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Carta Aberta aos Trotskistas de Todo o Mundo

Este documento histórico da Quarta Internacional, publicado em novembro de 1953 por James P. Cannon, líder do Socialist Workers Party nos Estados Unidos, fez um chamado aos trotskistas internacionalmente a se oporem à tendência revisionista encabeçada por Michel Pablo, que passou a considerar os stalinistas e socialdemocratas, assim como os movimentos nacionalistas e radicais pequeno-burgueses, como instrumentos alternativos para atingir o socialismo.

Junto com Pablo, então Secretário Internacional da Quarta Internacional, essa tendência revisionista foi liderada por outro destacado dirigente do movimento trotskista, Ernest Mendel. Nos EUA, a fração pablista foi representada por Bert Cochran e George Clarke.

O pablismo foi uma resposta impressionista às mudanças políticas ocorridas após a Segunda Guerra Mundial, particularmente as amplas nacionalizações nos países da Europa Oriental ocupados pelo Exército Soviético.

Atacando a base do socialismo científico e sustentando-se sobre um método objetivista, o pablismo repudiou a ênfase dada pelo movimento marxista ao papel do partido no desenvolvimento da revolução mundial. Ele defendeu a liquidação da Quarta Internacional nas fileiras dos partidos stalinistas, uma tática que ficou conhecida como entrismo sui generis. Isso, na prática, significava o fim da Quarta Internacional.

A luta de Cannon em defesa do trotskismo ortodoxo foi apoiada pelas seções britânica e francesa da Quarta Internacional, dando origem ao Comitê Internacional da Quarta Internacional. Por sua defesa dos interesses históricos da classe trabalhadora, a Carta Aberta ocupa um lugar de destaque na história do movimento trotskista internacional.

James Cannon

***

A Todos os Trotskistas:

Caros Camaradas:

No aniversário de 25 anos de fundação do movimento trotskista nos Estados Unidos, a Plenária do Comitê Nacional do Socialist Workers Party (SWP – Partido Socialista dos Trabalhadores) envia saudações socialistas revolucionárias aos trotskistas ortodoxos de todo o mundo.

Apesar de o SWP, devido às leis antidemocráticas promulgadas pelos democratas e republicanos, não mais ser filiado à Quarta Internacional – o Partido Mundial da Revolução Socialista fundado por Leon Trotsky para levar adiante e realizar o programa traído pela Segunda Internacional dos socialdemocratas e pela Terceira Internacional dos stalinistas –, defendemos o desenvolvimento da organização mundial criada sob a direção de nosso líder assassinado.

Como todos sabem, há 25 anos, os precursores trotskistas americanos levaram o programa de Trotsky, censurado pelo Kremlin, à atenção da opinião pública mundial. Esse ato mostrou-se decisivo para quebrar o isolamento imposto a Trotsky pela burocracia stalinista e para lançar as bases para a fundação da Quarta Internacional. Em seu exílio pouco tempo depois, Trotsky iniciou uma colaboração estreita e de confiança com a direção do SWP que durou até o dia de sua morte.

A colaboração incluiu um esforço conjunto para organizar partidos socialistas revolucionários em vários países. Isso culminou, como se sabe, na fundação da Quarta Internacional em 1938. O Programa de Transição, que permanece a base do programa atual do movimento trotskista internacional, foi escrito por Trotsky em colaboração com os dirigentes do SWP e, a seu pedido, foi apresentado por eles em seu Congresso de fundação.

A proximidade e o rigor da colaboração entre Trotsky e a direção do SWP podem ser avaliados pelo histórico de luta em defesa dos princípios do trotskismo ortodoxo em 1939-40 contra a oposição pequeno-burguesa liderada por Burnham e Shachtman. Esse histórico teve profunda influência nos rumos da Quarta Internacional nos últimos 13 anos.

Depois do assassinato de Trotsky por um agente da polícia secreta de Stalin, o SWP assumiu a direção da defesa de seus ensinamentos. Assumimos a direção não por escolha, mas por necessidade – a Segunda Guerra Mundial obrigou os trotskistas ortodoxos a passarem para a clandestinidade em muitos países, especialmente na Europa sob os nazistas. Junto com os trotskistas da América Latina, Canadá, Inglaterra, Ceilão, Índia, Austrália e outros lugares, nós fizemos o possível para levantar a bandeira do trotskismo ortodoxo ao longo dos difíceis anos de guerra.

Com o fim da guerra, estávamos animados com o fato de os trotskistas na Europa terem saído da clandestinidade, envolvendo-se na reconstituição organizacional da Quarta Internacional. Como fomos impedidos de fazer parte da Quarta Internacional devido a leis reacionárias, lançamos nossas maiores esperanças no surgimento de uma liderança capaz de continuar a grande tradição legada por Trotsky ao nosso movimento mundial. Acreditamos que devemos dar toda a confiança e apoio à jovem e nova direção da Quarta Internacional na Europa. Quando, por iniciativa dos próprios camaradas, sérios erros foram corrigidos, sentimos que nosso caminho se mostrava correto.

Todavia, temos que admitir que o fato de nós e outros não termos lançado uma crítica severa a essas lideranças facilitou o caminho para a consolidação de uma fração fora de nosso controle, secreta e personalista na administração da Quarta Internacional, que abandonou o programa fundamental do trotskismo.

Essa fração, centrada em torno de Pablo, está agora trabalhando consciente e deliberadamente para quebrar, romper e dilacerar os quadros do trotskismo historicamente formados em vários países e para liquidar a Quarta Internacional.

O programa do trotskismo

Para demonstrar precisamente o que está em jogo, retomemos os princípios fundamentais sobre os quais o movimento trotskista internacional está construído:

1. A agonia mortal do sistema capitalista ameaça a civilização de destruição através do aprofundamento das crises, guerras mundiais e manifestações de barbárie como o fascismo. O desenvolvimento das armas atômicas, hoje, reforça o perigo na sua forma mais grave possível.

2. A queda ao abismo só pode ser evitada substituindo o capitalismo pela economia planejada do socialismo em escala mundial, retomando assim a espiral de progresso aberta pelo capitalismo em seu início.

3. Isso pode apenas ser realizado sob a direção da classe trabalhadora, a única e verdadeira classe revolucionária na sociedade. Mas a própria classe trabalhadora enfrenta uma crise de sua direção, apesar de a relação mundial das forças sociais não ter sido nunca tão favorável como hoje para os trabalhadores tomarem o caminho do poder.

4. A fim de organizar-se para cumprir essa tarefa histórica mundial, a classe trabalhadora em cada país deve construir um partido socialista revolucionário segundo o modelo desenvolvido por Lenin; ou seja, um partido combativo capaz de combinar dialeticamente democracia e centralismo – democracia na tomada de decisões e centralismo para leva-las a cabo; uma direção controlada pela base, uma base capaz de seguir adiante debaixo de fogo de maneira disciplinada.

5. O principal obstáculo a isso é o stalinismo, que atrai trabalhadores explorando o prestígio da Revolução de Outubro de 1917 na Rússia, para depois, traindo sua confiança, arremessa-los nos braços da socialdemocracia, na apatia ou de volta às ilusões no capitalismo. Essa traição é paga pela classe trabalhadora sob a forma da consolidação das forças fascistas e monarquistas, e da deflagração de novas guerras criadas e preparadas pelo capitalismo. Desde seu início, a Quarta Internacional coloca como uma de suas principais tarefas a derrota revolucionária do stalinismo dentro e fora da URSS.

6. A necessidade de táticas flexíveis para as muitas seções da Quarta Internacional, e de partidos ou grupos simpáticos ao seu programa, torna imperativo que eles saibam lutar contra o imperialismo e todas as agências pequeno-burguesas (tais como os grupos nacionalistas ou a burocracia sindical) sem capitular ao stalinismo; e, por outro lado, saber lutar contra o stalinismo (que, em última análise, é uma agência pequeno-burguesa do imperialismo) sem capitular ao imperialismo.

Esses princípios fundamentais apresentados por Leon Trotsky mantêm toda a validade na política cada vez mais complexa e fluida do mundo atual. De fato, as situações revolucionárias que se abrem em todos os lugares, como previu Trotsky, apenas agora tornaram concreto o que uma vez pode ter aparecido como abstrações remotas não diretamente ligadas à realidade viva do tempo. A verdade é que esses princípios agora se sustentam com mais força tanto nas análises políticas como na determinação da direção da ação prática.

O revisionismo de Pablo

Esses princípios foram abandonados por Pablo. Ao invés de enfatizar o perigo de uma nova barbárie, ele vê o caminho ao socialismo como algo “irreversível”; todavia, não vê o socialismo para esta geração ou para as próximas. Ao contrário, ele desenvolve a ideia de uma onda “avassaladora” de revoluções que darão origem a Estados operários “deformados”, do tipo stalinista, que durarão por “séculos”.

Isso revela um grande pessimismo em relação à capacidade da classe trabalhadora, que está totalmente de acordo com a ridicularização que ele recentemente tem feito da luta para construir partidos socialistas revolucionários independentes. Em vez de manter como caminho principal a construção de partidos socialistas revolucionários independentes a partir de todos os meios táticos, Pablo considera que a burocracia stalinista – ou, pelo menos, uma de suas principais seções – é capaz de mudar diante da pressão das massas, podendo chegar a aceitar as “ideias” e o “programa” do trotskismo. Sob o pretexto de uma diplomacia necessária – segundo ele – para se aproximar de trabalhadores do campo do stalinismo em alguns países como a França, ele agora encobre as traições do stalinismo.

Esse caminho já levou a inúmeras deserções das fileiras do trotskismo para o campo do stalinismo. A ruptura pró-stalinista no partido do Ceilão é um aviso aos trotskistas de todo o mundo sobre as trágicas consequências das ilusões com o stalinismo que o pablismo promove.

Em outro documento, apresentamos uma detalhada análise do revisionismo de Pablo. Nesta carta, nos limitaremos a algumas provas recentes que mostram, no campo fundamental da ação, o quão longe foi Pablo em suas conciliações com o stalinismo e o quão grave é o perigo para a existência da Quarta Internacional.

Com a morte de Stalin, o Kremlin anunciou uma série de concessões na URSS, nenhuma delas de caráter político. Em vez de caracterizá-las como apenas parte de uma manobra destinada a um posterior entrincheiramento da burocracia usurpadora e parte da preparação para um burocrata dirigente assumir o lugar de Stalin, a fração pablista tomou tais concessões como legítimas, apresentando-as como concessões políticas, e até projetou a possibilidade de a burocracia stalinista “dividir o poder” com os trabalhadores. (Fourth International, Janeiro-Fevereiro, 1953, p.13).

O conceito de “dividir o poder”, expressado na sua forma mais direta por Clarke, um dos sumo sacerdotes do culto de Pablo, foi indiretamente proclamado como dogma pelo próprio Pablo em uma questão não respondida, mas obviamente fundamental: A liquidação do regime stalinista tomará a forma, questiona Pablo, “de lutas interburocráticas violentas entre os elementos que lutarão para manter o status quo – se não para voltar para trás – e os elementos cada vez mais numerosos atraídos pela poderosa pressão das massas?” (Fourth International, Março-Abril, 1953, p.39).

Essa linha dá um novo conteúdo ao programa do trotskismo ortodoxo de revolução política contra a burocracia do Kremlin; ou seja, contra a posição revisionista de que as “ideias” e o “programa” do trotskismo irão se infiltrar e permear a burocracia, ou uma de suas importantes seções, “derrubando” então o stalinismo de maneira imprevista.

Na Alemanha Oriental, em junho [de 1953], os trabalhadores se levantaram contra o governo dominado pelo stalinismo em uma das maiores manifestações na história da Alemanha. Esse foi o primeiro levante proletário de massas contra o stalinismo desde que usurpou e consolidou o poder na União Soviética. Como Pablo respondeu a esse notável acontecimento?

Ao invés de expressar claramente as aspirações políticas revolucionárias dos trabalhadores insurgentes da Alemanha Oriental, Pablo encobriu os dirigentes stalinistas contrarrevolucionários que mobilizaram tropas soviéticas para derrotar o levante (“...os dirigentes soviéticos e aqueles das várias ‘democracias populares’ e Partidos Comunistas não poderiam continuar falsificando ou ignorando o profundo significado de tais acontecimentos por muito tempo. Eles foram obrigados a continuar oferecendo concessões ainda mais amplas e genuínas para evitar o risco de perder para sempre o apoio das massas e para evitar explosões ainda maiores. A partir de agora eles não mais poderão parar no meio do caminho. Serão obrigados a realizar concessões para evitar explosões mais sérias no futuro imediato e, se possível, efetuar uma transição ‘de maneira fria’ da situação presente para uma situação mais tolerável para as massas.” (Declaração do Secretariado Internacional da Quarta Internacional publicado no The Militant, em 6 de julho)).

Ao invés de exigir a retirada das tropas soviéticas – a única força que sustenta o governo stalinista – Pablo criou a ilusão de que “concessões mais amplas e genuínas” estariam vindo dos gauleiters do Kremlin. Poderia Moscou ter tido melhor apoio enquanto falsificava monstruosamente o profundo significado daqueles acontecimentos, caracterizando os trabalhadores em luta como “fascistas” e “agentes do imperialismo americano”, e abrindo uma onda de bárbara repressão contra eles?

A greve geral na França

Em agosto [de 1953], na França, aconteceu a maior greve geral na história do país. Deflagrada pelos próprios trabalhadores contra a vontade de suas lideranças oficiais, ela apresentou uma das mais favoráveis aberturas na história da classe trabalhadora para o desenvolvimento de uma luta real em direção à tomada do poder. Além dos trabalhadores, os agricultores franceses também realizaram manifestações, indicando sua grande insatisfação com o governo capitalista.

A liderança oficial, tanto a socialdemocrata quanto a stalinista, traiu o movimento, fazendo o máximo para contê-lo e evitar qualquer perigo ao capitalismo francês. Seria difícil encontrar, na história das traições, outra mais abominável se a compararmos à oportunidade que ali se apresentava.

Como a fração de Pablo respondeu a esse acontecimento colossal? Eles consideraram a ação da socialdemocracia uma traição – mas pelas razões erradas. A traição, diziam, consistia na negociação com o governo pelas costas dos stalinistas. Essa traição, no entanto, era secundária e derivava de seu maior crime: a recusa em lançar-se no caminho da tomada do poder.

Quanto aos stalinistas, os pablistas encobriram sua traição, e por isso se tornaram cúmplices deles. A crítica mais severa que foram capazes de formular contra o caminho contrarrevolucionário dos stalinistas foi acusá-los de uma “falta” de política.

Isso era mentira. Os stalinistas não tinham uma “falta” de política. Sua política consistia em manter o status quo segundo os interesses da política externa do Kremlin e, assim, ajudar a sustentar o capitalismo francês em crise.

Mas isso não era tudo. Pablo recusou-se a caracterizar a ação stalinista como traidora até para a educação interna do partido dos trotskistas franceses. Ele afirmou que “o papel de freio realizado, em maior ou menor medida, pela direção das organizações tradicionais” – uma traição é um mero “freio”! – “mas também sua capacidade –especialmente da direção stalinista – em ceder à pressão das massas quando essa pressão se torna poderosa, como foi o caso dessas greves”. (Political Note, N˚ 1)

Alguém poderia esperar que isso já é uma conciliação suficiente com o stalinismo por um líder que abandonou o trotskismo ortodoxo, mas ainda procura a cobertura da Quarta Internacional. No entanto, Pablo foi ainda mais longe.

Um panfleto vergonhoso

Um panfleto de seus seguidores, dirigido aos trabalhadores da fábrica da Renault em Paris, declarou que na greve geral as lideranças stalinistas da CGT (maior central sindical na França) “estavam corretas em não apresentar outras demandas além daquelas exigidas pelos trabalhadores”. Isso apesar de os trabalhadores, através de suas ações, estarem reivindicando um governo operário e camponês!

Arbitrariamente separando os sindicatos stalinistas do Partido Comunista – uma evidência do pensamento mais mecânico ou uma evidência do projeto deliberado de dar uma cobertura aos stalinistas? –, os pablistas declararam em seu panfleto que, em relação ao significado da greve e de suas perspectivas, “isso apenas se refere ao sindicato de maneira secundária. A crítica a isso não se aplica à CGT, que é uma organização sindical e deve primeira e principalmente agir como tal, mas sim aos partidos cujo papel era apontar o profundo significado desse movimento e de suas consequências” (Panfleto Às organizações operárias e aos trabalhadores da Renault, de 3 de setembro de 1953. Assinado por Frank, Mestre e Privas).

Nessas afirmações, vemos o completo abandono de tudo o que Trotsky nos ensinou sobre o papel e as responsabilidades dos sindicatos na época da agonia mortal do capitalismo.

Então, o panfleto pablista “critica” o Partido Comunista Francês por seu “afastamento do caminho”, por simplesmente colocar-se no nível do movimento sindical ao invés de explicar aos trabalhadores que essa greve era uma importante etapa (!) na crise da sociedade francesa, o prelúdio (!) para uma grande luta de classes, em que o problema do poder operário seria colocado na ordem do dia para salvar o país da armadilha capitalista e abrir o caminho ao socialismo”.

Se os trabalhadores da Renault acreditassem nos pablistas, os burocratas stalinistas franceses traidores seriam culpados apenas de serem sindicalistas, e não de uma traição deliberada à maior greve geral na história da França.

A aprovação de Pablo à política da direção da CGT parece pouco verossímil, mas este outro fato ainda salta aos olhos: na maior greve geral já vista na França, Pablo brandamente caracteriza como “correta” uma versão francesa da política burguesa de Gomper de manter os sindicatos fora da política. E isso em 1953!

Se é incorreto para as lideranças da CGT avançarem reivindicações políticas em consonância com necessidades objetivas, incluindo a formação de um governo operário e camponês, então por que o SWP exige dos atuais Gompers do movimento sindical americano que eles organizem um Partido dos Trabalhadores? Um Partido dos Trabalhadores com o objetivo de colocar um governo operário e camponês no poder nos Estados Unidos?

A aprovação de Pablo parece ainda mais estranha se nos lembrarmos que a liderança da CGT é altamente política. Ao menor sinal do Kremlin, essa liderança não hesita em convocar os trabalhadores para a mais precipitada aventura política. Lembremos, por exemplo, seu papel nos acontecimentos iniciados com as manifestações contra a visita do general americano Matthew Ridgway no ano passado. Esses dirigentes sindicais stalinistas não hesitaram em chamar greves para protestar contra a prisão de Duclos, um líder do Partido Comunista.

O fato é que a direção da CGT revelou seu alto caráter político mais uma vez nas greves gerais. Com toda a habilidade de anos de traição e jogo duplo, ela deliberadamente tentou eliminar os trabalhadores, sufocar suas iniciativas, impedir de avançarem suas reivindicações políticas. As lideranças sindicais stalinistas foram conscientemente traidoras. E esse caminho de traições é o que Pablo considera “correto”.

E isso não é tudo. Um dos principais objetivos do panfleto pablista é denunciar os trotskistas franceses que atuaram durante a greve na fábrica da Renault como genuínos revolucionários. O panfleto nomeia especificamente dois camaradas que “foram expulsos da Quarta Internacional e da seção francesa há mais de um ano”. Declara também que esse “grupo foi expulso por razões de indisciplina; e a orientação que seguiram, especialmente durante o último movimento grevista, era oposta àquela realmente defendida pelo PCI (seção francesa da Quarta Internacional).” A referência ao “grupo” é, na verdade, à maioria da seção francesa da Quarta Internacional que foi arbitrária e injustamente expulsa por Pablo.

O movimento trotskista internacional alguma vez ouviu tamanho escândalo como a denúncia de militantes trotskistas aos stalinistas e ainda a apresentação de tal fato aos trabalhadores justificando-o como uma traição stalinista abominável?

Deve-se observar que a denúncia pablista desses camaradas aos stalinistas aconteceu depois de um veredito do tribunal dos trabalhadores, absolvendo os trotskistas da fábrica da Renault das calúnias que os stalinistas lhes fizeram.

Os pablistas americanos

O exame desses acontecimentos mundiais é suficiente, na nossa opinião, para indicar a profundidade da conciliação entre o pablismo e o stalinismo. Mas nós gostaríamos de submeter à análise de todo o movimento trotskista internacional alguns fatos adicionais.

Por mais de um ano e meio, o SWP esteve comprometido em uma luta contra uma tendência revisionista liderada por Cochran e Clarke. A luta contra essa tendência foi uma das mais duras na história do nosso partido. Na verdade, se tratavam das mesmas questões fundamentais que nos dividiram do grupo de Burnham e Shachtman e do grupo de Morrow e Goldman no começo e no final da Segunda Guerra Mundial. Essa é uma nova tentativa de revisar e abandonar nosso programa fundamental. Suas posições comprometem a perspectiva da revolução americana, o caráter e o papel do partido revolucionário e seus métodos de organização, além das perspectivas para o movimento trotskista internacional.

Durante o período pós-guerra, uma poderosa burocracia consolidou-se no movimento operário americano. Essa burocracia apoia-se sobre uma ampla camada de trabalhadores privilegiados, conservadores, que foram “amolecidos” pelas condições de prosperidade da guerra. Essa nova camada privilegiada saiu em grande medida das fileiras dos setores militantes da classe trabalhadora, da mesma geração dos que fundaram a CIO.

A relativa segurança e estabilidade de suas condições de vida paralisaram temporariamente a iniciativa e o espírito de luta daqueles trabalhadores que anteriormente estavam na linha de frente em todas as ações militantes de classe.

O cochranismo é a manifestação da pressão dessa nova aristocracia operária, com sua ideologia pequeno-burguesa, exercida sobre a vanguarda proletária. Os ânimos e tendências das camadas de trabalhadores passivos e relativamente satisfeitos atuam como um mecanismo poderoso transmitindo pressões de fora para o nosso movimento. O slogan dos cochranistas, “abaixo o velho Trotskismo”, expressa esse sentimento.

A tendência cochranista vê um grande potencial revolucionário da classe trabalhadora americana como um projeto distante. Eles acusam de “sectária” a análise marxista que revela os processos moleculares de criação de novos setores de luta no proletariado americano.

Uma vez que há tendências progressistas no interior da classe trabalhadora nos Estados Unidos, eles as veem apenas nas fileiras ou na periferia do stalinismo e entre “sofisticados” políticos dos sindicatos – o restante da classe é considerada irremediavelmente adormecida, e somente o impacto de uma bomba atômica poderia acordá-la.

Sinteticamente, suas posições revelam: falta de confiança na perspectiva da revolução americana; falta de confiança no papel do partido revolucionário em geral e no SWP em particular.

As características do cochranismo

Como bem sabem todas as seções do movimento internacional a partir de suas duras e difíceis experiências, as pressões que existem são maiores do que as que se criaram com a prolongada prosperidade da guerra e com a onda de reação como a que ocorreu nos Estados Unidos. Mas o fator que sustenta os quadros sob as mais difíceis circunstâncias é a total convicção da validade teórica do nosso movimento, o conhecimento que eles são os meios reais para seguir adiante na tarefa histórica da classe trabalhadora, a compreensão de que, de uma maneira ou de outra, o destino da humanidade depende do que eles fazem, a firme convicção de que, quaisquer que sejam as circunstâncias momentâneas, a linha principal do desenvolvimento histórico exige a criação de partidos leninistas combativos que resolverão a crise da humanidade a partir de uma revolução socialista vitoriosa.

O cochranismo é a substituição da visão de mundo do trotskismo ortodoxo pelo ceticismo, improvisações teóricas e especulações jornalísticas. Foi isso que tornou irreconciliável a luta no SWP, da mesma maneira que a luta com a oposição pequeno-burguesa em 1939-40 era irreconciliável.

Os cochranistas manifestaram as seguintes posições ao longo da luta:

1. Desrespeito à tradição do partido e à sua tarefa histórica. Os cochranistas dificilmente perdem uma oportunidade para denegrir, ridicularizar e desprezar os 25 anos de tradição do trotskismo americano.

2. Uma tendência a substituir a política fundamentada em princípios marxistas por combinações sem princípios contra o “regime” do partido. Assim, a fração cochranista é composta por um bloco de elementos contraditórios. Um grupo, centrado principalmente em Nova York, é a favor de uma espécie de tática “entrista” no movimento stalinista americano.

Outro grupo, composto por elementos conservadores do sindicato, centrados originalmente em Detroit, considera que pouco será conquistado na aliança com os stalinistas. O grupo baseia sua perspectiva revisionista em uma superestimação da estabilidade e na duração do poder da nova burocracia operária.

Também se veem atraídos pelos cochranismo indivíduos cansados que não mais podem suportar a pressão das condições adversas atuais e que estão buscando uma justificativa plausível para afastarem-se para a inatividade.

O cimento que une esse bloco sem princípios é a comum hostilidade ao trotskismo ortodoxo.

3. Uma tendência a afastar o partido daquilo que deve ser nosso principal campo de luta nos EUA, os trabalhadores politicamente adormecidos das grandes indústrias. Os cochranistas, de fato, eliminaram do programa as palavras de ordem e reivindicações transitórias que o SWP tem usado como ponte a esses trabalhadores e argumentam ainda que a maioria que permanece nesse caminho está se adaptando ao atraso dos trabalhadores.

4. Uma convicção de que se deveria descartar toda a possibilidade da classe trabalhadora americana avançar em oposição radical ao imperialismo americano antes da Terceira Guerra Mundial.

5. Uma absurda teorização experimental com o stalinismo de “esquerda” que se reduz à extravagante crença de que os stalinistas “já não podem mais trair”, que o stalinismo inclui um lado revolucionário que torna possível aos stalinistas liderarem uma revolução nos Estados Unidos, no processo no qual eles absorveriam “ideias” trotskistas de tal maneira que a revolução acabaria por “corrigir-se a si mesma”.

6. Adaptação ao stalinismo diante dos novos acontecimentos. Eles apoiam e defendem a conciliação com o stalinismo baseados na interpretação de Pablo sobre a queda de Béria e os subsequentes generalizados expurgos na URSS. Eles repetem todos os argumentos pablistas que encobrem o papel contrarrevolucionário do stalinismo no grande levante dos trabalhadores da Alemanha Oriental e na greve geral na França. Eles chegam a interpretar a aproximação do stalinismo americano com o Partido Democrata como uma mera “oscilação” à direita em meio a uma “virada à esquerda”.

7. Desprezo pelas tradições do leninismo em questões organizativas. Durante algum tempo, eles tentaram implementar um “poder dual” no partido. Quando foram rechaçados pela esmagadora maioria do partido na Plenária de maio de 1953, eles aceitaram por escrito submeter-se à decisão da maioria e à linha política tal como foram decididas na Plenária. Posteriormente, romperam o acordo renovando sua sabotagem às ações do partido sobre bases mais febris e histéricas.

O cochranismo, cujas principais características mencionamos acima, nunca foi mais que uma fraca minoria no partido. Se não tivesse a ajuda e o apoio de Pablo por trás das costas das lideranças do partido, não teria sido mais que uma insignificante e fraca expressão de pessimismo.

A ajuda e o apoio secretos dados por Pablo foram desmascarados logo depois da nossa Plenária de maio, e, desde então, Pablo vem colaborando abertamente com a fração revisionista no nosso partido e inspirando-os em sua campanha de sabotagem das finanças do partido, de destruição do trabalho do partido e de preparação para um racha.

A fração de Pablo-Cochran, por fim, culminou sua conduta desleal com um boicote organizado à Celebração dos 25 anos do partido em Nova York, que foi seguido de um comício de encerramento de campanha das eleições municipais de Nova York.

A ação traidora e disruptiva constituiu, de fato, uma manifestação organizada contra a luta de 25 anos do trotskismo americano e, ao mesmo tempo, um ato de apoio objetivo ao stalinismo, que havia expulsado os núcleos iniciadores do trotskismo americano em outubro de 1928.

O boicote organizado a esse encontro foi, de fato, uma demonstração contra a campanha do SWP nas eleições municipais de Nova York.

Todos os que participaram dessa ação traidora e anti-partido obviamente consumaram o racha que vinham planejando há muito tempo, e perderam o direito de fazer parte do nosso partido.

Em um reconhecimento formal desse fato, a Plenária dos 25 Anos do SWP expulsou os membros do Comitê Nacional que organizaram o boicote e declarou que todos os membros da fração de Pablo-Cochran que participaram dessa ação traidora e disruptiva, ou que se negaram a repudiá-la, colocavam-se, por isso, fora das fileiras do SWP.

Os métodos da Comintern

O jogo duplo de Pablo ao apresentar uma face à liderança do SWP enquanto secretamente colaborava com a tendência revisionista cochranista é um método que está fora da tradição do trotskismo. Mas existe uma tradição à qual ele pertence – o stalinismo. Tais instrumentos, usados pelo Kremlin, são os mesmo usados para corromper a Internacional Comunista (Comintern). Muitos de nós experimentamos isso no período de 1923-1928.

A evidência agora é clara que aquela forma de atuação não é uma aberração isolada por parte de Pablo. Um padrão consistente está claro.

Por exemplo, em uma das principais seções europeias da Quarta Internacional, um destacado dirigente do partido recebeu uma ordem de Pablo, exigindo que ele deveria conduzir-se como alguém que “defende até o 4˚ Congresso Internacional a linha majoritária e a disciplina da Quarta Internacional”. Junto com esse ultimato, Pablo ameaçou lançar represálias àqueles que não obedecessem às suas ordens.

A “maioria” a que Pablo se refere é simplesmente a modesta marca que ele coloca sobre si mesmo e sobre a pequena minoria hipnotizada por suas novidades revisionistas. A nova linha de Pablo está em violenta contradição com o programa fundamental do trotskismo e está apenas começando a ser discutida em muitas partes do movimento trotskista internacional. Não tendo sido apoiada por qualquer organização trotskista, ela não constitui a linha oficial aprovada da Quarta Internacional.

Os primeiros informes que temos recebido indicam a indignação que provoca sua vontade arbitrária de introduzir à força suas concepções revisionistas na organização em nível mundial, sem esperar por uma discussão ou votação. Já temos informações suficientes para afirmar que a Quarta Internacional está decidida a rechaçar a linha de Pablo por esmagadora maioria.

A exigência autocrática de Pablo a um dirigente da Quarta Internacional, de abster-se de criticar a linha política revisionista de Pablo, já é ruim o suficiente. Mas Pablo não para por aí. Enquanto tenta silenciar esse líder e impedi-lo de participar de uma discussão na qual a base da militância se beneficiaria de sua experiência, conhecimento e percepção, Pablo continuava a intervir organizativamente, tratando de consolidar uma fração minoritária revisionista que levasse adiante a luta pela liderança da seção.

Esse fato é típico da asquerosa tradição da Comintern, quando se degenerou sob a influência do stalinismo. Se não houvesse outro problema como esse, seria necessário combater o pablismo até o final para salvar a Quarta Internacional da corrupção interna.

Tais táticas têm um objetivo claro. Fazem parte da preparação de um golpe pela minoria pablista. Utilizando o controle administrativo de Pablo, eles pretendem impor sua linha revisionista na Quarta Internacional e, onde encontrarem resistência, provocarem rachas e expulsões.

O método organizativo stalinista começou, como podemos perceber agora, com o brutal abuso do controle administrativo por Pablo em sua perturbadora campanha contra a maioria da seção francesa da Quarta Internacional, há mais de um ano e meio.

Por ordem do Secretariado Internacional, a maioria eleita da seção francesa foi proibida de exercer seus direitos de liderar o trabalho político e de propaganda do partido. Em vez disso, o Bureau Político e a imprensa foram colocados sob o controle de uma minoria, a partir do modelo da Comintern de uma “comissão paritária”.

Neste momento, nós desaprovamos profundamente essa ação arbitrária na qual uma minoria foi usada para derrubar arbitrariamente uma maioria. Assim que soubemos disso, nós protestamos a Pablo. No entanto, nós devemos admitir que cometemos um erro em não tomar atitude mais vigorosa. Esse erro foi devido a uma insuficiente apreciação de nossa parte dos reais problemas que estavam envolvidos. Pensamos que as diferenças entre Pablo e a seção francesa eram táticas, o que nos levou para o lado de Pablo, apesar de nossa desconfiança quanto aos seus procedimentos organizativos, quando, depois de meses de uma luta destruidora entre frações, a maioria foi expulsa.

No fundo, as diferenças eram de caráter programático. O fato é que os camaradas franceses da maioria viram o que estava acontecendo de maneira mais clara do que vimos. O 8˚ Congresso do seu partido declarou que “um grave perigo ameaça o futuro e inclusive a existência da Quarta Internacional... Concepções revisionistas, produto da covardia e do impressionismo pequeno-burguês apareceram no interior da sua direção. A fragilidade ainda grande da Quarta Internacional, separada da vida de suas seções, facilitaram momentaneamente a instalação de um sistema de domínio pessoal, que baseia a si mesmo e os seus métodos antidemocráticos no revisionismo do programa trotskista e no abandono do método marxista.” (La Verité, 18 de setembro de 1952)

Toda a situação francesa deve ser reexaminada à luz dos acontecimentos subsequentes. A atuação da maioria da seção francesa na greve geral demonstrou de maneira decisiva que eles, sim, sabem defender os princípios fundamentais do trotskismo ortodoxo. A seção francesa da Quarta Internacional foi injustamente expulsa. A maioria francesa, agrupada em torno do periódico La Verité, são os verdadeiros trotskistas da França, e o SWP os reconhece abertamente como tais.

Particularmente revoltante é a declaração caluniosa de Pablo sobre as posições políticas da seção chinesa da Quarta Internacional. A fração pablista os apresentou como “sectários” e “desertores da revolução”.

Contrariamente à impressão deliberadamente criada pela fração de Pablo, os trotskistas chineses atuaram como verdadeiros representantes do proletariado chinês. Eles foram escolhidos como vítimas do regime de Mao, da mesma maneira que Stalin condenou à morte toda a geração de bolcheviques leninistas na URSS, imitando os Noskes e Scheidemanns alemães que decidiram executar as Luxemburgos e os Liebknechts da revolução de 1918. Mas a linha de Pablo, de conciliação com o stalinismo, a leva inevitavelmente a defender o regime de Mao, enquanto ataca a posição principista de nossos camaradas chineses.

O que fazer

Resumindo: o abismo que separa o revisionismo pablista do trotskismo ortodoxo é tão profundo que nenhum compromisso político ou organizativo é possível. A fração de Pablo demonstrou que não permitirá decisões democráticas que reflitam a opinião da maioria. Eles exigem a completa submissão à sua política criminosa. Eles estão decididos a eliminar da Quarta Internacional todos os trotskistas ortodoxos, a calá-los ou atar-lhes as mãos.

Seu plano tem sido introduzir a conciliação com o stalinismo de forma fragmentada e, ao mesmo tempo, livrar-se daqueles que veem o que se passa e levantam objeções. Essa é a explicação da estranha ambiguidade de muitas das formulações e evasões diplomáticas pablistas.

Até agora, Pablo tem tido um certo êxito em suas manobras maquiavélicas e sem princípios. Mas se chegou ao ponto qualitativo da mudança. As questões políticas romperam as manobras, e a luta é agora um enfrentamento aberto.

Se pudermos dar um conselho às seções da Quarta Internacional a partir de nossa posição forçada fora da militância de base, pensamos que é o momento de agir, e agir de maneira decisiva. Chegou a hora de a maioria que representa o trotskismo ortodoxo da Quarta Internacional fazer valer a sua vontade contra a usurpação da autoridade de Pablo.

Eles deveriam, além disso, salvar a direção da Quarta Internacional removendo Pablo e seus agentes de seus cargos e substituindo-os por quadros que têm demonstrado na prática que sabem defender o trotskismo ortodoxo e manter o movimento no caminho correto tanto do ponto de vista político como organizativo.

Saudações fraternas trotskistas,

Comitê Nacional do SWP

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