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Perspectivas

Discurso de 1o. de Maio

A guerra entre a OTAN e a Rússia e as tarefas da classe trabalhadora internacional

Publicado originalmente em 2 de maio de 2022

Publicamos abaixo o relatório de abertura de David North para o Ato Internacional de 1o. de Maio do último domingo. North é o presidente do Conselho Editorial Internacional do World Socialist Web Site e presidente nacional do Partido Socialista pela Igualdade nos EUA.

Introdução de David North ao Ato Internacional de 1o. Maio de 2022

O 1o. de Maio deste ano está sendo realizado sob circunstâncias extraordinárias. O mundo está à beira de uma guerra mundial nuclear que ameaça a extinção da vida neste planeta. O desafio do 1o. de Maio de 2022 é fazer da celebração da unidade internacional da classe trabalhadora de hoje o início de um movimento global da ampla maioria da população mundial para deter a criminosa e imprudente escalada da guerra entre a OTAN e a Rússia em direção ao conflito nuclear e forçar seu fim.

A organização, desenvolvimento e vitória deste movimento requer um claro entendimento das causas da guerra e dos interesses a que ela serve.

O Comitê Internacional da Quarta Internacional, o Partido Mundial da Revolução Socialista, denuncia inequivocamente o imperialismo americano e europeu por instigar o conflito com a Rússia. Esta não é uma guerra em defesa da democracia na Ucrânia ou em qualquer outro lugar do mundo. É uma guerra cujo objetivo é a redivisão do mundo, ou seja, uma nova alocação dos recursos materiais do globo.

A Rússia se tornou um alvo do imperialismo americano não por causa do caráter autocrático do regime de Putin, mas porque, primeiro, sua defesa dos interesses dos capitalistas russos colide com a busca dos Estados Unidos pela hegemonia global, que está centrada em seus preparativos para a guerra com a China; e, em segundo lugar, o vasto território russo é fonte de matérias-primas imensamente valiosas e estrategicamente críticas, metais e minerais - ouro, platina, paládio, zinco, bauxita, níquel, mercúrio, manganês, cromo, urânio, minério de ferro, cobalto, e irídio, para citar apenas alguns - que os Estados Unidos estão determinados a ter sob seu controle.

As outras grandes potências imperialistas aliadas aos Estados Unidos estão, da mesma forma, buscando seus próprios interesses econômicos e geoestratégicos reacionários. O conflito na Ucrânia tem proporcionado ao imperialismo alemão - que travou uma guerra de extermínio contra a União Soviética entre 1941 e 1945 - a oportunidade de empreender a maior campanha de rearmamento desde o colapso do regime nazista. Como sempre, o imperialismo britânico está ansioso para participar de uma guerra liderada pelos EUA, na esperança de que sua 'relação especial' com os Estados Unidos lhe dará direito a uma distribuição favorável dos espólios de guerra. Os imperialistas franceses esperam que apoiando, embora com relutância, a guerra dos EUA contra a Rússia, os Estados Unidos não irão interferir nas operações francesas na África. Mesmo as potências menores da aliança da OTAN esperam ser recompensadas por seu endosso à guerra liderada pelos EUA. A Polônia, por exemplo, não esqueceu que Lviv já foi a cidade polonesa de Lwow.

Quanto à invocação pelos Estados Unidos do direito sagrado da Ucrânia, como uma nação soberana, de aderir à OTAN, se assim o desejar, Washington não reconhece a extensão desse direito a qualquer país cujos interesses de defesa nacional sejam vistos como uma ameaça à segurança dos EUA. Mesmo enquanto a crise se desenrola na Ucrânia, os Estados Unidos estão ameaçando uma ação militar para impedir as Ilhas Salomão - a 9.700 quilômetros de distância da costa oeste americana - de entrar em uma relação defensiva com a China.

As alegações de que a OTAN está reagindo a uma invasão 'não provocada' de uma Ucrânia politicamente inocente por uma Rússia agressiva, determinada a restaurar o 'império soviético' perdido, são um conjunto de mentiras. Um estudo objetivo sobre os antecedentes da guerra demonstra claramente que a invasão russa de 24 de fevereiro de 2022 foi uma resposta desesperada à expansão implacável da OTAN. Como o desenvolvimento da guerra durante os últimos dois meses demonstrou claramente, os Estados Unidos e a OTAN armaram e treinaram as forças ucranianas, trabalhando em estreita colaboração com os elementos neonazistas associado ao Batalhão Azov, para travar uma guerra por procuração contra a Rússia.

A hipótese de que a mobilização maciça da OTAN contra a Rússia foi uma resposta imprevista, não planejada e improvisada à invasão é um conto de fadas para os politicamente ingênuos. Esta é uma guerra que os Estados Unidos e a OTAN queriam, planejaram, para a qual se prepararam, e a qual instigaram. Desde a primeira 'Revolução Laranja' de 2005 e, particularmente, do golpe da praça Maidan, que foi organizado pela administração Obama para derrubar o governo pró-russo de Yanukovych em 2014, os Estados Unidos foram colocados em uma trajetória de guerra com a Rússia. A afirmação cínica de que os EUA e a OTAN não planejaram ou instigaram a guerra é refutada da forma mais poderosa pelas repetidas advertências feitas pelo Comitê Internacional. No primeiro ato on-line de 1o. de Maio patrocinado pelo Comitê Internacional e pelo World Socialist Web Site em 2014, nós advertimos, apenas alguns meses após o golpe da Maidan, que 'a crise ucraniana foi deliberadamente instigada pelos Estados Unidos e Alemanha através da orquestração de um golpe de Estado em Kiev. O objetivo deste golpe foi levar ao poder um regime disposto a colocar a Ucrânia sob o controle direto do imperialismo americano e alemão. Os conspiradores em Washington e Berlim entenderam que este golpe levaria a um confronto com a Rússia. Na verdade, longe de procurar evitar um confronto, tanto a Alemanha como os Estados Unidos acreditam que um choque com a Rússia é necessário para alcançar seus amplos interesses geopolíticos'.

Exatamente seis anos atrás, no ato de 1o. de Maio de 2016, nós advertimos que a busca dos Estados Unidos pela hegemonia global os colocava em uma trajetória de guerra com a Rússia e a China. Nós afirmamos:

Uma parcela significativa de estrategistas do Pentágono e da CIA acredita que o isolamento estratégico da China exige não apenas o controle americano das regiões da Ásia-Pacífico e do Oceano Índico. Os Estados Unidos também devem dominar a Eurásia, caracterizada nos livros básicos da geopolítica internacional como a 'Ilha Mundial'. Este é o objetivo estratégico que está subjacente ao crescente conflito entre os Estados Unidos e a Rússia. As relações internacionais atingiram um nível de tensão que se iguala, se ainda não tiver superado, ao que existia no final da década de 1930, às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Todas as grandes potências imperialistas - incluindo a Alemanha e o Japão - estão aumentando seus orçamentos militares. Que um conflito entre os Estados Unidos, a China e a Rússia poderia envolver o uso de armas nucleares já está sendo reconhecido. Seria o mais grave dos erros assumir que nem os líderes políticos e militares das potências imperialistas, nem seus adversários assustados em Pequim e Moscou, arriscariam as consequências devastadoras da guerra nuclear.

Um ano depois, no ato de 1o. de Maio de 2017, chamamos a atenção para as discussões entre estrategistas americanos sobre a viabilidade do uso de armas nucleares em um futuro conflito militar. Citamos várias estratégias que implicaram o uso de armas nucleares, que incluíam 1) o ataque nuclear contra um oponente não nuclear; 2) um primeiro ataque com o objetivo de eliminar a capacidade de retaliação de um país adversário; 3) a ameaça do uso de armas nucleares para forçar um oponente a recuar; e 4) o lançamento de uma guerra nuclear limitada. Nós perguntamos:

Quem são os loucos que idealizaram esta estratégia? A disposição de considerar qualquer uma destas estratégias é, por si só, um sinal de loucura. O uso de armas nucleares teria consequências incalculáveis. Este fato impedirá as classes dominantes de recorrer à guerra? Toda a história do século XX, para não mencionar a experiência apenas dos primeiros 17 anos do século XXI, depõe contra uma suposição tão esperançosa. A estratégia política da classe trabalhadora deve ser baseada na realidade, não em esperanças e auto-enganos.

Apenas mais uma citação: no ato de 1o. de Maio de 2019, tendo como pano de fundo uma crise política crescente nos Estados Unidos, dissemos:

A violação das normas constitucionais na condução da política interna e o recurso a métodos mafiosos na política externa estão enraizados, em última análise, na crise do sistema capitalista. Os esforços desesperados dos Estados Unidos para manter sua posição de domínio global, diante dos desafios geopolíticos e econômicos de rivais na Europa e na Ásia, exigem um estado de guerra permanente e crescente.

Esta política imprudente prevalecerá com ou sem Trump. De fato, a histeria anti-Rússia que dominou o Partido Democrata faz com que seja razoável suspeitar que, se os democratas reconquistarem a Casa Branca, o perigo de uma guerra mundial será ainda maior.

Os acontecimentos confirmaram nossas advertências. Nada pode deter o desenvolvimento da terrível lógica da guerra imperialista e suas consequências, exceto pelo movimento revolucionário da classe trabalhadora contra o capitalismo. Esta perspectiva está subjacente não apenas nossa denúncia do imperialismo dos EUA-OTAN, mas também nossa postura em relação à invasão russa da Ucrânia.

O caráter imperialista da guerra que está sendo travada pela OTAN não justifica, do ponto de vista da classe trabalhadora internacional, a decisão do governo russo de invadir a Ucrânia. O Comitê Internacional condena a invasão como politicamente reacionária. A decisão do governo Putin de invadir já matou e feriu milhares de ucranianos inocentes que não são de forma alguma responsáveis pelas políticas do governo corrupto de Kyiv. Ela dividiu a classe trabalhadora russa e ucraniana, e fez o jogo dos estrategistas imperialistas em Washington, D.C. e Langley, Virgínia. Ela proporcionou ao imperialismo alemão a oportunidade de se rearmar massivamente.

Os perigos que agora a Rússia enfrenta são, em última análise, a conseqüência da dissolução da União Soviética em 1991 pela burocracia stalinista e da restauração do capitalismo. A destruição da União Soviética - o resultado do repúdio stalinista dos princípios do internacionalismo socialista que guiou a Revolução de Outubro de 1917 - foi baseada em três concepções catastroficamente falsas que tinham sido fervorosamente abraçadas pela burocracia soviética.

A primeira era que a restauração do capitalismo resultaria no rápido enriquecimento da Rússia. A segunda era que a dissolução do regime burocrático resultaria no desabrochar da democracia burguesa. A terceira era que o repúdio da Rússia capitalista de seu legado revolucionário resultaria em sua integração pacífica em uma bem-aventurada irmandade de nações capitalistas. Estas expectativas delirantes foram destroçadas pela realidade.

As advertências de Leon Trotsky, brilhantemente elaboradas em seu tratado de 1936, A Revolução Traída, foram confirmadas. A restauração capitalista resultou no empobrecimento de amplas camadas da população russa; na substituição do regime burocrático pela dominação oligárquica ditatorial; e na ameaça iminente da divisão da Rússia em pequenos países semicoloniais controlados por potências imperialistas.

O fato de que o regime de Putin não conseguiu encontrar outra resposta aos perigos enfrentados pela Rússia a não ser a invasão da Ucrânia, e agora a ameaça de uma resposta nuclear às provocações da OTAN, atesta a falência política do regime de restauração capitalista. A oligarquia capitalista russa, cuja riqueza é derivada do saque sistemático da propriedade nacionalizada do Estado Operário, repudiou tudo o que havia de progressista nos fundamentos sociais e políticos da União Soviética.

Não é por acaso que Putin, em seu discurso de 21 de fevereiro de 2022, justificou a iminente invasão da Ucrânia com uma denúncia explícita e amarga da defesa pelo regime bolchevique dos direitos democráticos das nacionalidades que haviam sido brutalmente reprimidas pelo regime czarista antes de sua derrubada em 1917. Putin declarou que a criação de uma Ucrânia soviética havia sido 'o resultado da política bolchevique e pode ser legitimamente chamada 'a Ucrânia de Vladimir Lenin'. Ele foi seu criador e arquiteto'.

Vladimir Lenin

Sim, Lênin foi o criador da Ucrânia soviética, e a defesa bolchevique dos direitos das nacionalidades oprimidas, e especialmente na Ucrânia, foi um dos principais fatores para a vitória do Exército Vermelho, liderado por Trotsky, na Guerra Civil que se seguiu à Revolução de outubro.

Putin teve o cuidado de evitar mencionar que o processo de degeneração burocrática da União Soviética encontrou sua expressão inicial nos esforços de Stalin para minar a defesa feita por Lenin dos direitos das nacionalidades não russas.

Estes princípios haviam sido elaborados de forma mais eloquente em um documento redigido porTrotsky em março de 1920, que abordava especificamente a questão crucial da Ucrânia. Ao mesmo tempo em que não fazia concessões aos nacionalistas burgueses reacionários, Trotsky escreveu: 'Em vista do fato de que a cultura da Ucrânia tem sido reprimida há séculos pelo czarismo e pelas classes exploradoras da Rússia, o Comitê Central do Partido Comunista Russo torna obrigatório para todos os membros do Partido ajudar de todas as maneiras a remover todos os obstáculos para o livre desenvolvimento da língua e da cultura ucranianas.'

Putin, um inimigo amargo do socialismo e da herança da Revolução de Outubro, é incapaz de fazer qualquer apelo genuinamente democrático e progressista à classe trabalhadora ucraniana. Em vez disso, ele invoca o legado reacionário do chauvinismo grão-russo czarista e stalinista. A oposição da Quarta Internacional à invasão da Ucrânia por Putin se baseia na defesa dos princípios defendidos por Lenin e Trotsky. Mas a defesa desses princípios exige uma oposição implacável às maquinações reacionárias do imperialismo americano e europeu.

O perigo iminente de uma Terceira Guerra Mundial nuclear é o resultado da onda global de reação sócio-econômica e política e de violência política que se seguiu à dissolução da União Soviética.

Enquanto caminhava pelas ruas de Kyiv na semana passada, Antonio Guterres, o secretário-geral das Nações Unidas, proclamou num tom desesperado que a guerra no século XXI é um 'absurdo'.

Se o Sr. Guterres chegou a esta descoberta filosófica somente depois de visitar a Ucrânia, devemos nos perguntar onde ele esteve escondido durante os últimos 22 anos. Este século ainda jovem não conheceu um momento de paz. Na verdade, os últimos 30 anos testemunharam uma onda interminável e incontrolável de violência imperialista, cujos principais instigadores foram os residentes da Casa Branca, em Washington D.C.

O comentário de Guterres exemplifica a separação da guerra na Ucrânia de tudo o que a precedeu. É como se as guerras dos EUA e da OTAN das últimas três décadas nunca tivessem acontecido. A violência e a perda de vidas na Ucrânia estão sendo apresentadas na imprensa de massas como um horror sem precedentes na modernidade. Os crimes cometidos pelos russos são dizem, de um caráter tão extremo que eles só podem ser comparados com as atrocidades dos nazistas. A invasão da Ucrânia foi classificada como um ato de genocídio, exigindo nada menos que a criação de um tribunal de crimes de guerra e o indiciamento de Vladimir Putin. As acusações de genocídio foram invocadas pelo Presidente Biden para justificar um chamado pela remoção de Putin do poder – ou seja, para uma mudança de regime na Rússia.

Além disso, a campanha de propaganda contra a Rússia foi estendida para criminalizar o povo russo. Escritores, músicos, atletas, cientistas russos e até mesmo as conquistas histórico-universais da cultura russa têm sido alvo de punições coletivas. Este ataque perverso tem como objetivo promover o ódio cego à Rússia, para criar o ambiente enlouquecido necessário para uma guerra total. Esta é uma tática conhecida de propaganda, que, em sua forma moderna, é o produto da Primeira Guerra Mundial. Seu propósito, conforme descrito pelo historiador Robert Haswell Lutz já em 1933, é 'a criação de um novo conjunto de desejos, hipnose grupal, isolamento em relação à contra-propaganda, saturação do público com informações selecionadas e tendenciosas.'

O desenvolvimento destas técnicas foi aperfeiçoado nos Estados Unidos, e seu uso mais eficaz foi a alegação da administração Bush em 2002-2003, inteiramente inventada, que o Iraque possuía 'armas de destruição em massa'. A eficácia desta campanha, como explicou a Columbia Journalism Review em 2003, 'dependia em grande medida de uma imprensa obediente que repetisse sem críticas todas as alegações fraudulentas da administração sobre a ameaça que Saddam Hussein representaria para os Estados Unidos.'

Mesmo se todos os crimes específicos atribuídos aos militares russos fossem verdadeiros - e, até o momento, não houve nenhuma fundamentação confiável das alegações, como a atrocidade de Bucha – eles nem sequer começam a se aproximar das dimensões dos crimes documentados cometidos pelos Estados Unidos no decorrer das guerras que travou ao longo dos últimos trinta anos.

Os Estados Unidos, desde 1991, bombardearam ou invadiram o Iraque, a Somália, a Sérvia, Afeganistão, Líbia, Síria e Sudão. Esta não é uma lista completa, mas o número total de mortes resultantes dessas invasões e bombardeios é de vários milhões de pessoas.

A imprensa americana brinca com as alegações de 'genocídio' como uma forma de tripudiar dos alvos do imperialismo americano e, no processo, trivializar o significado real da palavra. Mas se o termo genocídio for usado, ele pode ser aplicado às consequências das intervenções americanas no Oriente Médio e na Ásia Central apenas nas últimas três décadas. Biden denuncia Putin como um criminoso de guerra que deve ser apresentado perante o tribunal de Haia. Talvez sim. Mas com base nos registros documentados de crimes cometidos pelos Estados Unidos, há muitos presidentes, altas autoridades e generais dos EUA que deveriam sentar-se no banco dos réus ao lado de Putin.

A alegação de que a guerra da OTAN contra a Rússia é uma resposta à agressão não provocada contra a Ucrânia não é a única ficção. Em suas últimas declarações na Casa Branca, na última quinta-feira, Biden afirmou que estava pedindo ao Congresso para destinar mais uma uma enorme quantia de dinheiro, 33 bilhões de dólares, 'para apoiar a Ucrânia em sua luta pela liberdade.' Mas é assim que o Departamento de Estado dos Estados Unidos descreveu o estado da 'liberdade' na Ucrânia em seu relatório de 2020:

Problemas significativos de direitos humanos incluem: mortes ilegais e arbitrárias; tortura e casos de tratamento cruel, desumano e degradante ou represálias dos detentos por autoridades policiais; condições extremas e potencialmente fatais nas prisões e centros de detenção; prisões ou detenções arbitrárias; sérios problemas com a independência do Judiciário…

O relatório também citou 'graves atos de corrupção; falta de investigação e responsabilização por violência contra as mulheres; violência ou ameaças de violência motivadas por antissemitismo; crimes envolvendo violência ou ameaças de violência visando pessoas com deficiências, membros de minorias étnicas, e lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros ou pessoas intersexuais; e a existência das piores formas de trabalho infantil.'

O governo da Ucrânia, o relatório criticou, 'não tomou as medidas adequadas para perseguir ou punir a maioria das autoridades que cometeram abusos, resultando em um clima de impunidade. Grupos de direitos humanos e as Nações Unidas observaram deficiências significativas nas investigações sobre supostas violações dos direitos humanos cometidas pelas forças de segurança do governo.'

O governo ucraniano proibiu o Partido Comunista e muitas outras organizações políticas, e também aprovou leis destinadas a suprimir o uso da língua russa.

Essas 'deficiências' não são mais relatadas pela mídia, que agora está glorificando a 'jovem democracia' da Ucrânia e seu presidente Volodymyr Zelensky. Mas recentemente, o Fundo Monetário Internacional e bancos ocidentais, enquanto impunham um regime drástico de austeridade financeira à Ucrânia, condenavam amargamente Zelensky como o líder de um governo imerso em corrupção. Biden, que não tem limites em suas denúncias dos oligarcas russos, mantém um silêncio respeitoso sobre seus análogos na Ucrânia, apesar de ser um fato amplamente conhecido que um punhado de bilionários controla a economia do empobrecido país.

Mas de todas as mentiras e falsas narrativas empregadas para legitimar o uso pela OTAN da Ucrânia como uma procuradora na guerra contra a Rússia, as mais insidiosos e reveladoras politicamente são aqueles que encobrem a história sórdida do nacionalismo fascistoide na Ucrânia, que levou a cabo o assassinato em massa de poloneses e judeus durante a Segunda Guerra Mundial. A mídia se cala sobre a elevação de Stepan Bandera, o assassino em massa que liderava a Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) durante a Segunda Guerra Mundial, ao status de uma figura a ser cultuada. A glorificação de Bandera e dos membros da OUN e de seu braço armado, o Exército Insurgente Ucraniano, como heróis nacionais começou com a chegada de Viktor Yushchenko à presidência após a Revolução Laranja, patrocinada pelos EUA. Depois de 2014, tornou-se um crime denegrir estes elementos fascistoides e furiosamente antissemitas, heróis do nacionalismo genocida.

Apoiadores de partidos de extrema-direita carregam tochas e uma faixa com um retrato de Stepan Bandera durante um ato em Kiev, Ucrânia, em 1o. de janeiro de 2019. Na faixa pode-se ler: "Nada pode parar uma ideia que pertence ao futuro." (AP Photo/Efrem Lukatsky)

Esta falsificação da história tem servido como o fundamento ideológico essencial para a legitimação de unidades fascistas armadas nas atuais forças armadas ucranianas, das qual o Batalhão Azov é o elemento mais notório. O Batalhão Azov tem desempenhado um papel central na sangrenta guerra civil no leste da Ucrânia que já cobrou mais de 14.000 vidas desde 2014. Sua influência não se limita à Ucrânia. Como explicado por um especialista que estudou as atividades do Batalhão Azov, 'é um movimento que tem servido e continuará a servir de modelo e inspiração para outros movimentos de extrema-direita ao redor do mundo. Sua aceitação ambígua de violência e suas ambições de fazer parte de uma extrema-direita transnacional cada vez mais poderosa fazem dele uma ameaça além das fronteiras da Ucrânia.'

Em aliança com tais forças reacionárias, o imperialismo americano e seus aliados da OTAN estão levando o mundo à beira de uma catástrofe nuclear. A administração Biden está agindo com um nível de imprudência que beira o comportamento criminosamente insano. Durante toda a Guerra Fria, foi aceita como uma verdade indiscutível que um conflito armado entre os Estados Unidos e a União Soviética tinha o potencial de escalar para uma devastadora troca nuclear e, portanto, tinha que ser evitada. Durante a crise dos mísseis cubanos de 1962, o temor primordial do Presidente Kennedy foi que uma leitura errada das intenções do adversário por líderes em Washington e Moscou pudesse levar a uma guerra nuclear. A administração Biden, sem falar de suas contrapartes em Londres e Berlim, parecem totalmente indiferentes a esse perigo.

Os comentários feitos por Biden são marcados por contradições óbvias. Há apenas algumas semanas, Biden declarou que um confronto militar entre os Estados Unidos e a Rússia poderia levar à Terceira Guerra Mundial. Mas agora ele está despejando armas na Ucrânia e multiplicando a probabilidade de conflito direto. Não é difícil imaginar um cenário em que Putin se sinta obrigado, com base em considerações políticas e militares, a atacar diretamente os países que estão fornecendo armas letais à Ucrânia para uso contra soldados russos. Como a administração Biden reagirá se a Rússia retaliar contra um país da OTAN e, como poderia muito bem acontecer, atingir e matar forças americanas no processo?

Por um lado, Biden minimiza as ameaças de Putin de utilizar armas nucleares como meras expressões de desespero. Mas é precisamente uma sensação de desespero que aumenta o perigo do uso de armas nucleares. Isto, no entanto, não parece preocupar Biden. Quando lhe perguntaram diretamente se ele estava preocupado que Putin pudesse agir com base na crença de que está em guerra com os Estados Unidos, Biden desprezou a questão com a resposta: 'Estamos preparados para tudo o que eles fizerem.'

Isso só pode significar que os Estados Unidos de fato reconhecem que a guerra entre a OTAN e a Rússia tem o potencial de escalar para a guerra nuclear. Mas nem Biden nem qualquer outro líder dos países da OTAN admitiram claramente este perigo ou declararam publicamente quais seriam as conseqüências de uma guerra nuclear.

Esta ocultação deliberada das consequências potencialmente catastróficas da guerra dos EUA-OTAN contra a Rússia é um crime de proporções historicamente monumentais.

Há uma inclinação geral para subestimar, e até mesmo desprezar, o risco de guerra. A maioria das pessoas tende a assumir tal postura porque as consequências da guerra nuclear são tão horríveis,

que somente os loucos permitiriam que isso acontecesse. A 'razão', supõe-se, deve prevalecer no final.

Mas toda a história do século XX e das duas primeiras décadas do século XXI depõem contra tal complacência tranquilizadora. As duas Guerras Mundiais, com suas dezenas de milhões de vítimas, aconteceram. O estouro de uma guerra não é um produto da insanidade dos indivíduos, mas das contradições letais do capitalismo.

O Secretário Geral da ONU, António Guterres, diz que a guerra no século XXI é um absurdo. Mas este 'absurdo' está indissoluvelmente ligado a uma série de outros 'absurdos': o absurdo da sociedade de classes, o absurdo da propriedade privada dos meios de produção, o absurdo da concentração de riquezas insondáveis em uma porcentagem infinitesimal da população mundial enquanto bilhões de pessoas vivem na pobreza massacrante e enfrentam a fome, o absurdo da destruição sistemática da ecologia do planeta, e o maior absurdo de todos: a divisão tribal da humanidade em Estados-nação que fomentam conflitos infinitos e desnecessários que servem apenas os interesses da oligarquia empresarial-financeira que governa a sociedade.

Não é 'absurdo' que os governos mais poderosos do mundo tenham se recusado a tomar medidas de saúde pública amplamente conhecidas e necessárias para erradicar o vírus Sars-CoV-2 que já ceifou aproximadamente 20 milhões de vidas, e que eles acreditem que a solução para a pandemia consiste em simplesmente ignorá-la?

Mas os mesmos líderes que presidiram a resposta desastrosa à pandemia estão agora tomando as decisões que estão levando à Terceira Guerra Mundial.

Em suas discussões particulares, o presidente Biden, o primeiro-ministro Boris Johnson, o presidente Macron, o chanceler Scholz e, nesse sentido, o presidente Putin reconhecem entre si que uma guerra mundial levaria a uma catástrofe societária. Mas no século XX, aqueles que conduziram seus países à Primeira e à Segunda Guerra Mundial também temiam as conseqüências do conflito global. Até Hitler entendia que suas ações levariam ao desastre. Mas isso não os impediu. No final, eles concluíram que a guerra oferecia a única saída de um complexo de crises políticas e sócio-econômicas intratáveis.

Esta é a situação que existe hoje. O sistema capitalista mundial atravessado por um complexo de contradições sociais, econômicas e políticas para as quais não existem soluções pacíficas. Os Estados Unidos,o epicentro explosivo do turbilhão capitalista mundial, enfrenta simultaneamente a perda de sua posição hegemônica global, a intratável deterioração de sua economia, e um colapso bastante avançado de suas instituições políticas domésticas e equilíbrio social.

Assustada com o perigo iminente de um colapso econômico e aterrorizada pelos sinais de uma crescente radicalização social da classe trabalhadora, a classe dominante vê a guerra como um meio para projetar tensões internas para fora, para 'unificar' artificialmente um país profundamente dividido empurrando-o para a guerra.

Mas o recurso à guerra vai intensificar a crise nos Estados Unidos e em todo o mundo. Os efeitos da guerra já estão sendo sentidos na inflação e nas restrições fatais de alimentos e de outros recursos vitais. Estas condições provocaram greves e manifestações de massa.

As contradições que ameaçam a guerra mundial também criam as condições para a revolução socialista mundial. O desafio diante da classe trabalhadora é este: fortalecer e acelerar as tendências objetivas que levam à revolução, enquanto minam e enfraquecem aquelas que levam à guerra mundial.

A base para a luta contra a guerra é o movimento da classe trabalhadora. Ela é a grande força social que tem o poder para acabar com a guerra, pôr um fim ao capitalismo, derrubar as fronteiras nacionais, e construir uma sociedade socialista mundial.

O Comitê Internacional da Quarta Internacional e os Partidos e Grupos Socialistas pela Igualdade filiados a ele rejeitam todos os apelos chauvinistas para a defesa do Estado-nação capitalista. Nós defendemos os princípios internacionalistas de Leon Trotsky, que escreveu em 1934:

Um 'socialista' que prega a defesa nacional é um reacionário pequeno-burguês a serviço do capitalismo decadente. Não se prender ao Estado nacional em tempo de guerra, e seguir não o mapa da guerra, mas o mapa da luta de classes, só é possível para aquele partido que já declarou guerra implacável ao estado nacional em tempo de paz.

Somente estando plenamente consciente do papel objetivamente reacionário do Estado imperialista pode a vanguarda proletária tornar-se invulnerável a todos os tipos de patriotismo social. Isto significa uma verdadeira ruptura com a ideologia e a política de 'defesa nacional' só é possível do ponto de vista da revolução proletária internacional.

Portanto, a tarefa central é a mobilização da classe trabalhadora internacional contra o impulso imperialista para a guerra. A escalada imprudente deve ser interrompida. A força da classe trabalhadora deve ser mobilizada para provocar o fim da guerra na Ucrânia.

O Comitê Internacional faz hoje um apelo especial aos trabalhadores corajosos e com consciência de classe da Rússia e da Ucrânia. Repudiem as políticas reacionárias de seus governos capitalistas. Rejeitem todo o projeto da restauração capitalista, que levou a esta terrível guerra.

Retornem às tradições do marxismo e do bolchevismo que uma vez inspiraram o povo trabalhador de seus países. Sabemos que essas tradições ainda vivem na consciência das massas e estamos certos de que eles reemergirão em ação coletiva.

A classe trabalhadora americana, europeia e internacional deve declarar guerra à guerra imperialista. A mais crucial de todas as tarefas políticas, portanto, é a construção da Quarta Internacional como o Partido Mundial da Revolução Socialista. Apelamos a todos vocês que concordam com esta perspectiva e estão prontos para assumir esta luta para aderir às nossas fileiras.

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