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Perspectivas

Não à guinada dos EUA/OTAN à guerra contra a Rússia na Ucrânia!

Publicado originalmente em 14 de fevereiro de 2022

1. O Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI) e o World Socialist Web Site se opõem inequivocamente à guinada imprudente de Washington e seus aliados da OTAN para instigar uma guerra com a Rússia, usando como pretexto a alegação fraudulenta de uma invasão iminente da Ucrânia. O governo Biden fabricou uma narrativa claramente absurda de “os russos estão chegando”, desprovida de fatos verossímeis e que desafia qualquer lógica política.

2. As alegações de uma guerra iminente vêm exclusivamente dos Estados Unidos e da OTAN. O presidente russo Vladimir Putin não fez nenhuma declaração com sequer um indício de que essas são suas intenções. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky nega que uma invasão russa é “iminente” e tem repetidamente demandado aos EUA e a OTAN a parar de incitar pânico.

Soldados americanos fazem fila durante a visita do Secretário-Geral da OTAN Jens Stoltenberg e do Presidente romeno Klaus Iohannis à base aérea Mihail Kogalniceanu, perto da cidade portuária do Mar Negro de Constanta, no leste da Romênia, sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022. (AP Photo/Andreea Alexandru)

3. A propaganda alienante do governo dos Estados Unidos é apresentada ao público por uma mídia pusilânime, cujos porta-vozes sem cérebro não fazem questionamentos e apresentam como verdade absoluta os roteiros diários preparados para eles pelas agências militares e de inteligência dos EUA. A mentira das “armas de destruição em massa”, que justificou a desastrosa invasão do Iraque em 2003, foi esquecida. Nenhum questionamento crítico ou voz contrária à guerra têm acesso permitido aos meios de comunicação de massas. Meras alegações são apresentadas como as provas do que é alegado. Como declarou um porta-voz do governo Biden em uma recente conferência de imprensa, uma declaração do governo não requer evidências. A declaração é, por si só, prova suficiente por ser feita pelo governo.

4. De acordo com o conto de fadas midiático orientado pela CIA, os defensores da paz, Estados Unidos e OTAN, estão reagindo à súbita ameaça de uma invasão russa na Ucrânia. Mas a escalada do confronto é o resultado de meses de intensos preparativos pelos EUA e a OTAN. Nos últimos oito meses, Washington enviou 10.000 soldados americanos para sua base em Alexandrópolis, na Grécia, conduziu o exercício militar DEFENDER-Europe 21 em preparação para um combate nas regiões dos Balcãs e do Mar Negro, e realizou a maior operação Sea Breeze da história no Mar Negro.

5. Como em todas as guerras dos EUA e da OTAN, o conflito sobre a Ucrânia está sendo preparado com atitudes hipócritas. Neste caso, a anexação russa da Crimeia e seu apoio às forças separatistas na Ucrânia oriental – ambos surgidos em resposta ao golpe de mudança de regime de 2014 organizado pelos Estados Unidos e pela Alemanha – são apresentados como uma grave violação da soberania ucraniana.

6. Os Estados Unidos e a OTAN proclamam a santidade das fronteiras entre Estados. Mas sua professada devoção a esse princípio cai por terra em face de suas repetidas violações e rearranjo das fronteiras estatais durante os últimos 30 anos. Os Estados Unidos e a OTAN não tiveram respeito pela autodeterminação na Iugoslávia, que foi destruída após a dissolução da União Soviética, em 1991. O reconhecimento da independência croata pelos Estados Unidos e pela Alemanha preparou o cenário para uma década de conflitos étnicos que custaram dezenas de milhares de vidas. Em 1999, a coalizão da OTAN liderada pelos EUA bombardeou a Sérvia por 78 dias consecutivos em apoio à secessão da província de Kosovo, cuja independência foi estabelecida sob o controle de um governo dominado por imperadores do tráfico de drogas.

7. Os Estados Unidos invadiram o Afeganistão em outubro de 2001 e derrubaram seu governo. Na sequência, em março de 2003, fizeram uma violação ainda mais flagrante do direito internacional: a invasão do Iraque e a derrubada de seu governo. Durante a sangrenta ocupação americana do Iraque, Antony Blinken, agora secretário de Estado, propôs uma divisão tripartite do país. Planos semelhantes foram elaborados para a Líbia após o ataque dos EUA/OTAN em 2011, que resultou na derrubada de seu governo e no assassinato de seu presidente – um crime sangrento que foi saudado pela então Secretária de Estado, Hillary Clinton, como uma ocasião para piadas e risos. Essa intervenção foi seguida pelo bombardeio americano contra a Síria, que continua até os dias de hoje.

8. A preocupação com a democracia ucraniana professada por Washington não é menos falsa e hipócrita do que sua devoção à autodeterminação ucraniana. O governo de Kiev, produto da derrubada de um governo eleito apoiada pelos EUA, governa em nome de uma cleptocracia oligárquica responsável pela repressão da classe trabalhadora ucraniana. As forças sociais nas quais Zelensky se apoia, incluindo várias organizações paramilitares e agrupamentos de extrema-direita, estão impregnadas pelo odor histórico do fascismo.

9. Há uma pressa frenética na guinada de Washington à guerra. Os EUA parecem estar operando com base em um cronograma que não lhes permite pesar as consequências ou discutir abertamente os piores cenários de guerra. Biden disse à imprensa, em 10 de fevereiro, que se americanos e russos começarem a trocar tiros, “isso é uma guerra mundial”. No entanto, ao invés de tomarem qualquer medida para desescalar e evitar essa catástrofe, os Estados Unidos seguem em frente com suas provocações e alegações, anunciando que sabem a data precisa em que a Rússia pretende invadir a Ucrânia: 16 de fevereiro.

10. Os Estados Unidos estão engajados em uma aventura bélica unilateral na busca de seus interesses. A loucura militarista de Washington e seus aliados da OTAN obedece a uma lógica objetiva movida por dois fatores fundamentais.

11. Primeiro, desde 1991, os Estados Unidos se esforçam incansavelmente para explorar as possibilidades de pilhagem e expansão imperialista abertas pela dissolução da URSS. O Plano Estratégico do Pentágono, elaborado em 1992, declarou que os Estados Unidos não permitiriam o surgimento de um novo poder que desafiasse sua hegemonia global. Durante as últimas três décadas, Washington travou guerras incessantes com este fim, reduzindo países e civilizações inteiras nos Bálcãs, Oriente Médio, Norte da África e Ásia Central a ruínas. Quanto mais o declínio da hegemonia econômica americana se acentua, mais geograficamente abrangentes se tornam seus propósitos de guerra. Eles fixam sua visão hoje na Rússia e na China.

12. Em sua declaração de 18 de fevereiro de 2016, “Socialismo e a luta contra a guerra”, o Comitê Internacional da Quarta Internacional apresentou uma análise abrangente da estratégia global do imperialismo americano e de seus aliados da OTAN. Salientou que por trás da guinada à guerra estavam as “profundas contradições do sistema capitalista mundial: 1) entre uma economia globalmente integrada e interdependente e sua divisão em Estados nacionais antagônicos; e 2) entre o caráter socializado da produção global e sua subordinação, através da propriedade privada dos meios de produção, à acumulação privada do lucro pela classe dominante capitalista”.

13. No contexto dessas contradições fundamentais, o CIQI explicou:

O caminho para a guerra centra-se nos esforços dos EUA para manter sua posição de potência hegemônica global. A dissolução da União Soviética, em 1991, foi vista como uma oportunidade para os EUA assegurarem uma dominação sem rivais por todo o mundo. Ela foi glorificada por propagandistas imperialistas como o “fim da história”, que criava um “momento unipolar” no qual o poder incontestável dos EUA ditaria uma “Nova Ordem Global” sob os interesses de Wall Street. A União Soviética dominava uma vasta região do globo, desde a Europa do Leste até o Oceano Pacífico. Assim, as vastas regiões da Eurásia, ocupadas por uma Rússia debilitada e por Estados recentemente independentes na Ásia Central, estavam mais uma vez “em jogo”, disponíveis para a exploração empresarial e pilhagem. A restauração stalinista do capitalismo na China, sua repressão de Estado policial à resistência da classe trabalhadora em 1989 e a abertura de “zonas de livre comércio” para o investimento transnacional disponibilizando uma enorme reserva de mão de obra barata.

14. As denúncias de uma iminente invasão russa e o deslocamento de forças norte-americanas para a região significam que setores poderosos da elite empresarial-financeira e das agências de inteligência decidiram que o confronto há muito planejado com a Rússia não pode mais ser adiado. Entre 2017 e 2020, a principal crítica do Partido Democrata a Trump não era a seus ataques à constituição e seus preparativos para uma ditadura, mas, ao contrário, a sua incapacidade de enfrentar a Rússia com força suficiente. Os procedimentos da primeira tentativa de impeachment de Trump, entre dezembro de 2019 e fevereiro de 2020, foram dominados pela alegação de que ele retivera ajuda militar à Ucrânia. A acusação mais recorrente do Partido Democrata a Trump não era de ser um aspirante a ditador fascista, mas o “fantoche de Putin”.

15. Agora que o governo Biden está no poder, ele está tentando correr atrás do tempo perdido. O estratagema dos EUA/OTAN é tão grosseiro quanto óbvio. A Ucrânia está sendo usada como isca para atrair a Rússia à guerra. As referências insistentes de Biden a uma operação de “bandeira falsa” russa lembram a conhecida tática do batedor de carteiras que, para desviar a atenção de seus possíveis alvos, grita: “Pega ladrão!”. Se há um país planejando uma operação de “bandeira falsa”, é os Estados Unidos.

16. Qualquer incidente na Ucrânia, por mais duvidosa que seja sua origem, será usado para ativar as forças da OTAN e criar, de jure ou de facto, um estado de guerra. O projeto do gasoduto Nord Stream II, através do qual a Rússia fornecerá gás natural para a Alemanha, será encerrado. Cercada pela OTAN, a Rússia será confrontada com uma lista de exigências interminável e em constante expansão, começando com o retorno incondicional da Crimeia à Ucrânia. A influência russa em Belarus será encerrada. Os movimentos secessionistas na Rússia, da Chechênia à Sibéria, obterão apoio aberto do imperialismo. O objetivo final é a mudança de regime em Moscou e a fragmentação da Rússia.

17. A insistência do governo Biden no “direito” da Ucrânia de se tornar membro da OTAN é um elemento essencial de uma estratégia voltada para a redução da Rússia a um Estado de total impotência. O falecido estrategista e belicista imperialista, Zbigniew Brzezinski, em seu livro The Grand Chessboard (1997) [“O Grande Tabuleiro de Xadrez”, em tradução livre], escreveu que a Ucrânia é “geopoliticamente fundamental” para a Rússia, determinante à segurança de suas fronteiras do sul e a seu acesso aos mares quentes. A região que abrange a Ucrânia, o Mar Negro e Cáspio tem uma importância geoestratégica incalculável e é o eixo central dos planos de dominação global de Washington. É através desta região que a Rússia acessa o Mediterrâneo e pela qual a China estende por vias terrestres sua Iniciativa do Cinturão e Rota para a Europa. O objetivo de guerra de Washington é destruir a Rússia como um obstáculo à hegemonia dos EUA sobre as regiões do Mar Negro e Cáspio e eventualmente toda a Eurásia, reduzindo esse país rico em recursos ao estatuto de país semicolonial. Isso é visto como um passo necessário aos preparos de guerra com a China.

Soldados americanos fazem fila durante a visita do Secretário-Geral da OTAN Jens Stoltenberg e do Presidente romeno Klaus Iohannis à base aérea Mihail Kogalniceanu, perto da cidade portuária do Mar Negro de Constanta, no leste da Romênia, sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022. (AP Photo/Andreea Alexandru)

18. Em segundo lugar, a guinada à guerra foi levada ao extremo por uma crise interna insolúvel nos Estados Unidos. A escalada dos esforços de guerra, imediatamente após o desastre no Afeganistão, está enraizada em crises sociais, financeiras e políticas concomitantes de proporções sem precedentes.

19. Como o Comitê Internacional tem enfatizado desde o início, em janeiro de 2020, o impacto da pandemia de COVID-19 no curso do século XXI será tão grande quanto o da Primeira e Segunda Guerra Mundial sobre o século XX. A pandemia é um “evento desencadeador” que levou ao ponto de ebulição as já muito avançadas contradições do sistema capitalista mundial.

20. O custo de vidas mundialmente desde o surgimento da pandemia é espantoso. As estimativas mais conservadoras colocam o número de mortes ao redor do mundo em cerca de 6 milhões. Estimativas baseadas no cálculo do excesso de mortes colocam a perda de vidas em 20 milhões. Nos Estados Unidos, o país capitalista mais rico e poderoso, o número de mortes está se aproximando de 1 milhão.

21. Esse número devastador é o resultado de políticas que subordinaram a o interesse em salvar vidas à defesa e aumento da riqueza da classe dominante capitalista oligárquica. Mesmo com a pandemia continuando a ceifar dezenas de milhares de vidas a cada semana, os esforços para conter a propagação da COVID-19 estão sendo explicitamente repudiados. Governos de todo o mundo, com Washington à frente, agora tratam milhares de mortes diárias como normais e caminham para a supressão total das notificações de casos e mortes.

22. A pandemia intensificou as crises financeira, política e social internas de todos os países capitalistas. Na verdade, é nos países capitalistas mais avançados, e especialmente nos Estados Unidos, que a crise encontra seu caráter mais tóxico.

23. Os Estados Unidos estão se aproximando rapidamente de uma completa disfuncionalidade econômica, social e política. A inflação está disparando e a dívida pública americana, em grande parte resultante da canalização de dinheiro para os bancos e Wall Street, chegou a um espantoso montante de 30 trilhões de dólares. A classe trabalhadora está entrando em uma luta aberta e potencialmente explosiva. Faz apenas um ano desde que os EUA estiveram a minutos da derrubada de seu governo constitucional na tentativa de golpe de Estado de 6 de janeiro de 2021.

24. Em uma entrevista coletiva no mês passado, Biden notou que era questionável se a democracia dos EUA sobreviveria à década. Nenhum outro país tem tais níveis de desigualdade social, ou uma classe dominante tão indiferente às necessidades mais básicas da população. Os Estados Unidos são um barril de pólvora socialmente. A guerra é um meio para unificar artificialmente e desviar as crises para fora.

25. Em estudos sobre as causas da guerra, muitos historiadores sérios têm enfatizado a primazia das contradições domésticas. O conhecido historiador americano, Arno Mayer, observou há meio século em um estudo sobre a Dinâmica da Contrarrevolução que

condições internas tensas e instáveis tendem a tornar as elites marcadamente intransigentes e dispostas a soluções preventivas excepcionalmente drásticas, para não dizer extravagantemente perigosas. Governos e classes políticas atormentadas e vulneráveis são mais propensos a estarem dispostos do que contrários a recorrer a conflitos externos ou guerras. Tanto por reflexo como por cálculo, eles assumem que os membros de uma sociedade seriamente dilacerada se unirão quando forem confrontados por uma ameaça externa e inimigo comum e iminente. Tais governos se inclinam a usar o conflito externo ou a guerra como um instrumento de coesão social interna, como um antídoto para a insurreição, revolução, guerra civil ou secessão que eles afirmam ser iminente. O objetivo final é colher uma vitória diplomática ou militar marcante para restaurar, e de preferência aumentar, o poder e o prestígio dos regimes, governos e elites enfraquecidos internamente.

26. A burguesia europeia, que mal sobreviveu à catástrofe das duas guerras mundiais, está inclinada a ser mais cautelosa. No entanto, eles seguem o impulso de guerra de Washington, apesar de a guerra na Ucrânia ser potencialmente catastrófica para seus próprios interesses, por sua forte dependência da Rússia para o gás natural e outros recursos. Eles enfrentam enormes crises internas que os empurram ao mesmo caminho desastroso. Além disso, eles sabem que uma resistência direta à agenda americana provocaria uma retaliação devastadora. Em 2003, Alemanha e França expressaram oficialmente relutância em apoiar a invasão americana do Iraque. Washington atacou abertamente seus aliados de longa data e ameaçou reorientar suas relações na Europa para os Estados da Europa Oriental, recentemente admitidos na OTAN, em oposição aos países centrais da “Velha Europa”. A burguesia europeia também teme que a resistência aos Estados Unidos resulte em sua exclusão dos espólios que sejam conquistados pela potencial reorganização da Rússia. Devidamente disciplinados, eles se unem à guinada para a guerra.

27. Mas, independentemente do que possam imaginar os estrategistas em Washington e nas capitais europeias, o recurso à guerra não resolverá nenhum de seus problemas. Os criminosos que estão desencadeando essas catástrofes descobrirão para sua própria desgraça a assertividade do ditado que afirma: quem semeia vento colhe tempestade.

28. A guerra com a Rússia na Ucrânia, independente de como seja iniciada ou transcorram seus primeiros estágios, não será contida. Ela seguirá uma lógica incontrolavelmente expansiva. Todos os Estados da região serão arrastados para o conflito. O Mar Negro, cuja costa se estende por sete países, será transformado em um caldeirão de conflitos crescentes, varrendo a Transcaucásia, a região do Mar Cáspio, a Ásia Central e além.

29. A China veria seus próprios interesses diretamente ameaçados, sendo arrastada para a guerra. O conflito englobaria Taiwan. Irã e Israel seriam puxados para o conflito. O Japão e a Austrália logo em seguida. Em algum momento, o uso de armas nucleares seria visto como uma saída. E em todos os palcos deste conflito, os Estados Unidos estariam centralmente envolvidos, com uma perda de vidas devastadora e choques sociais em níveis maciços.

30. Pouco mais de 30 anos se passaram desde a dissolução da URSS. Em 1992, a burocracia stalinista em Moscou, bem como em Kiev, afirmou que a restauração do capitalismo inauguraria uma nova era de prosperidade sem precedentes. Tanto a Rússia quanto a Ucrânia, eles alegaram, abandonando os últimos vestígios de fraseologia marxista, desfrutariam de uma prosperidade sem precedentes ao serem acolhidas na família feliz das nações capitalistas amantes da paz.

31. Esse delírio ahistórico e utópico – enraizado nas panaceias stalinista anteriores a 1991 do “socialismo em um só país” e da “coexistência pacífica” com o imperialismo – foi totalmente esfacelado. O governo russo, o inimigo mais hostil do marxismo e tudo o que está associado com a Revolução de Outubro de 1917, está hoje de frente com a realidade da subjugação imperialista.

32. O regime de Putin, que governa em nome de uma oligarquia capitalista corrupta, não tem qualquer resposta viável, e muito menos progressista, a esta ameaça. A possibilidade de integração pacífica da Rússia nas estruturas do capitalismo mundial, dominado pelos Estados Unidos e pelas grandes potências imperialistas, se mostrou uma mera ilusão. Um fator insignificante às finanças mundiais, a economia russa está sob a pressão perpétua das sanções impostas pelos Estados Unidos.

33. O apelo ao nacionalismo reacionário é incapaz de mobilizar às populações nas fronteiras da Rússia e aprofunda seu isolamento. Além disso, o refúgio de Putin nas armas nucleares não oferece nada além da perspectiva de um Armagedom global. Ele governa precariamente sobre um país devastado pela pandemia, o que intensificou todas as contradições da devastada sociedade pós-soviética. Putin é obrigado a se equilibrar entre as alas conflitantes da elite capitalista, ou seja, entre aqueles que tendem à aceitação do status de burguesia compradora sob o domínio do imperialismo americano e europeu, e aqueles que temem que a capitulação prejudique seus interesses. Entre os últimos elementos estão agrupadas as forças ultranacionalistas e de extrema-direita, cujo conceito de defesa nacional repousa em última instância em uma política suicida envolvendo o uso de armas nucleares.

34. O Comitê Internacional baseia sua oposição à guerra imperialista não no apoio a qualquer forma de nacionalismo, mas na luta para unificar a classe trabalhadora de todos os países para derrubar o capitalismo e estabelecer o socialismo mundial. Este princípio essencial se aplica com força excepcional na situação atual.

35. A classe trabalhadora ucraniana e russa compartilham uma mesma história. Elas não têm nenhum desejo de uma guerra fratricida. O movimento revolucionário na Ucrânia produziu muitos dos grandes líderes da luta pelo socialismo, entre eles Leon Trotsky. Os trabalhadores da Ucrânia e da Rússia lutaram como camaradas pela derrubada do czarismo e pela vitória da Revolução de Outubro. Eles lutaram juntos contra o imperialismo alemão. Os trabalhadores da Rússia e da Ucrânia foram ambos vítimas dos crimes do regime stalinista, e ambos sofreram as consequências da restauração do capitalismo. Os nacionalistas fascistoides presentes em ambos os países não representam nem falam pelos interesses da classe trabalhadora.

36. O avanço da classe trabalhadora russa e ucraniana requer uma perspectiva global. É preciso enfatizar que a oposição a Putin não envolve o alinhamento com o imperialismo. As denúncias pseudoesquerdistas do “imperialismo” russo e chinês não têm nenhuma relação com o desenvolvimento histórico dos séculos XX e XXI. Ao contrário, elas expressam o alinhamento das forças pequeno-burguesas com Washington. É necessário se opor ao imperialismo sem se adaptar ao nacionalismo russo, e se opor ao nacionalismo russo sem se adaptar ao imperialismo.

37. Qualquer que seja o resultado imediato das tensões atuais, não há uma solução pacífica para esta crise. O período anterior ao início da Primeira Guerra Mundial em 1914 e da Segunda Guerra Mundial em 1939, foi marcado por diversos episódios que ameaçaram estourar a guerra. Mas a resolução de uma crise logo deu lugar a outra, e a guerra finalmente chegou.

38. A crise atual é um alerta grave. O imperialismo está deslizando para o desastre. A força social que necessita ser mobilizada para impedir a catástrofe sendo preparada na Ucrânia é a classe trabalhadora internacional. A luta contra a guerra está diretamente ligada à luta contra a exploração e às políticas de imunidade do rebanho assassinas dos governos capitalistas. O imperialismo e o capital financeiro vão tolerar tantas mortes quantas forem necessárias para garantir seus espólios e lucros. Não podemos permitir que milhões de vítimas de guerra se somem aos milhões de mortos da pandemia. É da maior urgência que os trabalhadores construam um movimento independente em oposição à guerra com base em uma perspectiva socialista e internacionalista.

39. Os princípios que devem nortear a luta contra o imperialismo e à guinada à guerra mundial, enumerados pelo Comitê Internacional em sua declaração de 2016, assumem na presente crise a maior urgência:

  • A luta contra a guerra deve ser baseada na classe trabalhadora, a grande força revolucionária na sociedade, unindo atrás dela todos os elementos progressistas da população.
  • O novo movimento contra a guerra deve ser anticapitalista e socialista, uma vez que não pode haver nenhuma luta séria contra a guerra exceto na luta para acabar com a ditadura do capital financeiro e o sistema econômico que é a causa fundamental do militarismo e da guerra.
  • O novo movimento contra a guerra, portanto, deve ser necessariamente independente de maneira completa e unívoca, e hostil, em relação a todos os partidos políticos e organizações da classe capitalista.
  • O novo movimento contra a guerra deve, sobretudo, ser internacional, mobilizando o grande poder da classe trabalhadora em uma luta unificada global contra o imperialismo.

41. O Comitê Internacional da Quarta Internacional e suas seções estão abertos à discussão fraterna, com base nos princípios apresentados nesta declaração, com tendências políticas e indivíduos em todo o mundo que reconhecem a necessidade urgente da construção de um movimento internacional de massas contra a guerra.

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