Português

Revista Jacobin sobre a escolha de Kamala Harris: não abandone o Partido Democrata!

Publicado originalmente em 15 de agosto de 2020

Em resposta à indicação de Kamala Harris como companheira de chapa de Joe Biden nas eleições de 2020, a revista Jacobin está reiterando sua mensagem para os trabalhadores e juventude: mantenham tudo como está!

Em um artigo intitulado "Joe Biden encontrou em Kamala Harris sua contraparte neoliberal", publicado logo após o anúncio da indicação, o autor Branko Marcetic teve muito a dizer sobre o histórico de direita de Harris. "Mesmo em um partido que abraçou as políticas de mão de ferro com o crime ao estilo de Biden e Clinton, Harris se destaca por sua crueldade", escreve Marcetic. E depois complementa: "a insensibilidade de Harris para com os pobres e impotentes foi igualada apenas pela sua simpatia pelos ricos e poderosos".

Marcetic acrescenta: "Ver Harris rindo como um vilão de desenhos animados por causa de processos contra os pais de crianças que estão faltando às aulas é uma das coisas mais arrepiantes que você provavelmente verá na política". De fato, isto é verdade. Harris é uma figura desprezível.

Entretanto, para Marcetic, tais declarações são apenas preliminares para reafirmar a conclusão inevitável à qual Jacobin e seus colaboradores nos Socialistas Democráticos da América (DSA) sempre chegam: promover a mentira de que com pressão suficiente, estas figuras políticas podem ser empurrados para a esquerda.

O autor conclui: "Tanto Harris, quanto, em menor grau, Biden, mostraram uma propensão limitada, mas encorajadora, de dar um aceno para a esquerda quando estão sob pressão. As condições atuais sem precedentes, juntamente com o poder ainda pequeno, mas crescente, da esquerda americana, significam que os próximos quatro anos não estão necessariamente condenados a ser uma repetição dos anos Obama".

Passemos adiante sem comentar o fato de que Marcetic e seus colaboradores disseram a mesma coisa sobre Obama antes de ele chegar ao cargo, e que os Marcetics do passado disseram a mesma coisa sobre incontáveis Obamas, Bidens e Harrises de outrora.

Mas talvez possamos perguntar: existe alguma figura que o Partido Democrata poderia nomear sem que a Jacobin e a DSA afirmassem que ela poderia "sob pressão, acenar [!] para a esquerda"? Se eles selecionassem Genghis Khan, a Jacobin talvez encontrasse algo positivo para dizer sobre o papel que ele desempenhou em unir tribos do nordeste asiático. Ou talvez o próprio Donald Trump, (que, deve-se lembrar, doou para a campanha de Harris em 2016), se ele resolvesse mudar de partido novamente e concorresse pelo Democrata, teria alguma característica salvadora descoberta.

Contorcionismo político a serviço do Partido Democrata

O objetivo de organizações como a Jacobin e a DSA é sempre manter o domínio político do Partido Democrata. Seja através da idéia de que o Partido Democrata é um "mal menor", defendendo sua reforma, ou "pressionando" seus representantes à esquerda, o objetivo é o mesmo: impedir o que eles mais temem - uma mobilização independente da classe trabalhadora.

À medida que o Partido Democrata avança para a direita, a tarefa desses atores se torna ainda mais desafiadora. Eles precisam tentar manter sua credibilidade política entre os jovens que estão desiludidos com o Partido Democrata e, ao mesmo tempo, manter os trabalhadores e os jovens de mãos e pés atados ao establishment político. Eles moldam constantemente suas mensagens com base na conveniência do momento.

O próprio Marcetic, por exemplo, teve uma postura muito diferente em relação ao histórico de Harris há apenas três anos, quando ela ainda estava considerando sua primeira candidatura presidencial.

Em seu artigo "As duas faces de Kamala Harris", Marcetic fez uma revisão elogiosa do mandato de Harris antes de apontar alguns aspectos mais "problemáticos" de sua carreira.

Ele escreveu na época: "É indubitável que há muitas coisas na história de Harris que nos encorajam, desde sua busca para punir corporações poluidoras do ambiente e a implementação de políticas para evitar reincidência criminal no passado, até sua oposição mais recente e firme à administração Trump e seu apoio à legislação progressista no Senado".

Marcetic voltou então ao tema central: "Harris mostrou que é capaz de de se alinhar com a esquerda quando pressionada pelo ativismo político. Isto não é pouca coisa".

É notável que Jacobin optou por enviar o artigo anterior, mais elogioso a Harris, para sua lista de e-mails, em vez do artigo mais recente de Marcetic. Talvez tenha considerado o artigo mais recente um pouco sincero demais.

Marcetic, entretanto, tem muita experiência nesse tipo de tática suja. Um dos exemplos mais descarados disso pode ser encontrado em sua avaliação sobre Biden. Ele escreveu um artigo recente com o título: "Eu literalmente escrevi argumentos contra Joe Biden. Mas eu tenho alguns conselhos gratuitos para ele". O artigo incitava Biden a adotar um programa de "esquerda" a fim de ganhar o apoio dos jovens.

"Se Biden e os democratas de sua geração", escreve Marcetic, "puderam uma vez abertamente se vender por conveniência política e fingir ser algo que não são, eles poderiam fazer isso novamente, o que só faria bem. Pela primeira vez em muito tempo, a forma como as coisas estão tomando rumo significa que a conveniência política também é a coisa certa a se fazer".

Marcetic espera que trabalhadores e jovens acreditem que Biden, um porta-voz de direita do Partido Democrata há 50 anos, possa ser considerado alguém que possa mudar "para melhor", já que uma vez fez uma mudança politicamente calculada (para a direita) há mais de quatro décadas.

Essas figuras políticas devem tomar os trabalhadores e jovens por tolos. A Jacobin e a DSA irão usar toda e qualquer manobra suja e sem princípios de suas cartilhas. Tudo isso para impedir a mobilização independente da classe trabalhadora.

A campanha presidencial de Bernie Sanders em 2020: as lições

A refutação mais clara da afirmação básica da Jacobin e da DSA de que a pressão popular vinda de baixo pode transformar o Partido Democrata em um instrumento de mudança progressiva - e até mesmo para o socialismo - é a trajetória política de Bernie Sanders, o candidato que eles promoveram incansavelmente como a "melhor chance" para a mudança.

Meses atrás, a Jacobin publicou uma edição de sua revista com o título: "Eu, Presidente dos Estados Unidos e Como Acabei com a Pobreza: Uma História Verdadeira do Futuro”, com Sanders na capa. Uma edição mais recente, publicada pouco antes de Sanders declarar que estava saindo da corrida presidencial, lamentou: "Se o movimento que se une por trás de Sanders não vencer desta vez, não há garantia de que possa ser ressuscitado sob uma nova bandeira. Na verdade, é provável que fiquemos à deriva por anos, se não décadas".

Mas, como a coluna de Marcetic deixa claro, a Jacobin está perfeitamente disposta a re-erguer a bandeira esfarrapada e imunda de "Biden/Harris" com as reservas adequadas para encobrir sua nudez política.

Nos últimos quatro meses, enquanto o país enfrentava a pior crise sanitária, econômica, política e social de sua história, Sanders completou seu abandono da chamada "revolução política" e aderiu a Joe Biden.

Não deve ser surpresa que, após o anúncio de Biden de que Harris seria sua escolha para vice presidente, Sanders rapidamente ofereceu seu apoio, tuitando: "Parabéns a @KamalaHarris, que fará história como nossa próxima vice presidente. Ela entende o que é preciso para defender os trabalhadores, lutar por saúde para todos e derrubar a administração mais corrupta da história. Vamos ao trabalho para vencer".

Os últimos seis meses da campanha de Sanders foram um verdadeiro exemplo prático da política do Partido Democrata. O último ato da campanha de Sanders foi o voto do senador para a Lei CARES de 2,2 trilhões de dólares em 25 de março, que ele saudou no Senado como uma bênção para os trabalhadores. Na realidade, o projeto de lei foi um uma extravagância para a América empresarial que permitiu que o Banco Central canalizasse 4 trilhões de dólares para manter a bolsa de valores funcionando e cobrisse quaisquer perdas sofridas pelas grandes corporações.

Em 8 de abril, enquanto os casos de coronavírus nos EUA estavam atingindo seu primeiro pico e os hospitais estavam sendo sobrecarregados, Sanders anunciou que estava desistindo da corrida, e em 13 de abril realizou seu subserviente encontro virtual com Biden, no qual ele endossou sua campanha. Depois, em uma entrevista para a Associated Press, insultou como "irresponsável" qualquer um de seus apoiadores que se opusesse a fazer campanha para Biden.

No mês seguinte, a equipe política de Sanders fez uma ameaça a seus delegados: que eles seriam afastados de seus cargos se criticassem Biden ou outros líderes do Partido Democrata.

Em resposta aos protestos de massa, multirraciais e multiétnicos contra a brutalidade policial, Trump tentou em 1º de junho realizar um golpe envolvendo a mobilização de tropas da ativa para reprimir os protestos e estabelecer uma ditadura presidencial. Sanders ficou em silêncio. Quando finalmente decidiu falar da situação no país, pediu para que os policiais recebessem um aumento de salário.

Não à política do Partido Democrata, lutar pelo socialismo!

A regra de ouro da Jacobin é não discutir os fracassos do passado. Dessa forma, nenhuma lição é aprendida ou quaisquer conclusões são tiradas de qualquer experiência. A revista procura fechar os olhos dos trabalhadores para a realidade da situação: que a crise que a humanidade enfrenta exige um desafio direto ao capitalismo e a seu aparato estatal.

Desde o final da campanha de Sanders, a DSA realizou dezenas de reuniões virtuais e até publicou um livro, tudo com o objetivo de apelar para que os trabalhadores e os jovens não abandonem o Partido Democrata. "Eventualmente", explica, tal ação será necessária, "mas não agora".

Para todos aqueles jovens e trabalhadores que estão genuinamente buscando mudanças fundamentais na sociedade, as lições necessárias devem ser aprendidas. Não há como avançar com o Partido Democrata!

Em vez de depositar suas esperanças pela milésima vez na idéia de que o próximo membro "progressista" do partido pode ser diferente, trabalhadores e jovens devem se orientar para a única força social capaz de realizar mudanças genuinamente progressistas: a classe trabalhadora.

Ao redor dos Estados Unidos, os trabalhadores de dezenas de indústrias estão começando a se organizar de forma independente. Milhares de professores, trabalhadores da educação, pais e estudantes estão se mobilizando para se opor à reabertura sem segurança de escolas em meio à pandemia, que está fora de controle nos EUA. É a estas lutas que trabalhadores e jovens devem se orientar.

Em vez de se contentarem com o chamado "mal menor", os trabalhadores e a juventude devem decidir lutar com base em princípios e não em pragmatismo.

A luta para deter a pandemia e garantir os direitos da classe trabalhadora exigirá a mobilização política de toda a classe trabalhadora contra os dois partidos controlados pelas empresas e o sistema capitalista que elas defendem.

O Partido Socialista pela Igualdade está à frente dessa luta. Estamos conduzindo nossa própria campanha presidencial, com Joseph Kishore e Norissa Santa Cruz para presidente e vice-presidente dos Estados Unidos. Estamos concorrendo para levar nosso programa socialista e nossa perspectiva internacional ao mais amplo público possível de trabalhadores e jovens, tanto nos Estados Unidos como ao redor do mundo. Apelamos a todos os trabalhadores e jovens para que se juntem a esta campanha e apoiem esta luta.

Loading