A Mehring Verlag, editora do Partido Socialista pela Igualdade (Sozialistische Gleichheitspartei) na Alemanha, lançará em breve uma nova edição alemã de Minha Vida, de Leon Trotsky. David North, presidente do Conselho Editorial Internacional do World Socialist Web Site e presidente nacional do Partido Socialista pela Igualdade nos Estados Unidos, escreveu o prefácio da nova edição.
O livro Minha Vida começa assim: “A nossa época é abundante em relatos de memórias, talvez mais do que qualquer outra. Temos muitas coisas a contar.” A observação era pertinente. A década de 1920 testemunhou a publicação de inúmeras autobiografias de políticos que desempenharam papéis importantes nos acontecimentos que antecederam, ocorreram durante e se seguiram à Primeira Guerra Mundial. Não havia apenas muito a contar: havia muito a justificar, muito a explicar e muita culpa a atribuir. A obra em vários volumes de Winston Churchill, A Crise Mundial, cumpriu todas as três tarefas com sua grandiloquência reacionária característica. As memórias de outros titãs políticos da época desapareceram rapidamente da consciência coletiva. Em sua maioria, seus livros têm desfrutado de uma aposentadoria tranquila e duradoura em sebos, onde encontram poucos compradores, e em bibliotecas públicas, onde repousam imperturbáveis. As lojas virtuais salvaram, talvez, alguns autores de memórias do esquecimento. Até mesmo A Crise Mundial, de Churchill, quase teve o mesmo destino e teria sido totalmente esquecido se não fosse pelo fato de que a Segunda Guerra Mundial lhe proporcionou a oportunidade de celebrar suas conquistas em outro conjunto de memórias com 1 milhão de palavras a mais do que o primeiro.
Quase um século após sua publicação, no final de 1929, Minha Vida continua sendo uma obra de importância indiscutível. É claro que um grande livro de memórias deve ser muito bem escrito. Deve também transmitir — por meio da evocação de experiências sociais, políticas ou psicológicas — uma noção do que significava estar vivo em uma determinada época.
Trotsky deu conta de todos esses desafios. Em primeiro lugar, descrever Minha Vida como meramente “bem escrito” é um eufemismo semelhante a referir-se a Guerra e Paz, de Tolstói, como um relato emocionante de um conflito militar. A referência a Tolstói não é descabida. Apesar de todas as diferenças nas circunstâncias de suas infâncias e nas condições descritas, o relato de Trotsky sobre sua juventude na atrasada Ianovka se compara, como obra de arte, à recriação que o conde Tolstói fez da vida na vasta propriedade de Iásnaia Poliana, que pertencia à sua família havia gerações. De fato, Trotsky, como escritor, foi profundamente influenciado pelo alcance narrativo e pela profundidade intelectual da literatura russa do século XIX.
Segundo o relato de Trotsky em Minha Vida, sua paixão pela leitura começou aos sete anos de idade. Trotsky ficava fascinado pelas obras de Pushkin, Nekrasov e Tolstói. Ele relembrou o impacto dessas primeiras leituras sobre sua consciência em formação: “Cada brochura tinha as suas dificuldades: palavras novas, relações incompreensíveis entre as pessoas e a névoa que separa o real do fantástico”.
Trotsky comparou seu encontro com a literatura na infância “com as viagens à noite pelos caminhos das estepes: você percebe o barulho das rodas, vozes que se cruzam, as tochas que surgem nas trevas ao longo da rota; tem-se a impressão de tudo conhecer e, ao mesmo tempo, não compreende o que se passa; não se sabe nem quem anda ou o que transporta…”. Segue-se uma declaração reveladora: “O desejo nascente de ver, de saber, de conquistar, encontrava seu sentido nessa infatigável absorção de textos impressos. Minhas mãos e meus lábios de criança estavam sempre voltados a essa taça da invenção literária. Tudo o que a vida deveria me dar em seguida de interessante, surpreendente, alegre ou perturbador já estava contido nas minhas leituras, em alusão, em promessa, como um tímido e leve esboço a lápis ou aquarela.”
Foi por meio da literatura que o jovem Lev Davidovich teve acesso, pela primeira vez, a um mundo além dos limites da provinciana Ianovka. Mais tarde, sua própria experiência — a interação cada vez mais complexa do indivíduo com a sociedade, o movimento operário, a teoria marxista e a política socialista, além do peso sentido dos acontecimentos russos e mundiais — transformou o esboço tímido “a lápis ou aquarela” no panorama intensamente detalhado, vívido e quase cinematográfico de Trotsky sobre uma vida vivida em meio à guerra e à revolução.
A estatura de Trotsky como escritor era incontestável. Até mesmo o New York Times, em uma longa resenha, reconheceu: “Independentemente do que se possa pensar de Trotsky como teórico ou revolucionário, não há como negar suas habilidades literárias excepcionais, e as experiências vívidas que marcaram sua vida lhe proporcionam a oportunidade de demonstrar suas habilidades literárias em toda a sua plenitude.” [1]
Mas a importância da autobiografia de Trotsky não se limitava, nem se limita hoje, apenas ao seu brilhantismo literário. Seu lugar duradouro na literatura mundial decorre, acima de tudo, do imenso papel histórico de seu autor. A vida de Trotsky foi a de um homem que desempenhou um papel decisivo na Revolução Bolchevique de outubro de 1917, na fundação do primeiro Estado operário, na construção do Exército Vermelho e na sua vitória sobre a contrarrevolução, bem como na criação da Internacional Comunista.
Esse elemento único foi reconhecido nas críticas contemporâneas a Minha Vida na Alemanha, assim como na França e nos Estados Unidos. O renomado jornalista Emil Ludwig escreveu no Berliner Tageblatt: “Um grande escritor retratou aqui sua vida fantástica de tal maneira que não consigo entender por que alguém ainda lê romances — muito menos os escreve”. [2]
Mesmo aqueles que expressaram abertamente sua oposição à política de Trotsky reconheceram o caráter extraordinário de Minha Vida. Wolf Zucker, colaborador de Walter Benjamin, escreveu na Die Literarische Welt que “considero, sem hesitação, Minha Vida a obra mais importante dos últimos 25 anos…”. [3]
Da mesma forma, após enfatizar com amargura indisfarçável sua hostilidade em relação a Trotsky, o liberal francês e antimarxista Élie Halévy ainda reconheceu: “Fazendo essas ressalvas, nem é preciso dizer que a autobiografia de um homem como esse constitui um documento histórico de grande importância em inúmeros detalhes”. [4]
Em uma longa resenha publicada na revista Current History, Alexander Bakshy, renomado crítico de teatro e colaborador de Eugene O’Neill, escreveu que as memórias de Trotsky “são, sem dúvida, um documento histórico de excepcional importância, além de constituírem uma obra-prima literária na arte biográfica, com poucos equivalentes em termos de caracterização brilhante, humor mordaz e acontecimentos emocionantes — um livro que nenhum estudioso das mudanças dramáticas na Rússia contemporânea pode deixar de ler”. [5]
Minha Vida foi certamente uma obra ainda mais extraordinária pelas condições em que foi escrita. Após cinco anos de luta incansável contra a degeneração burocrática do Estado soviético, e em meio a uma perseguição cada vez mais intensa, Trotsky foi expulso da URSS pela burocracia stalinista. Tendo fracassado em destruir a Oposição de Esquerda ao exilar seu líder em 1928 em Alma Ata, perto da fronteira com a China, Stalin acreditava que a influência de Trotsky seria efetivamente suprimida se ele fosse isolado na Turquia. Trotsky foi notificado dessa decisão em 20 de janeiro de 1929. Ao ser solicitado a confirmar o recebimento da ordem, ele escreveu no documento que lhe foi apresentado que a decisão da GPU era “criminosa no conteúdo e ilegal na forma”. Deram-lhe menos de dois dias para arrumar seus pertences, dos quais os mais importantes eram seus manuscritos e livros. A longa jornada rumo ao exílio começou em condições adversas, que ele descreveu no penúltimo capítulo de suas memórias:
No dia 22, ao amanhecer, ocupamos nosso lugar, minha mulher, meu filho, eu e mais a escolta, num ônibus que nos conduziria pelo trajeto congelado até o outro lado das montanhas do Kurdai. Aos montes de neve acumulados no caminho, somou-se uma forte tormenta. O poderoso trator que nos deveria passar a reboque pelo Kurdai ficou, ele próprio, afundado na neve, junto com os sete carros que tinha de puxar. No período de avalanches, nesse ponto do desfiladeiro, sete homens e um bom número de cavalos morreram congelados. Fomos obrigados a seguir de trenó com todas as bagagens. Mais de sete horas foram necessárias para vencermos cerca de trinta quilômetros. Ao longo do caminho, cobertos de neve, numerosos trenós abandonados, carregamentos de mercadorias destinados à via férrea Turquistão-Sibéria, ainda em construção, e carros-tanques de petróleo. Fugindo da tormenta, pessoas e cavalos abrigaram-se nas cabanas de inverno dos quirguizes nas redondezas.
Enquanto essa viagem estava em andamento, centenas de membros da Oposição de Esquerda, muitos deles líderes veteranos da Revolução de Outubro, estavam sendo presos. Trotsky, sua esposa Natalia e seu filho Lev finalmente chegaram a Odessa na noite de 10 de fevereiro. Foram levados imediatamente ao porto e embarcados no navio a vapor Ilitch. Dois dias depois, o navio, cujos únicos passageiros eram Trotsky, sua esposa, seu filho e vários agentes da GPU, entrou no Bósforo. Antes de desembarcar na Turquia, Trotsky escreveu uma mensagem ao presidente do país, Kemal Atatürk:
Senhor, às portas de Constantinopla, tenho a honra de vos fazer saber que chego à fronteira turca não por minha vontade e somente cruzo-a graças a um ato de violência praticado contra mim. Por favor, senhor Presidente, aceite a segurança de meus distintos sentimentos.
L. Trotsky, 12 de fevereiro de 1929.
Nas semanas que se seguiram à sua chegada à Turquia, Trotsky — em resposta às inúmeras perguntas sobre sua expulsão da União Soviética — escreveu uma série de artigos que relatavam os acontecimentos dos dois meses anteriores. Esses artigos acabaram sendo publicados em uma brochura intitulada O Que Aconteceu e Como? Muitas das questões políticas importantes relacionadas à queda de Trotsky do poder, que seriam desenvolvidas com mais detalhes em Minha Vida, foram inicialmente apresentadas nesses ensaios. Embora não desconsiderasse o papel desempenhado pelas intrigas burocráticas, Trotsky insistiu em seu caráter secundário. “Comparada à questão essencial do realinhamento das forças de classe e do desenvolvimento dos diferentes estágios da revolução, a questão dos agrupamentos e associações pessoais tem apenas importância secundária.” [6]
Antecipando-se às alegações de que a vitória de Stalin deveria ser atribuída às suas formidáveis habilidades políticas, Trotsky descreveu o líder da burocracia como “a mais eminente mediocridade de nosso partido”. Trotsky situou a ascensão de Stalin no contexto do declínio do levante revolucionário das massas. Ele citou as palavras de Helvetius: “Toda época tem seus grandes homens, e, quando não os tem, inventa-os”. [7] Trotsky não ignorou as conspirações sinistras e as calúnias que haviam sido empregadas contra ele. Mas isso não poderia explicar por que ele perdeu o poder. “Uma linha política que atribui a causa de sua derrota às intrigas de seu adversário é cega e patética”, escreveu ele. “A intriga é um tipo particular de implementação técnica de uma tarefa; ela só pode desempenhar um papel subordinado. As grandes questões históricas são resolvidas pela ação de grandes forças sociais, não por manobras mesquinhas.” [8]
As primeiras semanas de Trotsky na ilha de Büyükada, no mar de Mármara, foram agitadas. Ele precisava encontrar e estabelecer uma residência a partir da qual pudesse conduzir seu trabalho de acordo com seu exigente rigor. No meio dessa tarefa, Trotsky foi contatado por inúmeras editoras ansiosas por garantir os direitos de publicação de sua obra literária. Manifestou-se particular interesse por uma autobiografia, que Trotsky havia dado a entender que gostaria de escrever. Um relato detalhado sobre a origem e a redação de Minha Vida foi publicado por Wolfgang e Petra Lubitz, e pode ser acessado em seu site, www.trotskyana.net. Eles afirmam que o trabalho na autobiografia começou, no máximo, em abril de 1929. Após uma certa disputa entre editoras concorrentes, relatada no ensaio dos Lubitz, os direitos da autobiografia foram obtidos pela Fischer Verlag, sediada em Berlim.
Trotsky começou a trabalhar com sua intensidade habitual. Embora pareça provável que ele já tivesse começado a redigir seu manuscrito enquanto ainda estava em Alma-Ata, a maior parte da obra foi escrita em Büyükada. A velocidade com que Trotsky escreveu Minha Vida é surpreendente, constituindo mais uma prova de sua extraordinária disciplina para o trabalho sistemático. Mesmo enquanto trabalhava na autobiografia, Trotsky continuou escrevendo sobre os acontecimentos na União Soviética, comentando os acontecimentos mundiais e fornecendo orientação teórica e política para o trabalho da nascente Oposição de Esquerda Internacional.
Em maio, Trotsky já havia escrito uma parte substancial do texto. A autobiografia foi concluída em setembro de 1929. Seu trabalho contou com o apoio decisivo de Alexandra Ramm, esposa de Franz Pfemfert, jornalista socialista e editora da revista de esquerda radical Die Aktion. Figura intelectual de destaque por mérito próprio, Ramm não se limitou a traduzir o texto russo para o alemão. Ela auxiliou na pesquisa de Trotsky e atuou como sua representante literária, cuidando do relacionamento com a Fischer Verlag. Sua tradução, uma obra de arte, exigiu que Ramm adaptasse com sucesso a sintaxe russa de Trotsky para uma estrutura de frases alemã adequada.
Trotsky, que era fluente em alemão, acompanhava atentamente o trabalho dela. Ocasionalmente, surgiam divergências quanto à tradução. A extensão de sua colaboração está registrada nas dezenas de cartas trocadas entre Trotsky e Ramm. Além disso, Trotsky desenvolveu uma estreita amizade tanto com Ramm quanto com Franz Pfemfert. Em um posfácio ao prefácio da edição alemã, datado de 14 de setembro de 1929, Trotsky prestou uma calorosa homenagem à sua tradutora: “Ao apresentar este livro ao leitor alemão, desejo salientar que Alexandra Ramm não foi apenas a tradutora do original russo, mas também se preocupou constantemente com o destino do livro. Estendo a ela aqui meus sinceros agradecimentos.”
Nos anos que se seguiram à publicação de Minha Vida, Ramm e Pfemfert passaram pelas amargas dificuldades que se abateram sobre os opositores do fascismo e do stalinismo. Em março de 1933, após a ascensão de Hitler ao poder, eles fugiram da Alemanha. Ramm e Pfemfert estabeleceram-se inicialmente na Tchecoslováquia, onde tentaram sustentar-se administrando um estúdio de fotografia. Sua situação era precária. A significativa presença pró-nazista na região dos Sudetos, onde viviam, os expunha a perigo constante. Ramm e Pfemfert, cuja relação com Trotsky era bem conhecida, eram desprezados pelos stalinistas tchecos. Em outubro de 1936, mudaram-se para Paris, onde Ramm trabalhou na tradução de Os Crimes de Stalin, de Trotsky.
Quando a guerra eclodiu em setembro de 1939, a Terceira República Francesa deteve os Pfemfert em campos de internamento, após considerá-los “estrangeiros inimigos” alemães. Franz foi enviado para um campo perto de Bordeaux, enquanto Alexandra ficou detida separadamente em um campo em Gurs, no sul da França. Ambos fugiram e se reencontraram em Perpignan no verão de 1940. De lá, seguiram por Marselha até Lisboa, depois para Nova York e, finalmente, para a Cidade do México, onde chegaram na primavera de 1941. Trotsky já havia sido assassinado em agosto de 1940, em Coyoacán, um subúrbio da Cidade do México.
Após a morte do marido, em 1954, Ramm voltou para a Alemanha. Passou os últimos anos de sua vida em Berlim. Mantendo-se dedicada ao legado de Trotsky, Ramm conseguiu convencer a Fischer Verlag a publicar, em 1963, uma nova edição de Minha Vida e uma versão resumida de sua monumental História da Revolução Russa, obra que ela também havia traduzido.
Alexandra Ramm faleceu em Berlim Ocidental em 17 de janeiro de 1963, aos 79 anos, e foi sepultada no cemitério judeu de Berlim-Charlottenburg. Sua vida é tema de uma biografia intitulada Alexandra Ramm-Pfemfert: Ein Gegenleben [Alexandra Ramm-Pfemfert: Uma Vida na Contracorrente, em tradução livre], de Julijana Ranc, publicada em 2004. O apêndice do livro inclui 54 cartas de Ramm e Pfemfert para Trotsky e 33 cartas de Trotsky aos dois. É oportuno, por ocasião da publicação de uma nova edição de Minha Vida, prestar homenagem à memória de Ramm e Pfemfert, que contribuíram de forma tão significativa para a publicação das memórias de Trotsky.
A autobiografia de Trotsky foi escrita em um momento decisivo de sua vida e da história mundial. A quebra da Bolsa de Nova York, que daria início à Grande Depressão e às catástrofes que se seguiram na década de 1930, ocorreu apenas algumas semanas antes da publicação de Minha Vida. O ritmo de sua criação, bem como seu tom — se a obra fosse uma sinfonia, poderia ter a indicação “alla marcia con fuoco” [à maneira de uma marcha, com fogo] — refletiam as circunstâncias de sua produção.
Isaac Deutscher sugeriu, no último volume de sua trilogia biográfica de Trotsky, que Minha Vida foi escrita prematuramente. Apesar de toda a sua vitalidade como obra literária, tratava-se, segundo Deutscher, do trabalho de um homem que ainda não compreendia plenamente a magnitude e o caráter decisivo de sua derrota política. O ponto de vista e o tom da obra eram excessivamente otimistas. Trotsky escreveu como alguém que não aceitava o fato de ter perdido a luta contra Stalin. Deutscher comparou Trotsky a Shelley, “que não suportava que seu Prometeu acabasse se humilhando diante de Júpiter…”. O biógrafo chega a acusar Trotsky “de uma certa superficialidade na visão que o autor tinha de seu próprio destino, a superficialidade típica do protagonista de uma tragédia pouco antes de os desastres se abaterem sobre ele por todos os lados”. [9]
Deutscher sugere que, se Trotsky tivesse adiado a redação de sua autobiografia e testemunhado as catástrofes da década de 1930, não teria conseguido manter o tom de confiança e otimismo que permeia Minha Vida. Uma autobiografia escrita em 1939, em vez de 1929, teria sido uma obra muito mais sombria, mais propensa a admitir dúvidas sobre a viabilidade da causa à qual Trotsky havia dedicado sua vida. Essa crítica refletia a convicção de Deutscher de que a luta de Trotsky contra o stalinismo estava condenada desde o início e que a fundação da Quarta Internacional por ele foi uma empreitada quixotesca.
De qualquer forma, o momento em que Trotsky decidiu escrever Minha Vida não foi aleatório. Ele foi determinado pela interação de circunstâncias políticas e pessoais. Como ele explicou no prefácio: “A sua própria possibilidade de publicação deve-se a uma pausa na vida política do autor. Constantinopla tem sido, na minha vida, um dos capítulos imprevistos, embora não fortuitos. Estou entrincheirado — não pela primeira vez — e espero pacientemente para ver o que terei em seguida. Sem certa dose de ‘fatalismo’, a vida de um revolucionário seria, em geral, impossível. De qualquer forma, o intervalo em Constantinopla tem sido um dos momentos mais propícios para lançar um olhar sobre o passado, até que as circunstâncias permitam-me avançar.”
A autobiografia de Trotsky não tinha o caráter de uma revisão nostálgica do “tempo perdido” ou de uma meditação melancólica sobre seu passado e seus pensamentos. O livro dava continuidade à “luta para a qual me dediquei toda a minha vida. Expondo tudo, caracterizo e aprecio; contando tudo, defendo-me e, ainda mais, ataco. Penso que essa é a única maneira de produzir uma biografia objetiva, num sentido elevado do termo, ou seja, de fazê-la a expressão mais adequada da personalidade, das condições e da época.” Trotsky rejeitou uma atitude e um tom de “fingida indiferença” sob a máscara enganosa e hipócrita da pseudo-objetividade. “Desde que me submeti à necessidade de falar de mim, não tenho qualquer razão para esconder minhas simpatias e antipatias, meus afetos e ódios.”
Minha Vida, como praticamente todos os escritos de Trotsky, tem um caráter intensamente de polêmica. Mas isso não era um efeito estilístico nem apenas uma expressão de sua personalidade. A polêmica, como ele explicou, “reflete a dinâmica de uma vida social estabelecida sobre contradições… Assim é a nossa época. Nós crescemos nela, a respiramos, a vivemos. Como poderíamos, então, abrir mão das polêmicas se somos fiéis à nossa ‘pátria no tempo’?”
Qualquer tentativa de resumir Minha Vida privaria o leitor do impacto — intelectual e estético — do primeiro contato com sua narrativa. Apresentarei apenas uma breve visão geral da autobiografia.
Os cinco primeiros capítulos de Minha Vida são dedicados à sua infância e juventude. Trotsky relembra com carinho, empatia, repulsa e, não raro, humor mordaz o vasto elenco de personagens que povoavam o universo de sua infância.
O grande teórico marxista não impôs, retroativamente, um esquema ideológico que estabelecesse uma ligação direta e óbvia entre os grandes acontecimentos políticos da época e suas experiências de infância. Em vez disso, a narrativa de Trotsky recria o desenvolvimento da consciência de uma criança, constituída por experiências novas e não mediadas, com pouca compreensão de seu significado mais amplo e de sua relação com o mundo além da Ianovka de sua primeira infância e da Odessa de sua adolescência. As relações sociais e de classe não são apresentadas com precisão sociológica, mas indicadas e inferidas. Quando necessário, para fins de esclarecimento, Trotsky apresenta informações adicionais que iluminam o contexto social mais amplo.
Os capítulos que se seguem relatam uma vida de drama épico. Mas, mesmo abstraindo sua forma autobiográfica, Minha Vida continuaria sendo um documento fundamental da história do século XX. Sua narrativa abrange a Revolução Russa de 1905, a eclosão da Primeira Guerra Mundial e o colapso da Segunda Internacional, a eclosão da Revolução de Fevereiro, a tomada do poder pelos bolcheviques, a Guerra Civil Russa, a morte de Lenin, a luta subsequente dentro do regime soviético, a Greve Geral Britânica e a derrota da Revolução Chinesa em 1927.
A compreensão de Trotsky sobre os acontecimentos históricos permitiu-lhe situar sua própria atividade no contexto das forças objetivas que moldaram o destino da humanidade. Esse nível de entendimento histórico — o que, em termos teóricos, pode ser descrito como a identificação do universal no particular — foi também um elemento determinante do gênio literário de Trotsky. Ele reconhecia, mesmo no acidental, a lógica do desenvolvimento histórico. Isso conferia às suas caracterizações de indivíduos uma precisão devastadora. Trotsky relacionava os traços específicos de suas personalidades a interesses sociais mais amplos e a tendências políticas.
Esse dom se manifesta nos retratos que Trotsky faz dos dirigentes da Segunda Internacional. Ele conheceu, conversou ou, pelo menos, ouviu todos os grandes nomes da era anterior a 1914: August Bebel, Georgi Plekhanov, Karl Kautsky, Julius Martov, Jean Jaurès, Rosa Luxemburgo, Rudolf Hilferding, Victor Adler, Karl Renner e até mesmo Ramsay MacDonald. Quando encontrava grandes qualidades em figuras políticas, mesmo entre seus oponentes, Trotsky não escondia sua admiração. Recordando Jaurès, Trotsky escreveu sobre o grande orador: “Dotado de uma energia poderosa, uma força absoluta como uma catarata, tinha também um brilho doce em sua face, como o reflexo de uma cultura superior. Ele precipitava rochas, trovejava, destruía fundações, mas jamais saía de si mesmo.”
Tendo passado os anos de 1907 a 1914 em Viena, os dirigentes do Partido Social Democrata Austríaco causaram nele uma impressão muito diferente. A capitulação política que protagonizaram em 1914 já se prenunciava em suas personalidades. Os eminentes socialdemocratas austríacos eram homens cultos, mas Trotsky detectou a “autossatisfação” e o leve “filistinismo” daqueles que eram “o tipo oposto do revolucionário”. Quando disse a Renner que a próxima revolução russa entregaria o poder ao proletariado, a resposta — dada com “uma polidez estarrecedora” — revelou “que esse homem estava tão distante da dialética revolucionária quanto o mais conservador dos faraós do Egito”. Essa avaliação foi confirmada pelo apoio subsequente de Renner à tomada do poder pela Alemanha nazista na Áustria em 1938.
A brincadeira de Victor Adler sobre preferir profecias apocalípticas ao materialismo histórico, embora dita em tom de brincadeira, revelou a Trotsky um ceticismo que “suportava tudo”, sobretudo o nacionalismo que corroeria a socialdemocracia austríaca até o âmago.
Em contraposição a esse grupo, Trotsky colocou Karl Liebknecht — não um teórico, mas “um homem de ação. Natureza impulsiva, apaixonada, totalmente abnegada; possuía intuição política, o senso das massas e das situações, uma audácia incomparável na iniciativa.”
O ano de 1917 começou com a chegada de Trotsky em Nova York, após ter sido expulso da Europa em consequência de seu jornalismo revolucionário e contra a guerra. Terminou com Trotsky, de volta a Petrogrado, organizando a derrubada do Governo Provisório. O relato de Trotsky sobre os acontecimentos de 1917 basta para curar até mesmo o caso mais grave de ceticismo político, cuja origem está na convicção de que a mudança é impossível e, se vier a ocorrer, será apenas para pior.
Em seguida, Trotsky relata as negociações com o governo imperial alemão em Brest-Litovsk. Uma atmosfera quase surreal permeava a cena política: “As circunstâncias históricas”, escreve Trotsky, “fizeram com que os delegados do regime mais revolucionário que a humanidade conheceu tivessem de sentar-se à mesa com os representantes diplomáticos da casta governante mais reacionária do mundo”. As negociações geraram intensa pressão dentro do Partido Bolchevique, com uma fração substancial resistindo à exigência de Lenin de um fim imediato da guerra, apesar das exigências onerosas dos alemães. Trotsky procurou utilizar as negociações como um meio de expor o caráter implacavelmente predatório do imperialismo alemão e, assim, intensificar o clima insurrecional entre a classe trabalhadora alemã. Com o objetivo de evitar uma divisão no Partido Bolchevique, uma vez que a posição de Lenin era claramente minoritária, Trotsky propôs que a delegação bolchevique declarasse o fim da guerra sem assinar um tratado.
Depois de se recuperar do choque causado pela declaração de Trotsky, as forças armadas alemãs retomaram sua ofensiva. Mas agora, com o voto decisivo de Trotsky, Lenin garantiu a maioria de que precisava para assinar o tratado com a Alemanha. Mais tarde, os stalinistas tentariam caracterizar o papel de Trotsky nas negociações de Brest-Litovsk como uma combinação de imprudência e oposição a Lenin. Mas a conduta astuta e principista de Trotsky nas negociações é comprovada no relato detalhado fornecido por Alexander Rabinowitch em The Bolsheviks in Power [Os Bolcheviques no Poder] [10]. A meticulosa pesquisa de Rabinowitch em fontes primárias exemplifica um compromisso com a verdade histórica, característica raramente encontrada no campo dos estudos soviéticos. A disposição de falsificar a história da Revolução Bolchevique e difamar seus líderes, em primeiro lugar, Lenin e Trotsky, oferece o caminho mais seguro para cargos acadêmicos de prestígio e contratos lucrativos de livros.
Trotsky relata sua complexa relação política e pessoal com Lenin ao longo de um período de 20 anos, desde seu primeiro encontro em Londres, em 1902, até as últimas semanas de sua colaboração na luta contra a atuação de Stalin como secretário-geral, no inverno de 1922-23. Trotsky não esconde suas divergências com Lenin e rejeita o tom subserviente de deificação que o regime stalinista, em seu próprio interesse, impôs a todas as referências a Lenin após sua morte em 1924. “Sim”, escreve Trotsky, “Lenin era um gênio, um perfeito gênio humano, o que não quer dizer que fosse uma máquina calculadora que funcionasse de modo infalível. O que acontece é que ele cometia muito menos erros do que qualquer outro cometeria em seu lugar. Mas também Lenin às vezes errava, e seus erros, quando os cometia, eram erros grandes, gigantescos, como tudo nele.”
Os cinco capítulos dedicados à guerra civil que se seguiu à Revolução de Outubro oferecem uma visão extraordinária sobre a criação do Exército Vermelho e como ele alcançou a vitória. Exigem um estudo cuidadoso, pois trazem lições que podem revelar-se de grande valor nos anos por vir. O relato de Trotsky se destaca por combinar as dimensões política, organizacional e operacional da condução da guerra em uma prosa concisa e vívida. Escrevendo tanto como protagonista quanto como historiador, ele explica, sem qualquer traço de autoengrandecimento, o que o comando militar revolucionário realmente envolve.
Trotsky não tinha qualquer formação militar. Ele havia sido jornalista e revolucionário exilado. No entanto, criou praticamente do nada um exército de cerca de 5 milhões de homens, logo após o colapso do exército czarista e em meio a um caos generalizado, sob bloqueio, enfrentando múltiplos exércitos brancos e forças intervencionistas estrangeiras, e o conduziu à vitória em menos de três anos. Por qualquer critério histórico razoável, essa é uma conquista extraordinária. Trotsky foi capaz de intervir em situações de caos institucional, identificar as duas ou três decisões estratégicas decisivas, impô-las contra a resistência, encontrar pessoas competentes para executá-las e manter a coesão de todo o exército por meio de energia pessoal e autoridade política. Seu trem blindado simbolizava tudo isso: era simultaneamente um quartel-general móvel, uma gráfica, um tribunal, um depósito de suprimentos e um instrumento político de autoridade.
Os capítulos finais de Minha Vida, que tratam da luta que se desenrolou no seio do Partido Bolchevique, são os mais diretamente polêmicos. O tom retrospectivo do autor de memórias muda radicalmente para um tom de combate ativo. Trotsky aborda eventos que ocorreram nos seis anos anteriores, narrando uma luta política que ainda estava em andamento. A obra começa com a fase final da doença de Lenin em 1923 e conclui com a expulsão de Trotsky da União Soviética em 1929. Nesses capítulos, Trotsky responde à pergunta: “Como você pôde perder o poder?” Para aqueles, tanto na época de Trotsky quanto ainda hoje, cujo conceito de política se enquadra em termos pragmáticos convencionais, a perda do poder é geralmente vista como resultado de erros, de uma incapacidade de realizar manobras hábeis e oportunas.
Mas perder o poder político, como explicou Trotsky, não é a mesma coisa que perder “um relógio, ou caderneta”. Especialmente quando se analisam as mudanças no poder político em diferentes períodos ou fases de uma revolução, as causas da ascensão e da queda de correntes e indivíduos devem ser buscadas nas condições objetivas. Uma poderosa erupção da luta de classes na Rússia em 1917 elevou Trotsky e Lenin da obscuridade ao auge do poder. Essa transformação em sua situação política e pessoal ocorreu com uma velocidade tão surpreendente que Lenin comentou com Trotsky, na noite da insurreição bolchevique: “Es schwindelt” [“Dá vertigem”]. Um processo oposto e mais prolongado de estabilização política, estagnação e declínio do fervor revolucionário — resultado das derrotas sofridas pela classe trabalhadora europeia além das fronteiras da União Soviética, o isolamento e a exaustão política do proletariado, a burocratização do Estado e do partido no poder e o fortalecimento de uma camada pequeno-burguesa após a adoção, em 1921, da Nova Política Econômica (NEP) — esteve na base do declínio da influência e do poder de Trotsky.
Mesmo antes de Stalin impor à luta contra Trotsky e à estratégia internacionalista da revolução permanente o programa reacionário do socialismo em um só país, havia uma mudança perceptível no clima político e no estilo de vida da direção do partido. Uma atmosfera de autossatisfação, trivialidade e decadência moral passou a predominar e sinalizou uma mudança no equilíbrio de forças dentro do partido. Em uma passagem brilhante, Trotsky observa que as conversas informais entre outros membros do Politburo, órgão dirigente do partido, paravam repentinamente quando ele entrava na sala. “Isso significava, pode-se dizer, que eu começava a perder o poder.” É claro que a morte de Lenin foi um elemento importante no isolamento de Trotsky. A colaboração entre ambos no exercício da direção era, por si só, um poderoso fator objetivo na relação de forças. Mas até mesmo a viúva de Lenin, Nadejda Krupskaia, observou em 1926 que Lenin também poderia ter sido preso pelo regime burocratizado.
Foi nesse clima de reação burocrática que se desencadeou a campanha de difamação contra Trotsky. Baseando-se na mentira de que Trotsky “subestimava o campesinato”, o objetivo dessa campanha era esmagar Trotsky pessoalmente, legitimar uma ruptura com o programa da Revolução de Outubro e com a perspectiva da revolução permanente, além de substituir os interesses da classe trabalhadora soviética e internacional pelos da burocracia nacionalista, liderada por Stalin.
Trotsky relata as diferentes etapas da luta travada no seio do Partido Comunista. Ao longo dessa luta, a crítica às políticas do regime stalinista feita por Trotsky e pela Oposição de Esquerda foi confirmada pelos acontecimentos. Stalin não tinha meios para contrariar os argumentos da Oposição a não ser a repressão, que culminou com a expulsão de Trotsky e seus apoiadores do Partido Comunista e da Internacional Comunista em 1927, o exílio de Trotsky para Alma Ata em 1928 e, finalmente, a expulsão de Trotsky da União Soviética em 1929.
Trotsky concluiu sua autobiografia com um capítulo intitulado “O Planeta Sem Passaporte”. Após sua expulsão da União Soviética, Trotsky procurou obter o direito de entrar em um país da Europa Ocidental. Após uma declaração do presidente do Reichstag alemão indicando que a Alemanha lhe concederia asilo, Trotsky solicitou um visto. No entanto, o governo prontamente desmentiu a declaração do presidente do Reichstag. Trotsky não teria permissão para entrar na Alemanha. Os pedidos de visto também foram rejeitados pelo Reino Unido, pela França e pela Noruega. “Reconheço”, escreveu ele, “que as respostas das democracias europeias a respeito do direito de asilo renderam-me, entre outras coisas, minutos de diversão. Tivemos, por vezes, a impressão de assistir a uma comédia pan-europeia num ato sobre os princípios da democracia.”
Respondendo àqueles que se perguntavam como Trotsky conseguiu enfrentar a perda do poder, ele explicou: “Não meço os processos históricos com a régua do meu destino particular. Pelo contrário, aprecio minha vida não apenas objetivamente, mas também subjetivamente, na relação indissolúvel com a marcha evolutiva do socialismo.” Ele não via sua vida como uma tragédia. Em vez disso, “Sei apenas que dois dos que dirigiram a revolução não estão mais em seus postos.”
Mas e quanto à própria revolução? Ela foi justificada? O que ela conseguiu? Trotsky fez a seguinte avaliação:
A classe operária russa, sob direção dos bolcheviques, tentou reconstruir a vida de uma maneira que exclui a possibilidade de novas crises insanas. Portanto, tentando estabelecer as bases de uma civilização mais elevada. Nisso resume-se a Revolução de Outubro. É claro, o problema colocado por ela não foi resolvido; mas esse problema, no fundo, está colocado há muitas dezenas de anos. E mais: é preciso considerar a Revolução de Outubro como o ponto de partida de uma nova história da humanidade em seu conjunto.
A edição alemã de Minha Vida foi publicada no mesmo mês em que Trotsky completou 50 anos. Por mais monumentais que fossem suas conquistas como um dos principais dirigentes da Revolução Bolchevique de 1917, como criador do Exército Vermelho e como “organizador da vitória” na guerra civil, a maior obra de Trotsky, tanto como escritor quanto como revolucionário, ainda estava por vir. Durante os quatro anos em Büyükada, Trotsky não escreveu apenas História da Revolução Russa. Ele também produziu uma série de ensaios políticos que analisavam com perspicácia inigualável a ameaça representada pela ascensão do fascismo na Alemanha. Trotsky submeteu a política ultraesquerdista do “social-fascismo”, promovida pelo Partido Comunista Alemão (KPD) stalinista e pela Internacional Comunista, a uma crítica devastadora.
Após a ascensão de Hitler ao poder em 1933, em consequência das políticas catastróficas dos stalinistas, Trotsky lançou o chamado para a construção da Quarta Internacional. Em julho de 1933, Trotsky finalmente obteve permissão para ingressar na França, país do qual foi obrigado a partir em 1935. O governo norueguês autorizou sua entrada no país. No início de agosto de 1936, Trotsky concluiu A Revolução Traída, que permanece até hoje a maior análise da degeneração do Estado operário soviético e do caráter contrarrevolucionário do regime stalinista.
Essa análise concluiu que a sobrevivência do Estado operário exigia a derrubada da burocracia soviética e o restabelecimento da democracia operária por meio de uma revolução política. Em poucas semanas, a condenação do regime por Trotsky foi confirmada com a realização do primeiro dos três Processos de Moscou, que marcaram o início do Terror e do extermínio genocida de praticamente toda a velha guarda bolchevique, dos líderes socialistas da classe trabalhadora e dos representantes mais avançados da intelectualidade socialista.
Sob pressão do regime stalinista, o governo socialdemocrata da Noruega colocou Trotsky em confinamento solitário para impedi-lo de responder às mentiras monstruosas que jorravam de Moscou, segundo as quais Trotsky era um agente do fascismo. Em dezembro, Trotsky recebeu asilo do governo mexicano liderado pelo presidente Lázaro Cárdenas. Trotsky e Natalia Sedova chegaram ao México em 9 de janeiro de 1937. Ele imediatamente emitiu uma denúncia pública dos Processos de Moscou e convocou a criação de um “contrajulgamento” internacional. Em um discurso em inglês, proferido em 30 de janeiro e preservado em vídeo, Trotsky declarou:
O processo que Stalin moveu contra mim baseia-se em confissões falsas, obtidas por meio de métodos inquisitoriais modernos, no interesse da camarilha no poder. Não há crimes na história mais terríveis em intenção ou execução do que os Processos de Moscou contra Zinoviev-Kamenev e Radek-Pyatakov. Esses processos não decorrem do comunismo, nem do socialismo, mas do stalinismo, ou seja, do despotismo inescrupuloso da burocracia sobre o povo!
Qual é a minha principal tarefa agora? Revelar a verdade. Mostrar e demonstrar que os verdadeiros criminosos se escondem sob o manto dos acusadores.
Trotsky declarou que um contrajulgamento “é necessário para purificar o ambiente dos germes da mentira, da calúnia, da falsificação e das armações, cuja fonte é a polícia de Stalin, a GPU, que atingiu o nível da Gestapo nazista”. [11]
Foi constituída uma Comissão de Investigação presidida pelo filósofo americano John Dewey. A comissão deslocou-se a Coyoacán, onde Trotsky residia em uma villa de propriedade do grande muralista Diego Rivera. Nas sessões realizadas entre 10 e 17 de abril, Trotsky respondeu às perguntas feitas pelos membros da Comissão e revisou todo o percurso de sua carreira política. Em sua declaração final, proferida em inglês, Trotsky afirmou:
A experiência da minha vida, na qual não faltaram nem sucessos nem fracassos, não só não destruiu minha fé num futuro claro e promissor para a humanidade, como, pelo contrário, lhe conferiu uma resistência indestrutível. Essa fé na razão, na verdade e na solidariedade humana, que aos dezoito anos levei comigo para os bairros operários da cidade provincial russa de Nikolaev — essa fé eu preservei plena e completamente. [12]
Em dezembro de 1937, após uma análise exaustiva do depoimento de Trotsky, de uma vasta gama de documentos e das transcrições dos Processos de Moscou, a Comissão divulgou suas conclusões. Ela declarou Trotsky “inocente” e classificou os Processos de Moscou como uma “fraude”.
Apesar do veredicto da Comissão Dewey (como a Comissão de Investigação era amplamente conhecida), muitos intelectuais liberais continuaram a defender a integridade judicial dos Processos de Moscou. Foi a época da “Frente Popular”, a aliança do liberalismo com a polícia secreta soviética, a GPU. Em troca do apoio stalinista aos governos capitalistas na Europa e nos Estados Unidos, a intelectualidade liberal de classe média deu seu aval ao assassinato de revolucionários pelo regime soviético.
Enquanto Trotsky se preparava para a fundação da Quarta Internacional, o regime stalinista lançou uma violenta campanha contra sua direção. Em julho de 1937, Erwin Wolf, que havia trabalhado em estreita colaboração com Trotsky na Noruega, foi sequestrado e assassinado pela GPU. Dois meses depois, Ignace Reiss, que havia desertado da GPU e declarado sua solidariedade com a Quarta Internacional, foi assassinado na Suíça. Em fevereiro de 1938, o filho de Trotsky e seu colaborador político mais próximo, Lev Sedov, foi assassinado em Paris. Em julho de 1938, Rudolf Klement também foi assassinado em Paris, apenas dois meses antes do congresso de fundação da Quarta Internacional, do qual ele era secretário.
Em meio a todos esses eventos trágicos, Trotsky cumpriu o que considerava a tarefa mais importante de sua vida: defender o programa político do marxismo e garantir a sobrevivência do movimento socialista entre uma nova geração de trabalhadores e jovens. Na década de 1930, não restava mais ninguém para erguer e transmitir a bandeira da revolução socialista mundial. Em uma anotação em seu diário datada de 25 de março de 1935, Trotsky afirmou que seu papel na insurreição de 1917 e na guerra civil subsequente, embora certamente importante, não foi necessariamente “indispensável”. Estou inclinado a discordar dessa avaliação. Há ampla evidência histórica de que o papel de Trotsky na conquista do poder e na guerra civil foi de importância decisiva. Mas, embora isso possa ser objeto de debate histórico, a avaliação de Trotsky sobre seu papel na década de 1930, do ponto de vista da defesa do marxismo e do futuro do socialismo, era inteiramente justificada.
Mas agora meu trabalho é “indispensável” no sentido pleno da palavra. Não há qualquer arrogância nessa afirmação. O colapso das duas Internacionais colocou um problema que nenhum dos líderes dessas Internacionais está minimamente preparado para resolver. As vicissitudes do meu destino pessoal me confrontaram com esse problema e me dotaram de uma experiência importante para lidar com ele. Não há ninguém, exceto eu, para cumprir a missão de munir uma nova geração com o método revolucionário, por cima das cabeças dos dirigentes da Segunda e da Terceira Internacionais. E concordo plenamente com Lenin (ou melhor, com Turgueniev) que o pior vício é ter mais de 55 anos! Preciso de pelo menos mais cinco anos de trabalho ininterrupto para garantir a sucessão. [13]
Trotsky teria pouco mais de cinco anos de vida. Ele morreu em 21 de agosto de 1940, vítima de ferimentos infligidos por um assassino stalinista. Esse crime privou a classe trabalhadora internacional do último dirigente ainda vivo da Revolução de Outubro e do maior representante do programa e da tradição marxista clássica. Não restava ninguém vivo que se equiparasse a Trotsky em termos de experiência, muito menos de gênio político. Mas o trabalho que ele realizou nos últimos anos de sua vida salvou o movimento marxista da extinção. Entre a conclusão de sua autobiografia e seu assassinato em 1940, Trotsky criou a Quarta Internacional e definiu as tarefas fundamentais do movimento socialista na era moderna.
Nos 16 anos que viveu após a morte de Lenin, Trotsky analisou, reagiu e até mesmo antecipou os grandes acontecimentos políticos que determinaram o curso da luta de classes ao longo do século XX e até o início do século XXI. Trotsky viveu o bastante para testemunhar a degeneração da União Soviética, o surgimento do fascismo, a podridão generalizada da democracia burguesa, a traição dos movimentos nacionalistas burgueses nos países coloniais e semicoloniais, a ascensão do imperialismo americano a uma posição de hegemonia global e, finalmente, a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Este último evento confirmou a premissa central da teoria da revolução permanente: que a única resposta estratégica viável às contradições do capitalismo global e do sistema de Estados-nação é a revolução socialista mundial.
Essa tarefa historicamente necessária, da qual depende a sobrevivência da humanidade, exige a resolução da crise de direção revolucionária na classe trabalhadora. A Quarta Internacional, o Partido Mundial da Revolução Socialista, foi fundada para levar a cabo essa tarefa. Fosse qual fosse o desfecho da guerra, Trotsky previa um período prolongado de convulsões revolucionárias e contrarrevolucionárias. Com surpreendente presciência e sabedoria, Trotsky escreveu em maio de 1940:
O mundo capitalista não tem saída, a menos que se considere uma agonia prolongada. É preciso preparar-se para longos anos, se não décadas, de guerra, revoltas, breves intervalos de trégua, novas guerras e novas revoltas. Um partido revolucionário jovem deve basear-se nessa perspectiva. A história lhe proporcionará oportunidades e possibilidades suficientes para se pôr à prova, acumular experiência e amadurecer. Quanto mais rapidamente as fileiras da vanguarda se unirem, tanto mais a época de convulsões sangrentas será encurtada, e tanto menos destruição nosso planeta sofrerá. Mas o grande problema histórico não será resolvido, em caso algum, até que um partido revolucionário esteja à frente do proletariado. A questão dos ritmos e intervalos de tempo é de enorme importância; mas não altera nem a perspectiva histórica geral nem a direção de nossa política. A conclusão é simples: é necessário prosseguir o trabalho de educação e organização da vanguarda proletária com energia dez vezes maior. É precisamente nisso que reside a tarefa da Quarta Internacional. [14]
Escrita há 86 anos, essa perspectiva se aplica com ainda mais força ao mundo atual. E é por essa razão que Trotsky, uma figura gigantesca na história do século XX, continua sendo uma presença imensa na política do século XXI. Seu nome evoca a teoria (revolução permanente), a estratégia (revolução socialista mundial) e a organização (Quarta Internacional) do marxismo como movimento revolucionário da classe trabalhadora no mundo contemporâneo. O trotskismo é o marxismo do século XXI.
O fantasma de Trotsky e do trotskismo assombra as elites dominantes e seu séquito de jornalistas e acadêmicos. Eles nunca esquecerão a Revolução de Outubro, e Trotsky nunca será perdoado por tê-la liderado.
Biografias que denunciam, menosprezam e falsificam a vida de Trotsky são um clássico da indústria editorial. As obras dos professores britânicos Robert Service, Ian Thatcher e Geoffrey Swain são exemplos desse gênero. Essas obras dão razão à observação de Trotsky: “O que mais surpreende, em momentos em que a opinião pública é atingida em seu ponto mais sensível, é a capacidade do homem de mentir”. É preciso dizer que, nessa atividade, Service e Thatcher demonstram um nível de habilidade — ou seria melhor dizer de descaramento — que é excepcional. Service, com o objetivo de enfatizar a origem judaica de Trotsky, muda seu primeiro nome de Lev para Leiba. Thatcher, pela mesma razão, mexe com o sobrenome de Trotsky. Ele se refere repetidamente a Trotsky como “Bronstein”, um nome que o revolucionário nunca mais usou depois de adotar, em 1902, o pseudônimo político com o qual se tornou mundialmente famoso. E Thatcher usa o sobrenome Bronstein sempre que descreve os deslocamentos de Trotsky de um local para outro no exílio. Eis o “judeu errante”! A inspiração para esse exercício de difamação literária não é outra senão o já mencionado Winston Churchill, que dedicou um ensaio ao revolucionário exilado intitulado “Leon Trotsky, vulgo Bronstein”.
Os que mais se empenham em desacreditar Trotsky costumam retratá-lo como uma personalidade profundamente imperfeita e até repulsiva, cuja suposta arrogância intelectual e desdém sarcástico pelos seus companheiros na direção do partido teriam sido as principais causas de sua derrocada. Em toda a historiografia das biografias de Trotsky, não há nenhuma história sobre ele que tenha sido contada com tanta frequência quanto a de sua imersão em um romance francês durante as reuniões da direção do partido, transmitindo assim sua indiferença às tarefas cotidianas e mundanas.
A imagem que essa história transmite é impressionante: os dirigentes do partido, reunidos em torno de uma mesa, discutem a pauta. Mas lá está Trotsky, entediado e indiferente, mergulhado na leitura de um romance — e, por cima de tudo, um romance francês, e não russo. Que demonstração ostensiva de superioridade cultural! O que poderia ser mais propício para incitar a hostilidade? Há apenas um problema com essa história. Trata-se de uma ficção política, originalmente inventada pelos opositores de Trotsky. Não há uma única versão da história do romance francês que identifique uma testemunha da suposta violação do protocolo do Politburo por Trotsky ou qualquer outra comprovação documentada confiável.
Na versão mais conhecida da história, que estabeleceu o precedente para sua repetição incessante, seu caráter apócrifo é reconhecido. Em O Profeta Desarmado, o segundo volume de sua biografia de Trotsky, publicado originalmente em 1959, Deutscher afirmou ter ouvido essa história durante uma visita a Moscou. Ele não identifica a pessoa que lhe contou a história e imediatamente lança dúvidas sobre a veracidade do relato, escrevendo: “Mesmo que a anedota tenha sido inventada, foi bem inventada: ela transmite algo do temperamento do homem”. [15]
Nas inúmeras releituras posteriores da história, a ressalva de Deutscher é ignorada. A anedota “bem inventada” tornou-se um fato indiscutível e uma acusação incontestável. As ambiguidades e inconsistências da história são passadas em silêncio. Às vezes, o cenário da suposta impertinência de Trotsky é identificado como o Comitê Central. Outros relatos afirmam que ela ocorreu no ambiente menor e mais íntimo do Politburo. Não importa. A história “bem inventada” cumpre seu propósito. Em primeiro lugar, a história faz de Trotsky o arquiteto de sua própria ruína. Em segundo lugar, ela sutilmente vira o alto nível cultural e o internacionalismo socialista de Trotsky contra ele. A história teria tido o mesmo efeito se tivesse colocado um romance russo, em vez de um francês, em suas mãos? Em terceiro lugar, desvia a atenção das questões políticas, elaboradas em Minha Vida, por trás da queda de Trotsky do poder.
Em última análise, as mentiras dirigidas contra Trotsky têm como objetivo desacreditar o socialismo e, portanto, a própria possibilidade de uma alternativa ao capitalismo. A vida e as concepções políticas de Trotsky atestam que a degeneração da União Soviética não era inevitável; que o stalinismo representou uma repudiação reacionária do socialismo e que havia uma alternativa à ditadura brutal que levou, por fim, à dissolução do Estado operário e à restauração do capitalismo. A estratégia e o programa pelos quais Trotsky lutou representavam essa alternativa.
Minha Vida poderia muito bem ter recebido o título de Nossa Época. Quase um século após sua publicação, a autobiografia não foi ultrapassada pela história. Vivemos em um mundo que Trotsky compreenderia. A tecnologia avançou enormemente, mas os problemas permanecem essencialmente os mesmos e assumiram proporções muito maiores. Embora a agonia deste sistema social tenha sido mais prolongada do que Trotsky poderia ter esperado, seu prognóstico histórico se mantém válido. O sistema capitalista deve dar lugar ao socialismo.
Para concluir com as palavras de Trotsky: “Isso é tão certo, indiscutível e indestrutível, que mesmo professores de história terão de reconhecê-lo amanhã — claro, depois de alguns anos.”
Referências
[1] MACDONALD, William. Leon Trotsky Looks Back On His Stormy Life: The Exiled Soviet Leader Brings a Vivid Quality to the Story of a Career Dedicated to Revolution: Trotsky’s Life. The New York Times, New York, 20 abr. 1930. Disponível em: https://www.nytimes.com/1930/04/20/archives/leon-trotsky-looks-back-on-his-stormy-life-the-exiled-soviet-leader.html
[2] LUDWIG, Emil. Trotzki auf der Insel. Berliner Tageblatt, Berlin, v. 59, n. 1, 1 jan. 1930.
[3] ZUCKER, Wolf. Leo Trotzki oder die Dialektik der Revolution. Die Literarische Welt, Berlin, v. 6, n. 1, 3 jan. 1930, p. 1.
[4] HALÉVY, Élie. Léon Trotsky. Ma Vie. Essai autobiographique. Revue des Sciences Politiques, v. 56, 1931, p. 150.
[5] BAKSHY, Alexander. Trotsky’s Own Story of His Life. Current History, New York, v. 32, n. 3, jun. 1930, p. 474.
[6] TROTSKY, Leon. Writings of Leon Trotsky: 1929. New York: Pathfinder Press, 1975. p. 36.
[7] TROTSKY, Leon. Writings of Leon Trotsky: 1929. New York: Pathfinder Press, 1975. p. 37.
[8] TROTSKY, Leon. Stalin’s Victory. In: TROTSKY, Leon. Writings of Leon Trotsky: 1929. New York: Pathfinder Press, 1975. p. 43.
[9] DEUTSCHER, Isaac. The Prophet Outcast: Trotsky, 1929–1940. New York: Vintage Books, 1965. p. 221-222.
[10] RABINOWITCH, Alexander. The Bolsheviks in power: the first year of Soviet rule in Petrograd. Bloomington: Indiana University Press, 2007. 494 p.
[11] TROTSKY, Leon. Writings of Leon Trotsky: 1936–37. New York: Pathfinder Press, 1978. p. 179.
[12] TROTSKY, Leon. The Case of Leon Trotsky. New York: Merit Publications, 1968. p. 584-585.
[13] TROTSKY, Leon. Diary in Exile. New York: Atheneum, 1963. p. 47.
[14] TROTSKY, Leon. Writings of Leon Trotsky: 1939–40. New York: Pathfinder Press, 1973. p. 218.
[15] DEUTSCHER, Isaac. The Prophet Unarmed: Trotsky, 1921–1929. New York: Vintage Books, 1965. p. 249-250.
