Morte de dois trabalhadores provoca greve de 3.200 operários em fábrica de autopeças em Matamoros, México

Por Andrea Lobo
22 Junho 2020

Publicado originalmente em 20 de Junho de 2020

Três mil e duzentos trabalhadores da produtora de autopeças Tridonex Cardone, em Matamoros, México, realizaram uma greve selvagem na manhã de sexta-feira em resposta à morte de dois colegas de trabalho, com suspeitas de terem sido causadas pela COVID-19. Os grevistas exigiram mais informações e o fechamento das instalações até existirem condições seguras.

Trabalhadores em greve, 19 de junho. [Crédito: Estrada Méndez Pita]

Assim que tiveram notícia de que Luciano Romero Contreras, um faxineiro de 48 anos da Fábrica 52, havia falecido no dia anterior, os trabalhadores da empresa cruzaram os braços e iniciaram discussões no chão de fábrica e nas redes sociais. Em meio a profunda tristeza e indignação, com trabalhadores nas redes sociais descrevendo Romero como "uma pessoa maravilhosa", um "grande amigo" e um "camarada", cresceram as suspeitas de que ele poderia ter morrido de COVID-19.

Alguns de seus conhecidos confirmaram seu falecimento e explicaram que ele tinha problemas renais preexistentes, mas a morte pareceu muito "repentina". Um colega de trabalho observou que Romero permaneceu trabalhando durante o breve fechamento da fábrica em abril.

Os trabalhadores da fábrica 52 então fizeram ligações para colegas das outras duas fábricas da Tridonex, 53 e 60, os convocando a aderirem à greve. Até o fechamento deste artigo, relatos dos trabalhadores indicavam que as três fábricas pararam completamente por algumas horas e que os trabalhadores da fábrica 53 haviam saído em greve e retornado para casa.

Na fábrica 53, um colega de trabalho chamado Miguel Ángel também morreu nos últimos dias. De acordo com as redes sociais, Ángel estava na casa dos trinta anos. Trabalhadores das três fábricas denunciaram inúmeros casos suspeitos de infecção por COVID-19 entre funcionários, alguns dos quais estão sendo forçados a trabalhar com sintomas e sem fazer o teste.

Trabalhadores da Tridonex saem em greve, 19 de junho. [Crédito: Rouss Villa]

Um ex-funcionário da Tridonex contou ao Boletim dos Trabalhadores Automotivos do WSWS que Miguel Ángel, que tinha o apelido de Troll, "foi meu colega de trabalho por mais de 13 anos e morreu, sim, de COVID. Muitas pessoas nessa área adoeceram por COVID. Na segunda-feira, muitos foram testados, mas, até hoje, sexta-feira, a maioria ainda não recebeu nenhum resultado.

"[Miguel Ángel] passou mais de duas semanas com os sintomas e só recebia um comprimido e era mandado de volta ao trabalho. O ruim é que muitos dos trabalhadores tiveram contato com ele sem saber. Eles entraram em greve, hoje de manhã, porque só os patrões foram mandados para casa para descansar e eles foram largados."

"Sim, as três fábricas [pararam], porque estão vendo como são as coisas", confirmou Miguel, um operário do setor de peças, nas redes sociais. "Eles [a direção] não estão nem aí para nós, apesar de afirmarem estar preocupados com nossas famílias. Isso é mentira. Eles se preocupam conosco tanto quanto se preocupariam com animais. Eles não acham que podemos infectar nossas famílias, levar o vírus para outros lugares. Será que eles realmente acham que checar nossa temperatura uma vez pela manhã e um pouco de álcool gel [que eles fornecem] vai nos proteger?".

Trabalhadores em greve na fábrica 6.

Vários trabalhadores da fábrica 53 relatam que a gestão está oferecendo dinheiro aos infectados para que permaneçam em silêncio. "Somos aqueles que estão arriscando a própria vida, mas na fábrica somos apenas um número", disse um trabalhador. Outro comentou: "A empresa nunca vai se importar com a sua vida. Eles só se preocupam com dinheiro e ficar bem com o patrão, mas nós nos preocupamos com nossas famílias".

A Tridonex foi uma das muitas empresas que se aproveitaram dos termos vagos da ordem federal de 31 de março para suspenção da produção não essencial e continuaram funcionando durante a pandemia. Em 1º de abril, ela emitiu uma notificação alegando: "O acordo publicado não obriga a suspensão das operações".

Em 2 de abril, no entanto, uma greve selvagem obrigou a empresa a fechar, pagando 100% do salário aos trabalhadores. Mas a gestão reabriu as fábricas em 13 de abril, menos de duas semanas depois, oferecendo aos trabalhadores "voluntários" um bônus de 20%. O governo federal deu permissão inequívoca para que o setor e a empresa reiniciassem suas operações em 1º de junho, definindo-a como "essencial".

Então, em 15 de junho, a empresa iniciou um retorno gradual de trabalhadores pertencentes ao grupo de risco, e agora os trabalhadores relatam que as fábricas estão operando acima da capacidade total.

Um trabalhador escreveu durante a greve de sexta-feira: "Eu estava me sentindo mal ontem em relação à minha diabetes. Fui à enfermaria e ela me deu uma aspirina. Ela nem sequer me examinou e eu simplesmente continuei me sentindo igualmente mal". Outro comentário afirmou: "Vocês nos forçam, do grupo de risco, a trabalhar aqui como se não nada estivesse acontecendo."

Trabalhadores em greve selvagem na Tridonex, 19 de junho. [Crédito: Yuridia Baeza]

A Tridonex, que pertence à multinacional de autopeças Cardone Industries, com sede na Filadélfia, tem tentado a todo custo esmagar qualquer sinal de oposição, trabalhando em parceria com os sindicatos e as autoridades políticas locais, estaduais e federais. Depois dos trabalhadores terem aderido a uma onda de greves selvagens envolvendo dezenas de milhares em Matamoros, entre janeiro e abril do ano passado, a Tridonex promoveu represálias, despedindo mais de 250 dos trabalhadores mais militantes. Os trabalhadores eram constantemente assediados e até agredidos fisicamente por capangas do sindicato e pela polícia estadual de Tamaulipas.

Nessas lutas, os trabalhadores exigiram o direito de deixar o sindicato corrupto associado à Confederação dos Trabalhadores Mexicanos (CTM), e uma grande parte já migrou para o Sindicato Nacional Independente dos Trabalhadores da Indústria e Serviços (SNITIS), que se reivindica democrático.

Na semana passada, em uma tentativa de aterrorizar os trabalhadores, as autoridades do estado de Tamaulipas prenderam a advogada e fundadora do SNITIS, Susana Prieto Terrazas. Os promotores a acusaram de incitar revoltas, citando um protesto liderado por trabalhadores da Tridonex em frente ao Tribunal do Trabalho local, em março. Durante a greve de sexta-feira, muitos trabalhadores levantaram a demanda pela libertação de Prieto.

O WSWS tem insistido, apesar de suas divergências com Prieto, que os trabalhadores devem lutar por sua libertação se opondo aos ataques da classe dominante aos direitos democráticos, que são, em última instância, dirigidos contra a própria classe trabalhadora.

No entanto, os trabalhadores devem tirar conclusões urgentes sobre o papel desempenhado por aqueles que afirmam ser seus amigos e representantes. Longe de organizar uma luta entre as fábricas de Matamoros e entre maquiladoras da região da fronteira, o SNITIS tem insistido para que os trabalhadores depositem suas esperanças no governo capitalista do presidente Andrés Manuel López Obrador, que tem defendido incondicionalmente os interesses lucrativos das corporações.

Nos dias anteriores à reabertura, em 1º de junho, Prieto insistiu que a reabertura "é a lei". Ela escreveu em 28 de março: "A Tridonex tornou-se essencial. Ela retorna em 1º de junho!".

Quando um trabalhador lhe escreveu: "Não acho que a Tridonex seja essencial", Prieto lavou as mãos, declarando: "Não é. Foi declarado como tal em 15 de maio. Queixe-se ao presidente". Ainda nesta quinta-feira, o SNITIS divulgou uma declaração dirigida aos trabalhadores da Tridonex indicando que nada mais pode ser feito do que "pressionar o Ministério do Trabalho a fazer o seu trabalho".

Ao mesmo tempo, Prieto e seus apoiadores têm baseado a luta por sua libertação em apelos a López Obrador e ao Ministério do Trabalho, apelos que têm entrado por um ouvido e saído por outro.

Com casos crescendo sem parar em todo o México, que testemunhou um recorde de 5.662 novos casos na quinta-feira, o presidente López Obrador convocou a população, esta semana, a "abandonar seus medos e sair" para "aproveitar o céu, o sol e o ar fresco".

Tais declarações demonstram que seu governo abandonou todos os esforços para conter a pandemia, enquanto toda a burocracia sindical – da abertamente direitista CTM aos sindicatos "independentes" – está trabalhando para encobrir esta realidade básica.

Por outro lado, no último ano, os trabalhadores da Tridonex e de toda a Matamoros têm demonstrado enorme coragem e iniciativa de luta pela defesa de seus direitos sociais e democráticos. Isso incluiu a formação de incipientes comitês de base para organizar as greves em 2019, assim como apelos aos trabalhadores norte-americanos e canadenses para uma luta internacional contra as corporações transnacionais.

Hoje, os trabalhadores devem restabelecer e consolidar tais comitês – independentemente de todos os sindicatos e políticos pró-capitalistas – e expandir seus esforços para unir suas lutas além das fronteiras.