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Fabricante de aviões Embraer destrói 2.500 empregos no Brasil

Na quinta-feira passada a fabricante de aviões Embraer anunciou a demissão de 2.500 trabalhadores no Brasil, incluindo 900 demissões diretas e outras 1.600 através de programas de demissão voluntária. Os trabalhadores em São José dos Campos, o principal centro da empresa no Brasil, entraram em greve no mesmo dia.

O corte corresponde a 12,5% dos 20.000 trabalhadores empregados pela Embraer globalmente. No Brasil, onde a empresa transnacional é sediada, estão empregados 16.000.

O ataque aos trabalhadores brasileiros é parte de uma onda internacional de demissões em massa com um impacto profundo no setor da aviação. Outras grandes empresas da indústria aeronáutica realizaram cortes massivos de postos de trabalho em proporções semelhantes aos da Embraer.

A Boeing, que em maio deste ano cancelou um acordo de compra de parte substancial da Embraer, anunciara em abril planos de cortar 10% de seus cerca de 160.000 funcionários, majoritariamente nos EUA. Nas últimas semanas, declarou que as demissões serão maiores do que o anunciado anteriormente. A Airbus anunciou um plano de reestruturação envolvendo o corte de 15.000 postos de trabalho globalmente, 5.000 deles na França, 5.100 na Alemanha, e 1.700 no Reino Unido.

Bolsonaro durante entrega do avião KC-390 à Força Aérea Brasileira, 2019. (Crédito: FAB)

Demissões massivas também estão sendo promovidas nas companhias aéreas. A American Airlines, a maior empresa do setor, anunciou que demitirá "ao menos" 40.000 trabalhadores, dos quais mais da metade já aderiu a programas de demissão voluntária. A Lufthansa, baseada na Alemanha, anunciou o corte de 22.000 empregos. No Brasil, trabalhadores da Latam recentemente protestaram contra cerca de 3.000 demissões.

As empresas foram impactadas pela paralisação das viagens aéreas em decorrência da pandemia de COVID-19. A Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), num relatório divulgado em junho, estimou um prejuízo de US$84 bilhões ao setor do transporte aéreo global em 2020, declarando-o o "pior ano da história da aviação".

Em seu comunicado oficial sobre as demissões, a Embraer afirma ter tido, no primeiro semestre de 2020, uma diminuição de 75% da entrega de aeronaves e um prejuízo de R$2,95 bilhões, o qual atribui em parte ao fracasso das negociações com a Boeing. Declarou uma "falta de expectativa de recuperação do setor de transporte aéreo no curto e médio prazo".

O massacre promovido globalmente contra a classe trabalhadora contrasta fortemente com os resgates multibilionários estatais oferecidos a essas empresas, garantindo a sustentação de uma oligarquia financeira parasitária.

Somente nos Estados Unidos, a lei CARES destinou US$50 bilhões à indústria aérea. Na França, £15 bilhões foram destinados ao resgate da Air France e da Airbus. No Brasil, a Embraer recebeu um empréstimo de R$3 bilhões de um consórcio de bancos coordenado pelo Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico (BNDES).

Os interesses capitalistas estão sendo garantidos internacionalmente não somente pelos governos burgueses, mas pelos sindicatos corporativistas que cumprem um papel central para a aprovação dos pacotes de demissão em massa.

Na França, o sindicato dirigido pela Força Operária (FO) apoiou os cortes de emprego na Airbus somente opondo-se às "demissões forçadas", exigindo que fossem realizadas através de planos de demissão voluntária. Acima de tudo, exigiu o direcionamento de recursos estatais à empresa, argumentando que sua capacidade de recuperação era superior à de suas concorrentes, particularmente a Boeing.

A mesma linha de atuação é promovida pelo Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos (SMSJC) frente às demissões na Embraer. O SMSJC é controlado há décadas pelos morenistas do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), que supervisionaram um rebaixamento prolongado das condições dos trabalhadores que alegam representar, que, além da Embraer, inclui a General Motors e outras grandes empresas.

Enquanto promove uma greve para aliviar a pressão dos trabalhadores, o sindicato do PSTU prepara o terreno para a aceitação das demissões. O diretor do sindicato, Herbert Claros, criticou a empresa por não ter negociado as demissões previamente com o sindicato, fazendo uma comparação à venda de um carro, em que "eu não imponho meu preço".

Claros afirma: "Os trabalhadores da Embraer sabem que nas últimas três negociações sobre o PDV a empresa forçou e apresentou somente as propostas dela. O sindicato tentou colocar no mínimo uma cláusula: que mantivesse a estabilidade aos que não aderissem ao PDV… Com outras empresas a gente não faz acordo? O principal exemplo disso é a General Motors, onde o sindicato recentemente chegou num acordo sobre layoff, sobre PDV."

Dando um verniz pretensamente radical a essa atuação corporativista e buscando desviar um enfrentamento dos trabalhadores aos os interesses de lucro da empresa, o sindicato foca seus ataques na incompetência da gestão da Embraer. A principal bandeira defendida pelo PSTU é a "reestatização" da empresa.

Por trás desse slogan—sem nenhuma relação com o socialismo—o PSTU busca subordinar a classe trabalhadora à burguesia nacionalista e aos militares brasileiros. Logo após o fracasso das negociações com a Boeing, os morenistas lançaram um manifesto chauvinista sob o título "Uma Embraer para os brasileiros. Reestatização, já".

O manifesto declara que a Embraer "carrega o orgulho de ser uma realização do esforço e competência brasileiros… o acúmulo de cinco décadas de pesados investimentos, que permitiu ao Brasil figurar entre o seleto grupo de nações que têm a capacidade de desenvolver aeronaves."

Esta é uma defesa aberta da ditadura militar brasileira. A Embraer foi criada pela Aeronáutica em 1969, no auge do terror do regime militar. O fato de ser impulsionada pelo Estado brasileiro, que possuía 51% de suas ações e controlava sua gestão, não altera o fato de que era completamente voltada ao lucro capitalista e aos interesses reacionários da burguesia brasileira, submetida ao imperialismo dos EUA.

O manifesto atacou a tentativa de venda da Embraer à Boeing como um negócio que "beneficiaria sobretudo a companhia norte-americana… em detrimento aos interesses estratégicos da nação brasileira". E sustentou que "Defender sua reestatização, agora, é dever dos brasileiros que sonham e lutam por um país soberano e consciente de sua pujança".

A partir dessa política ultranacionalista, colheram apoio de uma ampla gama de políticos burgueses e centrais sindicais. Essa aliança foi celebrada num evento que contou com a participação dos principais líderes do Partido dos Trabalhadores (PT), do Partido Comunista do Brasil maoísta (PCdoB) e do Partido Democrático Trabalhista (PDT).

Neste sórdido evento, o PSTU deixou claro que os "interesses estratégicos da nação brasileira" que defendem não possuem nada em comum com os interesses da classe trabalhadora; ao contrário, estão baseados em sua intensa exploração.

Defendendo a competividade da empresa no mercado global, o especialista em economia do PSTU, Gustavo Machado, declarou: "Essa suposta crise por que passa a Embraer não tem nada que ver com seu desempenho. A empresa tem um patrimônio líquido que é muito superior a suas concorrentes, Airbus, Boeing, Bombardier. Ela tem uma taxa de lucro que é superior a taxa de lucro do mercado".

A lucratividade da empresa enaltecida pelo PSTU é produto de uma série de demissões, rebaixamentos salariais e intensificação da exploração dos trabalhadores que decorreram do processo de privatização da empresa, em 1994. Apesar de hoje criticarem a privatização como um ataque aos "interesses nacionais", os morenistas reivindicam seus principais efeitos destruidores sobre os trabalhadores.

O PSTU defende que, para competir com as empresas globais, a Embraer precisa de um financiamento substancial do Estado brasileiro, "Sobretudo diante da crise que estamos vivendo hoje com a paralisação de boa parte do setor comercial da aviação e com a emergência de concorrentes que estão surgindo com fortíssimo aporte do Estado", disse Machado. Ele ressaltou que a Boeing tem parte importante de sua arrecadação atrelada a "parcerias com o governo norte-americano, principalmente em defesa e segurança". A sugestão, claramente, é que a Embraer deve se beneficiar de "parcerias" semelhantes.

Fábrica da Embraer em São Paulo. (Crédito: Ministério da Defesa)

O apelo aos militares não é, em nenhum momento escondido pelo PSTU. Seu evento foi encerrado com um chamado aos militares brasileiros, principalmente da Aeronáutica, que defendem a "soberania nacional" e acreditam no "projeto da Embraer".

Este apelo vai de encontro às crescentes exigências dos militares no governo do presidente fascistóide Jair Bolsonaro de verbas maiores. Recentemente, o Ministério da Defesa exigiu um aumente de 37% do orçamento militar "para bancar projetos considerados prioritários, como a compra de caças, lançadores de foguetes e submarinos de propulsão nuclear".

A Política Nacional de Defesa (PND) e a Estratégia Nacional de Defesa (END), publicadas neste ano, apresentaram a demanda por aumento do orçamento militar ao lado da previsão de um cenário mundial marcado pela "rivalidade entre Estados". Esta é uma clara resposta da classe dominante brasileira ao acirramento das tensões geopolíticas internacionais, fortemente impulsionado pela política estratégica de Washington baseada na "competição entre grandes potências".

A crescente intervenção dos EUA na América Latina arrasta o Brasil, cada vez mais, a cumprir um papel militar direto na região. Em sua última viagem aos EUA, em março, Bolsonaro assinou um acordo militar para impulsionar a venda de armamentos brasileiros ao pentágono. As discussões que envolveram o acordo estiveram totalmente ligadas ao apoio do Brasil às operações de mudança de regime na Venezuela conduzidas pelos EUA.

A tentativa do sindicato do PSTU de submeter os trabalhadores aos interesses do Estado brasileiro e seus militares tem um caráter absolutamente reacionário. Essa política não representa a defesa dos empregos e condições dos trabalhadores, mas a exigência de sacrifícios cada vez maiores em nome do lucro capitalista.

Os trabalhadores da Embraer devem se unir a seus companheiros ao redor do mundo para defender seus empregos e condições de vida, promovendo uma luta implacável contra a oligarquia capitalista que controla as corporações transnacionais. Suas riquezas bilionárias devem ser expropriadas e redirecionadas ao atendimento das necessidades sociais, em primeiro lugar ao combate da COVID-19, com garantia de salários a todos trabalhadores.

O estudo da luta prolongada do Comitê Internacional da Quarta Internacional contra o revisionismo, e a construção de partidos revolucionários no Brasil e América Latina baseados nesta experiência são essenciais para vencer os esforços de traição da classe trabalhadora e conduzi-la à vitória.

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