Brasil registra segundo maior número de mortes por COVID-19 no mundo enquanto ações sobem

Por Miguel Andrade
15 Junho 2020

Publicado originalmente em 13 de junho de 2020

Tendo ultrapassado os Estados Unidos para se tornar o país com o maior número confirmado de novas mortes diárias por COVID-19, o Brasil agora passou o Reino Unido como o segundo com maior número de mortes no mundo - 41.828 contra 41.556, a partir de sexta-feira -, tendo à frente apenas os Estados Unidos, tanto no total de mortes como no total de casos.

Na última semana também houve uma aceleração da propagação da pandemia pelo maior país da América Latina, com mais de 32 mil casos registrados diariamente e uma média de 1.073 mortes por dia.

Os números oficiais, entretanto, não têm credibilidade, devido à política de imunidade do rebanho seguida na prática pelo governo Bolsonaro. O governo se recusou a tomar qualquer medida contra a pandemia e reteve fundos dos governos locais. Em busca de seu objetivo de esconder o verdadeiro impacto da pandemia, tem acusado as administrações locais de contabilizar mortes em excesso, sem apresentar qualquer evidência.

Os últimos números foram divulgados pelo governo após ter decidido, no fim de semana, "reformular" seus relatórios, apresentando-os no final da noite, a fim de contornar os noticiários noturnos da televisão e, o mais importante, contabilizando apenas as mortes ocorridas no dia do relatório, ao invés de todas as confirmadas naquele dia, incluindo as que haviam acontecido anteriormente.

Tal manipulação de dados teria reduzido em 60% o número de mortes relatadas diariamente, segundo uma reportagem de 31 de maio da Folha de S. Paulo. A reportagem analisou os dados divulgados em 2 de maio e constatou que o número total de mortes pela COVID-19 confirmadas pelo governo até aquela ocasião, desde o início da pandemia, era de 6.724. Mas outros 16.144 óbitos por COVID-19 e por síndrome respiratória aguda grave (SRAG) também haviam ocorrido até aquele dia, mas ainda estavam aguardando autópsias ou exames de COVID-19. Em outras palavras, dois terços das mortes reais da COVID-19 até 2 de maio não eram conhecidas e foram diluídas nos relatos dos dias seguintes.

A inclusão tardia das mortes significaria que, para um determinado dia, do total de mortes por COVID-19, apenas 40% são imediatamente identificadas como tal, e que as mortes diárias relatadas pelo governo representam uma subestimação constante e grosseira.

Ao mesmo tempo, a decisão de relatar apenas mortes confirmadas como tendo sido causadas pela COVID-19 em um determinado dia lançaria as confirmações tardias em um limbo estatístico e daria ao público a impressão de uma contagem de mortes muito menor. A decisão do governo de mudar os relatórios diários da COVID-19 foi derrubada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na segunda-feira, mas o governo também revelou que está procurando maneiras de rever para baixo o número total de mortes, principalmente questionando as mortes não relacionadas à COVID-19 diretamente, mas atribuídas a SRAG.

Os casos de SRAG quadruplicaram este ano no Brasil, e em 98% dos exames post-mortem dos doentes com SRAG, a causa de morte foi o novo coronavírus. Esta condição levou muitos governos locais a adicionar parte das mortes por SRAG aos números da COVID-19, resultando em acusações de "fraude" pela administração Bolsonaro. Também deu mais credibilidade às estimativas de especialistas de que o número de casos da COVID-19 é pelo menos uma ordem de grandeza maior do que a contagem oficial, se não maior. Se os padrões de sub-notificação do início de maio fossem utilizados para o atual número de mortes, eles levariam a mais de 100.000 mortes.

Na terça-feira, a Folha de S. Paulo também revelou que baixas taxas de casos oficiais da COVID-19 estão fortemente correlacionadas com altas taxas de SRAG "sem causa definida", com as capitais estaduais que têm menos mortes oficiais pela COVID-19 apresentando taxas até 12 vezes maiores daquele tipo de morte.

No entanto, ignorando solenemente a situação catastrófica que se abateu sobre o país, os governadores e prefeitos que governam as áreas mais atingidas autorizaram a reversão de quaisquer medidas limitada de quarentena que haviam sido impostas nos últimos três meses, as quais eles antes declaravam orgulhosamente não terem atingido a maior parte da economia.

Todos os governadores que antes atacavam o fascista Bolsonaro por seu descaso com a pandemia e fingiam seguir os conselhos científicos e defender a "vida" consideram agora a reabertura de fábricas e lojas uma questão fechada.

Nos três estados mais atingidos, São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará, o comércio de rua e os shoppings já estão abertos, após um lento retorno ao trabalho nas fábricas nas últimas semanas.

Em São Paulo, a reabertura de lojas se deu em meio a novos recordes diários de mortes na quarta-feira e na quinta-feira, com mais de 330 mortes por dia. O próprio governo estadual reconheceu que nos próximos 18 dias provavelmente haverá a duplicação do número de mortes dos últimos três meses, de 11.000 para 22.000. A previsão é que os casos dupliquem dos atuais 123 mil.

Um destino ainda pior é esperado no empobrecido nordeste do país, onde está localizado o Ceará, que acaba de passar o sudeste mais rico, onde estão São Paulo e Rio de Janeiro, para ser o epicentro da pandemia do país. O nordeste é hoje responsável por mais casos do que o sudeste, apesar de ter apenas 56 milhões de habitantes, em comparação com os 85 milhões do sudeste.

O Instituto de Métricas e Avaliação da Saúde da Escola de Medicina da Universidade de Washington (IHME) projeta agora que o Brasil terá 5.000 mortes por dia em agosto e superará os Estados Unidos no total de mortes até o final de julho, mesmo considerando os dados oficiais brasileiros, com suas falhas.

Ontem também houve a divulgação dos números de uma pesquisa por amostragem realizada pela Universidade Federal de Pelotas, do sul do país, sobre a presença de anticorpos entre a população, constatando que 2,6% da população foi infectada em 120 das maiores cidades brasileiras, onde moram 68,6 milhões de pessoas. Os números mostram que o sucesso da chamada "imunidade do rebanho" exigiria pelo menos 25 vezes mais infecções e mortes para "ter sucesso" na imunização da população, ou mais de 500.000 mortes só nessas cidades, supondo que a imunidade a longo prazo seja desenvolvida pelos infectados.

As políticas assassinas da classe dominante brasileira proporcionaram nada menos do que um banquete para o capital financeiro, que desfrutou de uma corrida por ações que recuperou seus valores pré-pandemia. O índice de ações da B3, a Bolsa de Valores de São Paulo, está agora em 94 mil pontos, tendo ganho quase 50% desde o dia do início da quarentena parcial em São Paulo, 23 de março. O Real também atingiu seu valor mais alto em relação ao dólar em três meses. Isso contrasta com a campanha fraudulenta da oposição liderada pelo Partido dos Trabalhadores para remover Bolsonaro, com base em afirmações reacionárias de que ele está "afugentando os investidores", ameaçando a "segurança interna" capitalista.

O mercado acionário brasileiro está respondendo não apenas à unidade de toda a classe dominante em torno da campanha de volta ao trabalho liderada por Bolsonaro, mas também ao seu silêncio e colaboração com a brutal repressão em resposta aos primeiros sinais de oposição social expressos pelas manifestações de trabalhadores e jovens nas últimas duas semanas.

A oposição burguesa a Bolsonaro, liderada pelo PT, votou com o governo pela injeção maciça de recursos públicos nos mercados financeiros. Mudou rapidamente o foco de sua oposição a Bolsonaro de seu descaso com a pandemia para as acusações feitas pelo ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro. Estas se concentram em tentativas de Bolsonaro de interferir na Polícia Federal para acabar com as investigações sobre seus laços com o crime organizado do Rio de Janeiro e possivelmente com o assassinato da vereadora Marielle Franco. A oposição liderada pelo PT retrata esses crimes como uma ameaça ao capitalismo brasileiro e à credibilidade de seu aparelho repressivo.

Agora, eles também estão concentrando seus esforços na pressão sobre o Tribunal Eleitoral (TSE) e o STF para remover Bolsonaro do cargo sob o pretexto fraudulento e reacionário de que "notícias falsas" decidiram a eleição de 2018. Esta campanha tem sido acompanhada por pressões para a regulamentação do combate a "notícias falsas" e por denúncias dos laços de Bolsonaro com a extrema-direita como uma ameaça ao Estado.

Enquanto isso, eles têm se contraposto às manifestações juvenis com afirmações de que elas só alimentam os provocadores pró-Bolsonaro que acusam os manifestantes de "comunistas" e desordeiros, e acabariam por fortalecer seu governo. Tal covardia e cumplicidade foi resumida pelo líder do pseudo-esquerdista PSOL, Marcelo Freixo, que justificou a inação de seu partido diante da extrema-direita dizendo: "Bolsonaro está claramente alimentando o caos através de suas milícias políticas para justificar uma intervenção militar" - em outras palavras, qualquer oposição em massa só joga o jogo de Bolsonaro.

Trabalhadores e jovens que se opõem às políticas fascistas de Bolsonaro e do capitalismo brasileiro como um todo devem rejeitar as manobras reacionárias dos adversários burgueses de Bolsonaro, liderados pelo PT, e as tentativas do PSOL de acobertá-las. As políticas desses partidos só servem para desarmar a classe trabalhadora diante da repressão maciça que está sendo preparada pelo governo.