Entregadores brasileiros fazem greve em defesa de suas vidas

Por Tomas Castanheira
13 Junho 2020

Publicado originalmente em 12 de junho de 2020

Na quinta-feira, entregadores do aplicativo Loggi entraram em seu terceiro dia de greve contra as condições gerais de trabalho e remuneração, que foram rebaixadas desde o início da pandemia do coronavírus. A greve foi iniciada no Rio de Janeiro, alimentada pela revolta dos trabalhadores com a morte do jovem entregador Thiago Coelho, que sofreu um acidente de moto na terça-feira.

No primeiro dia de greve, os trabalhadores fecharam quatro sedes da Loggi no Rio de Janeiro, com total adesão dos trabalhadores nesses locais. Eles levantaram um conjunto de reivindicações, que inclui o aumento do valor das entregas e fim dos bloqueios a entregadores, e convocaram a adesão de seus colegas em todo o Brasil.

Ao longo da terça-feira, os trabalhadores também realizaram protestos pela morte de Thiago Coelho bloqueando vias de Niterói, município do Rio de Janeiro onde o jovem sofreu o acidente.

Entregadores da Loggi em greve. (créditos: Universidade à Esquerda)

No dia seguinte, a greve se espalhou por outras unidades do Rio de Janeiro e atingiu o estado de São Paulo. Os entregadores realizaram novas manifestações, percorrendo as ruas do Rio de Janeiro buzinando em suas motos. Eles bloquearam pistas da Linha Vermelha e Amarela e da Barra, as avenidas mais movimentadas da cidade.

Os trabalhadores denunciaram as tentativas da Loggi de quebrar a greve, oferecendo taxas elevadas para fura-greves, e perseguir os grevistas, bloqueando-os do aplicativo. Os entregadores responderam intensificando o movimento.

Em um vídeo um grevista discursa para seus colegas: “A greve também é para desbloquear todo mundo que está bloqueado por acareação e pela greve também. Enquanto não desbloquear, passeata todo dia... É São Paulo e Rio, porra. Daqui a pouco tá o Brasil todo, vamos juntar geral! Eu não tenho medo, nem vocês tem que ter. Todo mundo junto. Se ninguém pegar, a Loggi não tem o que fazer. Ou aumenta os valores, ou ninguém pega”.

Em uma entrevista ao G1, eles afirmam que a empresa impõe condições inseguras de trabalho, desde a sobrecarga de pacotes que não cabem nos baús das motos, até a falta de equipamentos de proteção contra o coronavírus. “Olha o álcool que eles deram para a gente passar o mês inteiro, isso aqui não dá nem para uma semana. E só uma máscara.”.

A Loggi é uma startup brasileira em ascensão no mercado de entregas, que trabalha em parcerias com transnacionais como Rappi e Ifood e em competição direta “com um mix de empresas tradicionais, como Correios, Jadilog, Total Express, de quem queremos ganhar todo dia”, afirma o CEO Fabien Mendez. Em junho do ano passado, a Loggi recebeu um investimento de 150 milhões de dólares de fundos internacionais como o conglomerado japonês Softbank e atingiu um valor de mercado superior a 1 bilhão de dólares, tornando-se um "unicórnio" nacional – um modelo de sucesso empresarial.

Essa disputa voraz por mercados está baseada no barateamento dos custos trabalhistas dos serviços de entregas. A Loggi e demais corporações enxergaram na pandemia do coronavírus uma oportunidade única de aprofundar a exploração dos trabalhadores. Os bloqueios constantes e a diminuição dos pagamentos por entrega foram a resposta dos empregadores ao gigantesco aumento da procura por trabalho, causada pela explosão do desemprego no Brasil e no mundo desde o início da pandemia.

Entregadores da Loggi em greve. (créditos: Universidade à Esquerda)

Os entregadores de aplicativos vêm realizando greves e protestos no Brasil desde abril, ligados a greves de entregadores por todo o mundo, em países como Espanha, Equador e Argentina. No último domingo, entregadores compareceram uniformizados aos protestos ao redor do país contra a violência policial, racismo e o governo do fascista Jair Bolsonaro, se unindo às manifestações internacionais impulsionadas pelo assassinato de George Floyd.

O movimento de entregadores no Brasil é parte de uma onda de greves da classe trabalhadora brasileira e internacional que marca um novo capítulo histórico da luta de classes. A afirmação feita esta semana por um entregador em greve, de que “os empresários estão ganhando dinheiro demais enquanto nós estamos sofrendo nas ruas”, expressa o sentimento de amplas camadas da classe trabalhadora mundial.

Os entregadores brasileiros devem apelar a seus colegas ao redor do mundo para um movimento unificado contra a exploração pelas gigantescas corporações transnacionais e por uma resposta política à destruição das vidas dos trabalhadores promovidas pelo capitalismo em todos os países.