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Perspectivas

A acusação dos EUA contra Raúl Castro e o histórico de atos terroristas da CIA contra Cuba

Publicado originalmente em inglês em 21 de maio de 2026

Em 20 de maio — data que marca os 124 anos desde que os EUA encerraram sua ocupação militar da ilha e a República de Cuba foi formalmente proclamada em 1902 —, o governo Trump proferiu sua ameaça mais descarada até então contra a ilha

Membros da Brigada 2506 sendo presos na Baía dos Porcos, em Cuba, em 1961.

O Departamento de Justiça dos EUA divulgou uma acusação formal por homicídio e conspiração contra Raúl Castro, de 94 anos, em conexão com a derrubada, em 1996, de duas aeronaves operadas pelo grupo de exilados Irmãos ao Resgate, sediado em Miami.

Aposentado da vida pública há quase uma década, Castro já havia ocupado os cargos de presidente de Cuba e líder do partido no poder. Ele foi um dos comandantes do exército guerrilheiro liderado por seu irmão Fidel, que chegou ao poder em 1959.

Poucas horas antes do anúncio da acusação, o secretário de Estado Marco Rubio publicou um vídeo em espanhol dirigido diretamente ao povo cubano, exigindo uma mudança de regime e defendendo a política de recolonização que Washington vem promovendo em toda a América Latina.

A divulgação da acusação em Miami, na quarta-feira, mais parecia um comício de campanha do que um processo judicial, com os agentes contrarrevolucionários de Washington reunidos para torcer por Donald Trump e aplaudir a perspectiva de uma intervenção militar direta dos EUA contra Cuba.

Em meio a essa comemoração da direita, uma questão foi visivelmente ignorada: quem será responsabilizado pelos 66 anos de violência desenfreada, assassinatos e terror dos EUA contra Cuba?

A acusação contra Raúl Castro é um ato abominável de propaganda política para justificar uma agressão militar planejada contra uma nação empobrecida com menos de 10 milhões de habitantes.

O incidente ocorrido há três décadas a que se refere a acusação é a derrubada, em 24 de fevereiro de 1996, de dois aviões da organização Irmãos ao Resgate sobre o Estreito da Flórida, fato que tem sido sistematicamente deturpado por todos os governos dos EUA desde o de Bill Clinton. O governo Clinton, o Partido Republicano e a mídia corporativa denunciaram o fato como “assassinato a sangue frio”, invocando estatutos internacionais que proíbem o uso de força militar contra aeronaves civis. A CIA insistiu que José Basulto, o piloto do avião que escapou, e os demais não eram agentes pagos da inteligência americana.

Nada disso era verdade. A Embaixada de Cuba nos Estados Unidos respondeu à acusação lembrando que Cuba havia denunciado formalmente mais de 25 violações territoriais cometidas pela organização Irmãos ao Resgate entre 1994 e 1996 — protestos que Washington ignorou sistematicamente.

Longe de ser uma organização humanitária, a Irmãos ao Resgate usou suas aeronaves para realizar repetidos sobrevoos hostis sobre o território cubano, chegando a sobrevoar Havana a baixa altitude e lançar panfletos incitando os cubanos a se rebelarem contra o governo. O próprio Basulto, um veterano da invasão da Baía dos Porcos organizada pela CIA, gabava-se de ter sido treinado em técnicas de terrorismo na Escola das Américas do Exército dos EUA, no Panamá. Ele participou do bombardeio de um hotel em Havana a partir de um barco e, posteriormente, prestou apoio, sob orientação da CIA, ao movimento terrorista Contra na Nicarágua.

As atividades de seu grupo constituíram uma provocação calculada, destinada a desencadear um ataque militar dos EUA contra Cuba. A derrubada do avião foi um ato de legítima defesa contra uma campanha de agressão contínua, apoiada pelos EUA.

O governo Clinton não retaliou militarmente, mas mudou sua posição contrária à lei Helms-Burton, que impôs novas sanções severas contra empresas estrangeiras que operavam em Cuba e proibia qualquer suspensão do embargo dos EUA.

A acusação como pretexto para a guerra

Agora, 30 anos depois, o governo Trump recorre a esse incidente forjado para acusar Castro, com um cinismo sem limites. A acusação segue exatamente o mesmo modelo usado contra o presidente venezuelano Nicolás Maduro, acusado fraudulentamente de narcoterrorismo antes de ser sequestrado durante o ataque militar dos EUA a Caracas, em 3 de janeiro.

A acusação foi elaborada por um grupo de trabalho criado em março pelo procurador federal Jason Reding Quiñones, do Distrito Sul da Flórida, com o objetivo de instaurar processos contra autoridades cubanas em geral. Filho de refugiados cubanos, Reding foi o primeiro promotor nomeado no segundo mandato de Trump, após uma longa carreira no Exército e na Força Aérea dos Estados Unidos.

Não só foi promovido a coronel da reserva no mês passado, como atualmente atua como “consultor jurídico sênior da reserva” do Comando Central dos EUA em relação aos crimes de guerra cometidos pelos EUA e por Israel em todo o Oriente Médio, incluindo na guerra contra o Irã.

A acusação deve ser vista no contexto da campanha mais ampla do governo Trump para justificar uma guerra, algo que vem ocorrendo há meses. Uma reportagem da Axios afirmou recentemente, com base em fontes anônimas da Casa Branca que citaram informações de inteligência confidenciais, que Cuba teria adquirido mais de 300 drones da Rússia e do Irã e estaria “discutindo planos” para atacar a base militar dos EUA na Baía de Guantánamo, navios da Marinha dos EUA e Key West, na Flórida.

A Embaixada de Cuba expôs o próprio absurdo interno da reportagem: “A Axios inventa uma ‘ameaça de drones’, apenas para confessar, alguns parágrafos adiante: ‘Autoridades americanas não acreditam que Cuba esteja planejando ativamente um ataque’”. O governo cubano acrescentou que “Cuba é o país sob ataque”, referindo-se ao embargo energético imposto pelos EUA em janeiro, que ameaça com tarifas punitivas qualquer país que venda petróleo a Cuba, o que deixou a rede elétrica da ilha em estado de colapso.

O histórico de terrorismo e agressão dos EUA contra Cuba

O dia 20 de maio seria uma data apropriada para julgar os responsáveis por uma das campanhas de terrorismo mais prolongadas e implacáveis da história moderna: a do imperialismo americano contra Cuba.

A data marca a Proclamação da República de Cuba em 1902, após o fim da Guerra Hispano-Americana, quando os EUA tomaram posse das colônias espanholas de Cuba, Porto Rico, Guam e das Filipinas.

Os fuzileiros navais dos EUA ocuparam a ilha entre 1917 e 1923, reprimindo greves e protegendo os interesses das empresas americanas.

O fim formal da ocupação militar dos EUA foi acompanhado pela imposição da Emenda Platt, que concedia a Washington o “direito” irrestrito de intervir militarmente nos assuntos cubanos sempre que julgasse conveniente. O governo de Fidel Castro retirou o dia 20 de maio do calendário oficial, reconhecendo que a “independência” de 1902 era um acordo colonial disfarçado de república.

Os 66 anos de terror ininterrupto dos EUA contra Cuba, assim como a atual campanha crescente em prol de uma mudança de regime, tinham como objetivo eliminar todos os obstáculos à restauração do tipo de relação que prevalecia sob a Emenda Platt e a ditadura de Fulgencio Batista antes de 1959. O objetivo é restaurar as relações de estilo colonial que permitiam aos bancos e corporações dos EUA controlar as terras, os serviços públicos, as ferrovias e a indústria açucareira de Cuba, ao mesmo tempo em que davam à Máfia liberdade total para administrar os bordéis e cassinos frequentados por políticos e empresários dos EUA. Batista matou 20 mil pessoas para manter essa ordem.

Quando, em 1959, Fidel Castro derrubou a ditadura de Fulgencio Batista, apoiada pelos Estados Unidos, a reação de Washington foi imediata. Documentos desclassificados da CIA confirmam que as operações secretas dos EUA contra Cuba começaram antes mesmo de Castro ter se aliado à União Soviética — o que significa que os ataques tinham menos a ver com a ideologia da Guerra Fria do que com a defesa da pilhagem da ilha por parte das empresas americanas.

O histórico do terrorismo dos EUA é um dos mais amplamente documentados da história moderna, tendo início com o atentado a bomba de março de 1960 contra o La Coubre, um navio francês que transportava armas que Cuba fora forçada a comprar da Europa, após Washington se recusar a vender armas. As bombas foram deliberadamente programadas para detonar em sequência, de modo que as equipes de resgate que atendessem à primeira explosão fossem atingidas pela segunda. Mais de 100 pessoas morreram e centenas ficaram feridas.

A maior intervenção foi a invasão da Baía dos Porcos, em abril de 1961, com uma força organizada e financiada pela CIA composta por aproximadamente 1.400 mercenários exilados cubanos. Cuba derrotou essa força no que foi considerado o maior desastre militar dos EUA na região, mas não sem antes causar 176 mortos e mais de 300 feridos. Posteriormente, o Estado-Maior Conjunto elaborou a Operação Northwoods em março de 1962 — uma proposta, desde então desclassificada, para encenar atentados terroristas em cidades americanas e sequestros de aviões dos EUA a fim de fornecer pretextos para um ataque militar dos EUA a Cuba.

A Comissão Church de 1975 comprovou oito tentativas da CIA de assassinar Fidel Castro entre 1960 e 1965, documentando o uso de conchas explosivas, charutos envenenados, canetas com veneno e a colaboração com figuras da Máfia. A contra-espionagem cubana documentou um total de 638 planos de assassinato distintos.

Em uma trama particularmente sinistra, Cuba atribui o surto de peste suína africana de 1971 e a epidemia de dengue hemorrágica de 1981, que matou 158 pessoas, incluindo 101 crianças, à introdução deliberada de vírus ligada aos Estados Unidos.

Os dados documentados, reunidos a partir de registros do governo cubano e testemunhos em primeira pessoa — compilados por pesquisadores, incluindo Keith Bolender, e exaustivamente cruzados com incidentes específicos nos registros desclassificados — estimam que o número de vítimas do terrorismo dirigido pelos EUA ou ligado aos EUA contra Cuba, desde 1959, seja de mais de 3.000 mortos e quase 2.100 feridos.

Nenhum dos autores desses crimes foi responsabilizado criminalmente pelo governo dos Estados Unidos. As redes que os treinaram, organizaram, financiaram e protegeram contra processos judiciais foram criadas e defendidas pela CIA e pelo Estado americano como um todo.

A carreira de Luis Posada Carriles constitui o caso mais evidente. Nascido em Cuba e treinado pela CIA em Fort Benning, na Geórgia, Posada ajudou a organizar a invasão da Baía dos Porcos e, posteriormente, tornou-se um dos terroristas mais prolíficos da história do Hemisfério Ocidental, atuando durante décadas com o conhecimento, a proteção e, por vezes, a orientação ativa dos serviços de inteligência dos EUA. Ele foi um dos principais organizadores do atentado a bomba de 1976 contra o voo 455 da Cubana Airlines, o ato de terrorismo aéreo mais mortal nas Américas antes de 11 de setembro de 2001, que matou todos os 73 passageiros a bordo, incluindo toda a equipe nacional júnior de esgrima de Cuba.

A Venezuela, onde o atentado de 1976 foi planejado e onde Posada havia se naturalizado, prendeu-o por envolvimento no ataque e o manteve detido por anos, até que ele fugiu da prisão em 1985, enquanto ainda aguardava julgamento.

Ele organizou a campanha de atentados a hotéis em Havana em 1997, que matou o turista italiano Fabio Di Celmo, e, em novembro de 2000, foi preso na Cidade do Panamá com 90 kg de explosivos, em um complô contra Fidel Castro. Ele foi perdoado pela presidente panamenha Mireya Moscoso, que estava deixando o cargo, em 2004, sob intensa pressão dos EUA.

Sob pressão internacional contínua, o governo Bush prendeu Posada, mas recusou os pedidos de extradição da Venezuela e de Cuba. José Pertierra, o advogado de Washington que representava os interesses da Venezuela, observou com ironia mordaz: “A única evidência de tortura em Cuba que eu vi vem da base militar dos EUA na Baía de Guantánamo”.

A única acusação que o governo dos EUA acabou apresentando contra Posada foi por perjúrio: mentir para os funcionários da imigração sobre seu papel nos atentados a hotéis em Havana durante uma audiência de naturalização. Em 2011, um júri federal em El Paso o absolveu até mesmo dessa acusação. Posada Carriles faleceu em 2018, aos 90 anos, pacificamente, em uma casa de repouso para veteranos na Flórida.

Agora, sem que esse caso tenha sido sequer investigado, o mesmo governo anuncia uma acusação criminal contra Raúl Castro por ter ordenado a interceptação de aeronaves operadas por uma rede liderada por um dos colaboradores mais próximos de Posada.

O que está ocorrendo contra Cuba não é uma aberração. É a expressão concentrada de uma ofensiva mais ampla do imperialismo dos EUA para destruir qualquer desafio à sua hegemonia global — a mesma ofensiva que levou à destruição do Iraque, do Afeganistão, da Líbia e da Síria, ao genocídio em Gaza, ao cerco ao Irã e à tomada do poder contra Maduro na Venezuela.

Em 14 de maio, o governo cubano recebeu o diretor da CIA, John Ratcliffe, em Havana, onde este exigiu “mudanças fundamentais” em uma reunião com Raúl Guillermo “Raulito” Rodríguez Castro, neto do ex-presidente, e autoridades do Ministério do Interior. A reunião sinaliza que a estratégia nacionalista chegou a seu beco sem saída histórico: a liderança castrista que sobreviveu a seis décadas de terror da CIA agora se senta à mesa com o diretor da CIA, negociando os termos de sua própria submissão. A classe trabalhadora em Cuba e internacionalmente deve tirar as conclusões políticas necessárias.

Enquanto isso, os governos nacionalistas de “esquerda” do México, Brasil e Colômbia têm sido totalmente cúmplices da operação de mudança de regime e do bloqueio de combustível que está levando Cuba à fome.

O caminho a seguir passa pela mobilização política independente da classe trabalhadora dos Estados Unidos, de Cuba e internacional: trabalhadores portuários, dos transportes, do setor petrolífero e outros que se recusam a aplicar o bloqueio e se opõem a um ataque militar contra Cuba, como parte de sua luta contra o sistema capitalista que faz da guerra imperialista e do terror características marcantes da vida política.

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