Publicado originalmente em inglês em 17 de janeiro de 2026
Em 8 de janeiro, um dia após o assassinato de Renee Nicole Good pelo ICE em Minneapolis, o World Socialist Web Site publicou uma declaração explicando que “a lógica dos eventos está se movendo inexoravelmente em direção a uma greve geral contra o regime de Trump: uma intervenção massiva e coordenada dos trabalhadores de todos os setores para parar a máquina de repressão e exploração”.
Uma semana depois, em resposta à crescente pressão dos trabalhadores indignados com a brutalidade diária infligida pelas forças paramilitares de Trump, uma coalizão de sindicatos locais e organizações comunitárias em Minneapolis convocou uma greve geral para 23 de janeiro.
A AFL-CIO no estado de Minnesota até agora não endossou a greve, e sua página oficial na internet – sob o slogan “Um Dia de Verdade e Liberdade” – evita cuidadosamente a palavra “greve”, instando os trabalhadores a se declararem doentes, os consumidores a não comprarem nada e as empresas a fecharem voluntariamente. O aparato sindical, intimamente ligado ao Partido Democrata, está tentando neutralizar a crescente simpatia por uma greve geral que está se espalhando entre amplas camadas da população.
No entanto, o próprio fato de a greve geral ter entrado na discussão política é, por si só, uma expressão de uma nova etapa na luta de classes e na polarização social e política dos Estados Unidos. Isso reflete uma sensação crescente dentro da classe trabalhadora de que os canais políticos tradicionais – contestação judicial, apelos a políticos, manobras eleitorais e campanhas de pressão – são incapazes de interromper a rápida virada para a ditadura.
No sentido imediato, o chamado para uma greve geral em Minnesota é uma resposta à dramática escalada da repressão pelo governo Trump e pelo ICE em Minneapolis e outras cidades. O que começou como batidas e varreduras em massa contra trabalhadores imigrantes se transformou em mobilizações paramilitares e na ocupação de uma grande cidade dos EUA. Esse ataque tirou toda a aparência democrática, sinalizou a ameaça de Trump de invocar poderes extraordinários, incluindo a Lei de Insurreição, e mobilizar as forças armadas contra a população.
A resposta de Trump à oposição é intensificar a repressão. O assassinato de Renee Good foi seguido por uma onda de repressão, novos reforços e ameaças contra manifestantes por se envolverem em “insurreição” e “terrorismo”. Em 16 de janeiro, o Departamento de Justiça abriu uma investigação criminal contra o governador de Minnesota, Tim Walz, e o prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, emitindo intimações com a acusação fraudulenta de que eles “impediram” a aplicação da lei federal de imigração, um emprego extraordinário do sistema judiciário contra autoridades eleitas.
No entanto, existem questões mais amplas envolvidas. Os Estados Unidos chegaram a um ponto em que a escala da crise política e a ferocidade das tensões de classe estão gerando profundas mudanças na consciência. O governo Trump, falando e agindo em nome da oligarquia capitalista, está desmantelando os direitos democráticos e destruindo o que resta da educação pública, da saúde e de outros serviços sociais. Os trabalhadores enfrentam um massacre de empregos impulsionado pela inteligência artificial, inflação galopante e endividamento crescente, enquanto os bilionários americanos aumentaram sua riqueza coletiva em 18% somente no ano passado, para quase US$ 7 trilhões.
Existe um clima de resistência que reflete uma sensação crescente de que as coisas não podem continuar “da antiga maneira”. As pesquisas, que invariavelmente subestimam o sentimento de oposição, mostram uma profunda hostilidade à repressão do governo Trump, com a maioria dos americanos desaprovando as táticas do ICE e a forma como a imigração está sendo tratada, e muitos se opondo à ação militar no exterior, incluindo a invasão da Venezuela e as ameaças de guerra contra o Irã.
A greve de 15 mil enfermeiros na cidade de Nova York, a maior da história da cidade, é um sinal da oposição que crescerá em 2026. Da mesma forma, embora de maneira diferente, um trabalhador automotivo de Detroit que foi suspenso por criticar Trump no início desta semana arrecadou mais de US$ 800 mil em poucos dias através do GoFundMe, com doações de dezenas de milhares de pessoas.
Essa oposição crescente deve ser transformada em um movimento consciente e organizado. Existe uma longa e poderosa tradição de luta de classes nos Estados Unidos, incluindo a greve geral. Da Filadélfia em 1835, passando por St. Louis em 1877 e Seattle em 1919 até São Francisco e Toledo em 1934, o fator decisivo nunca foi apenas a combatividade da convocação, mas se a classe trabalhadora entrou na luta de forma consciente e independente, em oposição às instituições que buscavam contê-la.
A própria Minneapolis possui uma longa história de conflito de classes. A greve dos caminhoneiros de Minneapolis em 1934, liderada por trabalhadores trotskistas da seção 574 do Teamsters [um sindicato que abrange diversas categorias, como transporte e alimentação], transformou uma mobilização local em uma greve geral em toda a cidade que paralisou o comércio e enfrentou as forças combinadas dos empregadores, da polícia, da Guarda Nacional, do Farmer-Labor Party [Partido Trabalhista Rural] e do governo Roosevelt. Sua vitória ajudou a desencadear a massiva sindicalização na indústria da década de 1930 e continua sendo uma demonstração poderosa do que a classe trabalhadora pode alcançar quando luta sob sua própria direção e com uma perspectiva política clara.
A impunidade descarada de Trump é o produto de uma prolongada ausência de resistência organizada da classe trabalhadora nos EUA. Ao longo de décadas, a burocracia sindical desmantelou o movimento operário, enquanto a classe dominante se enriquecia por meio de guerras imperialistas e uma transferência massiva de riqueza. Nesse vácuo, os setores mais implacáveis da burguesia passaram a acreditar que podem agir sem restrições.
O ataque à classe trabalhadora foi reforçado por uma campanha ideológica que negava sua própria existência como força social. Em um país outrora definido por frequentes greves e confrontos em massa entre operários e capitalistas, o Partido Democrata, a academia oficial e a pseudoesquerda política promoveram ideologias — sobretudo políticas de identidade racial e de gênero — que rejeitavam o marxismo, negavam a realidade da luta de classes e descartavam o papel da classe trabalhadora como força revolucionária.
A reeleição de Trump marcou um realinhamento violento do Estado para refletir a realidade do regime oligárquico nos Estados Unidos. Além disso, o caráter extremo de suas ações, tanto em âmbito nacional quanto internacional, reflete a intensidade da crise que o capitalismo americano enfrenta — expressa na desvalorização do dólar, no acúmulo exorbitante de dívidas e na especulação desenfreada que sustenta a riqueza da oligarquia.
Esse é o pano de fundo para o realinhamento de baixo para cima que começa a tomar forma, por meio do crescente ressurgimento do conflito de classes aberto como eixo central da vida social e política. Além disso, o desenvolvimento da luta de classes nos Estados Unidos terá imensas repercussões internacionais, desfazendo o mito de que os trabalhadores americanos são especialmente reacionários ou incapazes de luta coletiva.
Os eventos em Minneapolis marcam o início de uma nova etapa. Embora ainda em seus estágios iniciais, pode-se prever com segurança que a luta de classes nas Twin Cities (“Cidades Gêmeas”) e em todo o país irá se desenvolver a uma velocidade impulsionada pela intensidade da crise capitalista. A raiva provocada pelas ações do governo Trump irá tornar ainda mais clara a conexão entre o que está acontecendo em Minnesota e a crise mais ampla do sistema capitalista.
Mas existem lições políticas a serem extraídas desses eventos. Para aqueles que buscam uma maneira de deter essas atrocidades, é essencial compreender a profunda e arraigada oposição a qualquer movimento de massa contra o fascismo, não apenas por parte de Trump, mas também do Partido Democrata. Como um partido de Wall Street e da guerra imperialista, os democratas buscam a todo custo conter a oposição, bloquear o surgimento de uma luta independente contra Trump e impedir que ela se transforme em uma luta mais ampla contra a oligarquia e o capitalismo.
Além disso, mesmo enquanto o governo Trump ataca democratas proeminentes, ele pode contar com o apoio deles na defesa dos interesses globais do imperialismo americano.
A luta contra Trump exige a construção de novas organizações na classe trabalhadora que possam unificar a defesa dos direitos democráticos e a oposição à ditadura com as crescentes lutas sociais dos trabalhadores. É necessário transmitir ao movimento de classe emergente uma estratégia política clara, conectando a luta contra o fascismo à luta contra a exploração, a guerra e o próprio sistema capitalista, nos EUA e internacionalmente. Isso depende, sobretudo, da intervenção consciente do movimento marxista na classe trabalhadora.
A perspectiva do Partido Socialista pela Igualdade (SEP) e do Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI) sempre enfatizou o papel revolucionário da classe trabalhadora americana como componente decisivo da classe trabalhadora internacional.
O SEP tem lutado consistentemente contra todos os esforços para subordinar os trabalhadores ao Partido Democrata e suas organizações filiadas. Por meio da criação da Aliança Operária Internacional de Comitês de Base (AOI-CB), o CIQI desenvolveu a forma organizacional para uma rebelião contra o aparato sindical pró-corporativo. Mais recentemente, o CIQI e o WSWS lançaram “Socialism IA”, uma ferramenta vital para a educação política de trabalhadores e jovens baseada nas grandes lições dos séculos XX e XXI, sobretudo nas experiências estratégicas do movimento marxista.
Nas ações do regime de Trump, a oligarquia americana está cruzando um Rubicão, do qual não há retorno. A questão que confronta milhões de trabalhadores e jovens é a mais fundamental: socialismo ou barbárie.
O World Socialist Web Site exorta todos os trabalhadores que desejam impedir a descida ao fascismo e à guerra, que desejam lutar por um futuro baseado na igualdade, na democracia e na paz, a tirarem as conclusões necessárias e a se unirem ao SEP.
