Publicado originalmente em inglês em 3 de junho de 2025
Uma onda de greves de professores, do México ao Panamá, Colômbia, Argentina e Brasil, sinaliza a emergência de uma contraofensiva aos ataques à educação pública, às aposentadorias e a outros direitos sociais na América Latina.
Uma greve iniciada em 15 de maio por mais de 20 mil professores filiados à Coordenação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE) do México se transformou em uma mobilização prolongada, marcada por bloqueios de estradas, a ocupação da praça Zócalo na Cidade do México, uma manifestação que fechou temporariamente o aeroporto da Cidade do México e confrontos com a polícia.
O movimento desafia a continuidade da presidente Claudia Sheinbaum nas políticas implementadas pelos seus antecessores, abertamente de direita. Especialmente a lei ISSSTE de 2007, que entregou o controle das aposentadorias a empresas privadas e introduziu um aumento gradual da idade de aposentadoria. Os professores exigem a revogação da lei, a redução e congelamento da idade mínima de aposentadoria e um aumento salarial de 100%.
Os grevistas argumentam que essa reforma de 2007 — mantida por sucessivos governos, incluindo o de Andrés Manuel López Obrador (AMLO) e o de Sheinbaum — prioriza as elites financeiras em detrimento dos trabalhadores.
Sheinbaum insistiu que não há verba para voltar ao sistema anterior. Os representantes do governo na negociação ofereceram apenas o congelamento da idade mínima de aposentadoria (ou seja, a “palavra” da classe dominante de que não buscará aumentá-la no futuro), um mísero aumento salarial de 9%, uma semana de férias e as típicas “comissões” sem saída para discutir melhorias no sistema de aposentadorias.
“Eliminar a reforma traz diversos problemas,” disse Sheinbaum durante uma coletiva de imprensa, citando “restrições orçamentárias”.
O significado disso é claro: o governo populista de esquerda do partido Morena não quer se chocar com os interesses de lucro das empresas de previdência privada, nem aumentar os impostos sobre as corporações ou sobre os ricos (Sheinbaum fez campanha opondo-se a tais impostos), ou ainda redirecionar os fundos que hoje pagam os capitalistas abutres de Wall Street e da Cidade do México, que detêm a dívida pública.
No sábado, após 17 dias de protestos, a seção 22 da CNTE de Oaxaca, que tem o maior contingente nas manifestações, quase retirou a ocupação da praça Zócalo e das ruas vizinhas com base nessas “ofertas”.
Enquanto os dirigentes discutiam, centenas de professores de base forçaram a entrada no local da reunião, com pelo menos 200 subindo ao palco para falar. Como relata La Jornada, “Apesar da forte chuva, os educadores permaneceram nas entradas do prédio, que estavam bloqueadas. ‘Nós não queremos uma direção traidora. Aqui está a base que quer continuar lutando por uma aposentadoria digna’, gritaram os manifestantes.”
Professores que interromperam suas vidas, viajando de longe para se juntar ao protesto, logo perceberam que a convocação para votar pela saída da ocupação era um sinal de que a direção se recusa a travar uma verdadeira luta e busca apenas manter seu lugar à mesa com o governo.
O confronto com o governo atingiu um ponto crítico em 23 de maio, quando os professores bloquearam o principal aeroporto internacional da Cidade do México e fecharam vários terminais. Sheinbaum cancelou negociações e mobilizou a Polícia e o Exército com equipamentos antidistúrbios.
Enquanto as tarifas de Trump estrangulam o crescimento econômico do México, o partido Morena prioriza incentivos corporativos, especialmente baixos impostos e mão de obra e benefícios baratos, para ganhar investimentos de capital. Em outras palavras: como representante dos interesses de bilionários locais subordinados ao imperialismo americano, o governo Sheinbaum e seus pares na região estão forçando os trabalhadores a pagar pelo agravamento da crise do capitalismo global, marcado pelas tarifas de Trump e os estágios iniciais de uma terceira guerra mundial.
Enquanto as negociações fracassavam na Cidade do México, na segunda-feira, o Panamá permanecia sob uma greve multisetorial, iniciada por professores em 23 de abril contra o governo de direita de José Raúl Mulino. Os trabalhadores se opõem a cortes nas aposentadorias, outros ataques a direitos trabalhistas, concessões a Trump no assunto do controle do canal e negociações para reabrir uma mina de cobre poluente.
O sindicato dos trabalhadores da construção do Panamá, Suntracs, e o sindicato dos trabalhadores de banana, Sitraibana, se juntaram à greve por tempo indeterminado. Trabalhadores da Saúde, estudantes universitários e funcionários também participaram dos protestos.
Mulino respondeu declarando as greves ilegais, impondo um estado de emergência e mobilizando a Polícia para reprimir violentamente os bloqueios.
A escalada mais dramática ocorreu no setor de bananas, onde a Chiquita Brands anunciou a demissão de toda a sua força de trabalho no país. A multinacional americana, que controla 90% da produção de banana do Panamá, havia demitido anteriormente 4.900 funcionários, e os restantes 1.600 foram demitidos esta semana. Desde o transporte até o comércio, a decisão ameaça devastar a já empobrecida província ocidental de Bocas del Toro.
Em entrevista à France24, o trabalhador de banana Carlos Machado denunciou as alegações de que sua greve é “ilegal” e explicou: “Esta greve também afeta os trabalhadores de banana e as gerações futuras de nós trabalhadores, assim como educadores e pais, é por isso que estamos nas ruas hoje.”
Na Argentina, pesquisadores, médicos e enfermeiros fizeram uma série de greves e manifestações ao longo de uma semana para protestar contra os cortes massivos na Saúde e na Ciência pelo governo do presidente fascista Javier Milei. Os trabalhadores se juntaram aos aposentados em seu protesto semanal contra os cortes nas aposentadorias, em frente ao Congresso Nacional.
A Federação Nacional dos Professores Universitários da Argentina (Conadu) está enfrentando uma grande pressão da base para se juntar ao movimento de greves e exigir financiamento para a Educação pública e aumentos que compensem os anos de perdas reais nos salários. Na quinta-feira está prevista uma plenária da direção em que a greve será a pauta central.
Em 28 e 29 de maio de 2025, a Colômbia viveu uma grande greve nacional de 48 horas, convocada pelas principais federações sindicais em apoio à proposta do presidente Gustavo Petro de um referendo nacional sobre reformas trabalhistas e reformas na saúde, as quais foram repetidamente rejeitadas por um Congresso de direita. Os manifestantes bloquearam vias principais, interromperam o transporte público e fizeram atos em centros urbanos.
No Brasil, a mais recente onda de greves de professores reflete o crescente descontentamento com a severa deterioração das condições de trabalho. De 15 de abril a 6 de maio, os professores municipais de São Paulo lançaram uma grande greve contra os cortes salariais impostos pelo prefeito de direita Ricardo Nunes, que ao mesmo tempo promove a privatização, a militarização das escolas e a expansão de instituições cívico-militares no sistema educacional. Nunes conseguiu uma liminar judicial obrigando 70% dos professores a manterem o serviço e ameaçou medidas punitivas, e a greve acabou sendo traída pela burocracia sindical do SINPEEM.
Na terça-feira, os professores de Brasília, no Distrito Federal, foram atacados com spray de pimenta durante uma manifestação, no segundo dia de uma greve por tempo indeterminado que exige aumentos salariais.
Do Rio da Prata ao Rio Grande e além, os educadores de base enfrentam os mesmos desafios ao entrarem em luta contra as crescentes ameaças aos seus empregos, aposentadorias e condições de trabalho: governos cuja única resposta a suas demandas é gás lacrimogêneo e/ou demissões em massa, enquanto as burocracias sindicais avançam na estratégia fracassada de manter negociações e “pressionar” esses regimes como uma válvula de escape para simplesmente aliviar a pressão dos trabalhadores.
Deve-se acrescentar que os professores nos Estados Unidos estão em luta contra a destruição do Departamento de Educação promovida por Trump e os esforços de privatização em massa, à medida que o capital financeiro global exige, em todo lugar, os mesmos ataques à Educação pública e aos gastos sociais.
A resposta criminosa à atual pandemia de COVID-19 demonstrou que a defesa das vidas e dos meios de subsistência dos professores e de todos os trabalhadores requer organizações que sejam independentes da burocracia sindical, sem concessões. Todos os sindicatos, sem exceção, enviaram trabalhadores e jovens para morrer em escolas e locais de trabalho, em nome dos lucros da elite dominante.
A organização necessária, que deve ser construída, é o Comitê de Base de Educadores, uma rede internacional de organizações de base associada à Aliança Operária Internacional de Comitês de Base.
