Estamos publicando a seguir o vídeo e o texto do discurso do presidente do Conselho Editorial Internacional do World Socialist Web Site, David North, que abriu o Ato Online do Dia Internacional dos Trabalhadores realizado pelo Comitê Internacional da Quarta Internacional em 3 de maio.
Ao iniciarmos esta celebração do Primeiro de Maio de 2025, o Comitê Internacional da Quarta Internacional, o Partido Mundial da Revolução Socialista, envia suas saudações e manifesta sua solidariedade a todos aqueles que estão sob ataque e sendo privados de seu direito democrático à liberdade e até mesmo à vida pelos Estados capitalistas e suas agências policiais em todo o mundo.
O Comitê Internacional faz um chamado aos trabalhadores e à juventude para que ampliem a luta pela liberdade do socialista ucraniano Bogdan Syrotiuk, que está preso há um ano e aguarda julgamento sob a acusação de “traição” - ou seja, lutando pela unidade dos trabalhadores e da juventude ucraniana e russa em oposição à guerra por procuração instigada pelo imperialismo americano e europeu e contra o chauvinismo nacional reacionário promovido pelos regimes em Kiev e Moscou.
Declaramos nossa solidariedade ao povo de Gaza, que foi e ainda está sendo submetido à campanha de violência genocida lançada pelo criminoso regime israelense, que age com o apoio de todos os governos imperialistas.
O Comitê Internacional e os partidos pela Igualdade Socialista afiliados a ele prometem que continuarão a lutar pela mobilização da classe trabalhadora em apoio à luta do povo palestino contra o Estado israelense. Repetimos nosso apelo para que a classe trabalhadora e a juventude em Israel repudiem a ideologia assassina e o beco sem saída político do chauvinismo sionista e se unam aos seus irmãos e irmãs árabes na luta por uma Palestina socialista e uma federação socialista do Oriente Médio.
O Partido pela Igualdade Socialista nos Estados Unidos exige o retorno imediato de Mahmoud Khalil, Rümeysa Öztürk e Leqaa Kord - detidos pelos agentes da Gestapo de Trump - para suas casas nos Estados Unidos. Exigimos o fim imediato da perseguição a todos os estudantes e professores que estão exercendo o direito à liberdade de expressão garantido pela Constituição dos EUA tanto para cidadãos quanto para não cidadãos.
Também denunciamos a deportação brutal de centenas de migrantes que vivem nos Estados Unidos - como Andry Hernandez Romero e Kilmar Armando Abrego Garcia - para um campo de concentração em El Salvador. Há vinte anos, o mundo ficou chocado com a publicação de fotos que expunham a tortura de iraquianos no campo de prisioneiros de guerra de Abu Ghraib. O governo Bush procurou se esquivar da responsabilidade direta pelo abuso sádico dos soldados iraquianos, atribuindo os crimes a atos não autorizados de criminosos individuais.
Essa tentativa de fugir da responsabilidade nem sequer está sendo tentada hoje. O governo Trump se vangloria de seus planos de deportar milhares de migrantes que vivem atualmente nos Estados Unidos para o notório Centro de Confinamento de Terrorismo de El Salvador, conhecido como CECOT. Essa instalação, projetada para abrigar 40.000 seres humanos, é o equivalente a um campo de concentração. As celas abrigam de 65 a 156 prisioneiros, onde eles ficam confinados por 23,5 horas por dia sob iluminação artificial perpétua. Eles dormem em beliches de metal sem colchões, travesseiros ou lençóis. Os presos são submetidos a espancamentos e privados de alimentação adequada e cuidados médicos necessários. Eles são sistematicamente humilhados e há relatos de tortura, incluindo o uso de choques elétricos.
Quando o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, visitou a Casa Branca em abril, o presidente Trump declarou publicamente sua intenção de deportar americanos “crescidos em casa” - ou seja, cidadãos dos EUA - para o CECOT, afirmando também que seria necessário construir mais cinco campos para acomodar as dezenas de milhares que Trump está ameaçando deportar.
Entre as vítimas mais recentes do arrastão de Trump estão três crianças de 2, 4 e 7 anos, todas cidadãs americanas, que foram deportadas para Honduras. Uma das crianças tem 4 anos e foi diagnosticada com câncer em estágio 4. A criança foi deportada sem medicação e sem acesso a cuidados médicos.
Ao comemorarmos o Primeiro de Maio de 2025, é necessário colocar os eventos que estão ocorrendo no contexto histórico apropriado. Este Primeiro de Maio coincide com os 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial na Europa. Em 8 de maio de 1945, o regime nazista se rendeu. Três meses depois, seguiu-se a rendição do Japão, que ocorreu após a incineração de Hiroshima e Nagasaki por bombas atômicas lançadas pelos Estados Unidos.
Os seis anos da Segunda Guerra Mundial, entre 1939 e 1945, testemunharam a barbárie em uma escala que superou tudo o que o mundo havia experimentado anteriormente. A revelação dos campos de concentração expôs a enormidade da barbárie fascista. O genocídio dos judeus europeus - a implementação de uma campanha sistematicamente planejada de assassinato industrial em massa - foi apenas uma parte horrível da violência global desencadeada pelo capitalismo.
A guerra tirou a vida de 70 a 85 milhões de pessoas, aproximadamente 3% da população mundial. As mortes de militares são estimadas entre 21 e 25 milhões enquanto as mortes de civis são estimadas entre 50 e 55 milhões. Após a guerra, os vencedores afirmaram que não se poderia permitir que os horrores daquele conflito acontecessem novamente. No julgamento de Nuremberg de 1945-46, os promotores americanos proclamaram que as novas leis que responsabilizavam os líderes nazistas por genocídio e crimes contra a paz seriam invocadas no futuro contra líderes de qualquer nação, inclusive os Estados Unidos, que cometessem atos semelhantes.
É claro que essa promessa foi rapidamente esquecida. Nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, os líderes das potências imperialistas travaram guerras que resultaram na morte de milhões de pessoas. Mas mesmo levando em conta seu histórico sangrento, a ordem mundial imperialista-capitalista está passando por um processo de regressão política e moral impressionante. Em meio à Primeira Guerra Mundial, Lenin alertou que o regime imperialista tende a eliminar, na prática, a distinção entre regimes absolutistas e democráticos. A regra é “reação em toda a linha”.
Essa regra está sendo comprovada por eventos contemporâneos. O crime de genocídio está agora sendo implementado contra o povo de Gaza diante dos olhos do mundo inteiro. O bombardeio nazista de Guernica em 1937 e de Roterdã em 1940 foram vistos como atos perversos que só poderiam ser cometidos por um Estado criminoso. Mas agora a aniquilação sistemática de Gaza, sobre cujos habitantes indefesos estão sendo lançadas bombas de 1.000 kg, é defendida pelos governos “democráticos” da Europa e da América do Norte. Longe de condenar Israel, as potências imperialistas - ignorando as conclusões do Tribunal Penal Internacional - denunciam e criminalizam os protestos de estudantes e trabalhadores contra o genocídio. Com um nível de falsidade e cinismo que se acreditava ser praticado apenas por regimes totalitários, as palavras são distorcidas e recebem um significado que é o oposto de sua conotação original e objetiva. Assim, a denúncia de genocídio é agora proclamada como “antissemitismo”, e os judeus que participam de manifestações contra a campanha nazista de assassinato em massa são denunciados como antissemitas.
Após o colapso do regime nazista, inúmeros acadêmicos argumentaram que o Terceiro Reich foi um evento histórico bizarro, algo como um acidente de carro imprevisível, que desafiava a explicação lógica. Na tentativa de refutar o marxismo e absolver o capitalismo e suas elites dominantes da responsabilidade, argumentou-se que a causa do fascismo não se encontrava na economia capitalista e na geopolítica imperialista, mas na psicologia, ou seja, no caráter irracional da consciência humana.
Essas explicações não forneceram nenhuma visão cientificamente fundamentada sobre as causas reais das catástrofes das décadas de 1930 e 1940, e são igualmente inúteis para explicar os eventos que estão ocorrendo atualmente. Oitenta anos após o colapso do regime nazista e o fim da Segunda Guerra Mundial, a democracia constitucional está em colapso, a influência e o poder dos políticos fascistas estão crescendo constantemente. Todas as potências imperialistas estão aumentando maciçamente os gastos militares. A humanidade está mais próxima de uma guerra mundial nuclear do que em qualquer outro momento desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
As causas essenciais da queda para a barbárie política e para a guerra global catastrófica são as mesmas contradições econômicas e sociais do sistema capitalista que resultaram em guerra e fascismo no século passado. Essas contradições inter-relacionadas são, em primeiro lugar, a incompatibilidade da economia mundial com o sistema capitalista de Estados nacionais; e, em segundo lugar, o caráter socialmente destrutivo da propriedade privada capitalista das forças produtivas, controlada por oligarcas loucos por dinheiro, e a produção social que envolve o trabalho de bilhões de pessoas que compõem a classe trabalhadora internacional.
Essas contradições operam em uma escala e intensidade várias ordens de magnitude maiores do que aquelas que levaram à Primeira e à Segunda Guerras Mundiais. A soberania das economias nacionais foi dissolvida por uma vasta rede de produção global. A produção de commodities envolve um processo que integra a mão de obra de trabalhadores de todo o mundo. As tentativas de identificar a origem nacional específica de uma grande parte das mercadorias são praticamente absurdas. Embora invoquem a santidade da economia nacional e proclamem a produção nacional como seu ideal supremo, o objetivo real de todos os países imperialistas é o controle ou, pelo menos, uma posição favorável nas redes mundiais de produção e na cadeia global de commodities. A luta pelo domínio ou até mesmo pela sobrevivência leva inevitavelmente a lutas amargas pelo acesso a recursos essenciais, incluindo mão de obra e mercados mundiais.
Os Estados Unidos são os principais protagonistas dessa luta mundial. O que confere às suas ações um caráter especialmente implacável e violento é o fato de que a luta da classe dominante americana pela hegemonia global está ocorrendo no contexto do declínio prolongado de seu poder econômico real. Os saudosos dias do poder produtivo americano, quando suas indústrias dominavam o mundo, quando a autoridade do dólar se baseava em sua enorme base industrial, autenticada por superávits de comércio exterior, já se foram há muito tempo.
No último meio século, a base real da economia americana foi transformada de produção industrial em parasitismo financeiro. A riqueza da classe dominante americana não se baseou no crescimento da produção, mas na expansão ilimitada da dívida. O capitalismo americano agora consiste em um vasto edifício de capital fictício - reivindicações legais de fluxos de renda futuros decorrentes de empréstimos e formas infinitas de criação de dívidas.
A dívida pública bruta dos EUA era de US$ 371 bilhões em 1970. Ela aumentou para US$ 908 bilhões em 1980. Em 2020, havia subido para US$ 26 trilhões e, no início deste ano, havia subido mais US$ 10 trilhões. A escala do parasitismo está quase além da compreensão. O caráter fictício da riqueza é exemplificado pelo fato de que apenas cerca de 15% dos fundos que circulam pelas instituições financeiras dos EUA financiam novos investimentos empresariais. Os 85% restantes buscam ativos existentes. Assim, o preço das ações compradas e vendidas em Wall Street e nos mercados financeiros globais tem pouca ou nenhuma relação com a geração de mais-valia em um processo de produção real que envolve o dispêndio de força de trabalho.
Um estudo sobre finanças internacionais publicado em 2021 pelo McKinsey Global Institute relatou: “De 2000 a 2020, os ativos financeiros, como ações, títulos e derivativos, cresceram de 8,5 para 12 vezes o PIB. Com o aumento dos preços dos ativos, quase US$ 2 em dívidas e cerca de US$ 4 em passivos totais, incluindo dívidas, foram criados para cada US$ 1 em novos investimentos líquidos.”
Nos últimos meses, muito tem sido escrito sobre a crescente crise de confiança no dólar americano, que levou a várias vendas acentuadas em Wall Street e ao aumento do preço do ouro para um recorde de US$ 3.500 a onça. Isso é 100 vezes mais do que o preço oficial do ouro em agosto de 1971, quando o presidente Richard Nixon encerrou a conversibilidade do dólar em ouro à taxa de US$ 35 por onça.
O significado objetivo da “perda de confiança” é que o caráter insustentável dos enormes déficits comerciais dos Estados Unidos e a montanha de dívidas relacionada a eles são agora reconhecidos pelos investidores globais. Dito sem rodeios, teme-se que os Estados Unidos estejam se aproximando da falência.
Aqui está a chave para entender as políticas do governo Trump. Por mais loucas e imprudentes que suas políticas possam parecer, todas elas são, em última análise, respostas desesperadas a uma crise real do imperialismo americano. Sem qualquer resposta humana aos problemas que são insolúveis com base no capitalismo, as ações tomadas por Trump apenas aprofundam a crise e pioram a situação.
Os déficits comerciais de vários trilhões de dólares serão reduzidos por meio da imposição de tarifas. Déficits orçamentários enormes serão cortados por meio de um ataque selvagem a programas sociais essenciais. Incapaz de criar riqueza por meio da produção, Trump está planejando abertamente saquear os recursos de outros países. Talvez na única declaração verdadeira que fez desde que tomou posse, Trump afirmou abertamente que o destino da Ucrânia é de interesse dos Estados Unidos apenas como fonte de minerais estratégicos no valor de trilhões de dólares.
Emulando a anexação da Áustria e da Tchecoslováquia por Hitler em 1938, Trump está ameaçando tomar o Canadá e a Groenlândia. Ele declarou sua intenção de restabelecer o controle americano sobre o Canal do Panamá.
Há uma nítida semelhança entre as motivações objetivas e os processos de tomada de decisão de Trump e Hitler. O falecido historiador britânico Tim Mason descreveu o governo de Hitler como “um regime cuja liderança estava cada vez mais enredada em contradições econômicas e políticas, em grande parte criadas por ele mesmo, e que buscava escapar, resolver ou manter sua identidade distinta por meio de uma série de mudanças repentinas na política e de riscos cada vez mais explosivos”. Com a ressalva de que a crise subjacente não foi criada por Trump, que vem se desenvolvendo há décadas, a descrição do historiador sobre a formulação de políticas de Hitler também se aplica ao atual presidente americano.
As políticas de Trump, quando examinadas não como espasmos mentais de um imbecil maligno, mas como a resposta da classe dominante americana a uma crise para a qual não existe resposta progressista ou pacífica, justificam a percepção de Trotsky sobre a essência reacionária e violenta da “vontade de poder” dos Estados Unidos. Ele escreveu em 1928:
No período de crise, a hegemonia dos Estados Unidos operará de forma mais completa, mais aberta e mais implacável do que no período de expansão. Os Estados Unidos buscarão superar e se livrar de suas dificuldades e males principalmente às custas da Europa, independentemente de isso ocorrer na Ásia, no Canadá, na América do Sul, na Austrália ou na própria Europa na forma pacífica ou por meio da guerra.
Seis anos depois, em 1934, ele fez mais uma previsão assustadora:
O mundo está dividido? Ele deve ser redividido. Para a Alemanha, era uma questão de “organizar a Europa”. Os Estados Unidos devem “organizar” o mundo. A história está colocando a humanidade frente a frente com a erupção vulcânica do imperialismo americano.
Essa erupção já está em andamento. Mas a preparação para a guerra global exige a escalada da guerra em casa. Desde o início de seu segundo mandato, Trump tem usado o cargo da presidência como cabine de comando de uma ditadura militar-policial. Ele não finge seu desprezo pela Constituição e pelas convenções legais. O uso repetido de Ordens Executivas por Trump, em vez de buscar a aprovação do Congresso, tem a intenção de demonstrar seus poderes ilimitados. Uma Ordem Executiva assinada por Trump e emitida em 28 de abril autoriza o uso ilimitado do poder de polícia, sem restrições legais. A Seção 4 da Ordem é intitulada “Usando Ativos de Segurança Nacional para Lei e Ordem”. Segundo ela,
No prazo de 90 dias a partir da data deste decreto, o Procurador-Geral e o Secretário de Defesa, em consulta com o Secretário de Segurança Interna e os chefes de agências, conforme apropriado, aumentarão a provisão de ativos militares e de segurança nacional excedentes em jurisdições locais para auxiliar a aplicação da lei estadual e local.
A seção então afirma que
o Secretário de Defesa, em coordenação com o Procurador Geral, determinará como os recursos militares e de segurança nacional, treinamento, capacidades não letais e pessoal podem ser utilizados de forma mais eficaz para prevenir o crime.
Essa Ordem, sem precedentes na história americana, abole - sob o pretexto transparentemente fraudulento de “combater o crime” - a Declaração de Direitos. Ressaltando o caráter ditatorial dessa Ordem Executiva, a Seção 6 declara:
O Procurador-Geral e o Secretário de Segurança Interna utilizarão as Forças-Tarefa de Segurança Interna (HSTFs, na sigla em inglês) formadas de acordo com a Ordem Executiva 14159 de 20 de janeiro de 2025 (Protegendo o Povo Americano Contra Invasão) para coordenar e avançar os objetivos desta ordem.
Assim como em suas políticas internacionais, Trump está agindo não apenas com base em seus caprichos individuais, mas como representante da oligarquia que governa os Estados Unidos.
O governo Trump não é uma aberração, mas sim a expressão política da incompatibilidade da desigualdade social maciça com a democracia. Escolhendo como seu principal conselheiro o homem mais rico do mundo e equipando seu gabinete com megamilionários e bilionários, Trump dificilmente se preocupa em esconder o fato de que seu governo é da, pela e para a oligarquia. Mas Trump não criou a oligarquia. Ela é o produto do processo de financeirização e da acumulação de capital fictício.
O foco economicamente patológico no aumento do que é chamado de valor para o acionista - ou seja, o fluxo de renda dos oligarcas - legitima um sistema inerentemente corrupto no qual os lucros são gerados não pela atividade produtiva, mas pela manipulação de ativos financeiros, exemplificados por recompras de ações, fusões e aquisições alavancadas.
Em termos absolutos, mesmo quando ajustada pela inflação, a riqueza pessoal dos oligarcas multimilionários ultrapassa a dos barões ladrões do final do século XIX e início do século XX. A escala de riqueza concentrada em uma seção infinitesimal da população praticamente desafia a compreensão. Uma análise recentemente publicada sobre a distribuição de riqueza nos Estados Unidos relatou que, em 2024, US$ 1 trilhão em riqueza adicional foi gerado para as 19 famílias americanas mais ricas. Esse 0,00001% da população - um em cada dez milhões - é responsável por quase 2% da riqueza total das famílias americanas.
O processo de polarização social está crescendo como um tumor maligno. Em 2021, havia 1.370 bilionários. No final de 2024, o número havia subido para 1.990, um aumento de 45%. O 1% mais rico detém 31% da riqueza dos Estados Unidos. Coletivamente, os 10% mais ricos detêm 67% da riqueza do país. Para fins de comparação, os 50% mais pobres detêm apenas 3%.
Esse nível impressionante de desigualdade social não pode ser sustentado democraticamente. Deve-se enfatizar que os oligarcas dependem do fornecimento contínuo e da injeção de crédito nos mercados financeiros, especialmente em situações - como em 2008 e 2020 - em que todo o sistema fraudulento é confrontado com o perigo de colapso.
Esse processo foi exemplificado pela resposta do Federal Reserve e dos bancos centrais à pandemia de COVID-19. A principal preocupação dos governos não era salvar vidas, mas, sim, salvar os mercados financeiros e seus investidores da classe dominante.
Como explicou meu camarada Nick Beams, que em breve falará neste ato:
A riqueza da oligarquia financeira é sustentada não pela criação de valor por meio da produção, mas pela injeção contínua de capital fictício nos mercados financeiros pelo Estado.
Em termos objetivos, o ataque do governo Trump à democracia significa o realinhamento violento das formas políticas de governo de acordo com as relações de classe que existem na sociedade. A Casa Branca flutua sobre um monte de esterco fedorento de fraude. Trump, o mestre vendedor ambulante e maestro da vigarice, nada mais é do que a personificação de uma oligarquia criminosa.
A experiência americana não é única. Ela é apenas a expressão mais pronunciada de uma onda de contrarrevolução política e social que está varrendo todos os principais países capitalistas. Oitenta anos depois que o cadáver de Mussolini foi pendurado pelos calcanhares em Roma e Hitler terminou sua vida com um tiro na boca, os partidos e políticos fascistas estão ganhando força em praticamente todos os países avançados. Esse fato político e suas implicações perigosas devem ser enfrentados. Qualquer suavização da realidade, acompanhada de um autoengano tranquilizador de que o perigo de alguma forma passará e tudo voltará ao normal, serve apenas para abrir caminho para a catástrofe política.
Mas reconhecer a extensão do perigo fascista e a ameaça de uma guerra mundial não significa aceitar nenhum deles como o resultado inevitável da crise do capitalismo mundial. Um resultado muito diferente é possível. Não se deve subestimar o perigo do fascismo. Mas também não se deve exagerá-lo. Trump, em suas intenções e personalidade, é um fascista. Mas ele ainda não comanda, como Hitler, um movimento fascista de massas. A história ensina que o desenvolvimento e a vitória de um movimento reacionário de massas como esse depende da desmoralização da classe trabalhadora. Mas essa não é a situação que prevalece hoje.
É verdade que, durante os primeiros cinco anos desta década, a política capitalista adquiriu um caráter ferozmente reacionário.
Juntamente com o crescimento da reação capitalista-imperialista, outro processo compensatório está em andamento - o da crescente radicalização social e política da classe trabalhadora. Esse movimento está se fortalecendo em escala mundial.
As mesmas contradições econômicas, sociais e políticas que levam as elites dominantes ao fascismo e à guerra fornecem o impulso para a intensificação da luta de classes e da revolução social. A eclosão da Primeira Guerra Mundial em agosto de 1914 foi seguida, em fevereiro de 1917, pela eclosão da Revolução Russa, que levou à conquista do poder pelos bolcheviques em outubro de 1917 e ao estabelecimento do primeiro Estado operário do mundo. A Segunda Guerra Mundial liberou as comportas de grandes lutas revolucionárias da classe trabalhadora e das massas coloniais que se espalharam por todo o mundo.
A mesma dialética histórica está em ação hoje. A crise global, que se desenvolve com base em um sistema capitalista obsoleto, permite duas possíveis resoluções - ou o fim da sociedade humana como consequência do fascismo e da guerra ou sua renovação por meio da revolução socialista.
Apesar de todos os perigos que existem atualmente, e sem subestimar os imensos recursos e capacidades destrutivas da classe dominante, o potencial para a revolução social é maior do que em qualquer outro momento da história. O poder da classe trabalhadora, em um sentido objetivo, está em seu apogeu. A desintegração do sistema de Estados nacionais corroeu drasticamente a base histórica do regime capitalista. Mas a globalização da produção expandiu enormemente o tamanho físico e o poder econômico potencial da classe trabalhadora internacional.
Apenas nos últimos 30 anos, o proletariado global cresceu em mais de 1 bilhão de pessoas. O tamanho do proletariado aumentou na África, na Ásia e na América Latina. Nos países avançados, o processo de proletarização absorveu ocupações que antes eram definidas como da pequena burguesia ou da classe média. Mais de 60% dos americanos vivem de salário em salário, incluindo muitos que ocupavam funções que antes eram de classe média. Mesmo os trabalhadores mais bem remunerados agora obtêm praticamente toda a renda por meio de salários. Na década de 1930, o presidente Franklin Roosevelt comentou cinicamente que evitaria a revolução transformando os Estados Unidos em uma nação de proprietários de imóveis. No entanto, nos últimos 45 anos, a propriedade de imóveis da classe trabalhadora caiu vertiginosamente, de 65% para 35%.
A outrora famosa “Terra das Oportunidades Ilimitadas” tornou-se a terra das dívidas impagáveis. A dívida das famílias americanas agora é de US$ 17,5 trilhões, dos quais as hipotecas respondem por US$ 12,4 trilhões, os empréstimos para compra de carros por US$ 1,6 trilhão, a dívida do cartão de crédito por US$ 1,1 trilhão e os empréstimos pessoais por US$ 600 bilhões. Quanto aos estudantes, que estão apenas começando na vida, eles carregam um fardo de dívidas de US$ 1,7 trilhão. Em média, 43 milhões de estudantes atuais ou antigos devem US$ 37.000. Muitos estudantes de pós-graduação devem muito mais.
Mas essas estatísticas, por mais significativas que sejam como indicadores de estresse social, não são, por si só, o propulsor decisivo da revolução socialista. O processo de globalização, devastador para o sistema do Estados nacionais, unifica a classe trabalhadora. As cadeias globais de mercadorias podem ser transformadas em redes globais para uma ação revolucionária conscientemente dirigida.
Atualmente, estamos vivendo em meio a uma das maiores revoluções científicas da história. Os avanços nas comunicações, um subproduto dessa revolução, colocaram à disposição da classe trabalhadora meios extraordinários para planejar, organizar e dirigir suas lutas em escala global.
Mais uma arma poderosa está agora disponível para ser utilizada pela classe trabalhadora. O desenvolvimento das tecnologias de Inteligência Artificial (IA) possibilita um aumento exponencial na capacidade da classe trabalhadora de acessar informações e conhecimento. É claro que as elites dominantes procuram usar essas tecnologias no interesse do sistema de lucro.
Mas a IA abre possibilidades até então inimagináveis para a educação e o esclarecimento político das massas. O apelo aos trabalhadores no hino histórico do movimento socialista, “A Internacional” - “Livre-se de todas as suas superstições” - adquiriu um meio poderoso para sua efetivação. Quando observou a primeira detonação de uma bomba atômica em julho de 1945, o físico Robert Oppenheimer lembrou-se de uma passagem da escritura hindu: “Agora eu me tornei a morte, a destruidora de mundos”. Com o desenvolvimento da IA, que pode ser mais bem caracterizada como “Inteligência Humana Expandida Exponencial”, a tecnologia - na medida em que penetra e influencia a prática política das massas - torna-se a destruidora do capitalismo.
Mas a tecnologia, por si só, não pode levar à revolução socialista. Para que a classe trabalhadora imponha sua solução socialista à crise do capitalismo mundial, ela precisa resolver a crise da direção revolucionária. Ela deve se libertar do controle dos partidos políticos pró-capitalistas e das burocracias sindicais que fazem de tudo para suprimir a luta de classes.
Acima de tudo, a classe trabalhadora deve repudiar todas as variedades de nacionalismo reacionário. O apelo à unidade da classe trabalhadora internacional não é um sonho utópico. É o único e essencial fundamento realista da estratégia revolucionária no mundo moderno.
Há 50 anos, os trabalhadores e camponeses vietnamitas comemoraram o Primeiro de Maio de 1975 entrando em Saigon e derrubando o governo fantoche dos Estados Unidos. Foi uma grande derrota para o imperialismo americano. Mas a revolução foi isolada pelas políticas nacionais das burocracias stalinistas em Moscou e Pequim. Apesar de todos os sacrifícios de 30 anos de luta, o isolamento nacional levou à restauração do capitalismo e à transformação do Vietnã em uma fonte de mão de obra barata.
Essa experiência histórica é mais uma demonstração de que, para a classe trabalhadora, não há soluções nacionais para as contradições globais do imperialismo. A alegação de que uma aliança multipolar de Estados nacionais representa uma alternativa à hegemonia do imperialismo americano é uma ilusão. O que é necessário não é uma nova aliança estratégica de Estados nacionais, mas a abolição do sistema de Estados nacionais e da propriedade capitalista dos meios de produção.
Estamos entrando em um período das maiores lutas revolucionárias da história mundial, das quais depende o destino da humanidade. Não faz sentido perder tempo especulando se a classe trabalhadora é uma classe revolucionária ou se o socialismo é possível. Marx escreveu em suas Teses sobre Feuerbach que os debates sobre a realidade ou não realidade do pensamento, apartados da prática, não têm sentido. Os debates sobre a possibilidade de parar a guerra, derrotar o fascismo e estabelecer o socialismo, separados da participação na luta de classes, são totalmente inúteis. A possibilidade de alcançar o socialismo será demonstrada na prática.
A história do século passado demonstrou a possibilidade da revolução socialista. Mas também provou que a vitória depende da construção de uma direção marxista-trotskista na classe trabalhadora. O Comitê Internacional da Quarta Internacional e seus grupos e partidos Socialistas pela Igualdade dedicam-se ao cumprimento dessa tarefa.
Neste importante Primeiro de Maio, conclamamos todos aqueles que estão participando deste ato mundial a se juntarem ao nosso partido mundial e lutarem pela vitória do socialismo.
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