Rodrigo Paz Pereira está prestes a se tornar o próximo presidente da Bolívia neste sábado, 8 de novembro, após vencer o segundo turno das eleições em 19 de outubro. Sua posse encerra duas décadas de governo do Movimento ao Socialismo (MAS).
No segundo turno, Paz Pereira, candidato do Partido Democrata Cristão, obteve 54,96% dos votos, contra 45,04% de seu adversário e colega de direita Jorge Tuto Quiroga, do Partido Livre. O candidato do MAS, Eduardo del Castillo, recebeu humilhantes 3,2% dos votos no primeiro turno, enquanto o partido conquistou apenas uma cadeira no Congresso.
Apesar do slogan e do nome do partido, o MAS nunca implementou políticas socialistas genuínas, abrindo caminho para o retorno ao poder da direita, mantendo intacto o Estado capitalista e seu aparato repressivo e protegendo os interesses de lucro da oligarquia dominante da Bolívia e do capital estrangeiro às custas da classe trabalhadora e das massas oprimidas.
Paz Pereira venceu a eleição principalmente por atrair camadas que anteriormente votavam no MAS como o “menos pior”. Ele fez campanha com base em frases demagógicas sobre “capitalismo para todos” e promessas de apoiar pequenas empresas e o grande setor informal. Ele afirmou que não buscaria um acordo de ajuste estrutural com o Fundo Monetário Internacional (FMI), como seu rival Quiroga, e que manteria programas mínimos de assistência social, incluindo transferências de renda para as camadas mais pobres do que continua sendo o segundo país mais pobre da América do Sul.
Essas promessas eleitorais provavelmente serão abandonadas em breve. Na semana anterior à sua posse, Paz Pereira e seus assessores voaram para Washington para conversas com o governo Trump e as principais instituições financeiras internacionais.
Uma das primeiras medidas do novo governo será restabelecer as relações diplomáticas com os EUA. O governo do MAS, de Morales, rompeu relações em 2008, expulsando o embaixador dos EUA, juntamente com a Agência Antidrogas dos Estados Unidos (DEA) e a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), acusando-os de fomentar um golpe contra seu governo.
O Departamento de Estado dos EUA foi um dos primeiros a parabenizar Paz Pereira pela vitória. Washington declarou-se “pronto para ser parceiro da Bolívia”, claramente contando com a eleição para promover sua agenda neocolonial na América Latina. O secretário de Estado Marco Rubio declarou que os resultados das eleições são “uma oportunidade transformadora para ambas as nações”.
A transformação que Washington busca é vincular a Bolívia ao comboio de guerra do imperialismo dos EUA, enquanto se prepara para atacar a Venezuela, usando empréstimos e dívidas para impor uma agenda econômica neoliberal e romper os laços econômicos e diplomáticos do país com a China e a Rússia.
Em particular, o governo Trump está de olho nos recursos de lítio da Bolívia, o maior depósito do planeta, crucial para as baterias de veículos elétricos, que também são cobiçadas pela China.
Paz Pereira pediu uma ruptura com as “ideologias”, entendida por muitos como uma campanha de privatizações e “ajustes estruturais” que aumentará o desemprego e transferirá riqueza da base para o topo da sociedade.
O caráter do novo governo foi prenunciado pela libertação, dias antes da posse, de Jeanine Áñez, que assumiu o poder como presidente não eleita, supervisionando uma campanha de repressão violenta, após um golpe apoiado pelos EUA que derrubou Evo Morales em 2019.
O novo vice-presidente Edmand Lara pediu que a Suprema Corte anulasse a sentença de 10 anos de prisão de Áñez, seguida de uma anistia universal para militares e policiais demitidos ou acusados de participar do golpe e da repressão que se seguiu, declarando que eles estavam apenas “cumprindo seu dever”.
Descendente da dinastia política mais proeminente da Bolívia, Paz Pereira fez uma campanha improvável como um “outsider”, apoiando-se fortemente no populismo de direita de seu companheiro de chapa para a vice-presidência, Lara, um ex-capitão da polícia evangélico.
Na realidade, Paz Pereira é, em virtude de sua formação e experiência, um representante altamente consciente da burguesia boliviana, cujo tio-avô e pai foram ambos presidentes da Bolívia. Seu tio-avô, Víctor Paz Estenssoro, assumiu a presidência pela primeira vez em 1952, após uma revolução liderada por mineiros de estanho armados. Tendo integrado a principal central sindical, a COB, ao seu governo, Paz Estenssoro começou a reconstruir o Estado capitalista e seu aparato repressivo.
Seu sucesso deveu-se, em última instância, à ausência de uma direção revolucionária na classe trabalhadora. Isso, por sua vez, foi resultado da perspectiva revisionista pablista que prevaleceu dentro da organização trotskista boliviana, o POR (Partido Operário Revolucionário), que se adaptou ao MNR (Movimento Nacional Revolucionário) nacionalista pequeno-burguês de Paz Estenssoro.
Essa perspectiva reduziu o papel do POR a tentar empurrar o governo do MNR para a esquerda, em vez de expor diante da classe trabalhadora a incapacidade orgânica desse governo burguês de completar a revolução democrática, travar uma luta consistente contra o imperialismo e lutar por um programa de luta de classes revolucionária pelo socialismo.
Essa tragédia da classe trabalhadora boliviana se repetiu em 1971, levando a um sangrento golpe de Estado liderado pelo então coronel Hugo Banzer, apoiado pelo MNR de Paz Estenssoro. Seu sobrinho-neto, Paz Pereira, serviu no governo de Banzer depois que o ex-ditador conseguiu retornar ao poder pelas urnas em 1997.
Com um governo pró-imperialista de extrema direita prestes a retornar ao poder, o MAS anunciou na quinta-feira que havia expulsado o presidente Luis Arce, ex-ministro das Finanças de Morales, que chegou ao poder em 2020 em uma onda de indignação popular contra o regime golpista de Áñez. Em uma tentativa transparente de se distanciar do desastre que criou, o MAS acusou Arce de não seguir os conselhos do partido sobre como lidar com a prolongada crise econômica da Bolívia e levantou alegações de apropriação indevida de recursos do partido.
Mas a desintegração do MAS e sua rejeição pela classe trabalhadora e pelas massas oprimidas da Bolívia não são apenas o resultado de erros individuais ou má conduta por parte do presidente cessante. São o resultado inevitável de todo o arco de desenvolvimento não apenas do MAS, mas de toda a chamada Maré Rosa que surgiu na América Latina no início do século atual.
Tal como outros governos latino-americanos semelhantes, desde Chávez/Maduro na Venezuela, passando por Correa no Equador até Lula no Brasil, o MAS utilizou uma retórica pseudo-socialista, anti-imperialista e indigenista para mascarar uma política que defendia a propriedade capitalista e governava em nome da burguesia nacional e internacional. Na Bolívia, como em outros lugares, o governo conseguiu aproveitar o boom das commodities do início dos anos 2000, impulsionado pelo crescimento da China, para implementar programas limitados de assistência social que não conseguiram transformar as relações de classe nem alterar fundamentalmente o status da Bolívia como um dos países mais desiguais do planeta.
Na Bolívia, a ascensão ao poder do MAS, fundado por Evo Morales, líder de uma organização que representa os interesses dos cultivadores de coca, seguiu-se às revoltas populares conhecidas como “guerra da água” e “guerra do gás”, que opuseram os trabalhadores e camponeses oprimidos às tentativas dos governos oligárquicos reacionários de privatizar e vender esses recursos básicos.
O papel desempenhado pelo MAS foi o de desviar essa rebelião em massa para os canais seguros da política burguesa e formas limitadas de reformismo nacional. Depois de vencer as eleições de 2005 com uma vitória esmagadora, Morales e o MAS conseguiram aproveitar o aumento vertiginoso dos preços do gás e dos minerais para financiar programas de assistência financeira para crianças, idosos e novas mães, que reduziram a taxa de pobreza em 40%.
Em 2006, o governo anunciou a “nacionalização” da principal fonte de receita de exportação do país, a indústria do gás. Na realidade, a produção permaneceu nas mãos de gigantes transnacionais, incluindo a Petrobras do Brasil, a empresa hispano-argentina Repsol YPF, a Total da França, a British Gas e a British Petroleum, bem como a Exxon Mobil dos Estados Unidos. Operando sob o pretexto de “joint ventures” com a empresa estatal boliviana Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB), as empresas foram persuadidas a pagar ao governo uma parcela maior dos lucros, sem deixar de obter ganhos generosos.
Com o colapso do boom das commodities em 2014, a produção de gás caiu pela metade e a receita das exportações de hidrocarbonetos despencou.
O caráter de classe do governo do MAS emergiu com cada vez mais clareza. Aliado aos oligarcas agroindustriais da Bolívia, ele usou sua cooptação das burocracias sindicais e dos movimentos sociais com cargos e privilégios e, cada vez mais, com repressão estatal descarada para garantir a estabilidade capitalista. Greves e protestos foram denunciados como atos de “sabotagem econômica” e enfrentaram alegações de que as lutas sociais apenas fortaleciam a direita.
Enquanto isso, a alegação de Morales de representar os interesses das populações indígenas há muito oprimidas, expressa na definição da Constituição de 2009 da Bolívia como um Estado “plurinacional”, também se desgastou à medida que o governo reprimiu os protestos indígenas contra projetos extrativistas apoiados pelo capital estrangeiro.
O apoio político ao MAS foi ainda mais enfraquecido depois que Morales convocou um referendo em 2016 para revogar os limites de mandato, a fim de permanecer no cargo. Depois que sua proposta foi derrotada, ele utilizou tribunais controlados pelo MAS para anular os resultados e concorreu à reeleição em 2019, antes do golpe que o forçou ao exílio.
Sob Arce, o MAS aprofundou suas medidas de austeridade, seguindo efetivamente as prescrições do Fundo Monetário Internacional. Ele atacou o regime golpista da direita na questão da pandemia da COVID-19, acusando-o de ter priorizado “a saúde em detrimento da economia”. O fim das medidas preventivas contribuiu para que a Bolívia tivesse uma das taxas mais altas de mortes por COVID nas Américas.
Na reta final para as eleições, a Bolívia foi assolada por múltiplas crises, com a inflação se aproximando dos 16%, a dívida pública atingindo 84% do PIB e a escassez de combustível levando a longas filas nos postos de gasolina.
O naufrágio do projeto nacionalista pequeno-burguês do MAS levou a uma luta interna cada vez mais acirrada entre Arce e Morales, que estavam divididos não por questões programáticas, mas sobre quem ocuparia o palácio presidencial. Impedido de concorrer, Morales convocou seus apoiadores a anularem seus votos em protesto no primeiro turno das eleições de 2025. Refletindo a hostilidade em relação a todos os partidos, a taxa de abstenção, juntamente com os votos nulos, atingiu 36% no primeiro turno, superando os votos de qualquer candidato individual.
A classe trabalhadora da Bolívia e de toda a América Latina deve tirar as amargas lições do desastre sofrido pelo MAS e do caminho que ele abriu para o retorno da direita ao poder. A luta contra o imperialismo e a opressão só pode ser travada com base na mobilização política da classe trabalhadora, proporcionando uma direção às massas de camponeses oprimidos e aos povos indígenas.
Esse movimento deve ser independente de todos os setores da burguesia, incluindo suas frações “de esquerda”, e deve estar armado com um programa socialista e internacionalista, unindo os trabalhadores de toda a América Latina, juntamente com a classe trabalhadora dos Estados Unidos e internacionalmente, na luta para acabar com o capitalismo. Isso exige a construção de uma nova direção revolucionária, ou seja, seções do Comitê Internacional da Quarta Internacional, o movimento trotskista mundial.
