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O voto de silêncio de Lula no aniversário do golpe de 1964

Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, passa as tropas em revista na cerimônia de posse em Brasília em 1˚ de janeiro de 2023. [Photo: José Cruz/Agência Brasil]

Na última segunda-feira, completaram-se 61 anos do golpe militar no Brasil que, com apoio do imperialismo americano, derrubou o governo trabalhista de João Goulart e instaurou uma ditadura que permaneceu 21 anos no poder.

A data foi marcada pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), com a mesma orientação reacionária que adotou no aniversário histórico de 60 anos do golpe, no ano passado. Para não causar atritos com o alto-escalão das Forças Armadas, infestado de apologistas fascistas da ditadura militar, a orientação oficial do governo Lula foi ignorar a data.

Em 2024, o Grupo Socialista pela Igualdade (GSI) escreveu sobre o cancelamento das cerimônias preparadas pelo governo em memória do golpe militar:

O nervosismo do governo burguês do PT sobre o tema é diretamente proporcional à relevância assumida pelas lições do golpe de 1964 para a classe trabalhadora brasileira e internacional diante da crise política atual.

Essa avaliação é ainda mais verdadeira hoje.

Este ano, o aniversário do golpe ocorreu menos de uma semana após o julgamento que tornou réus o ex-presidente Jair Bolsonaro e sete aliados, quase todos membros do alto-escalão militar, acusados de integrar o “núcleo duro” da tentativa de golpe fascista que culminou no ataque às sedes dos poderes em Brasília, em 8 de janeiro de 2023.

A atitude complacente do governo do PT diante do perigo escancarado de um novo golpe militar contrasta com os ânimos de parcelas significativas da população.

A popularidade de Ainda Estou Aqui, filme que retrata o terror dos anos de chumbo da ditadura militar e venceu o Oscar de “melhor filme” no início de março, é um dos fenômenos culturais de massas mais significativos do último período no Brasil. Quase 6 milhões de brasileiros foram assisti-lo nos cinemas, em exibições que recorrentemente foram encerradas com manifestações políticas de repúdio à ditadura pelo público.

Como escrevemos, esse fenômeno reflete um amplo reconhecimento de “que a resolução da aguda crise política atual é impossível sem... um acerto de contas jamais realizado com os crimes e o legado sombrio da ditadura militar de 1964-85”.

As diretrizes do governo Lula suscitaram críticas de seus próprios aliados, conscientes da sua impopularidade. Um artigo do Estado de São Paulo reportou: “O silêncio sobre o 31 de março é visto como constrangedor por alguns petistas”.

Buscando preencher o vácuo político deixado por esse “silêncio constrangedor” do governo, o PT e seus aliados da pseudoesquerda promoveram manifestações no domingo, 30 de março, em diferentes capitais brasileiras convocadas com o slogan “Sem Anistia”.

As manifestações visavam, além de rememorar o golpe de 1964, contrapor-se aos atos realizados duas semanas antes por Bolsonaro e seus apoiadores, que defendem um projeto de lei para anistiar os envolvidos no golpe de 8 de janeiro de 2023. Essa demanda faz referência direta à “Lei da Anistia”, assinada pelos próprios militares em 1979, que conduziu à transição a um regime burguês civil sem julgamento ou punição aos responsáveis pelos crimes atrozes da ditadura militar.

Apesar de atraírem alguns milhares de pessoas às ruas, as manifestações foram significativamente contidas, menores e menos divulgadas do que os atos recentes bolsonaristas. Isso não foi acidental. O objetivo das lideranças da pseudoesquerda era liberar pressão da oposição crescente da juventude e dos trabalhadores às políticas reacionárias do governo Lula.

Isso foi explicitado nos comentários feitos de antemão por Guilherme Boulos, líder do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e da Frente Povo Sem Medo, união de movimentos e sindicatos que convocou os protestos. “A questão não é o tamanho do público. Nós não podemos deixas as ruas para o bolsonarismo”, Boulos disse à CNN em 28 de março, assumindo que as manifestações seriam ainda menores que as recentemente realizadas por Bolsonaro, consideradas um fiasco.

No discurso principal da manifestação em São Paulo, Boulos declarou ironicamente: “O mundo gira e nós ainda vamos ter oportunidade de pegar a Comissão de Direitos Humanos da Câmara e levar a marmita da Cozinha Solidária para ele lá [no Complexo Penitenciário da] Papuda”.

A falta de seriedade e o triunfalismo de Boulos são traços distintivos da política pequeno-burguesa encampada pelo PSOL. Nos últimos cinco anos, Boulos protagonizou duas campanhas fracassadas para prefeito de São Paulo, baseadas na tese política falida e reacionária de que um combate ao fascismo exige frentes políticas cada vez mais amplas com a burguesia e sua ala direita.

Também discursou no ato de São Paulo o líder do governo na Câmara, Lindbergh Farias. Buscando entorpecer o público em relação à ameaça persistente do fascismo, o deputado petista declarou: “Estou ligando para os líderes. Esta vai ser a semana em que nós vamos enterrar esse PL da Anistia. Não vão conseguir, eu digo aqui para vocês”.

O fato de que a maioria dos deputados é favorável ou neutra à medida que reabilita os autores da tentativa de golpe fascista de 2023, segundo Lindbergh, não passa de um mal-entendido que pode ser resolvido com algumas ligações.

No final do dia, Lula deu uma declaração pessoal insossa nas redes sociais. “Hoje é dia de lembrarmos da importância da democracia”, o presidente escreveu no X, sem se referir diretamente ao golpe militar. Ao invés disso, enalteceu o regime político civil, inaugurado em março de 1985, escrevendo:

Nosso povo, com muita luta, superou os períodos sombrios de sua história. Há 40 anos, vivemos em um regime democrático e de liberdades, que se tornou ainda mais forte e vivo com a Constituição Federal de 1988. Esta é uma trajetória que, tenho certeza, continuaremos seguindo. Sem nunca retroceder.

Nenhuma dose do “pensamento positivo” de Lula é capaz de apagar o fato de que o regime burguês brasileiro atravessa uma crise que demonstra seu fracasso em “superar os períodos sombrios” da história do país.

A conspiração de Bolsonaro e sua cabal militar-fascista não deixa dúvidas de que a experiência e as lições do golpe de 1964 permanecem vivas para a classe dominante brasileira.

Enquanto o governo Lula adota um silêncio covarde e capitulador sobre o golpe de 1964 e a ditadura militar, Bolsonaro fez exatamente o oposto. Desde o seu primeiro ano de mandato, o presidente fascistoide celebrou abertamente do 31 de março como a vitória da “Revolução de 1964”.

O General Walter Braga Netto, ex-ministro chefe da Casa Civil e companheiro de chapa de Bolsonaro, entrou no governo como ministro da Defesa, em 30 de março de 2021. Notavelmente, sua primeira ação no cargo foi emitir uma “ordem do dia” que, falsificando a história, descrevia o golpe de 1964 como um movimento popular iniciado nas ruas que permitiu aos militares garantir as “liberdades democráticas que hoje desfrutamos”.

Há paralelos marcantes entre essa narrativa, e o desenvolvimento do golpe de 1964 como um todo, e a estratégia que guiou a tentativa de golpe fascista de 2022-23, que teve Braga Netto como um dos principais e talvez o mais inescrupuloso articulador.

As evidências publicadas no relatório da Polícia Federal de novembro apontam Bolsonaro, Braga Netto e seus aliados instigaram uma série de ações violentas com o objetivo expresso de criar condições para os militares assumirem o poder com o pretexto de “restabelecer a ordem”, como há 61 anos.

O principal centro de onde partiram essas ações foi o acampamento dos apoiadores fascistas de Bolsonaro em frente ao Quartel Geral do Exército em Brasília. Em 12 de dezembro, durante a diplomação de Lula, seus participantes queimaram ônibus e atacaram prédios públicos criando caos na capital brasileira. Em 8 de janeiro, protagonizaram a invasão das sedes de governo.

Os acampamentos fascistas em frente aos quartéis foram saudados como “manifestações populares” numa nota oficial das Forças Armadas que afirmava, ao mesmo tempo, seu “compromisso irrestrito e inabalável com o povo brasileiro”.

Eventuais atos de repressão policial contra esses acampamentos serviriam, nas palavras dos conspiradores fascistas, como “eventos disparadores” para uma intervenção militar que colocaria o poder nas mãos de um “Gabinete Institucional de Gestão de Crise”, comandado por Braga Netto e outros generais.

Tal gabinete deveria cumprir o mesmo papel que o “Comando Supremo da Revolução” dirigido pelos três comandantes das Forças Armadas em 1964, que supervisionou a transição para um regime ditatorial consolidado com o primeiro Ato Institucional de 9 de abril.

Os acampamentos fascistas diante dos quarteis, que o atual ministro da Defesa de Lula, José Múcio Monteiro, afirmou terem sido frequentado por seus “amigos” e “familiares”, são reminescentes diretos da Marcha da Família com Deus pela Liberdade de 1964.

Com slogans como “Verde e amarelo, sem foice nem martelo” e “O Brasil não será uma nova Cuba”, a Marcha da Família levou os setores mais reacionários da pequena burguesia às ruas de São Paulo em 19 de março de 1964, servindo como fachada “popular” para a subsequente tomada do poder pelos militares. A manifestação foi organizada e financiada pelo infame Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), think tank contrarrevolucionário da elite capitalista brasileira clandestinamente patrocinado pela CIA.

O “voto de silêncio” entre Lula e os militares só serve para maquiar as tradições fascistas que continuam a ser cultivadas no interior dos quartéis e servindo de inspiração para futuros golpes. Hoje não somente o 31 de março de 1964 serve como objeto de culto, mas também o 8 de janeiro de 2023, sua primeira tentativa de tomar o poder no século XXI.

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