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A campanha de Biden e a tentativa de "resgatar" a hegemonia americana

Publicado originalmente em 22 de agosto de 2020

Na última semana, o público americano foi submetido a um infomercial de oito horas, oficialmente denominado pelo Partido Democrata de "convenção", na qual o político reacionário de longa data Joe Biden foi apresentado ao mesmo tempo como um grande homem simples americano e como uma cura milagrosa para os problemas dos Estados Unidos.

Em meio a aparições de celebridades, retóricas vazias e pequenas histórias "pessoais" pouco convincentes, a grande maioria do tempo do teleton desta semana foi desprovida de qualquer discussão real sobre programa e propostas políticas. Por trás de todo esse espetáculo, no entanto, existem discordâncias significativas dentro da classe dominante, centrados principalmente nas questões de política externa.

Esses desacordos foram parcialmente revelados na noite de terça-feira, quando a convenção transmitiu um segmento pré-gravado com um grupo de sete oficiais militares, da inteligência e da diplomacia que afirmaram que a administração Trump não estava lutando nas as guerras dos EUA no Oriente Médio e não estava conduzindo os conflitos do país com a Rússia e a China de forma suficientemente agressiva.

Ao comentar sobre a política de Trump no Oriente Médio, Brett McGurk, encarregado das operações dos EUA no Oriente Médio sob Obama, disse: "Nosso programa militar seguia uma política de manutenção da nossa presença na Síria", que Trump passou a "abandonar". E concluiu: "É vergonhoso".

Rose Gottemoeller, ex-Secretária Geral Adjunta da OTAN, concluiu que Trump "não tem enfrentado" a Rússia e a China "de forma alguma". Outro funcionário do Departamento de Estado acrescentou: "Graças a Donald Trump, nossos adversários estão mais fortes, e mais ousados".

Depois do segmento, o General Colin Powell acrescentou que Biden "vai assumir como sua tarefa saber quando alguém ousa nos ameaçar, ele enfrentará nossos adversários com força e experiência. Eles saberão que ele fala sério". A "seriedade" pela qual Powell é mais conhecido é a destruição do Iraque e a morte de um milhão de seus habitantes, com base em falsas alegações sobre "armas de destruição em massa”.

Estes temas foram aprofundados em uma carta publicada na sexta-feira por um grupo de 72 oficiais de inteligência e militares de alto nível - e criminosos de guerra - liderados pelo ex-diretor da CIA e da NSA Michael Hayden, declarando seu apoio a Biden.

O primeiro dos dez pontos da carta afirma que Trump "chamou a OTAN de 'obsoleta', rotulou a Europa como 'inimiga', zombou dos líderes das nações mais próximas dos EUA e ameaçou acabar com antigas alianças dos EUA". O resultado, a carta conclui, foi que "Donald Trump prejudicou gravemente o papel dos Estados Unidos como um líder mundial".

Em outras palavras, a atual administração enfraqueceu os objetivos geoestratégicos cruciais que levaram os Estados Unidos a três décadas de guerras: o esforço para controlar a massa continental euro-asiática, incluindo o Oriente Médio.

Nos quatro anos desde que Trump se tornou o indicado republicano, um conflito feroz tem sido travado dentro da classe dominante, centrado nas diferenças em torno da política externa, e em particular da "guerra quente" que está sendo travada entre o governo ucraniano e as forças pró-russas na região leste do país após o golpe de Estado apoiado pelos EUA em 2014.

Em vez de se concentrar no conflito com a Rússia, que tem sido a preocupação preeminente de grande parte do establishment da política externa, a administração Trump tem se preocupado em dificultar o crescimento econômico da China enquanto fortalece estruturas militares para uma guerra no Pacífico.

Mas neste campo, também, os oficiais militares e de inteligência alinhados com a campanha Biden consideram que a Casa Branca tem sido ineficaz. Como dois dos signatários da carta escreveram em um artigo na revista Foreign Policy, "Trump confrontou a China iniciando guerras comerciais com todos os outros países" em vez de envolver outros estados imperialistas. "As grandes potências democráticas, incluindo Japão, França e Canadá, estão desesperadas para fazer um trabalho conjunto com os Estados Unidos a fim de conter as políticas tecnológicas predatórias da China".

Do ponto de vista da classe dominante, são principalmente essas diferenças em relação à política externa, e não à política interna, que estão em foco nas eleições. Enfrentando a maior crise social e econômica desde a Grande Depressão, a política interna tem sido conduzida numa base amplamente bipartidária. A Lei CARES, que sancionou o resgate financeiro de trilhões de dólares para Wall Street enquanto asfixiava o financiamento de testes e rastreamento de contatos de pessoas infectadas com o Covid-19, passou por unanimidade no Senado e por votação oral na Câmara, sem que houvesse registro de como cada congressista votou.

A última edição de Foreign Affairs, uma das principais revistas sobre a geopolítica dos EUA, expõe algumas das preocupações das facções dominantes do Estado. "Após quase quatro anos de turbulência", afirma o principal editorial, "os inimigos do país estão mais fortes, seus amigos estão mais fracos e os próprios Estados Unidos estão cada vez mais isolados e prostrados".

Sua preocupação é que Trump provou ser um administrador pouco confiável dos interesses da classe dominante no exterior. "Arrastando seu partido e o poder executivo atrás de si, o presidente reformulou a política nacional à sua própria imagem: focado em vantagens a curto prazo, obcecado por dinheiro e desinteressado de tudo mais".

A matéria principal da revista declara que a política externa instável e errática de Trump resultou em uma situação em que "a China está mais rica e forte, a Coréia do Norte tem mais armas nucleares e melhores mísseis... e Nicolás Maduro está mais consolidado na Venezuela, assim como Bashar al-Assad na Síria".

Do ponto de vista da campanha de Biden, a solução para todas essas crises é reafirmar o domínio e a "liderança" dos EUA sobre seus aliados tradicionais na Europa e no Japão, a fim de exercer uma política mais agressiva dos EUA contra a Rússia e a China. Os Estados Unidos devem exercer novamente a hegemonia mundial.

O foco central da nova administração será "recuperar o lugar dos EUA no mundo" através da reafirmação do "excepcionalismo americano", afirmou o assessor de Joe Biden, Jake Sullivan, na Atlantic.

No início deste ano, Biden publicou um artigo intitulado "Resgatando a Política Externa dos EUA depois de Trump" na edição de março/abril de Foreign Affairs. Nesse artigo, ele declara que, "para combater a ofensiva russa, devemos manter fortes as estruturas militares dos aliados ". Ao mesmo tempo, os Estados Unidos precisam "endurecer com a China". A "forma mais eficaz de enfrentar esse desafio é construir uma frente unida de aliados e parceiros dos EUA para enfrentar a China".

Mas enquanto a última edição do Foreign Affairs pode ser intitulada "The World Trump Made" (O mundo que Trump Criou), o fracasso geopolítico que os Estados Unidos enfrentam não surgiu da cabeça de Trump. Trump não criou o "mundo". Ao contrário, o "mundo" - e, especificamente, a crise do imperialismo americano - criaram Trump.

O declínio da posição hegemônica dos Estados Unidos se estende por um período de décadas e já era evidente antes do colapso da União Soviética em 1990-91. A dissolução do adversário do imperialismo americano na Guerra Fria foi aproveitada pelos estrategistas da classe dominante americana para declarar um "momento unipolar". Assim, os Estados Unidos poderiam utilizar seu inigualável poder militar para conter sua posição econômica declinante através da força.

A interminável série de guerras iniciadas pelos Estados Unidos nas últimas três décadas destruiu sociedades inteiras - Iraque, Iugoslávia, Afeganistão, Líbia, Síria, Ucrânia e Iêmen, entre outras. Mas ela não conseguiu reverter a sorte do imperialismo americano. Além disso, ela distorceu e brutalizou profundamente a própria sociedade americana: um processo do qual a administração fascistoide de Trump é uma expressão.

Mesmo antes da posse de Trump, já havia tensões crescentes entre os EUA e seus antigos aliados na Europa. A pandemia do coronavírus e a resposta desastrosa da classe dominante a ela - uma política que tem sido bipartidária - corroeu ainda mais a posição global do capitalismo americano.

O imperialismo americano enfrenta problemas intratáveis, e o primeiro deles é o crescimento da oposição social dentro dos próprios Estados Unidos. Entre as razões que motivam o apoio à campanha de Biden dentro da classe dominante está a esperança de que ela possa de alguma forma estabelecer uma base mais ampla para a agressão imperialista no exterior. A promoção de políticas de identidade tem como objetivo integrar ainda mais os setores privilegiados da classe média alta por trás do projeto de dominação global. Kamala Harris representa isso.

Uma administração Biden/Harris não irá inaugurar um novo amanhecer da hegemonia americana. Ao contrário, a tentativa de reafirmar esta hegemonia será através de uma violência sem precedentes. Se for levada ao poder - com o apoio do conjunto de reacionários responsáveis pelos piores crimes do século XXI - ela estará comprometida com uma vasta expansão das guerras. Trump e Pompeo estão se jogando de cabeça para um conflito com a China. A crítica de Biden a esse rumo desastroso é que os Estados Unidos precisam "endurecer", seja contra a Rússia, China, Afeganistão, Síria, ou em toda parte.

A classe dominante americana, além disso, enfrenta no crescimento da luta de classes a mais séria ameaça a suas ambições geopolíticas.

Seja qual for o rumo que venha a ser determinado pelas eleições, o imperialismo americano tem, como o World Socialist Web Site advertiu no período que antecedeu a guerra do Iraque, um "encontro marcado com o desastre". Todas as facções do Estado norte-americano estão unidas em um plano de ação que levará à morte de incontáveis milhões. A luta contra a guerra não irá avançar através da escolha entre Trump ou Biden, mas através da luta independente da classe trabalhadora.

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