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Por que a OTAN está arriscando a guerra com a Ucrânia?

Publicado originalmente em 21 de janeiro de 2022

Comemorações oficiais e memoriais públicos a criminosos de guerra, assassinos em massa, antissemitas e colaboradores dos nazistas como Symon Petliura, Stepan Bandera e Roman Shukhevych. A integração de milícias fascistas nas forças armadas oficiais e o contato e treinamento militar de neonazistas de todo o mundo com o apoio do Estado. Disputas pelo poder do Estado ao estilo da Máfia entre um pequeno grupo de oligarcas e um judiciário e autoridades corruptos. Enorme desigualdade social com uma renda média mensal de €412 (abril de 2021). Essas são as características mais salientes da “democracia” ucraniana, para a qual os EUA e seus aliados europeus na OTAN estão arriscando uma guerra contra a Rússia, uma potência nuclear.

Blindados do regimento do Batalhão de Azov em Mariupol (Wanderer777/CC BY-SA 4.0/Wikimedia)

Na quarta-feira, o Secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, disse durante uma visita a Kiev: “Agora, como sempre, cabe somente aos ucranianos decidir seu próprio futuro e o futuro deste país”. “O povo ucraniano escolheu um caminho democrático e europeu em 1991. Eles foram a Maidan para defender essa escolha em 2013. Infelizmente, desde então, os ucranianos tem enfrentado uma agressão implacável por parte de Moscou. A Rússia invadiu o território da Crimeia, gerou um conflito no leste da Ucrânia e procurou sistematicamente minar e dividir a democracia ucraniana”. Declarações semelhantes estão vindo das capitais europeias.

Cada palavra de sua declaração é uma mentira.

Não foi o “povo ucraniano” que decidiu, em 1991, dissolver a União Soviética, da qual a Ucrânia era parte integrante, mas três autoridades stalinistas: Boris Yeltsin (Rússia), Stanislav Shushkevich (Bielorússia) e Leonid Kravchuk (Ucrânia). Eles se encontraram para caçar em 7 de dezembro em uma casa de campo onde, após um consumo considerável de vodca, decidiram, sem qualquer discussão pública, dissolver o Estado que havia surgido da Revolução de Outubro de 1917.

Seguiu-se uma década de privatização agressiva na qual ex-autoridades do Partido Comunista e suas organizações de juventude roubaram propriedades socializadas e destruíram os altamente desenvolvidos sistemas de educação e saúde.

Governo dos oligarcas

Os oligarcas que enriqueceram no desfecho da dissolução ainda dominam a vida política da Ucrânia hoje. Eles controlam a economia e a mídia, compram juízes e deputados e mantêm seus próprios partidos e milícias.

Mesmo a União Européia, que tem apoiado seu “parceiro estratégico” ucraniano com fundos e conselheiros por mais de duas décadas, conclui: “Oligarcas, funcionários públicos de alto escalão e promotores e juízes corruptos ainda dividem o Estado entre si, quantias bilionárias estão desaparecendo no exterior; a Ucrânia, com poucas exceções, fez tão pouco progresso na construção de um Estado constitucional quanto na luta contra a corrupção”. É assim que o Süddeutsche Zeitung resume o relatório especial do tribunal de contas europeu (ECA) sobre a “luta contra a grande corrupção na Ucrânia”, de setembro do ano passado.

Os oligarcas ucranianos mudam sua orientação política e suas alianças internacionais conforme necessário.

Por exemplo, Rinat Akhmetov, o homem mais rico do país (riqueza estimada pela Forbes: US$7,6 bilhões) foi por muito tempo considerado pró-russo. Entre outras coisas, ele controlava a indústria do carvão e do aço na Bacia de Donetsk, que, desde então, foi em grande parte destruída, e foi por certo período deputado do “Partido das Regiões” do presidente Viktor Yanukovych, deposto em 2014. Isso não o impediu de continuar aumentando sua fortuna, mesmo após a queda de Yanukovych.

O quarto ucraniano mais rico, Ihor Kolomoyskyi (US$ 1,8 bilhão), é considerado um apoiador e guia do atual presidente, Volodymyr Zelensky, que ganhou as eleições presidenciais de 2019 com uma campanha anticorrupção. Kolomoyskyi é acusado nos EUA e em outros países de roubar mais de €5 bilhões de um banco na “maior fraude financeira do século 21”. Os Pandora Papers revelaram desde então que Zelensky aparentemente também lucrou com essa fraude. Ele e sua comitiva são proprietários de várias empresas de fachada em paraísos fiscais internacionais, para onde foram canalizados dezenas de milhões em fundos.

Petro Poroshenko, o sétimo ucraniano mais rico com US$ 1,6 bilhão, foi o presidente do país de 2014 a 2019. Ele ganhou uma fortuna exportando doces para a Rússia, foi ministro sob o Presidente Yanukovych, e depois se tornou um ultranacionalista e bem visto pelo Ocidente. Hoje, ele é acusado de traição. Ele teria feito acordos lucrativos com os separatistas do leste da Ucrânia ao mesmo tempo em que alimentava a guerra civil contra eles como presidente. Poroshenko nega isso e acusa Zelensky de querer se livrar de um adversário político.

O nacionalismo sempre serviu aos oligarcas como um meio para atingir um fim. Eles fomentaram conflitos nacionais e promoveram correntes fascistas para desviar a atenção das tensões sociais e dividir a classe trabalhadora, que estava politicamente desorientada após décadas de repressão e falsificação histórica stalinistas. Isso aconteceu desde a dissolução da União Soviética, mas assumiu novas dimensões após o golpe de Maidan de 2014. Desde então, os nacionalistas de extrema-direita e fascistas foram sistematicamente integrados ao aparato estatal.

Golpe de Maidan

Ao contrário do que Blinken afirma, os acontecimentos na Maidan não foram uma escolha pela democracia, mas um golpe de direita. O presidente eleito, Yanukovych, que havia manobrado entre a Rússia e as potências ocidentais, foi retirado do governo com a ajuda de milícias fascistas e com o apoio aberto de Washington e Berlim e substituído por Poroshenko.

Victoria Nuland, então Subsecretária de Estado de Assuntos Europeus e da Eurásia e, hoje, a terceira no comando no Departamento de Estado dos EUA, participou pessoalmente na Maidan para apoiar os protestos contra Yanukovych. Ela se gabou publicamente de que os EUA haviam investido US$5 bilhões para a mudança de regime na Ucrânia.

O presidente socialdemocrata alemão, Frank-Walter Steinmeier, então ainda ministro das Relações Exteriores, também viajou para Kiev para negociar a substituição de Yanukovych com os partidos da oposição e com o próprio Yanukovych. Ele trabalhou diretamente com Oleh Tyahnybok, o líder do partido fascista, Svoboda. O partido, que tinha pouca influência, com exceção de algumas áreas da Ucrânia ocidental, segue a tradição da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN), que colaborou com os nazistas na Segunda Guerra Mundial e esteve envolvido em assassinatos em massa. Ela mantém relações com o neonazista Partido Nacional Alemão (NP), entre outros.

Pouco depois do acordo de Steinmeier, o Setor Direita (Pravyi Sektor), uma milícia neofascista, tomou o centro de Kiev e levou Yanukovych, que temia por sua vida, a fugir.

Desde então, tais milícias fascistas têm sido parte integrante da vida política no país. Elas aterrorizam os opositores políticos e mantêm a guerra contra os separatistas pró-russos no leste da Ucrânia. Por exemplo, em 2 de maio de 2014, mais de 40 oponentes do novo regime foram mortos na Casa dos Sindicatos de Odessa, quando fascistas incendiaram o prédio e impediram as vítimas de sair.

Batalhão de Azov

Entre as cerca de 80 milícias de direita construídas e equipadas para combater os separatistas ucranianos do leste, um papel fundamental é desempenhado pelo Batalhão de Azov. Fundado por Andriy Biletsky, que, durante os acontecimentos na Maidan, foi libertado da prisão, onde estava cumprindo uma sentença por assassinato, o Batalhão de Azov nunca fez segredo de sua admiração pelos nazistas. Biletsky declarou seu apoio à “cruzada das nações brancas do mundo contra os sub-humanos liderados pelos semitas”. Os símbolos do Batalhão de Azov ‒ o anzol de lobo e o sol negro ‒ foram utilizados pela SS de Hitler na Segunda Guerra Mundial.

No entanto, a milícia foi financiada e equipada pelo Estado e oligarcas. O presidente Poroshenko os elogiou em uma cerimônia de premiação em 2014, declarando: “Esses são nossos melhores guerreiros”. Biletsky foi celebrado em programas de TV e eleito para o parlamento em 2014. Depois, a milícia foi oficialmente integrada às forças armadas ucranianas, onde forma seu próprio regimento.

“Esse status veio com um arsenal que nenhuma outra milícia de extrema-direita no mundo seria capaz de exibir, incluindo caixas de explosivos e equipamentos de combate para até mil soldados”, descreveu a revista americana Time, que publicou uma extensa reportagem sobre a milícia fascista há um ano.

Azov é muito mais do que uma milícia. “Tem seu próprio partido político; duas editoras; acampamentos de verão para crianças; e uma força de justiceiros conhecida como a Milícia Nacional, que patrulha as ruas das cidades ucranianas ao lado da polícia”. Sua ala militar tem “pelo menos duas bases de treinamento e um vasto arsenal de armas, desde drones e veículos blindados até peças de artilharia”.

O patrocínio estatal das milícias fascistas fez da Ucrânia um centro de treinamento militar e de redes políticas neonazistas em todo o mundo. A Time cita o especialista em segurança e ex-agente do FBI, Ali Soufan, estimando que “mais de 17 mil combatentes estrangeiros de 50 países vieram à Ucrânia nos últimos seis anos”. Quarenta congressistas e deputados americanos pediram ao Departamento de Estado norte-americano para que classificasse Azov como uma organização terrorista estrangeira, mas foram rejeitados.

O partido Corpo Nacional, ala política de Azov, afirma ter cerca de 10 mil membros e mantém relações próximas com organizações fascistas e neonazistas em todo o mundo ‒ incluindo A Direita (Die Rechte), Terceiro Caminho (Der Dritte Weg) e o movimento identitário na Alemanha, o CasaPound na Itália e o Groupe Union Défense na França.

A ideóloga chefe do Corpo Nacional e secretária internacional é Olena Semenyaka, de 34 anos. Um estudo da Universidade George Washington a chama de “Primeira-Dama do Nacionalismo Ucraniano”. Semenyaka estudou filosofia, concentrando-se nas figuras da Nova Direita, Julius Evola, Alain de Benoist, Martin Heidegger, Ernst Jünger, Carl Schmitt, Armin Mohler e outros. Originalmente apoiadora do fascista russo, Aleksandr Dugin, ela defende hoje uma aliança pan-européia de etno-Estados, muito semelhante ao movimento identitário e Steve Bannon, fascista e assessor do ex-presidente americano Donald Trump.

No início do ano passado, ela conseguiu um emprego de seis meses como pesquisadora no Instituto de Humanidades de Viena. A universidade só retirou seu contrato depois que uma foto de Semenyaka, com uma suástica e uma saudação a Hitler, viralizou com a grande indignação nas redes sociais.

O fascismo e a guerra

O papel proeminente desempenhado pelos neonazistas e fascistas no Estado ucraniano não é segredo. Não é necessário um informe de inteligência para localizá-los. Uma rápida busca no Google é suficiente. Os políticos e os jornalistas que estão empenhados em arriscar uma guerra contra a Rússia por conta da Ucrânia sabem o que estão defendendo. Eles mesmos criaram o pântano fascista para construir uma defesa contra a Rússia e contra a classe trabalhadora européia.

Há anos, os EUA têm fornecido armas e conselheiros às forças armadas e milícias ucranianas sabendo muito bem que as milícias fascistas se beneficiam disso. Quando o presidente americano, Barack Obama, assinou a legislação com esse objetivo em 2015, deixou de excluir explicitamente o apoio financeiro e militar para o Batalhão de Azov, embora a exclusão fosse amplamente esperada.

O New York Times publicou várias vezes relatórios ricamente ilustrados sobre o armamento e instrução militar de civis treinados para a guerra de guerrilha.

Em um relatório de 26 de dezembro de 2021, está escrito: “A defesa civil não é algo pouco conhecido na Ucrânia; brigadas voluntárias formaram a espinha dorsal da força do país no leste em 2014, o primeiro ano da guerra contra os separatistas russos, quando as forças armadas ucranianas estavam destruídas”. “Esse esforço está sendo formalizado hoje em unidades das recém-formadas Forças de Defesa Territorial, uma parte das forças armadas”. O treinamento é realizado tanto pelo exército oficial quanto por “grupos paramilitares privados como a Legião Ucraniana”.

É óbvio que um exército de direita para guerra civil está sendo formado, que também pode ser utilizado contra membros da oposição ou trabalhadores grevistas em seu próprio país. Apesar disso ‒ ou precisamente por causa disso ‒ o chamado pela entrega de armamentos à Ucrânia também está se intensificando na Alemanha e na Europa. O partido verde alemão em particular, que hoje possui Annalena Baerbock como Ministra das Relações Exteriores, vêm defendendo isso há muito tempo.

Os preparativos para a guerra contra a Rússia e a formação de milícias fascistas são dois lados do mesmo desenvolvimento. O sistema capitalista está em uma crise sem saída. A desigualdade social está em um nível sem precedentes. Enquanto mais de 5,6 milhões de pessoas morreram de COVID-19 no mundo inteiro e centenas de milhões perderam sua renda, o topo da sociedade se enriqueceu enormemente. Isso também é verdade na Ucrânia. Segundo a Forbes, a riqueza dos 100 ucranianos mais ricos cresceu 42% em um ano para US$44,5 bilhões.

A classe dominante em toda parte espera uma explosão social e está respondendo, como na primeira metade do século XX, com o fascismo e a guerra. Somente um movimento internacional da classe trabalhadora, lutando pela derrubada do capitalismo e a construção de uma sociedade socialista, rejeitando qualquer forma de nacionalismo, pode impedir tal catástrofe.

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