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Mehring Books publica o primeiro volume da série Havia Alternativa? de VadimRogovin

A falsificação histórica e a luta pelo socialismo

Publicado originalmente em 6 de janeiro de 2022

Vadim Z. Rogovin, Havia Alternativa? 1923–1927. O trotskismo: Um olhar retrospectivo através dos anos. Mehring Books, 2021. ISBN 9781893638969. Disponível para compra em inglês aqui.

Havia alternativa?

A publicação em inglês primeiro livro, de um ciclo de sete volumes do historiador e sociólogo soviético Vadim Rogovin, sobre a oposição socialista a Joseph Stalin é um grande evento político e intelectual. Havia Alternativa? 1923–1927. O trotskismo: Um olhar retrospectivo através dos anos se concentra no período em que, sob a liderança de Leon Trotsky, a Oposição de Esquerda iniciou a batalha contra o círculo burocrático que se consolidava em torno de Stalin dentro do Partido Comunista e da União Soviética.

Rogovin (1937-1998) explode o mito, compartilhado tanto por anti-comunistas quanto por stalinistas, de que o stalinismo evoluiu de forma natural e sem obstáculos a partir do bolchevismo. Ele demonstra que esta afirmação só pode ser sustentada com o apagamento do registro histórico das convulsões socioeconômicas e políticas que envolveram a URSS e o Partido Comunista - isto é, argumentando, como ele observa em sua introdução, que “todas as etapas intermediárias entre outubro de 1917 e a consolidação do poder pelo regime estalinista foram ziguezagues insignificantes”.

Vadim Rogovin

O volume, publicado pela primeira vez em russo em 1992, é um feito de pesquisa histórica. Ele faz uso de uma vasta gama de fontes às quais, até o final dos anos 80 e 90, os cidadãos soviéticos tinham o acesso negado pelos ocupantes do Kremlin. A maior parte deste material também esteve inacessível aos leitores ocidentais, exceto por pequenas porções utilizadas em pesquisas históricas publicadas na América do Norte ou na Europa.

Através de cartas entre membros do partido, atas de reuniões da direção e das bases, observações e notas de secretários e outros observadores, relatórios e comunicações de órgãos partidários regionais e locais, e inúmeros outros documentos internos, bem como artigos, discursos e comentários publicados na imprensa da época, o leitor submerge na história da luta política mais importante do último século – suas voltas e reviravoltas, personalidades, momentos trágicos e nobres, e os impulsos econômicos e sociais subjacentes. O drama, pode-se até dizer o calor desta dura batalha, emerge das páginas. Há fotografias, assim como ilustrações originais e outras imagens não publicadas desde os anos 1920 na União Soviética, ao longo de todo o livro. No final, há notas biográficas sobre mais de 70 das figuras históricas. Ao longo do volume ouvimos a voz de Trotsky, assim como a de muitos outros oposicionistas menos conhecidos. Depois de décadas de sua eliminação da história oficial soviética, Rogovin os devolve ao seu lugar de direito.

A tradução em inglês difere da versão original em russo porque Rogovin reformulou e ampliou este volume como resultado de intensas discussões que manteve com o movimento trotskista em meados dos anos 90. Depois de ter trabalhado em isolamento quase total durante décadas, ele finalmente foi capaz de revisitar muitas questões históricas e políticas complexas em colaboração com colaboradores e pares do Comitê Internacional da Quarta Internacional. As mudanças que ele fez em seu manuscrito foram cuidadosamente revisadas e incorporadas à versão em inglês pelo tradutor Frederick Choate.

Lenin e Trotsky em uma celebração do segundo aniversário da Revolução de Outubro

Havia alternativa? começa por abordar a situação política do país na fase de preparação para os conflitos de meados dos anos 20. Ele aborda a formação de um sistema de partido único, a postura dos bolcheviques em relação aos privilégios para aqueles em posições de autoridade, e a proibição das frações instituída sob a liderança de Lenin em 1921. O objetivo de Rogovin é duplo. Primeiro, criar um retrato vívido da vida política do Partido Bolchevique antes da ascensão de Stalin ao poder, de tal forma que o leitor perceba o abismo que separa o que era do que viria a ser. Segundo, demonstrar que, no período final de sua vida, Lenin se preparava para combater abertamente Stalin e as tendências que ele representava.

Já em 1922, os processos interdependentes e paralelos de burocratização e diferenciação socioeconômica estavam em desenvolvimento. Rogovin observa que naquele ano, por exemplo, quase metade dos 10.700 altos funcionários nomeados pelo Comitê Central passou por um processo de escolha supervisionado na prática pela secretaria geral, cargo que Stalin ocupava. Em agosto de 1922, uma conferência do partido legalizou uma proposta de Stalin e seus apoiadores para criar uma hierarquia de salários para os funcionários do partido. Também autorizou que recebessem alojamento e serviços médicos especiais, bem como creches oportunidades educacionais para seus filhos. Ao apresentar este tipo de detalhe histórico, o autor ilumina de maneira muito concreta a transformação em curso dentro do Partido Bolchevique e os processos dirigidos de cima para baixo e anti-igualitários que os oposicionistas começariam a questionar.

No início de 1923, o conflito dentro do Partido Comunista estava bem desenvolvido. No final do ano anterior, Lenin havia começado a ditar uma série de cartas, que ficariam conhecidas como seu “Testamento”, protestando contra as tendências nacionalistas e burocráticas que surgiam dentro do Partido Comunista. Ele propôs reformas nas estruturas do partido e do Estado a fim de deter seu desenvolvimento. Fazendo uma série de observações sobre os pontos fortes e fracos de vários líderes bolcheviques – Trotsky, Grigory Zinoviev, Lev Kamenev e outros – ele fez uma crítica particular a Stalin, fazendo um chamado por sua remoção do cargo de secretário geral do partido e sujeitando áreas de trabalho sob sua supervisão a críticas especiais.

Ao longo do livro, Rogovin volta à história e ao destino do “Testamento”, demonstrando como as palavras finais de Lenin assombraram Stalin, que teve que trabalhar repetidamente para suprimir e conter suas consequências. Ele argumenta convincentemente que Stalin foi o culpado pelo “assassinato psicológico” de Lenin, que sofreu seu derradeiro derrame logo após ter lido uma série de resoluções da conferência do partido que condenavam Trotsky e a Oposição por “desvio pequeno-burguês”.

Membros da Oposição de Esquerda em 1927. (À frente, da esquerda) Leonid Serebryakov, Karl Radek, Leon Trotsky, Mikhail Boguslavsky, Yevgeni Preobrazhensky; (atrás) Christian Rakovsky, Jacob Drobnis, Aleksander Beloborodov, e Lev Sosnovski

O autor também explora a possibilidade de Stalin ter sido culpado do envenenamento de Lenin, uma conclusão à qual chegaria Trotsky. Depois de ter melhorado por muitos meses, a saúde do líder bolchevique rapidamente e inexplicavelmente piorou em meados de janeiro de 1924, no momento em que, como observa Rogovin, “o principal perigo para Stalin não era Trotsky ... mas Lenin”. Stalin tinha tanto a motivação quanto os meios. No mínimo, ele estava extasiado com a saída de Lenin da história. O secretário de Stalin descreveu o secretário geral da seguinte forma, na época: Ele “está bem-disposto e radiante. Em reuniões e sessões, ele finge uma postura tragicamente triste e hipócrita, faz discursos insinceros e jura com dramaticidade ser fiel a Lenin. Olhando para ele, não posso deixar de pensar: ‘que porco você é’”.

A morte de Lenin criou novos desafios políticos significativos para Trotsky, pois seus oponentes sentiram que tinham liberdade para se colocar falsamente como herdeiros de Lenin e distorcer em sua vantagem as diferenças pré-1917 entre Lenin e Trotsky em relação à natureza da Revolução Russa que se aproximava. Trotsky havia insistido por muito tempo, com base em sua Teoria da Revolução Permanente, que a tarefa diante da classe trabalhadora russa não era apenas a derrubada do czarismo, mas também a derrubada da ordem capitalista que havia se enraizado no país e à qual o estado semi-feudal estava profundamente ligado como parte da economia global. Os trabalhadores, aliados mas ao mesmo tempo dirigindo uma enorme onda de luta camponesa, teriam que lutar com base em um programa explicitamente anti-feudal, anti-capitalista e socialista. Em contraste, Lenin havia argumentado que a classe trabalhadora e o campesinato russos, unidos em uma “ditadura democrática” em oposição à burguesia, teriam que derrotar o czarismo e lutar obstinadamente por seus interesses de classe, mas ainda “não seriam capaz de tocar (sem toda uma série de estágios de transição de desenvolvimento revolucionário) os fundamentos do capitalismo”. Em abril de 1917, Lênin abandonou esta posição aderiu à de Trotsky. Ao fazer isso, ele travou uma luta política contra as forças dentro de seu próprio partido - entre eles Stalin, Kamenev e Zinoviev - que, em essência, agarravam-se a ilusões no domínio burguês. Esta história política está subjacente aos conflitos dos anos 1920.

Rogovin insiste que, quando Lenin morreu em janeiro de 1924, Trotsky já havia cometido um erro fundamental: no início de 1923, ele não tornou conhecidas fora do Politburo suas críticas à política partidária. Em um capítulo intitulado “O erro de Trotsky”, Rogovin argumenta que ao co-líder da revolução de 1917 faltava “determinação”. Aqui, o autor subestima as complexidades enfrentadas pelos líderes políticos que navegam em uma situação interna partidária e uma conjuntura histórica na qual surgiram tendências contraditórias e as perspectivas de sua evolução futura ainda são extremamente obscuras.

No início de 1923, o “Incidente Georgiano”, que Rogovin discute em seu livro, havia revelado divisões acentuadas dentro do partido sobre a política em relação às nacionalidades soviéticas e ao chauvinismo grão-russo. Havia desacordos sobre os perigos envolvidos na Nova Política Econômica, que Lenin havia liderado como uma concessão política necessária. A proibição da criação de frações formais dentro do partido em 1921 acrescentou outra dimensão complexa à situação. Mas havia também a perspectiva de que uma revolução na Alemanha transformasse fundamentalmente a situação mundial, tirando a URSS de seu isolamento e dando aos trabalhadores soviéticos uma força revolucionária renovada. Também era inteiramente possível que Lenin se recuperasse, retornasse à vida política e lançasse a “bomba” contra Stalin que, de acordo com os escritos que ditava em privado, Lenin estava preparando para o 12º Congresso do Partido. A situação estava por um fio.

A ausência de Lenin foi usada em 1923-1924 por Stalin e seus aliados, Zinoviev e Kamenev – dois velhos bolcheviques com os quais o Secretário Geral havia formado um “triunvirato” ilegal – para cimentar sua autoridade. Esta fração, que mais tarde foi transformada em uma intriga de “Sete”, cujos membros se reuniam secretamente para elaborar sua própria agenda política, usaram todo tipo de truque. Mas suas manobras, demagogia, cartadas desonestas nas votações do partido e a criação fraudulenta da acusação de “trotskismo” não conseguiram resolver a situação de forma decisiva a seu favor. O que fica muito claro no relato de Rogovin é o fato de que as maquinações e o segredo da fração de Stalin eram sintomáticos de sua instabilidade subjacente. Zinoviev, por exemplo, insistia que ele e seus co-conspiradores tinham que se reunir a portas fechadas – particularmente sem Trotsky – para que eles pudessem “vacilar” entre si. Eles não poderiam encarar de frente as suas críticas.

Rogovin detalha estas críticas, e as de outros membros da Oposição de Esquerda, ao longo de todo o livro. Particularmente no que diz respeito às políticas domésticas e à questão da democracia interna do partido, seu relato é penetrante. Seu uso de fontes primárias é particularmente eficaz, permitindo que se ouça nas próprias palavras dos oposicionistas suas ferozes objeções. Ao documentar tanto o conteúdo quanto a forma do conflito político que se desenrola, Rogovin estabelece a conexão entre as críticas de Trotsky e da Oposição de Esquerda e o grande problema enfrentado pela URSS – como um país atrasado e então politicamente isolado, catapultado para o futuro pela revolução socialista, mas com uma base industrial pequena que tinha sido dizimada pela guerra e uma economia camponesa vasta e primitiva, poderia mobilizar recursos, desenvolver-se e resistir contra os estados capitalistas vizinhos. Seu relato é ao mesmo tempo complexo e lúcido.

O volume examina como, não tendo uma resposta real à crítica de Trotsky e da Oposição de Esquerda, e assolada por crises provocadas por suas próprias políticas, a fração de Stalin respondeu com esforços para minar a autoridade de Trotsky, política e organizacionalmente. O trabalho de Rogovin é extremamente valioso ao iluminar os métodos usados neste assassinato político.

Os conspiradores assumiram o controle do arquivo de Lenin. Eles removeram pessoas próximas a Trotsky de posições de liderança no Exército Vermelho. Sob o pretexto de rever a situação dos membros do partido que não eram “trabalhadores de base”, realizaram um expurgo de 5.763 membros em uma campanha “conduzida com particular severidade naquelas organizações que haviam aprovado resoluções a favor da Oposição”. Manobraram para assegurar que no 13º Congresso do Partido, em maio de 1924, nenhum membro da Oposição tivesse votos decisivos, e os principais colaboradores de Lenin – “mesmo Trotsky, Radek, Rakovsky e Piatakov, como membros do CC [Comitê Central], foram admitidos no congresso apenas com um voto consultivo”. Mentiram para as massas soviéticas ao imprimir contagens de votos falsas para fazer parecer que havia pouco apoio para a Oposição no partido como um todo.

Ao discutir o problema político central enfrentado pela fração de Stalin, Rogovin cita o líder do Partido Comunista Francês Boris Souvarine, que, falando de forma bastante franca em 1924, observou: “A grande maioria da classe trabalhadora é trotskista”. Apesar de todos os ataques, Souvarine continuou, “a popularidade de Trotsky continuava a crescer, como se vê em seus longos discursos que arrebatavam diversos públicos. Era dito com frequência que somente Trotsky oferecia novas ideias, que somente ele havia estudado seriamente um assunto, etc. Esta postura para com ele era bastante marcante, em contraste com a indiferença, se não desprezo, reservados às banalidades e trivialidades que enchiam as páginas do Pravda”.

Boris Souvarine

A citação de Souvarine é apenas uma, entre muitas que os leitores encontrarão no volume, que aborda a atitude das grandes massas em relação a Trotsky, e a receptividade dentro do partido, bem como do Comintern, às suas posições. Falando do impacto, em 1924, da publicação das Lições de Outubro, a crítica ácida de Trotsky da incapacidade do Partido Comunista soviético de orientar corretamente seus camaradas alemães ao enfrentar uma situação revolucionária imediata em seu país em 1923, um comunista escreveu: “‘As Lições de Outubro’ tornaram-se um chamado para a luta - os trabalhadores não acreditam que Trotsky possa se opor ao leninismo”.

Em meados de 1926, explica Rogovin, mais da metade dos bolcheviques que haviam sido eleitos para o Comitê Central do partido em 1918, 1919 e 1920 haviam se juntado à Oposição. Zinoviev e Kamenev, que haviam sido os capangas de Stalin e os principais arquitetos dos ataques à Oposição, acabaram tão horrorizados com o que haviam feito que formaram uma aliança com Trotsky. O relato do autor sobre o papel criminoso e trágico de ambos traz ao leitor um sentimento premonitório; tanto Zinoviev como Kamenev seriam julgados e executados durante o Grande Terror. Em 1927, depois da ruptura de ambos com a Oposição e do seu retorno à fração dominante, Zinoviev, referindo-se à sua lealdade passada, perguntou a Stalin: “O camarada Stalin sabe o que é gratidão?” E Stalin respondeu: “É uma doença que aflige os cães”.

Havia Alternativa? observa como as políticas econômicas nacionalistas e direitistas aplicadas sob a liderança de Stalin produziram um desastre durante os anos de 1926-1927. A classe trabalhadora britânica foi traída por Stalin, que escolheu a cooperação com os sindicatos britânicos em vez de qualquer luta independente pelo poder político das massas. Na China, o Partido Comunista foi massacrado pelo Kuomintang (KMT) após ter sido instruído por Moscou a forjar uma aliança com ele. Nem a agricultura nem a indústria haviam retornado a seus níveis anteriores à guerra, e a renda per capita do país era de apenas 80 a 85 por cento daquela de 1913. Os 4% mais ricos dos camponeses controlavam um terço de todo o maquinário agrícola. Os salários do proletariado haviam estagnado e milhões estavam desempregados. Uma ampla crise de grãos acabou se desenvolvendo, com o Estado incapaz de comprar alimentos suficientes para alimentar as cidades. Em tal contexto, o programa da Oposição estava encontrando uma audiência. Reuniões, que não eram mais reconhecidas legalmente, começaram a ocorrer em Moscou e Leningrado. Milhares de pessoas compareceram.

Precisamente porque Stalin e seus apoiadores não tinham solução para os problemas econômicos enfrentados pela URSS ou respostas para seus críticos, eles tiveram que levar a Oposição à ilegalidade. Ao longo dos anos de 1926 e 1927, as fileiras do partido foram inundadas por membros novos e inexperientes. Reuniões nas quais, em princípio, a política partidária deveria ter sido discutida mais amplamente entre os membros eram realizadas com menos frequência. A acusação de “trotskismo” se intensificou. As declarações dos membros da Oposição eram editadas para distribuição de tal forma que suas posições não podiam ser totalmente conhecidas e as escolhas dos representantes para os órgãos partidários ocorriam antes que seus programas fossem distribuídos.

Trotsky e Kamenev foram removidos do Politburo e Zinoviev da presidência da Comintern, e os três seriam em pouco tempo expulsos do partido. Acusações de “comportamento desorganizador” e “fracionalismo” foram levantadas contra seus apoiadores nas reuniões do partido. O antissemitismo – Trotsky, Zinoviev e Kamenev eram todos judeus – foi encorajado. No 15º Congresso do Partido em dezembro de 1927, interrupções rudes e estúpidas da audiência encobriram os discursos dos membros da Oposição. Vemos aqui a destruição da cultura política do Partido Bolchevique.

O relato de Rogovin é extraordinário. O leitor partidário desejará que ele ou ela pudesse mergulhar nesta história e tomar o lado do desafiante. O próprio Rogovin sentiu claramente o mesmo, e tem-se a sensação de que nos momentos em que ele argumenta que Trotsky cometeu um ou outro erro ao não se pronunciar logo ou com suficiente acuidade contra seus oponentes, é porque Rogovin entendeu que o destino da revolução dependia do resultado desta batalha. Nada estava predestinado a acontecer.

As circunstâncias do isolamento intelectual de Rogovin impuseram certos limites a suas pesquisas – que ele estava superando, em colaboração com o Comitê Internacional da Quarta Internacional, quando sua vida foi tragicamente abreviada por um câncer. Embora haja no volume material valioso sobre o impacto do stalinismo em algumas seções da Comintern, como o Partido Comunista Polonês, o trabalho se concentra na situação dentro da União Soviética.

O conhecimento e compreensão de Rogovin sobre as consequências do “socialismo em um só país” em todo o mundo e a batalha com a Oposição de Esquerda fora das fronteiras da URSS ainda estava se desenvolvendo. Ele tinha muito menos acesso a fontes primárias e secundárias sobre este assunto. Sua discussão sobre questões internacionais é breve e, particularmente com relação ao conflito político sobre os acontecimentos na Alemanha em 1923, um pouco confusa. Quando ele se aprofunda na questão do “socialismo em um só país” de Stalin e nas perspectivas da revolução mundial, sua caracterização da situação global, particularmente após a Segunda Guerra Mundial, é unilateral. Ele superestima a estabilidade alcançada sob a hegemonia americana e a escala das concessões e reformas da classe capitalista. Ele afirma erroneamente que Trotsky acreditava que a revolução socialista nos EUA “em um futuro previsível não era realista”.

Apesar destes limites, o ciclo de sete volumes de Rogovin é único na historiografia da ascensão de Stalin e do stalinismo. Por esta razão, ele foi ignorado quase totalmente por acadêmicos. Sua pesquisa está em oposição àquelas de uma longa lista de estudiosos, que, de um ponto de vista ou de outro, argumentaram ou que o conflito Trotsky-Stalin era pouco mais que uma tempestade em um copo d’água, ou que o stalinismo era uma manifestação de sentimentos profundos dentro das massas soviéticas, ou que a verdadeira alternativa a Stalin não era Trotsky e a Oposição de Esquerda, mas a ala direita do partido agrupada em torno de Nikolai Bukharin - ou defenderam alguma combinação dos três argumentos.

A canonização de Stalin e o ódio a Trotsky se misturam em tudo isso. Há muitas diferenças entre eles, mas os trabalhos de estudiosos como Sheila Fitzpatrick, J. Arch Getty, Stephen F. Cohen, Stephen Kotkin, Robert Service, Ian Thatcher e outros compartilham uma característica: a recusa em reconhecer Trotsky e a Oposição de Esquerda como a alternativa socialista ao stalinismo, a encarnação dos esforços revolucionários da classe trabalhadora e uma força política cuja vitória era uma possibilidade objetiva.

Rogovin não esconde suas simpatias políticas. Ele é franco com seus leitores. Seu trabalho atinge objetividade histórica não assumindo uma falsa pretensão de indiferença diante dos acontecimentos sob sua análise, mas revelando as forças sociais e de classe subjacentes aos conflitos políticos que assolaram o Partido Comunista nos anos 1920. A brutalidade do stalinismo foi impulsionada pela intensidade e ferocidade da reação burocrática nacionalista à classe trabalhadora e suas aspirações revolucionárias, sua luta pela igualdade humana. Trotsky e a Oposição de Esquerda representavam esta classe e seus sentimentos. Por todas as vítimas engolidas pela máquina burocrática, Trotsky e a Oposição sempre foram o principal alvo das repressões do stalinismo. Rogovin é o único historiador que entendeu isto completamente.

As tendências dominantes da historiografia russa e soviética dos últimos 40 anos surgiram em uma época de reação política. Rogovin escreveu este trabalho enquanto o Partido Comunista estava em vias de dissolver a URSS e roubar tudo o que estivesse e não estivesse pregado ao chão. Celebrações grotescas dos alegados benefícios da desigualdade como uma nova forma de “justiça social” encheram a imprensa, muitas delas escritas por colegas intelectuais soviéticos que anteciparam que eles mesmos iriam ganhar mais. A concentração de Rogovin na desigualdade e na burocracia nos conflitos dos anos 1920 era um olhar tanto para aquele presente soviético tardio quanto para o início do passado soviético.

Em sua Introdução, o autor argumenta que “noções incorretas de fatos verdadeiros” – “o tendencioso excesso de ênfase e interpretação de certos fatos históricos e a supressão de outros” – não são “tanto o resultado de erro sincero, quanto o cumprimento consciente ou inconsciente de exigências políticas”. A falsificação histórica, insiste ele, é “uma arma ideológica para enganar as pessoas a fim de levar a cabo políticas reacionárias”. Assim, a restauração do capitalismo na União Soviética pelos stalinistas, com toda a destruição social que provocou, exigiu novas mentiras e novas distorções sobre a oposição socialista, sobre as diferenças entre os progenitores da revolução e seus assassinos.

Hoje, à medida que a desigualdade social atinge patamares nunca antes testemunhadas, novas falsificações estão aparecendo. Nos Estados Unidos, a história americana está sendo submetida a uma reinterpretação racialista que nega a classe como a linha divisória fundamental da sociedade e rejeita que tenha havido qualquer aspecto progressista na Revolução Americana e na Guerra Civil. Na Alemanha, os crimes de Hitler e dos nazistas estão sendo encobertos à medida que a política de extrema-direita avança. Nas Filipinas, são os crimes do stalinismo que estão sendo encobertos para beneficiar uma elite política ligada ao imperialismo americano. Muitos outros casos poderiam ser enumerados.

A reação política não pode tolerar a verdade. A divulgação de mentiras sobre a história nunca é um erro inocente. Haveria uma alternativa? não é apenas um relato poderos da história da luta pelo socialismo, é um aviso à classe trabalhadora sobre a intenção política daqueles que propagam mentiras históricas e suas consequências.

O livro pode ser encomendado da Mehring Books aqui.

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