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Morenistas mudam nome para “Corrente Revolução Permanente”: uma conspiração contra o trotskismo e a revolução socialista vindoura

No final de 2025, a corrente morenista dirigida pelo Partido Socialista dos Trabalhadores (PTS) da Argentina realizou uma conferência internacional em São Paulo. Antes conhecida como Fração Trotskista, a organização foi rebatizada como Corrente Revolução Permanente – Quarta Internacional (CRP-QI).

Conferência de imprensa realizada pelos morenistas em 20 de dezembro, ao final de sua conferência em São Paulo. [Photo: La Izquierda Diario]

Essa operação representa uma reorientação política fundamental do movimento morenista em resposta à irrupção da crise imperialista e ao abalo das ordens nacionais burguesas em torno das quais atuam suas organizações. Antecipando lutas massivas da classe trabalhadora e da juventude em todo o mundo, os morenistas se preparam conscientemente para desviá-las do caminho da revolução socialista e empurrá-las de volta às garras dos aparatos burocráticos nacionais defensores do capitalismo.

Rebatizar sua organização como “Corrente Revolução Permanente” cumpre um papel sórdido e bem definido no contexto desses esforços contrarrevolucionários. No centro das deliberações da sua conferência estava uma revisão reacionária da Teoria da Revolução Permanente voltada a desfigurar completamente a teoria de Trotsky.

Ao se identificarem formalmente com a doutrina revolucionária internacionalista que repudiam expressamente, os morenistas buscam confundir a classe trabalhadora e a juventude e impedi-las de acessar o trotskismo genuíno representado pelo Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI). Eles não terão êxito.

A conferência dos morenistas foi aberta com um “Grande Ato Internacionalista”, em 14 de dezembro, em São Paulo, com representantes dos diferentes grupos nacionais afiliados à CRP, como a Révolution permanente (RP) da França, o Left Voice dos Estados Unidos, o Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT) do Brasil e outros grupos latino-americanos.

Precedidos por um vídeo justapondo cenas de guerra a imagens de protestos nas ruas, os oradores do ato destacaram elementos notáveis da crise internacional: intensificação das guerras e agressões imperialistas, crise econômica, crescimento da desigualdade social e da repressão e autoritarismo. Os líderes morenistas também se referiram ao processo de radicalização social, particularmente aos protestos massivos contra o genocídio em Gaza, e ao que definiram como o retorno da “luta de classes como um fator dinâmico”. Seu maior foco era apresentar suas organizações como ocupando a “primeira fileira de cada uma das lutas” em seus países.

Em um discurso gravado, o líder de longa data do PTS argentino, Emilio Albamonte, abordou os fundamentos da reorganização política morenista:

As classes dominantes não perderam sua ferocidade, mas começa a haver uma resposta do movimento de massas, como demonstra a tendência na Itália em direção à greve geral. De acordo com isso, devemos colocar nossa organização à altura das circunstâncias, e é para isso que serve esta Conferência.

Esclarecendo o que se elevar “à altura das circunstâncias” significa para os morenistas, ele apontou à política de pressão à Confederação Geral do Trabalho (CGT) na Argentina, “que é a ala direita do claudicante movimento peronista”. Albamonte celebrou o êxito da “esquerda” argentina — isto é, a coalizão eleitoral pseudoesquerdista liderada pelo PTS, Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidade (FIT-U) — em “obrigar” a CGT “a convocar uma manifestação” contra a reforma trabalhista que foi posteriormente imposta à força no Congresso pelo governo fascistoide de Javier Milei. Junto dos “traidores da CGT”, disse o líder morenista, “levaremos adiante nossa política de Frente Única Operária”. A mesma suposta conquista foi exaltada pelos deputados do PTS Myriam Bregman e Nicolás del Caño. Discursando pessoalmente no ato em São Paulo, eles se gabaram de que “Vários veículos de mídia disseram que a esquerda marcó la cancha (ou seja, ditou os termos) para a convocação dessa mobilização pela CGT”.

A tal manifestação, realizada exatamente dois meses após os discursos, resultou em “traição total” por parte da CGT, segundo os próprios morenistas.

Na sequência do protesto de 12 de fevereiro na Argentina, o La Izquierda Diário admitiu que a CGT vinha preparando a traição “há muitos meses” e explicou que sua “morna convocação para a jornada de ação de quarta-feira, sem greve e com ‘liberdade de ação’ para os sindicatos, com o agravante de nem sequer encher a praça em frente ao Congresso ou realizar um ato, buscou servir à política de negociação com o governo de extrema direita para permitir que as partes essenciais do plano fossem aprovadas e para impedir que a classe trabalhadora expressasse sua plena força social”.

Em outras palavras, o que os morenistas efetivamente conseguiram foi “ditar os termos” da subordinação da classe trabalhadora pela burocracia da CGT ao governo fascistoide de Milei — proclamado como a “peça central da estratégia dos Estados Unidos para a América Latina” pelo Secretário do Tesouro de Trump, Scott Bessent.

Trabalhadores protestando em Buenos Aires contra a reforma trabalhista de Milei. [Photo by Axrg / CC BY-SA 4.0]

A contribuição para consumar essa traição à classe trabalhadora argentina foi saudada por Albamonte como “o caminho que nossa organização deve seguir, não apenas para construir partidos em cada um de nossos países, mas para reconstruir o partido mundial da revolução socialista, a Quarta Internacional”.

A subordinação da classe trabalhadora na Argentina ao movimento peronista burguês e à sua burocracia sindical não é novidade alguma para o movimento morenista. É há muito a especialidade da tendência fundada por Nahuel Moreno desde os anos 1950.

O cultivo de blocos políticos reacionários com as forças desmoralizadas do stalinismo e do “peronismo de esquerda”, fraudulentamente em nome da aplicação da tática da “frente única” de Lenin e Trotsky, era o carro-chefe político do Movimento ao Socialismo (MAS) — o partido fundado pelos morenistas em 1982, durante o declínio da ditadura militar argentina, cujo ascenso havia sido facilitado por suas políticas capituladoras. O MAS foi o berço político de Albamonte e sua tendência nacionalista, que permaneceu durante anos como um partido exclusivamente argentino. Somente em 2004, a “Fração Trotskista” se lançou como organização internacional definitivamente separada da Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-QI) fundada por Moreno.

A “Corrente Revolução Permanente” está sendo construída como uma nova cobertura — adornada com cores “revolucionárias” — para o movimento morenista promover diferentes partidos pseudoesquerdistas e burocracias sindicais nacionais empenhadas em blindar a ordem capitalista em decomposição da ofensiva revolucionária da classe trabalhadora.

As manchas na nova bandeira política forjada pelos morenistas não tardaram a aparecer. O papel deplorável que a CRP está destinada a desempenhar foi graficamente exposto em sua resposta à crise desencadeada na Venezuela pela invasão imperialista norte-americana em 3 de janeiro, apenas duas semanas após o encerramento de sua conferência.

Enquanto o governo chavista liderado pela “presidente interina” Delcy Rodriguez colabora com a administração fascistoide de Trump no estabelecimento de um regime neocolonial na Venezuela, a CRP conformou um bloco político com os stalinistas, dissidentes pseudoesquerdistas do chavismo e outras correntes pablistas. Essa coalizão visa cavar espaço para as organizações da pseudoesquerda no novo arranjo burguês sendo formado sob tutela imperialista e impedir a qualquer custo que a classe trabalhadora se liberte da burocracia nacionalista burguesa.

Entre todas as organizações desse bloco reacionário — que ou estavam diretamente integradas ao regime burguês chavista ou atuavam como suas apologistas —, a CRP desempenha o papel político mais podre.

Durante anos, a “Fração Trotskista” havia se dedicado a polêmicas fraternas contra outras correntes da pseudoesquerda denunciando seus “ziguezagues, sem qualquer ancoragem na mais firme independência de classe e no anti-imperialismo”, entre alinhar-se aos chavistas, por um lado, e à extrema direita venezuelana financiada pelo imperialismo norte-americano, por outro. Mas, à medida que o desenvolvimento histórico expõe o resultado catastrófico de tal orientação política, a CRP corre para auxiliar os partidos pseudoesquerdistas desmoralizados a limparem seu passado e se mascarar como representantes da classe trabalhadora.

Embora os morenistas falem em resistência internacionalista à guerra e ao imperialismo, as teses aprovadas em seu congresso não esclarecem nada sobre a natureza da crise global. Deixando indefinida a caracterização de todos os aspectos fundamentais da situação política, a preocupação central das deliberações da CRP é criar margem de manobra para sua adaptação ao imperialismo.

Os morenistas relataram ter discutido diferentes definições da crise internacional extraídas diretamente de analistas burgueses e da academia, sem jamais digeri-las politicamente nem chegar a qualquer conclusão. Escrevem eles: “Desenvolveu-se um debate em torno de algumas categorias como ‘interregno’, ‘caos sistêmico’, ‘polarização assimétrica’ e ‘período de disputa hegemônica entre os EUA e a China’, e a necessidade de especificar seu uso no quadro de uma análise marxista da situação internacional”.

O que a situação definitivamente não é, segundo os morenistas, é objetivamente revolucionária.

A conferência tampouco chegou a um acordo sobre caracterizar ou não a China como imperialista. Esse impasse reflete diretamente o dilema da burguesia latino-americana, à qual os morenistas estão proeminentemente orientados, que busca se equilibrar entre a China e o imperialismo norte-americano. Apesar disso, as deliberações da CRP indicam uma preparação em curso para justificar a ofensiva imperialista de Washington contra a China sob uma falsa bandeira “anti-imperialista”.

“Novos fenômenos políticos à esquerda do social-liberalismo”

Incapazes de apresentar uma perspectiva acabada sobre a crise histórica mundial, os morenistas, ainda assim, definiram diretrizes. Escrevem eles:

Por isso, [a conferência] reafirmou que nos preparamos para um período de acirramento das rivalidades entre potências e de processos de radicalização política e da luta de classes. Nesse marco, abordou a discussão da situação pelo ângulo da intervenção na luta de classes e dos novos fenômenos políticos à esquerda do social-liberalismo.

Por “novos fenômenos políticos à esquerda do social-liberalismo”, a CRP refere-se às armadilhas políticas pseudoesquerdistas tal qual os Socialistas Democráticos da América (DSA) nos EUA, o partido “A Esquerda” na Alemanha e o “Seu Partido” de Corbyn no Reino Unido, para as quais buscarão desviar os levantes de massas de trabalhadores e jovens contra a guerra e o capitalismo.

A orientação da CRP representa um aprofundamento do papel contrarrevolucionário desempenhado pelo revisionismo pablista — do qual o morenismo foi uma das expressões mais à direita — no século XX. A quintessência do pablismo foi a liquidação da Quarta Internacional, sabotando a luta para resolver a crise histórica da direção do proletariado.

No discurso de encerramento do “Grande Ato Internacionalista” que abriu os trabalhos da conferência morenista, Diana Assunção, dirigente do Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT) do Brasil, declarou:

Acho que a conclusão é que a gente precisa se preparar e batalhar cada vez mais pra que a classe trabalhadora internacional possa ter uma ferramenta à altura dos próximos eventos da luta de classes que a situação internacional pode estar anunciando. É neste sentido que mais do que nunca, está colocada a necessidade de batalhar pela reconstrução da IV Internacional...

A IV Internacional se fragmentou depois da II Guerra, inclusive em correntes que terminaram buscando atalhos, ou seja no velho oportunismo, ou se afundando em dogmas que não serviram de nada...

Por isso nesta Conferência vamos discutir como retomar com força a batalha por um movimento por uma Internacional da Revolução Socialista, que para nós é a IV Internacional... queremos aprofundar esse chamado e abrir esse debate com toda a esquerda que se reivindica revolucionária.

Nossa corrente é a mais dinâmica do trotskismo a nível internacional mas somos poucos diante dos enormes desafios que enfrentamos. Por isso não nos autoproclamamos como uma internacional revolucionária e sim buscamos convocar todos os que queiram batalhar por este programa e estratégia a enfrentar juntos os novos processos e desafio.

A concepção pablista de “partido internacional” defendida por Assunção é diametralmente oposta àquela que defendia Leon Trotsky.

No Programa de Transição, Trotsky respondeu aos “céticos” que se opunham à fundação da Quarta Internacional com o argumento de que “suas fileiras são pouco numerosas”. Ele escreveu: “Fora desses quadros não existe, neste planeta, uma só corrente revolucionária que realmente mereça este nome. Se nossa Internacional é ainda fraca em número, ela é forte pela doutrina, pela tradição, pelo programa, pela têmpera incomparável de seus quadros”.

Ao se autoproclamar como a “corrente mais dinâmica do trotskismo a nível internacional”, a CRP arroga-se o direito de repudiar a doutrina, o programa e as tradições da Quarta Internacional — há muito rejeitados como “dogmas que não serviram de nada” pelo morenismo.

A CRP cria o mais grosseiro amálgama político entre a corrente que abraçou o “velho oportunismo” — isto é, o pablismo — e a tendência que lutou para defender os princípios revolucionários do trotskismo — isto é, o Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI). Trata-se de uma distorção grosseira e deliberada do papel criminoso desempenhado pelo pablismo e sua variante morenista. Os pablistas não simplesmente “terminaram” no oportunismo; eles travaram uma luta consciente e prolongada para liquidar completamente o movimento trotskista.

Com essa calúnia, os morenistas esperam apagar o registro das traições históricas à classe trabalhadora cometidas não apenas pelo pablismo, mas pelo stalinismo e pelas diferentes forças antitrotskistas que eles buscam reabilitar como a “esquerda que se reivindica revolucionária”.

À medida que entramos em um período das maiores lutas revolucionárias da história, o desvio da construção da direção trotskista da classe trabalhadora assume a maior importância para a preservação do poder da oligarquia capitalista.

Assimilar as conquistas da luta contra o revisionismo antimarxista, em particular da batalha do CIQI contra o pablismo na Quarta Internacional, e desenvolver essa luta à luz das experiências estratégicas do século XXI é o fator mais decisivo no desenvolvimento da vanguarda revolucionária que estabelecerá o poder da classe trabalhadora internacionalmente.

A nova ofensiva morenista contra a Revolução Permanente

O caráter traiçoeiro da operação realizada pelos morenistas se revela com toda a força no fato de que sua alteração de nome para “Corrente Revolução Permanente” andou de par com um chamado a uma revisão total da Teoria da Revolução Permanente de Trotsky.

Em preparação para sua conferência internacional, os morenistas realizaram na Argentina um seminário intitulado “Teoria da revolução permanente: rumo a uma formulação ampliada”. Seus principais documentos foram publicados em dezembro pelo La Izquierda Diário como “Dossiê: Debates sobre a teoria da revolução permanente e sua atualidade”.

O “debate” morenista equivale a uma declaração de guerra a essa doutrina fundamental do trotskismo. Embora seus dirigentes sejam incapazes de chegar a um acordo sobre qual seria a “forma atual” da revolução permanente, eles convergem em proclamar que as formulações de Trotsky são incompatíveis com a realidade presente.

Em um artigo apresentado como “Notas para os militantes”, o principal teórico do renovado ataque morenista ao trotskismo, Juan Dal Maso, “tenta oferecer um panorama dos debates que temos realizado sobre a atualidade da teoria da revolução permanente”.

Dal Maso escreve:

Por formulação ampliada da TRP [Teoria da Revolução Permanente], nos referimos a uma nova interpretação da TRP que considera diversas elaborações de Trotsky, mas também de Gramsci.... Incluímos também... as elaborações de Gramsci sobre hegemonia como a “forma atual” da revolução permanente porque, por um lado, contribui para pensar o problema da mecânica da revolução permanente nos países metropolitanos ou periféricos “ocidentalizados” e, por outro, contribui para pensar a estratégia correspondente a uma leitura da revolução permanente que enfatiza os aspectos da luta pela hegemonia.

Antecipando críticas, as “Notas” de Dal Maso perguntam retoricamente: “Não se corre o risco de deformar a TRP?” Ele responde burocraticamente:

Não, porque não estamos mudando o conceito marxista de revolução, nem o de revolução permanente, nem estamos mudando o conceito de teoria, nem estamos combinando elaborações incompatíveis entre si.

Em outras palavras, tudo deve mudar para que nada mude.

O desprezo dos morenistas pela teoria e pelo programa (e por seus próprios militantes) é tão descomunal que a adoção de sua chamada “nova interpretação da Teoria da Revolução Permanente” nem sequer mereceu uma votação direta. Confiando à direção a liberdade de conduzir sua ofensiva revisionista até onde bem entender, a conferência simplesmente “votou realizar como grande evento um seminário internacional público e aberto sobre a Teoria da Revolução Permanente no século XXI”.

Fica claro que a decisão dos morenistas de rebatizar sua organização foi tomada com o intuito de antecipar-se a qualquer questionamento à sua ofensiva teórica contra a Teoria da Revolução Permanente.

A essência desse ataque revisionista consiste, em primeiro lugar, em declarar os preceitos da Teoria da Revolução Permanente letra morta e, em segundo, em redefinir completamente o termo “revolução permanente” de modo a abolir sua associação histórica e política com Trotsky e a Quarta Internacional.

Apresentando as conclusões fundamentais do seminário morenista, Dal Maso escreve em um ensaio intitulado “Em busca da forma atual da Revolução Permanente”:

Entenda-se bem: quando dizemos que a atualidade da Teoria da Revolução Permanente está em debate, não estamos dizendo que ela não tenha vigência. O que essa afirmação quer dizer é somente que as dinâmicas típicas, clássicas ou virtuosas previstas por esta teoria não coincidem com os processos atuais. Aqui é importante, precisamente por essa circunstância, a diferença entre prescrição e descrição. A prescrição diz respeito a uma vontade prática (em nosso caso, a realização da revolução socialista com uma estratégia própria do proletariado). A descrição busca dar conta de um estado de coisas ou processo que é, não necessariamente em seu desenvolvimento, mas sim em sua existência, independente dessa vontade. Levando em conta essa distinção, a TRP é irrepreensível do ponto de vista prescritivo, a não ser que se seja a favor de alianças com a burguesia nacional, a social-democracia, o stalinismo ou o capitalismo em geral. No entanto, do ponto de vista descritivo, o tipo de processos para os quais se pensou esta teoria não são os que se dão em nossa realidade. Essa circunstância obriga a repensar a questão da atualidade da TRP para voltar a articular ambas as dimensões (prescritiva e descritiva) em relação à realidade desta época.

Essa afirmação se destaca, em primeiro lugar, por sua hipocrisia. Não apenas é possível que “se seja a favor de alianças com a burguesia nacional, a social-democracia, o stalinismo ou o capitalismo em geral”, como, no caso de pertencer-se à “Corrente Revolução Permanente”, é a busca sistemática por tais alianças se torna obrigatória.

Além disso, uma vez determinado que a Teoria da Revolução Permanente não “descreve” os processos que ocorrem na “realidade desta época”, ela só pode ser invocada em dias de festa. Na realidade, o que os morenistas apresentam como a “forma atual” ou “formulação ampliada da Teoria da Revolução Permanente” é simplesmente a política reacionária da pseudoesquerda disfarçada sob uma retórica pseudotrotskista.

O pântano político da pseudoesquerda

Por mais grosseira que seja, a argumentação de Dal Maso sobre a “diferença entre prescrição e descrição” levanta questões teóricas profundas.

Ao declarar uma oposição entre “vontade prática” e o “estado de coisas independente dessa vontade”, Dal Maso pressupõe uma cisão fundamental entre os elementos subjetivos e objetivos do desenvolvimento histórico. Um partido que concebe sua atividade subjetiva independentemente da realidade objetiva e de suas contradições inerentes não é uma tendência marxista enraizada na classe trabalhadora, mas um agrupamento de aventureiros pseudoesquerdistas pequeno-burgueses.

Em suas Teses sobre Feuerbach, obra fundadora do método materialista histórico, Marx proclamou:

O defeito fundamental de todo materialismo anterior — inclusive o de Feuerbach — está em que só concebe o objeto, a realidade, o ato sensorial, sob a forma do objeto ou da percepção, mas não como atividade sensorial humana, como prática, não de modo subjetivo. Daí decorre que o lado ativo fosse desenvolvido pelo idealismo, em oposição ao materialismo, mas apenas de modo abstrato, já que o idealismo, naturalmente, não conhece a atividade real, sensorial, como tal.

O desenvolvimento da compreensão dos elementos subjetivos e objetivos da realidade sob um mesmo sistema de pensamento materialista foi a grande conquista da teoria marxista. Dela decorre uma prática política que foi sintetizada nas palavras de Lenin:

A mais nobre tarefa da humanidade é a de apreender essa lógica da evolução econômica (da evolução da existência social) em suas linhas gerais e principais, afim de adaptar-lhe, tão clara e nitidamente quanto possível, com o mais agudo espírito crítico, a sua consciência social e a consciência das classes avançadas de todos os países capitalistas.

Mas um partido que dissocia sua vontade subjetiva da necessidade objetiva orienta sua atividade para objetivos totalmente distintos. Ele age não para adaptar a consciência social à lógica objetiva do desenvolvimento histórico, mas para moldá-la a seus ideais subjetivos e preceitos morais. Seu objetivo principal não é esclarecer as massas sobre as tarefas colocadas pelo desenvolvimento objetivo da crise capitalista e da luta de classes, mas apelar às suas emoções. O domínio do irracional é sua arena política de escolha.

Embora se recusem a extrair claramente as implicações antimarxistas de suas conclusões, os morenistas não as ignoram. Sua reivindicação das “elaborações de Gramsci sobre hegemonia” serve, de fato, como uma ponte estrategicamente posicionada para o vasto pântano teórico e político da pseudoesquerda.

A orientação dos morenistas da CRP a tendências virulentamente antitrotskistas foi evidenciada pelo próprio escopo teórico do seu debate pré-conferencial sobre a “relevância atual” da Teoria da Revolução Permanente.

Como Dal Maso reporta:

Os trabalhos que discutimos na primeira reunião oferecem diferentes sínteses da teoria da revolução permanente durante o século XX, cada um ligado às várias questões que discutimos na seção anterior. São eles: “A Era da Revolução Permanente”, de Isaac Deutscher; “Leon Trotsky como Teórico”, o capítulo 4 de Filosofia e Revolução, de Raya Dunayevskaya; o “Epílogo” de Perry Anderson às Reflexões sobre o Marxismo Ocidental; e o capítulo 2 de Hegemonia e Estratégia Socialista, de Ernesto Laclau e Chantal Mouffe.

Dessa forma, o balanço dos morenistas sobre a “teoria da revolução permanente durante o século XX” se baseia inteiramente em obras dedicadas a refutar as premissas e perspectivas fundamentais da Quarta Internacional e do marxismo como um todo.

As biografias políticas dos autores citados ilustram o processo histórico mais amplo da desmoralização política e repúdio ao socialismo pela intelectualidade pequeno-burguesa. Revelam, ademais, a conexão fundamental entre as principais correntes revisionistas surgidas no período do pós-guerra na Quarta Internacional — o pablismo e o shachtmanismo — e o desenvolvimento do pós-modernismo e da política da pseudoesquerda.

Isaac Deutscher — apresentado pelos morenistas simplesmente como “o grande biógrafo de Trotsky” — opôs-se diretamente à fundação da Quarta Internacional com base em sua rejeição da caracterização de Trotsky do stalinismo como contrarrevolucionário. Deutscher apresentou a perspectiva de que Stalin desempenhava o papel de um Napoleão soviético e que a burocracia de Moscou poderia ser empurrada pela pressão de massas a cumprir um papel histórico progressista — teorias que seriam posteriormente desenvolvidas pelas perspectivas do pablismo.

Raya Dunayevskaya (Forest) e C.L.R. James (Johnson) foram protagonistas de uma tendência pequeno-burguesa dentro do Partido Socialista dos Trabalhadores (SWP) dos EUA nos anos 1930-1940, que rompeu com o trotskismo nas mesmas bases que a fração Shachtman. Assim como os shachtmanistas, a tendência Johnson-Forest repudiou a caracterização de Trotsky da União Soviética como um Estado operário, ainda que degenerado, e da burocracia no poder como uma formação parasitária, e não uma classe. A interpretação de Dunayevskaya da União Soviética como uma formação capitalista de Estado e imperialista rapidamente se desenvolveu em um repúdio fundamental ao marxismo e ao papel revolucionário da classe trabalhadora, abraçando em seu lugar o “humanismo” e a centralidade das lutas de gênero e raciais.

Perry Anderson é o editor de longa data da New Left Review, porta-voz de uma tendência pequeno-burguesa surgida no contexto da crise massiva do stalinismo e das burocracias operárias no final dos anos 1950. A característica definidora dessa tendência foi o fato de que sua ruptura com o stalinismo no campo moral acompanhou uma rejeição ao papel revolucionário da classe trabalhadora à perspectiva histórica do trotskismo.

Sintetizando as concepções ideológicas que moviam a “Nova Esquerda” — que se conectam diretamente à política atual dos morenistas —, o Partido Socialista pela Igualdade (Alemanha) explica em seu documento de fundação:

Em vez da exploração capitalista, as principais figuras da Nova Esquerda colocaram no centro de sua análise social o conceito de alienação, interpretado de forma psicológica ou existencial. A classe trabalhadora não era mais encarada como uma classe revolucionária, mas como uma massa apolítica ou mesmo retrógrada, completamente integrada à sociedade burguesa pelos mecanismos do consumismo, pela dominação da mídia e por formas repressivas de educação. Herbert Marcuse, discípulo de Heidegger e membro da Escola de Frankfurt, chegou a detectar uma “síndrome proto-fascista na classe trabalhadora”. A “revolução” não partiria da classe trabalhadora, mas da jovem intelligentsia, de grupos marginais ou de movimentos guerrilheiros. Sua força motriz não seriam as contradições de classe da sociedade capitalista, mas o pensamento crítico e as ações de uma elite esclarecida…

As raízes históricas e sociais comuns das perspectivas antimarxistas desmoralizadas que acabaram dominando a “esquerda” pequeno-burguesa e das tendências liquidacionistas que se desenvolveram no interior da Quarta Internacional ao longo do mesmo período foram explicadas por David North em As Origens Políticas da Pseudoesquerda:

O período pós-Segunda Guerra Mundial assistiu ao desenvolvimento, em diversas correntes da intelectualidade pequeno-burguesa, de uma perspectiva cada vez mais antimaterialista, antimarxista, antitrotskista, antissocialista e antioperária. Especialmente à medida que o domínio capitalista se restabilizava nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, e a burocracia soviética consolidava sua posição, a pequena burguesia buscou desenvolver as concepções intelectuais e elaborar o programa político que melhor servissem à defesa de seus próprios interesses na ordem do pós-guerra. O surgimento do pablismo entre 1949 e 1953 foi a expressão, dentro da Quarta Internacional, desse processo social, político e intelectual...

Não se tratava de certos indivíduos confusos cometendo erros políticos infelizes. Pelo contrário, os “erros” teóricos e políticos de Michel Pablo e Ernest Mandel, para citar apenas os opositores mais importantes do trotskismo ortodoxo (isto é, a expressão política do marxismo revolucionário), surgiram como expressão de processos socioeconômicos que se desenvolveram no período posterior à Segunda Guerra Mundial. Por meio da tendência conhecida como pablismo, a pequena burguesia tentou tomar o controle da Quarta Internacional e utilizar seu prestígio em benefício próprio.

A deriva à direita dessas tendências pequeno-burguesas culminou em sua completa integração à política burguesa e na consolidação da perspectiva da tendência política que o CIQI caracterizou cientificamente como a pseudoesquerda.

As perspectivas da pseudoesquerda foram epitomizadas na influente obra de Chantal Mouffe e Ernest Laclau, Hegemonia e Estratégia Socialista. Lançado em 1985 pela editora pablista Verso (que também publicou as Reflexões sobre o Marxismo Ocidental de Anderson), o livro proclamava: “O que está agora em crise é toda uma concepção de socialismo que repousa sobre a centralidade ontológica da classe trabalhadora, sobre o papel da Revolução, com ‘R’ maiúsculo, como momento fundador na transição de um tipo de sociedade para outro”. A perspectiva “populista de esquerda” de Laclau e Mouffe encontrou expressão concreta nas traições e catástrofes políticas perpetradas pelo Syriza na Grécia e pelo Podemos na Espanha.

Os ataques à Teoria da Revolução Permanente perpetrados por esses autores de diversas tradições antitrotskistas servem inegavelmente como fundamento da revisão de má-fé da teoria de Trotsky pela CRP. Os morenistas, no entanto, não têm a mínima decência de especificar o que um balanço do século XX teria refutado sobre a Teoria da Revolução Permanente, nem por que ela requer uma revisão.

A resposta a essa pergunta emerge com mais clareza de outros escritos de Juan Dal Maso, o arquiteto da “formulação ampliada” morenista da Teoria da Revolução Permanente.

Juan Dal Maso no lançamento de seu livro de 2023 “Mariategui. Teoria e revolução”, em Buenos Aires. [Photo: La Izquierda Diario]

As elaborações teóricas do líder morenista têm se concentrado, além de Gramsci, sobre a obra do pensador socialista heterodoxo peruano José Carlos Mariátegui. Em 2025, o La Izquierda Diário publicou dois ensaios de Dal Maso reivindicando as contribuições de Mariátegui para o desenvolvimento de um “mito” político contemporâneo.

Ele elogiou a “ideia do mito como a bandeira, o objetivo ou aquilo que um grupo de pessoas persegue, em especial as multidões”. Afirmando que essa ideia é a “mais produtiva para pensar o problema da política revolucionária hoje”, Dal Maso reconheceu que ela está indissoluvelmente ligada às ideias de “mito como necessidade metafísica, como algo que obedece à ‘necessidade de infinito’ do ser humano” e “do mito como aquilo que move os seres humanos na história... como quando [Mariátegui] diz que a história é feita por homens possuídos e iluminados por uma ‘crença superior’ e os demais são ‘o coro anônimo do drama’”.

Mariátegui, que morreu jovem em 1930, aos 35 anos, defendia a necessidade de o movimento comunista adotar um “mito revolucionário”. Dal Maso, por sua vez, prescreve um “mito democrático” para o século XXI.

Mas por que o “problema da política revolucionária hoje” exigiria mergulhar no domínio do “mito”? Dal Maso responde:

Retomando os termos de Mariátegui, mais do que uma crise do 'absoluto burguês' — ou seja, mais do que uma crise da ideia de Progresso com maiúsculas e da abertura a imaginários 'heroicos e voluntaristas' como os da primeira pós-guerra do século XX —, o que vivemos hoje é um esgotamento da ideologia burguesa por sua própria banalidade, o que constitui por sua vez o próprio processo de sobrevivência dessa ideologia como tal: a ideia de que o capitalismo é o único sistema possível e a ideia do presentismo que fecha toda visão do passado (sobretudo no que teve de revolucionário) e do futuro (enquanto possibilidade de mudança), porque se vive e deve viver num presente instantâneo e imediato no qual deveríamos nos dedicar ao consumo. Esse imaginário, como corresponde a toda situação de crise, tampouco é homogêneo, mas tem gravitação suficiente para que nos coloquemos a pergunta sobre se não há um certo aspecto crônico na crise ideológica, que só poderá ser superado como estágio da subjetividade das massas com grandes acontecimentos históricos.

Essa formulação expõe claramente não apenas como os morenistas concebem o “problema da política revolucionária hoje”, mas por que a Teoria da Revolução Permanente em sua “forma clássica” é totalmente inadequada aos seus propósitos.

A perpetuação do sistema capitalista é apresentada como resultado da sua dominação ideológica sobre a classe trabalhadora.

Se essa crise ideológica das massas assumiu um caráter crônico que somente grandes acontecimentos não especificados podem superar, como propõe Dal Maso, então vivemos sob uma época histórica completamente diferente daquela analisada por Trotsky, e na qual seus postulados teóricos são absolutamente inúteis.

A única coisa original nas ideias dos morenistas é a audácia de apresentá-las como uma “expansão” da teoria de Trotsky. Mas há muito o líder fundador da Quarta Internacional já respondeu aos seus argumentos pequeno-burgueses desmoralizados:

Todos os diversos tipos de representantes pseudomarxistas desiludidos e apavorados partem... do pressuposto de que a falência da direção apenas “reflete” a incapacidade do proletariado de cumprir sua missão revolucionária. Nem todos os nossos adversários expressam esse pensamento com clareza, mas todos eles — ultraesquerdistas, centristas, anarquistas, para não mencionar os stalinistas e os social-democratas — transferem a responsabilidade pelas derrotas de si mesmos para os ombros do proletariado. Nenhum deles indica sob quais condições precisas o proletariado será capaz de realizar a reviravolta socialista.

Se concedermos que é verdade que a causa das derrotas está enraizada nas próprias qualidades sociais do proletariado, então a situação da sociedade moderna terá de ser reconhecida como irremediável.

A confirmação histórica e atualidade da Teoria da Revolução Permanente de Trotsky

A CRP nunca explica abertamente o que considera inconsistente com a realidade na Teoria da Revolução Permanente. Mas essa questão foi respondida pela prática histórica do morenismo. A trajetória política da tendência morenista foi, de forma consistente, determinada pelo repúdio às premissas básicas e interconectadas da teoria de Trotsky: 1) O caráter internacional da revolução socialista, que, como escreveu Trotsky, “decorre do estado atual da economia e da estrutura social da humanidade”; 2) O papel revolucionário determinante da classe trabalhadora em todos os países na época atual, imperialista.

Contrariamente às afirmações dos morenistas, a Teoria da Revolução Permanente corresponde inteiramente à crise capitalista global objetiva em desdobramento e aos problemas da política revolucionária hoje. A dinâmica política internacional básica descrita pela teoria de Trotsky é inteiramente contemporânea.

Os princípios fundamentais dessa concepção política mundial foram elaborados por Trotsky já em 1905, ao determinar os contornos programáticos necessários para a revolução russa iminente.

Leon Trotsky em sua escrivaninha na Ilha de Prinkipo, na Turquia.

Trotsky insistia que a burguesia russa atrasada, simultaneamente oprimida pelo imperialismo e confrontada pela oposição interna de uma poderosa classe trabalhadora, era incapaz de resolver as tarefas historicamente associadas às revoluções democráticas do passado. Somente a classe trabalhadora, tomando o poder, poderia levar a cabo essas tarefas revolucionárias. O proletariado russo no poder, entretanto, não poderia limitar-se às tarefas democráticas e seria compelido a implementar diretamente medidas socialistas, cuja conclusão dependia da expansão da revolução socialista internacionalmente.

Como explica David North em seu ensaio de 1993, A Revolução Permanente e a Questão Nacional Hoje:

A relação da Revolução Russa com a revolução socialista mundial constituía a base essencial da teoria da revolução permanente de Trotsky. Com uma consistência e uma clarividência que não tinha igual entre nenhum de seus contemporâneos, Lenin incluído, Trotsky insistia que o caráter da Revolução Russa seria determinado, em última análise, não por condições nacionais, mas internacionais. Aos pedantes mencheviques, que continuamente argumentavam que a Rússia era economicamente atrasada demais para embarcar num programa de desenvolvimento econômico socialista, Trotsky respondia que as potencialidades econômicas russas não podiam ser corretamente avaliadas apenas do ponto de vista de seu estágio nacional de desenvolvimento e dos recursos nacionais à sua disposição. A dinâmica real do desenvolvimento russo só podia ser compreendida no contexto da economia mundial e das relações políticas internacionais nas quais ela efetivamente existia.

North prossegue:

A eclosão da Primeira Guerra Mundial confirmou a insistência de Trotsky na primazia da situação internacional sobre os fatores nacionais. A guerra imperialista significava, em essência, a impossibilidade de reconciliar pacificamente as forças produtivas do capitalismo mundial com o Estado-nação ultrapassado. Tanto a classe trabalhadora dos países avançados quanto a dos países atrasados enfrentava um dilema comum: a solução para todos os problemas fundamentais da sociedade humana só poderia ser encontrada no nível do desenvolvimento econômico mundial e por meio da luta revolucionária internacional.

Essa concepção científica estava na base da análise de Trotsky de todos os problemas políticos.

As experiências históricas cruciais do século passado verificaram repetidas vezes as leis do desenvolvimento político descritas pela Teoria da Revolução Permanente.

A teoria de Trotsky foi positivamente confirmada pela vitória da Revolução de Outubro de 1917, que estabeleceu com êxito o poder operário ao adotar as prescrições programáticas da Teoria da Revolução Permanente. Mas também foi confirmada, negativamente, pela série de derrotas revolucionárias provocadas pelas perspectivas nacionalistas traidoras promovidas pelos inimigos stalinistas e pablistas do trotskismo. Em nenhum lugar do mundo as consequências desastrosas da renúncia à Teoria da Revolução Permanente foram demonstradas de forma tão reiterada e definitiva quanto na América Latina.

O stalinismo emergiu como uma reação política consciente contra o programa revolucionário internacionalista que inspirou a Revolução de Outubro. Suas perspectivas expressavam os interesses materiais da burocracia de um Estado operário estabelecido num país economicamente atrasado e cercado pelo imperialismo. Sua busca por acomodação foi racionalizada na teoria antimarxista do “socialismo em um só país” de Stalin, que cortou o vínculo entre o desenvolvimento do socialismo na União Soviética e o avanço da revolução proletária mundial.

Os grandes reveses sofridos pela revolução mundial em consequência das traições da Comintern, desde o esmagamento da Revolução Chinesa de 1927 até a ascensão de Hitler ao poder em 1933, consolidaram o stalinismo como agência contrarrevolucionária do imperialismo. Com base nessa avaliação, Trotsky lançou o chamado à fundação da Quarta Internacional.

O papel contrarrevolucionário do stalinismo ficou claramente exposto em sua adoção das alianças de “Frente Popular” destinadas a preservar o domínio burguês enquanto a crise capitalista gestava uma segunda guerra mundial entre potências imperialistas. Mas foi ainda mais bem exposto por seus esforços para liquidar fisicamente a vanguarda marxista revolucionária, que corretamente identificava com o trotskismo.

O movimento trotskista se forjou politicamente na luta em defesa da independência política da classe trabalhadora e pelo desenvolvimento de sua estratégia revolucionária internacionalista — contra os esforços do stalinismo de subordiná-la a alianças nacionais com a burguesia. O revisionismo pablista representou uma tentativa sistemática de sabotar essa luta por dentro da Quarta Internacional.

Michel Pablo (à direita) com Ernest Mandel.

A tendência pablista — liderada por Michel Pablo e Ernst Mandel, que dirigiam o Secretariado Internacional da Quarta Internacional — adaptou-se às condições de estabilização relativa do capitalismo no pós-guerra, que só foi alcançada como consequência das traições do stalinismo às lutas revolucionárias da classe trabalhadora no final da Segunda Guerra Mundial.

Acobertando os crimes contrarrevolucionários do stalinismo, os pablistas enalteceram seus “êxitos” em estabelecer Estados operários deformados na Europa Oriental. Esses “êxitos”, juntamente com o avanço da revolução anticolonial e a “quietude” do movimento operário nos centros imperialistas, foram apresentados como os elementos formadores de uma “nova realidade”. “A realidade social objetiva”, afirmou Pablo, “consiste essencialmente no regime capitalista e no mundo stalinista”.

Essa avaliação grosseiramente impressionista deu origem a uma perspectiva histórica completamente nova. Como escreveu David North em A Herança que Defendemos:

...O trotskismo não era mais visto como a doutrina que guia a atividade prática de um partido determinado a conquistar o poder e mudar o curso da história, mas sim como uma interpretação geral de um processo histórico no qual o socialismo seria, em última análise, realizado sob a direção de forças não proletárias hostis à Quarta Internacional. Na medida em que se atribuía ao trotskismo algum papel direto no curso dos acontecimentos, era meramente como uma espécie de processo mental subliminar guiando inconscientemente as atividades de stalinistas, neostalinistas, semi-stalinistas e, naturalmente, nacionalistas pequeno-burgueses de um tipo ou de outro.

No Terceiro Congresso Mundial da Quarta Internacional, realizado em agosto de 1951, Pablo levou às últimas consequências as implicações liquidacionistas de sua perspectiva, declarando que nenhuma organização trotskista poderia evitar “subordinar todas as considerações organizativas de independência, formal ou prática, à integração real no movimento de massas onde quer que ele se expresse”. Sob essa doutrina, batizada de “entrismo sui generis”, os pablistas orientaram as seções da Quarta Internacional a se dissolverem completamente nos partidos stalinistas e social-democratas, e nos movimentos nacionalistas burgueses nos países coloniais e semicoloniais.

Quanto às seções latino-americanas, as teses do Terceiro Congresso orientavam sua “participação e atividade, livres de todo sectarismo, em todos os movimentos de massas e todas as organizações que expressem, mesmo de forma indireta e confusa, as aspirações das massas que podem, por exemplo, tomar o canal dos sindicatos peronistas ou do movimento MNR boliviano, ou a APRA no Peru, o movimento ‘trabalhista’ de Vargas, ou a Ação Democrática na Venezuela”.

Essa linha repudiava diretamente a orientação anterior das organizações trotskistas na América Latina. No Brasil, por exemplo, o Partido Socialista Revolucionário (PSR) construíra seu prestígio no movimento operário como o opositor mais consequente do governo nacionalista de direita de Getúlio Vargas e de seu aparato estatal corporativista, ao qual o Partido Comunista stalinista se subordinava completamente.

Em relação à Bolívia e ao Peru, a tese de Pablo sancionava especificamente alianças de frente popular com a burguesia nacional. Ela defendia que o Partido Operário Revolucionário (POR) boliviano interviesse no movimento de massas “com o objetivo de empurrá-lo o mais longe possível rumo à tomada do poder pelo MNR com base num programa progressista de frente única anti-imperialista”.

Como North observou crucialmente em A Herança que Defendemos:

Essa proposta demonstrava claramente que o liquidacionismo pablista conduzia diretamente, sob o disfarce de “integração no movimento de massas”, à colaboração de classes e à traição da classe trabalhadora. A orientação proposta por Pablo nada tinha a ver com as táticas seguidas pelos bolcheviques em 1917 com base na teoria da revolução permanente. Ela sancionava a adaptação de Lora ao nacionalismo burguês de Paz Estenssoro, o que levou diretamente à derrota da classe trabalhadora boliviana em 1952. ...

A ideia de que os trotskistas deveriam disputar com os nacionalistas burgueses do MNR ou da APRA pela direção da classe trabalhadora e do campesinato oprimido, de que deveriam trabalhar para expor diante das massas a incapacidade dessas organizações de completar a revolução democrática e travar uma luta consequente contra o imperialismo, e de que deveriam desmascarar a desonestidade política das promessas democráticas dessas organizações, era um tabu dentro da perspectiva política defendida por Pablo.

A cisão com os revisionistas pablistas e a fundação do Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI) em 1953 preservaram o movimento trotskista internacional desse monumental ataque liquidacionista.

A “Carta Aberta” do líder do Partido Socialista dos Trabalhadores (SWP), James P. Cannon, que lançou o CIQI, reafirmou os princípios fundamentais do trotskismo atacados pelo pablismo. Ela defendeu a caracterização de Trotsky da época como a da “agonia mortal do sistema capitalista”, que “ameaça a destruição da civilização através de depressões cada vez piores, guerras mundiais e manifestações bárbaras como o fascismo”, e que “só pode ser evitada substituindo o capitalismo pela economia planificada do socialismo em escala mundial”. A “relação mundial das forças sociais nunca foi tão favorável como hoje para que os trabalhadores tomem o caminho do poder”, afirmava a carta, mas a crise de direção da classe trabalhadora precisava ser resolvida. “O principal obstáculo para isso é o stalinismo”, declarava claramente a carta de Cannon, “que atrai os trabalhadores explorando o prestígio da Revolução de Outubro de 1917 na Rússia, apenas para, ao trair sua confiança, atirá-los nos braços da Social-Democracia, na apatia ou de volta às ilusões no capitalismo”.

Aprofundando as divisões teóricas fundamentais com o pablismo em torno do papel da direção política consciente e do internacionalismo, Cannon escreveu nos meses seguintes à cisão:

Somos os únicos adeptos incondicionais da teoria leninista-trotskista do partido de vanguarda consciente e do seu papel na direção da luta revolucionária. Essa teoria adquire uma atualidade candente e se impõe sobre todas as demais na época atual.

O problema da direção hoje não se limita às manifestações espontâneas da luta de classes num processo longo e arrastado, nem mesmo à conquista do poder neste ou naquele país onde o capitalismo é especialmente fraco. É uma questão do desenvolvimento da revolução internacional e da transformação socialista da sociedade.

A fundação do CIQI estabeleceu as questões políticas essenciais na cisão com o pablismo. Mas ela só poderia iniciar o que, por necessidade, se desenvolveu como uma luta política prolongada e implacável contra as poderosas pressões materiais manifestadas no revisionismo pablista.

O repúdio de Nahuel Moreno à Revolução Permanente

As profundas implicações da ruptura de 1953 na Quarta Internacional emergiram com maior força menos de uma década depois, quando o SWP deu início a um processo de reunificação sem princípios com o Secretariado Internacional pablista. As divergências políticas com o pablismo, que só haviam se aprofundado, foram declaradas pelos dirigentes do SWP e seus apoiadores internacionais como superadas por um acordo em torno de grandes acontecimentos, acima de tudo a Revolução Cubana de 1959. A essência dessa concordância era um ataque frontal à Teoria da Revolução Permanente.

O SWP justificou a reunificação alegando um entendimento comum com os pablistas de que o movimento guerrilheiro de Fidel Castro teria demonstrado que a derrubada do capitalismo e a criação de um Estado operário podiam ser realizados com “instrumentos rústicos”, isto é, por direções pequeno-burguesas não marxistas baseadas em forças sociais distintas da classe trabalhadora. O Secretariado Unificado pablista, estabelecido em 1963 como resultado dessa fusão sem princípios, atribuiu explicitamente ao trotskismo o papel servil de “fortalecer e enriquecer a corrente internacional do castrismo”.

Os principais arquitetos dessa operação de liquidação do movimento trotskista no pântano da política pequeno-burguesa foram Joseph Hansen, o ex-agente da GPU e então agente FBI na direção do SWP, e seu aliado latino-americano, Nahuel Moreno.

Hansen e Moreno — na esteira de quem a “Corrente Revolução Permanente” segue hoje — apresentaram cinicamente seu ataque frontal à Teoria da Revolução Permanente como uma “atualização” da teoria de Trotsky. Hansen argumentava que o fato de a “direção pequeno-burguesa” de Castro, “partindo de um programa democrático-burguês”, supostamente ter sido empurrada pela lógica objetiva dos acontecimentos a “estabelecer o primeiro Estado operário no Hemisfério Ocidental”, representava a maior confirmação das leis da Revolução Permanente.

Nahuel Moreno. [Photo: nahuelmoreno.org]

A revisão grosseira da Teoria da Revolução Permanente por Moreno foi desenvolvida em paralelo com seu crescente conflito com a orientação principista do CIQI na América Latina. Tendo inicialmente apoiado o CIQI no rompimento de 1953, motivado em grande medida por disputas facionais nacionais com o protegido de Pablo na Argentina, Juan Posadas, Moreno logo se viu em desacordo com as perspectivas do CIQI. Essas divergências foram formuladas pela primeira vez em seu informe às seções latino-americanas sobre a Conferência de Leeds do CIQI de1958, da qual participou. O informe foi posteriormente publicado sob o título “A Revolução Permanente no Pós-Guerra”.

O eixo central do relatório de Moreno era declarar sua “oposição total” à resolução do CIQI de que “nos países coloniais e semicoloniais, nossa tarefa central é construir partidos proletários revolucionários” que, “armados com a teoria da revolução permanente”, lutem por “estabelecer a direção proletária das massas”. Rejeitando essa formulação ortodoxa, ele argumentou: “O problema teórico e programático mais importante reside neste fato: o processo revolucionário neste período do pós-guerra enriqueceu e deu um novo conteúdo à tese da revolução permanente”.

Moreno formulou suas conclusões revisionistas da maneira mais clara em seu documento programático “A Revolução Latino-Americana”, publicado um ano antes de sua reunificação com o pablismo. O documento afirmava:

A vida tornou evidentes os buracos, omissões e erros do programa da Revolução Permanente.... O dogma de que a única classe que pode realizar as tarefas democráticas é a classe trabalhadora é falso. Seções da classe média urbana e do campesinato são, por vezes, os líderes revolucionários.... Não só os trabalhadores podem organizar e liderar as primeiras etapas revolucionárias, mas também os movimentos e organizações democráticas ou agrárias.

O marxismo ocidental esqueceu a luta armada, o método permanente das massas que incorpora à luta de classes um novo fator que é especificamente original: a geografia apaga a classificação das regiões maduras e imaturas. Qualquer país, qualquer região é apto para a revolução permanente. As revoluções cubana e chinesa ocorreram sob circunstâncias que os marxistas clássicos caracterizam como desfavoráveis: não houve grandes lutas sociais e um punhado de homens iniciou uma luta armada. No entanto, esse grupo transforma as condições em favoráveis.

Essa perspectiva ecoa diretamente na afirmação da CRP, em referência implícita ao CIQI, de que parte da Quarta Internacional “terminou se afundando em dogmas que não serviram de nada”. A conclusão extraída por Moreno no documento de 1962 também não deixa dúvidas sobre as origens do ecletismo vulgar exibido na “formulação ampliada” da CRP. Ele escreveu: “É necessário sintetizar a teoria e o programa geral correto (trotskista) com a teoria e o programa particular correto (maoísta ou castrista)”.

Tocando nas implicações cruciais de sua linha revisionista, Moreno declarou em “A Revolução Latino-Americana” que se tratava de “descobrir por que razões objetivas a revolução mundial continuava a avançar apesar da traição e da ausência de uma direção proletária revolucionária”. Em outras palavras, que a premissa básica da Quarta Internacional — de que a crise da humanidade se reduz à crise da direção revolucionária do proletariado — teria sido historicamente refutada.

A tentativa de Hansen e Moreno de liquidar definitivamente o movimento trotskista foi bloqueada pela contraofensiva política montada pelo CIQI sob a direção da Liga Socialista Operária (SLL) britânica de Gerry Healy. Rejeitando a glorificação do guerrilheirismo pequeno-burguês pelos pablistas e demolindo o mito de que a revolução nacionalista burguesa de Castro havia estabelecido um Estado operário em Cuba, Healy e seus camaradas reafirmaram a necessidade de construir seções do CIQI como a direção revolucionária consciente da classe trabalhadora na América Latina e em todo o mundo.

A recusa em dissolver o CIQI garantiu a preservação da continuidade histórica do movimento trotskista internacional. Mas a sabotagem da construção da direção revolucionária impulsionada pelo pablismo teve consequências catastróficas. Milhares de trabalhadores e jovens revolucionários em toda a América Latina foram massacrados nas aventuras guerrilheiras promovidas pelos pablistas.

A greve geral do Cordobazo, em 29 de maio de 1969, em Córdoba, Argentina. [Photo: Revista Gente]

Ademais, enquanto o Secretariado Unificado proclamava a centralidade estratégica das guerrilhas rurais e do campesinato, a região estava de fato gestando levantes de massas da classe trabalhadora urbana. Movimentos como o Cordobazo, que sacudiu a Argentina em 1969, e o subsequente levante revolucionário dos trabalhadores no Chile colocaram objetivamente o problema da tomada do poder político pela classe trabalhadora. Mas, na ausência de uma direção marxista/trotskista consciente, essas lutas permaneceram politicamente subordinadas às burocracias stalinistas e reformistas e foram conduzidas à derrota.

Na Argentina e no Chile, como em outros países da região, imediatamente após a ruptura com o CIQI, os morenistas implementaram a diretriz de dissolver as seções existentes da Quarta Internacional no meio de “correntes militantes que querem levar as coisas até o fim ‘à la cubana’”, como escreveu Luis Vitale do Partido Operário Revolucionário (POR) chileno. Moreno realizou uma fusão sem princípios com a Frente Revolucionária Indoamericana Popular, organização nacionalista pequeno-burguesa liderada por Mario Santucho, para formar o Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT) na Argentina.

Como escreveu Bill Van Auken em Trabalhadores Argentinos na Encruzilhada, Santucho “logo extraiu a conclusão lógica da linha pablista: que era necessário lançar imediatamente uma luta guerrilheira armada na Argentina”. Em 1968, às vésperas da insurreição de massas no centro industrial argentino de Córdoba, “Santucho, que já estava organizando ações armadas individuais, e Moreno, cuja relação com a guerrilha era inteiramente platônica, romperam”, com dois terços da direção do PRT apoiando Santucho e o Secretariado Unificado reconhecendo seu grupo como a seção oficial.

Enquanto uma fração dos pablistas argentinos se lançava em lutas armadas isoladas e catastróficas contra o Estado, Moreno integrava cada vez mais sua organização ao aparato burguês que assassinava seus ex-camaradas. Como escreveu Van Auken:

Após Perón tomar o poder em 1973, o PRT de Moreno passou a desempenhar um papel cada vez mais importante na traição dos trabalhadores argentinos. Em condições nas quais os esquadrões da morte do Triplo A, organizados pelo ministro da Previdência Social de Perón, Lopez Rega, espalhavam uma onda de terror e assassinatos, e a repressão militar e policial corria desenfreada em todo o país, o PRT anunciou orgulhosamente, “Nosso partido é o único da esquerda revolucionária argentina que proclamou publicamente seu apoio ao ‘processo de institucionalização’”. ...

Assim, precisamente quando a questão de vida ou morte do proletariado argentino era o necessário rompimento com o peronismo e a construção de uma direção revolucionária alternativa para a luta para esmagar o Estado capitalista e estabelecer a ditadura do proletariado, os morenistas agiram para reforçar o peronismo e defender a máquina estatal burguesa.

O desarmamento político da classe trabalhadora argentina pelo pablismo abriu caminho para o golpe militar de 1976 liderado pelo general Videla, que deu origem a um dos regimes mais assassinos da história da região.

O reino do terror que se espalhou pela América Latina sob a rede de ditaduras militares apoiadas pelos Estados Unidos foi o preço pago pelas derrotas revolucionárias da classe trabalhadora. Como escreveu Van Auken, “O papel contrarrevolucionário do pablismo foi escrito com o sangue dos trabalhadores e da juventude da Argentina” — e além.

Pela resolução da crise histórica da direção proletária: construir o CIQI!

O ataque pablista à Teoria da Revolução Permanente por meio da glorificação do castrismo e da promoção do protagonismo revolucionário de forças não proletárias teve um impacto político muito além da América Latina. Ele desempenhou um papel decisivo na desorientação da classe trabalhadora e da juventude nos países capitalistas avançados, contribuindo decisivamente para que a onda revolucionária inaugurada pela greve geral francesa de maio de 1968 não resultasse na derrubada do capitalismo.

Todos os aparentes “êxitos” do stalinismo e do nacionalismo burguês utilizados pelo pablismo para revisar as perspectivas centrais da Quarta Internacional foram subsequentemente revertidos, e o caráter contrarrevolucionário do stalinismo foi definitivamente estabelecido com a dissolução da União Soviética pela burocracia, apoiada pelos pablistas.

Ao longo dos últimos 40 anos, os herdeiros do pablismo e de sua variante morenista integraram-se cada vez mais à ordem política burguesa e promoveram as guerras imperialistas dos EUA-OTAN pela redivisão mundial.

Na América Latina, atuaram como os principais promotores da restabilização da dominação burguesa em meio às crises das ditaduras militares nos anos 1980. Moreno apoiou o retorno de um regime civil capitalista na Argentina como uma “revolução democrática” concluída — caracterização estendida por seus seguidores, pouco após sua morte, à restauração do capitalismo na URSS. Os pablistas e morenistas estiveram implicados, desde então, na articulação de todas as principais armadilhas nacionalistas burguesas para a classe trabalhadora latino-americana, desde a construção do Partido dos Trabalhadores no Brasil até os governos da “Maré Rosa” do século XXI.

Todo o edifício nacionalista da política morenista está ruindo sob os choques da explosão das contradições do imperialismo. O ano de 2026 foi inaugurado pela invasão dos EUA à Venezuela, o cerco a Cuba e o lançamento de uma guerra de aniquilação contra o Irã apoiada por todas as grandes potências imperialistas. À medida que o imperialismo lança o mundo em uma Terceira Guerra Mundial em rápido desenvolvimento, a tarefa da revolução socialista está sendo colocada de forma imediata e urgente à classe trabalhadora internacional.

Nesse contexto, a conferência da CRP morenista proclamou:

A tarefa de construir uma internacional da revolução socialista é um dos principais deveres dos revolucionários para enfrentar a nova etapa que se abre. Temos consciência de que nenhuma organização atualmente existente que se reivindica revolucionária pode resolver por si mesma essa tarefa de magnitude histórica. Contra toda autoproclamação sectária, sustentamos que a construção de partidos operários revolucionários e a edificação de uma internacional da revolução social, que para nós implica a refundação da Quarta Internacional sobre bases revolucionárias, não será o produto do desenvolvimento evolutivo de nossas organizações nem de nossa tendência internacional, mas o resultado da fusão de alas esquerdas de organizações marxistas revolucionárias e setores da vanguarda operária e juvenil que se orientem em direção à revolução socialista.

Respondamos claramente: a organização capaz de resolver essa tarefa de magnitude histórica existe — é o Comitê Internacional da Quarta Internacional. O CIQI não teme a autoproclamação porque, ao contrário de vocês, não teme reivindicar sua própria história. O fato de que representa o único partido internacional da revolução socialista não é uma questão de opinião subjetiva, mas de um histórico de luta objetivamente verificável.

O século XX não passou em vão! As lições dos triunfos e derrotas históricas da classe trabalhadora, incorporadas na teoria e no programa do CIQI, constituem a arma fundamental para a educação da vanguarda revolucionária que estabelecerá o socialismo no século XXI.

Os princípios enunciados na declaração fundadora do CIQI, escrita por Cannon há 73 anos, adquiriram relevância contemporânea ainda maior. A agonia mortal do sistema capitalista ameaça, mais do que nunca, a destruição da civilização através de depressões cada vez piores, guerras mundiais e do fascismo. Ao mesmo tempo, a relação mundial das forças sociais nunca foi tão favorável para que a classe trabalhadora tome o caminho do poder e substitua o capitalismo pela economia planificada do socialismo.

Como destacou David North, presidente do Conselho Editorial Internacional do World Socialist Web Site, em uma declaração de fevereiro de 2026:

As mesmas contradições que impelem a classe dominante em direção ao autoritarismo e ao militarismo estão simultaneamente criando as condições para um movimento revolucionário da classe trabalhadora em escala internacional.

...A causa [fundamental da crise] é estrutural e sistêmica: a contradição irreconciliável entre a propriedade privada dos meios de produção e o caráter cada vez mais social do próprio processo de produção. Essa é a contradição central identificada por Marx, e sua operação na época atual atingiu uma intensidade sem precedentes históricos.

A isso deve-se acrescentar uma segunda contradição, intimamente relacionada: entre o crescimento da economia mundial — o desenvolvimento de um sistema genuinamente global de produção, troca e comunicação — e o obsoleto sistema de Estados-nação no qual o poder político permanece organizado. O surgimento de redes de produção transnacionais, cadeias de fornecimento globais abrangendo dezenas de países e comunicação instantânea em todo o mundo tornou o Estado-nação um entrave ao desenvolvimento racional das forças produtivas. ...

A burguesia imperialista norte-americana busca resolver essa contradição pela afirmação do poder militar — pela reorganização violenta das relações econômicas globais em seu favor. ...

Há, no entanto, outra força que esse mesmo processo de globalização criou — uma força que a burguesia não pretendia trazer à existência e cujas implicações revolucionárias ainda não compreende plenamente. A integração global da produção criou uma classe trabalhadora global massiva, de tamanho, concentração e interconexão objetiva sem precedentes na história humana. ...

Ademais, apesar da dominação política da reação, o último meio século testemunhou o que pode ser justamente descrito como a maior revolução científica e tecnológica da história humana. ...

A humanidade possui, pela primeira vez em sua história, o conhecimento científico e a capacidade tecnológica para resolver os problemas mais fundamentais da existência material — a fome, a doença, a degradação ambiental, a servidão do trabalho explorado. E, no entanto, essas capacidades estão aprisionadas num sistema social que as subordina à acumulação do lucro privado, que canaliza o gênio científico para a engenharia financeira e o desenvolvimento de armamentos, que permite que crianças morram de fome enquanto algoritmos otimizam a receita publicitária.

Essas são as condições materiais objetivas que criam a possibilidade e a necessidade urgente da adoção do programa da Revolução Permanente e da construção do CIQI como a direção revolucionária da classe trabalhadora internacionalmente.

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