Celso de Mello, sobre as acusações apresentadas pelo ex-ministro da Justiça Sérgio Moro ao renunciar, de que Bolsonaro desejava interferir na Polícia Federal (PF) para proteger seu filho, o senador pelo Rio de Janeiro Flávio Bolsonaro. Moro disse que Bolsonaro desejava ter controlar investigações que pudessem ligar sua família a organizações criminosas conhecidas como "milícias," que controlam jogo e tráfico de drogas e também foram apontadas como responsáveis pela execução da vereadora da cidade do Rio Marielle Franco por assassinos profissionais em 2018.

Ambas as investigações estão agora no centro dos pedidos de impeachment apresentados contra Bolsonaro pela oposição burguesa liderada pelo PT, que alega que os laços de Bolsonaro com as milícias, sua interferência na PF e a incitação da extrema-direita ameaçam a "segurança interna" do capitalismo brasileiro.

Um dos principais defensores de tais acusações contra Bolsonaro como uma ameaça à "segurança interna" do estado brasileiro, o Estado de S. Paulo publicou um editorial apenas um dia antes das ameaças de Mourão declarando que "algo se move" na sociedade brasileira, e comemorando a publicação no domingo do chamado "Manifesto Estamos Juntos", um texto direitista defendendo que "como foi o caso com as 'Diretas Já!'" ao final da ditadura de 1964-1985, "é hora de deixar de lado velhas disputas em busca do bem comum," clamando por "esquerda, centro e direita unidos para defender a lei, a ordem, a política, a ética, as famílias" e a "responsabilidade na economia."

O manifesto reuniu praticamente toda a oposição burguesa e pequeno-burguesa a Bolsonaro, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso à banqueira bilionária Alice Setúbal e aos ex-candidatos à presidência do pseudo-esquerdista PSOL, Guilherme Boulos, PT, Fernando Haddad e sua companheira de chapa do PCdoB, Manuela D'Ávila.

Todos os grandes veículos de imprensa, da Globo ao Estado de S. Paulo, endossaram imediatamente o manifesto, que tem como ponto de convergência que o Bolsonaro é uma ameaça ao capitalismo brasileiro por "semear a desordem" pela incitação à extrema-direita, ou seja, que a oposição a Bolsonaro é necessária para evitar a reação política de massa da classe trabalhadora.

A aparente contradição entre um jornal celebrar a "oposição" ao governo em um dia e abrir suas páginas para um discurso fascista do vice-presidente no dia seguinte revela a característica unificadora dessa dita oposição: sua lealdade às instituições burguesas e, sobretudo, o aparato repressivo, que consideram estar sendo irreversivelmente desmoralizado por Bolsonaro.

Isso inclui as críticas feitas ao manifesto pelo ex-presidente do PT Luiz Inácio Lula da Silva, que se recusou a assiná-lo, como tinha feito seu candidato escolhido a dedo para 2018, Fernando Haddad, a fim de aplacar as críticas dos partidários do PT à sua linguagem direitista de "lei e ordem". No dia seguinte, porém, ele endossou as manobras de direita na CNN Internacional, dizendo que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia teria que escolher "um" dos 36 pedidos de impeachment de Bolsonaro para colocar em votação - entre os quais está o próprio pedido do PT acusando Bolsonaro de ameaçar a "segurança interna."

Ainda mais revelador é o fato de que tal movimento de "unidade" está ecoando a campanha liderada pelo pseudo-esquerdista PSOL após a eleição de Bolsonaro. Esta campanha vê Bolsonaro como o produto de uma subversão de um capitalismo brasileiro saudável, através de uma campanha maciça de notícias falsas.

Todas essas forças até adotaram a definição de Bolsonaro feita pelo PSOL, segundo o qual seu principal crime não é a gestão do capitalismo brasileiro e seu absoluto descaso com a vida dos trabalhadores durante a pandemia da COVID-19, ou seu ataque frontal aos direitos sociais dos trabalhadores, mas o fato de estar ligado às milícias do Rio de Janeiro, como um "elemento podre" do domínio burguês que deve ser suprimido para não desmoralizar o domínio burguês como um todo.

Agora todos estão saudando o fato de que o STF está trabalhando para desmantelar as "milícias virtuais" organizadas por seus apoiadores, possivelmente coletando provas que poderiam ser usadas no pedido do PSOL para anular as eleições de 2018 por causa da disseminação de "notícias falsas". Expondo o caráter de direita de todo esse movimento liderado pelo PT e pelo pseudo-esquerda PSOL, o Estado de S. Paulo até compara Bolsonaro ao falecido Hugo Chávez, um inconfundível argumento pró-imperialista que é apenas o corolário da campanha do PSOL contra as "ameaças" de Bolsonaro à ordem burguesa.

Ainda que o general Mourão responda às necessidades objetivas da burguesia brasileira, que preside a mais desigual das grandes economias do mundo, a campanha fascista de Bolsonaro também se alimenta da cumplicidade da oposição burguesa, que compartilha seus interesses de classe e os de Mourão, e teme acima de tudo a oposição social das massas. Tal oposição burguesa nada tem a ver com a maciça manifestação de solidariedade aos trabalhadores norte-americanos e oposição à desigualdade social e à violência policial da juventude trabalhadora brasileira vista desde domingo. Este movimento deve agora prosseguir em uma oposição consciente às manobras burguesas para canalizá-lo de volta para as instituições do Estado capitalista, atando as suas mãos diante de uma repressão brutal.