No final de março, foi lançada uma petição no site Change.org para condecorar o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região (SindmetalSJC) com a Ordem do Mérito Militar, a mais alta condecoração do Exército Brasileiro. A petição, que ultrapassava 21 mil assinaturas em 26 de abril, sustenta que a atuação do sindicato na “defesa de nossos ativos estratégicos e na promoção da soberania nacional”, especialmente na preservação da Avibras, o qualifica para receber a honraria das mãos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Embora a petição tenha sido formalmente criada por podcasters de geopolítica, ela foi politicamente articulada pela direção do sindicato, ligada ao Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), a principal seção da Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-QI) fundada pelo revisionista argentino Nahuel Moreno. O presidente do SindmetalSJC e dirigente do PSTU, Weller Gonçalves, recebeu o consultor em assuntos militares Robinson Farinazzo em seu programa de entrevistas no YouTube para promover a petição.
Farinazzo, que assumiu o papel de uma espécie de “embaixador” da campanha, é um oficial da reserva da Marinha e um defensor explícito da ditadura militar brasileira de 1964-85, com ligações políticas a setores de extrema-direita, incluindo o ideólogo fascista russo, Alexandr Dugin. Em sua aparição no programa de Weller, Farinazzo defendeu que o Brasil precisa desenvolver bombas nucleares para repelir as ameaças do imperialismo americano — posição que o dirigente sindical morenista endossou ao compartilhar o trecho em seu perfil no Instagram.
Segundo um decreto presidencial de 2000, a Ordem do Mérito Militar pode ser concedida não apenas a militares, mas também a “instituições civis, nacionais ou estrangeiras, que se tornem credoras de homenagem especial do Exército”. Historicamente, a medalha foi concedida a ditadores e torturadores militares brasileiros, bem como aos seus “conselheiros” americanos. Não existe precedente, contudo, para a condecoração de um sindicato.
A campanha é um ato político emblemático, que sinaliza um giro intenso à direita dos morenistas do PSTU em uma conjuntura marcada por dois processos convergentes: a escalada da guerra imperialista mundial e, internamente, o ressurgimento de ameaças ditatoriais diretamente vinculadas aos militares. O agravamento da crise da ordem capitalista está expondo as divisões políticas fundamentais entre uma posição revolucionária internacionalista – o trotskismo genuíno representado pelo Comitê Internacional da Quarta Internacional – e as perspectivas nacionalistas reacionárias da pseudoesquerda.
Que esse ato político ocorra no momento atual é particularmente revelador. O processo contra a conspiração golpista liderada por Bolsonaro e os comandantes militares em 2022-23 segue em desdobramento. Em abril, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou o cumprimento das penas dos integrantes do “núcleo 2”, que inclui um general e um coronel do Exército. O aparato militar, contudo, permanece intacto e setores fascistas se preparam para uma nova ofensiva nas eleições de outubro. A própria comissão responsável pela Ordem do Mérito Militar é composta por generais formados durante o regime militar de 1964-85 e sob sua ideologia anticomunista virulenta.
As tradições do Exército brasileiro são violentamente hostis à classe trabalhadora, com um histórico de múltiplas tentativas de golpes, culminando na tomada do poder em 1964 e nas duas décadas subsequentes de terror político. Um dos primeiros atos dos militares no poder foi a perseguição de dirigentes sindicais e trabalhadores combativos e a imposição da intervenção estatal sobre os sindicatos, que aprofundou as políticas ditatoriais do Estado Novo de Getúlio Vargas de 1937.
As imensas implicações políticas e históricas da campanha militarista promovida pelo SindmetalSJC foram notadas por círculos ligados aos militares. O site Sociedade Militar observou:
O caso ganha densidade quando se observa o histórico da entidade. O Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos construiu, ao longo de décadas, uma trajetória de enfrentamento a governos, empresas e à própria lógica da segurança nacional formulada durante o regime militar.
Sua Comissão da Verdade produziu relatórios apontando conivência de empresas com estruturas repressivas, troca de informações com órgãos de inteligência e perseguição a lideranças sindicais, em sintonia com a doutrina do “inimigo interno”.
Em outras palavras, o sindicato foi, por muito tempo, visto justamente como parte desse “inimigo a ser neutralizado” pelo aparato de segurança do Estado.
A proposta de homenagear o sindicato, portanto, expressaria uma “inflexão simbólica”. O site afirma: “Se no passado via-se a presença de metalúrgicos organizados como potencial ameaça à ordem, agora sua atuação em defesa de uma empresa estratégica de mísseis e foguetes pode ser uma contribuição à soberania e à capacidade de dissuasão do país”.
O reconhecimento militar do SindmetalSJC é uma confirmação pública de que a burocracia sindical morenista se enquadra no papel exigido pelo Estado burguês em uma era de guerra: a subordinação integral dos trabalhadores aos “interesses patrióticos” e sacrifícios exigidos pela guerra.
A trajetória do SindmetalSJC na Avibras
A defesa da condecoração militar do SindmetalSJC coroa uma processo político conduzido pelos morenistas ao longo dos últimos três anos e meio. Como o WSWS expôs em uma série de artigos, o SindmetalSJC desenvolveu uma orientação política sistemática aos militares e em defesa da construção de uma indústria de guerra pelo Estado brasileiro.
Este não é um fenômeno exclusivamente brasileiro; é uma característica comum aos aparatos sindicais de vários países, incluindo os Estados Unidos. Lá, a burocracia do Sindicato dos Trabalhadores Automotivos (United Auto Workers), liderada por Shawn Fain, se ofereceu para auxiliar na transição a uma economia de guerra, exaltando a história do sindicato na criação do “arsenal para a democracia” da época da Segunda Guerra Mundial, e apoiou “tarifas estratégicas”, inclusive contra o próprio Brasil.
Em setembro de 2022, os trabalhadores da Avibras, uma das maiores fabricantes de armamentos no Brasil, lançaram uma greve em resposta à entrada da empresa em recuperação judicial, com dívidas de cerca de R$ 600 milhões, e ao não pagamento de salários. A greve se prolongou até o último 11 de março, quando o SindmetalSJC assinou um acordo para a retomada da produção. O acordo, celebrado pela burocracia morenista como vitória, implicou no corte de metade dos postos de trabalho da fábrica. Centenas dos 1.400 operários originalmente empregados pela Avibras foram forçados a migrar ou recorrer ao trabalho informal.
Ao longo desse período de três anos e meio, a CSP-Conlutas, a central sindical comandada pelo PSTU, demonstrou-se alinhada aos interesses dos investidores capitalistas e do Estado burguês.
Enquanto mantinha os trabalhadores da Avibras isolados, a burocracia morenista defendia uma “solução” para a crise da empresa baseada no redirecionamento de investimentos estatais massivos para a construção de um parque industrial de guerra. Essa orientação foi formalizada já em janeiro de 2023, quando o SindmetalSJC apresentou ao Ministério da Defesa o “Dossiê Avibras”, um documento exaltando a empresa como “principal fabricante de material bélico pesado” do país e propondo “o planejamento estratégico da Defesa nacional” através da “estatização das empresas do setor, integrando-as aos institutos científicos e universidades federais, para permitir a fabricação de caças, armamentos pesados, cargueiros militares, navios de guerra, helicópteros de combate, foguetes, mísseis, submarinos”.
Em abril de 2024, os sindicalistas da CSP-Conlutas encaminharam uma carta ao presidente Lula reforçando tais demandas, sem resposta. Esse esforço culminou na realização de um seminário pelo SindmetalSJC, em março de 2025, com a participação de oficiais da ativa, figuras ligadas à indústria bélica, e do próprio Farinazzo. O evento serviu para consolidar uma “aliança entre esquerda e direita” em defesa de uma perspectiva militarista e nacional-chauvinista.
O acordo para a retomada das atividades da Avibras esteve diretamente vinculado a investimentos privados massivos na empresa. Em 8 de abril, foi anunciado um investimento de R$ 300 milhões pela J&F, grupo capitalista que controla a gigante do setor alimentício JBS.
O grupo liderado pela família Batista foi um dos principais beneficiários das políticas de crédito estatal implementadas nos primeiros governos do PT. Após o retorno de Lula à presidência, em 2023, Joesley e Wesley Batista participaram da comitiva oficial na primeira viagem do governo à China. Em março de 2025, a JBS anunciou um acordo com o BNDES para abrir capital na Bolsa de Nova York.
Longe de garantir os “interesses nacionais”, no que diz respeito aos interesses das massas trabalhadoras brasileiras, a política celebrada pela CSP-Conlutas é o produto do casamento podre entre interesses de lucro de grupos capitalistas privados, as necessidades do Estado burguês brasileiro, e os interesses parasitários da burocracia sindical.
Por uma resposta internacionalista da classe trabalhadora à crise capitalista e à guerra
Os morenistas à frente do SindmetalSJC tentam vender seu programa de construção da indústria de guerra brasileira como sendo uma política radical de “defesa da soberania nacional” e até mesmo de combate ao imperialismo. Trata-se de uma fraude política completa.
Longe de constituir um obstáculo à dominação imperialista, esse programa nacionalista está fadado a aprofundar a integração do Brasil, como país semicolonial, aos interesses de guerra das potências imperialistas. Essa verdade política foi claramente demonstrada pelos esforços dos morenistas para vincular as perspectivas de recuperação financeira da Avibras à participação do Brasil na guerra imperialista dos EUA-OTAN contra a Rússia na Ucrânia.
A LIT-QI declarou em 2023 que era “preciso intensificar a campanha de ‘Armas para a Ucrânia, pela derrota militar de Putin’ que deve ser assumida por todos os sindicatos e organizações operárias”. A direção do SindmetalSJC traduziu essa orientação na defesa de que a guerra dos EUA-OTAN contra a Rússia abria uma oportunidade de mercado única para os foguetes e armamentos produzidos na Avibras.
Os trabalhadores da Avibras precisam rejeitar o nacionalismo militarista e a vinculação de seus empregos e salários à expansão da guerra imperialista global, defendidos pelo PSTU/CSP-Conlutas.
O perigo para os trabalhadores da empresa não arrefeceu, como admitiu o próprio sindicato. O pagamento dos salários atrasados e a próprio existência da fábrica continuam dependendo dos interesses dos investidores e do Estado burguês. É somente voltando-se para seus companheiros de classe, no Brasil e internacionalmente, em luta direta contra o capitalismo e seu Estado, que os interesses dos trabalhadores da Avibras podem ser efetivamente defendidos.
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