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Crise social, luta de classes e as eleições de 2020

Publicado originalmente em 29 de agosto de 2020

A eleição de 2020 está ocorrendo no contexto da maior crise social, econômica e política da história moderna dos Estados Unidos.

O surgimento da pandemia da COVID-19 desestabilizou profundamente a sociedade americana. Mais de 185.000 pessoas foram mortas. Cerca de 27 milhões de pessoas estão desempregadas. Filas para conseguir alimentos se estendem pelos quarteirões das cidades e um quinto das mães com filhos pequenos dizem que suas famílias não têm o suficiente para comer.

Os esforços da classe dominante para forçar os trabalhadores a voltar ao trabalho, apesar da pandemia que se alastra, levaram a uma onda de greves e protestos e viram milhões de pessoas se manifestando contra a violência policial em milhares de cidades em todo o país.

A eleição de 2020 é definida por por esses dois processos espelhados: a prolongada crise do capitalismo americano exposta pela pandemia e o crescimento explosivo do sentimento anti-capitalista e da radicalização em massa da classe trabalhadora, como parte de uma onda crescente de protestos sociais em todo o mundo.

De maneiras distintas, a Convenção Nacional do Partido Democrata na semana passada e a Convenção Nacional Republicana nesta semana representaram a resposta dos partidos da classe dominante à erupção da oposição social, à qual ambos os partidos são hostis e que ambos temem.

A resposta mais direta vem dos republicanos. Orador após orador investiu histericamente, alguns literalmente gritando, contra uma onda de oposição de esquerda que está tomando a nação. Entre as falas, discursos inflamados contra o "marxismo", o "socialismo" e "a imposição de bandos" por parte dos manifestantes de esquerda.

Em sua fixação no crescimento do sentimento socialista, Trump sabe que não está falando dos democratas, como Biden, Pelosi, Sanders ou Alexandria Ocasio-Cortez. Ele conhece bem todos eles, e alguns, como Kamala Harris, já financiou diretamente. Na verdade, Trump expressa o temor dentro da classe dominante da oposição de massa da classe trabalhadora que emerge fora do sistema bipartidário.

A resposta dos democratas é mais sofisticada. Empregando seu exército de apologistas profissionais e marqueteiros com linguajar esquerdista, os democratas procuraram se apresentar como solidários com as exigências dos manifestantes contra a violência policial e dos trabalhadores que enfrentam um desastre social. Mas isto foi apenas para anestesiar e desarmar a crescente oposição, para dividi-la em uma série de "identidades" beligerantes, e para canalizá-la para o beco sem saída da política racial.

Uma prova do incômodo dos democratas pelo crescimento da radicalização social é o fato de Bernie Sanders ter deixado de falar de uma "revolução política" assim que a pandemia explodiu. Desde então, ele se tornou o mais entusiasta defensor do fantoche empresarial Joe Biden.

Assim como os vendedores de medicamentos patenteados, ambos os partidos vendem seus candidatos como a cura milagrosa para o que aflige o país. Mas já está claro que esta eleição, independentemente de seu resultado, não vai restaurar qualquer forma de normalidade na vida política americana.

Na verdade, as crises que o país enfrenta são tão extensas, abrangentes e onipresentes que nenhuma das convenções foi capaz sequer de tratá-las pelo nome.

O capitalismo americano, suas exportações cada vez mais não competitivas no mercado mundial, é dependente de dívidas. Suas corporações, com suas valorizações astronômicas e seus enormes bônus executivos, não podem sobreviver sem verbas cada vez maiores do governo. Na quinta-feira, o último dia da convenção republicana, o Federal Reserve, o Banco Central Americano, anunciou uma mudança em sua metodologia básica cujo único objetivo discernível era dizer aos mercados financeiros que continuaria a dar-lhes perpetuamente cada vez mais dinheiro.

"Low Rates Forever!" (Taxas reduzida para sempre) proclamou o Wall Street Journal, declarando que a estratégia conduzirá a "mais euforias, pânicos e quebras financeiras". Os mercados financeiros aplaudiram, com os três índices de ações agora em território positivo para o ano, apesar do que tem sido chamado a pior crise econômica em tempo de paz em um século.

Milhões de pessoas estão cortando gastos com alimentos porque o Congresso se recusou a estender a ajuda emergencial aos desempregados. Entretanto, Jeff Bezos, o homem mais rico do mundo, quase dobrou sua riqueza desde o início do ano, tornando-se a primeira pessoa com um patrimônio líquido de 200 bilhões de dólares.

Em segundo plano, há crescentes sinais de que o acordo econômico que deu origem ao "privilégio exorbitante" dos Estados Unidos - a hegemonia do dólar - pode estar no fim, pois o preço do ouro bate um recorde após o outro.

Incapaz de competir com o rápido desenvolvimento do setor tecnológico chinês, que ofuscou os Estados Unidos em várias áreas estratégicas, Washington está provocando uma "Guerra Fria" com Pequim. Os Estados Unidos têm estado continuamente em guerra por três décadas, mas seu esforço para reconquistar o Oriente Médio tem sido um desastre. Sua pesada máquina militar está sob grande pressão. Em exercícios simulados, fontes internas reclamam que a força militar chinesa bate a dos Estados Unidos. Mesmo assim, a cada dia, os dois países estão se aproximando a cada vez mais de um confronto militar.

Os efeitos tóxicos da desigualdade, do reacionarismo e da guerra – com a indiferença sociopata ao sofrimento humano - têm se manifestado na resposta desastrosa dos Estados Unidos à pandemia, com seu terrível número de quase 200.000 mortos.

A única preocupação da Casa Branca, dos governos locais e das grandes corporações é varrer os contágios para debaixo do tapete a fim de limitar a responsabilização das corporações e os pagamentos de folgas. O número de testes está constantemente diminuindo, e a Casa Branca exigiu esta semana de forma chocante que aqueles expostos à doença não sejam testados.

"Why Don't The Dead Matter?" (Por que os mortos não importam?) pergunta um colunista do blog militar Defense One. Guerras intermináveis - "aventuras militares no exterior que tiraram... vidas humanas... com um quase imprudente abandono" - ele argumenta, tornaram a América "anestesiada" para a morte. Na verdade, a morte em massa tem sido tão institucionalizada que os jornais noturnos sequer relatam o número de mortes diárias.

O World Socialist Web Site explicou em sua declaração de 2017, "Golpe palaciano ou Luta de Classes," que a oposição dos Democratas a Trump está centrada em questões de política externa. Eles exigiram uma política mais agressiva em relação à Rússia e à China, e até orquestraram o impeachment de Trump baseado exclusivamente em reivindicações de que ele não apoiava suficientemente a Ucrânia em sua "guerra quente" com a Rússia.

Ao mesmo tempo, desde a eleição de Trump, os democratas têm trabalhado de forma bipartidária com a Casa Branca para reduzir os impostos corporativos, aumentar os gastos militares a níveis recorde, construir a Gestapo pessoal de Trump com unidades de patrulhamento de fronteira e realizar o maior resgate das grandes corporações da história humana através da Lei CARES.

Esta orientação continua nas eleições de 2020. O Partido Democrata tem reunido uma coalizão de ex-republicanos de direita, generais, representantes da burocracia de inteligência estatal, membros da oligarquia financeira e, acima de tudo, dos subúrbios abastados, que são repetidamente invocados como alvo demográfico do partido.

Em outras palavras, o Partido Democrata está conduzindo sua campanha eleitoral de 2020 como uma repetição da eleição de 2016, que resultou na derrota de Hillary Clinton no Colégio Eleitoral, apesar do fato de que ela ganhou o voto popular por mais de três milhões de cédulas.

Trump está chamando a eleição, como ele já tinha dito antes de seu impeachment, de "guerra civil", na qual todos os métodos de luta política, militar e paramilitar são permitidos. Em contraste, seus adversários democratas vêem o embate, nas palavras do ex-presidente Barack Obama, como um “jogo entre duas equipes de um mesmo time”, no qual o maior erro seria jogar muito duro.

Fora dos embates em Washington, entretanto, outra força política está entrando em cena. Nos últimos meses, trabalhadores de grandes instalações fabris nos grandes centros industriais dos Estados Unidos, assim como os educadores de todo o país, começaram a formar comitês de base para resistir aos esforços das corporações e do governo para forçá-los a trabalhar em condições cada vez mais inseguras.

Milhões de trabalhadores e jovens têm participado de manifestações de massa - segundo algumas fontes, os maiores protestos da história americana - contra a violência policial e o envio de tropas federais para cidades americanas por parte da administração Trump.

Por mais que Trump possa reclamar e se enfurecer, envaidecido imitando Mussolini, a próxima etapa da vida política americana será um movimento não para a direita, mas para a esquerda, numa crescente ofensiva social e política da classe trabalhadora.

Este movimento ainda não encontrou sua liderança. Mas isso está por vir. A crescente censura contra o World Socialist Web Site e os esforços, com permissão judicial, para manter a chapa presidencial do Partido Socialista pela Igualdade, Joseph Kishore e Norissa Santa Cruz, fora das urnas, mostram o medo generalizado na classe dominante de que o socialismo revolucionário encontrará uma audiência de massa.

Os Estados Unidos estão entrando em crise revolucionária, cuja característica central será a intersecção das tradições históricas do trotskismo, representadas pelo Comitê Internacional da Quarta Internacional, com o movimento de massa global da classe trabalhadora.

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