Nesta semana, o diretor da CIA, John Ratcliffe, fez uma viagem secreta a Moscou, a primeira visita conhecida de um diretor da CIA à Rússia desde antes do início da guerra na Ucrânia.
A CNN noticiou na quinta-feira que Ratcliffe fez uma “advertência à Rússia para que não realize um ataque em território da OTAN”. A conclusão preocupante que se pode tirar é que Washington acredita que existe um perigo iminente de uma guerra aberta entre a OTAN e a Rússia.
As condições para uma escalada desastrosa foram criadas por uma série de ataques ucranianos no interior da Rússia, financiados e armados pelos EUA e pelas principais potências europeias da OTAN. Em um dos mais intensos ataques aéreos da guerra, a Ucrânia lançou cerca de 600 drones sobre a região de Moscou durante a madrugada de 15-16 de agosto, e pelo menos seis pessoas morreram em toda a Rússia naquela noite.
Na semana passada, a Ucrânia realizou ataques com drones que incendiaram a refinaria da Lukoil em Kstovo, a 800 km no interior da Rússia — que produz até 11% da gasolina do país —, e destruíram um depósito da Wildberries na região de Tambov, como parte de uma campanha contra centros logísticos que, segundo a Ucrânia, abastecem o esforço de guerra. Os ataques à refinaria, conforme noticiado pelo Financial Times em julho, são orientados por informações de inteligência americanas e francesas.
Neste momento, as forças europeias da OTAN, lideradas pelo Reino Unido, pela França e pela Alemanha, mal tentam esconder seu envolvimento direto em operações militares contra a Rússia.
- Em 24 de agosto, o primeiro-ministro britânico Andy Burnham, em Kiev, divulgou à Ucrânia as especificações secretas das peças britânicas do Storm Shadow — um míssil de longo alcance que a Ucrânia já disparou contra a Rússia —, para que a Ucrânia e a França possam iniciar a produção no país.
- No mesmo dia, Burnham e o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky assinaram um acordo que torna o Reino Unido o primeiro país estrangeiro com acesso aos dados de combate utilizados para treinar a inteligência artificial que orienta os ataques da Ucrânia, informou o Financial Times na segunda-feira.
- Também em 24 de agosto, a Comissão Europeia aprovou €6,1 bilhões para a compra de mísseis e sistemas de defesa aérea pela Ucrânia, uma parcela do empréstimo de guerra de €90 bilhões acordado em dezembro.
- Essas transferências ocorrem na sequência da decisão do chanceler alemão Friedrich Merz, em maio de 2025, de suspender todas as restrições de alcance às armas alemãs fornecidas à Ucrânia. A Alemanha, que fica atrás apenas dos Estados Unidos no financiamento da guerra, disponibilizou quase €100 bilhões em ajuda, treinou mais de 27 mil soldados ucranianos em solo alemão e, segundo reportagem do semanário alemão Die Zeit, forneceu a Kiev imagens de satélite e interceptações que localizam tropas, depósitos e aeroportos russos.
- Na quinta-feira, o Financial Times noticiou que a Suécia, a Holanda, a Espanha e a Polônia solicitaram à Comissão Europeia que retomasse os trabalhos sobre a utilização de cerca de 200 bilhões de euros em ativos congelados do Banco Central da Rússia, mantidos no banco de depósito Euroclear, em Bruxelas, para financiar a guerra.
Há divisões significativas entre as potências europeias em relação a essa medida. O primeiro-ministro belga, Bart De Wever, disse às outras potências europeias no Fórum Econômico Mundial, em janeiro: “Não se pode simplesmente confiscar dinheiro. Isso é um ato de guerra.” Essa declaração reflete preocupações não apenas com o caráter extremamente provocativo dessa medida, mas também com seu impacto no sistema financeiro global.
Em resposta a tais preocupações no seio da classe política europeia, a ministra das Relações Exteriores da Suécia, Maria Malmer Stenergard, classificou na quinta-feira a apreensão dos ativos como a “maneira de garantir que a Ucrânia possa se defender e que toda a Europa esteja protegida”. A alegação de que as escaladas cada vez mais provocativas das potências da OTAN contra a Rússia têm caráter “defensivo” é absurda. A Rússia, atolada no leste da Ucrânia há quatro anos e meio, não está em condições de invadir a Europa Oriental, muito menos a Alemanha, a França ou o Reino Unido.
Em seu primeiro discurso ao parlamento como chanceler, em maio de 2025, o chanceler alemão Merz prometeu construir “o exército convencional mais forte da Europa”, e Berlim excluiu os gastos militares que ultrapassam 1% do PIB do limite constitucional de endividamento.
Por duas vezes no século XX, na Primeira Guerra Mundial e novamente em 1941, o imperialismo alemão avançou para o leste para se apoderar dos recursos da Rússia e da Ucrânia, e cada uma dessas investidas ocorreu no momento em que a ordem mundial da época estava se desintegrando. Em 1918, a Alemanha ocupou a Ucrânia e a administrou como um celeiro e uma base contra a jovem república soviética.
Os governos da Alemanha, da França e do Reino Unido, juntamente com os Estados Unidos, vêm trabalhando há anos para instigar e intensificar um conflito com a Rússia. O golpe de Maidan, em fevereiro de 2014, que derrubou o presidente eleito da Ucrânia com o apoio de Washington e Berlim, só pode ser interpretado como uma tentativa de integrar a Ucrânia a uma base de operações hostil contra a Rússia. A invasão russa da Ucrânia foi uma aposta desesperada e reacionária do presidente russo Vladimir Putin, com o objetivo de forçar seus “parceiros ocidentais” a um acordo negociado para a guerra que vinham instigando desde 2014.
Ao avaliar a política russa, é preciso compreender que o ódio de Putin pela Revolução Bolchevique — e por tudo o que tenda a legitimar suas políticas — é um fator determinante em sua interpretação dos acontecimentos. O “imperialismo” é um conceito que ele não consegue aceitar nem ideologicamente nem politicamente, pois mina a legitimidade de todo o projeto pós-soviético.
Em 1938, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, Leon Trotsky observou que a burguesia “desliza de olhos fechados em direção a uma catástrofe econômica e militar”. O mesmo se aplica hoje. Diante de crescentes crises sociais, políticas e econômicas em seus próprios países, os governos europeus veem na guerra uma saída desesperada. Todas as relações e mecanismos que antes impediam a guerra estão se desintegrando e, à medida que o desespero e a imprudência aumentam, qualquer incidente pode desencadear uma guerra em grande escala, ou até mesmo um conflito nuclear, sem aviso prévio.
Nada pode impedir isso, a não ser a luta unificada da classe trabalhadora em toda a Europa e internacionalmente.
Há mais de dois anos, o trotskista ucraniano Bogdan Syrotiuk, hoje com 27 anos e preso, discursou no ato online de Primeiro de Maio organizado pelo Comitê Internacional da Quarta Internacional com as seguintes palavras: “Esta guerra foi desencadeada pelo imperialismo americano, pela OTAN e pelo regime de Putin. É uma guerra imperialista, travada não em nome dos interesses do proletariado da Rússia, da Ucrânia e dos Estados Unidos, mas em nome dos interesses do capital nesses países.”
Ele acrescentou: “É verdade que toda a população da Ucrânia apoia essa guerra? Minha resposta é: Não! A alegação de que todos os ucranianos apoiam essa guerra é uma mentira descarada. O principal pilar dessa guerra não é o proletariado nem a população ucraniana, cuja situação é terrível. O principal pilar dessa guerra são os nacionalistas burgueses ucranianos e aqueles a quem eles servem.
“A classe trabalhadora e a juventude revolucionária”, disse ele ao ato, “só podem impedir a guerra imperialista iminente por meio de seu internacionalismo e de sua unidade”.
Em 10 de agosto, Bogdan foi condenado a 15 anos de prisão, tendo esse mesmo discurso sido citado como prova de que ele havia cometido “alta traição”. Na realidade, o programa articulado por Bogdan constitui a única resposta progressista à guerra em constante expansão. Em uma declaração escrita dias antes de sua prisão, que ele nunca pôde proferir, ele defendeu “a unificação do proletariado ucraniano e russo com o proletariado dos países imperialistas para pôr fim a esta guerra!”
Desde sua prisão, em abril de 2024, Bogdan tem recebido uma onda de apoio em todo o mundo. A petição por sua libertação já reuniu mais de 6.700 assinaturas; as assinaturas coletadas após a sentença vieram de mais de 65 países, incluindo a própria Rússia. Uma reportagem sobre seu caso foi compartilhada com os 30.500 inscritos de um canal do Telegram administrado por e para resistentes ao alistamento ucranianos, em meio à crescente resistência ao recrutamento forçado de jovens ucranianos para a guerra como bucha de canhão das potências imperialistas. Em Ternopil e Lutsk, multidões enfrentaram nos últimos dias as equipes de recrutamento que capturam homens nas ruas e os transportam de ônibus para a frente de batalha, destruindo veículos de recrutamento em ambas as cidades.
A crescente oposição à guerra na Ucrânia, na Rússia, na Europa e em todo o mundo deve ser conscientemente munida do programa do socialismo internacional. O Comitê Internacional da Quarta Internacional e seus Partidos Socialistas pela Igualdade convocam os trabalhadores e os jovens de todo o mundo a ampliar a campanha pela liberdade de Bogdan, que deve ser desenvolvida como um componente necessário e integral de um movimento de massas da classe trabalhadora contra a guerra imperialista.
Assine a petição pela libertaçeo de Bogdan em wsws.org/freebogdan e envie cartas exigindo a libertação de Bogdan ao Tribunal Distrital da Cidade de Pervomaisk (inbox@pm.mk.court.gov.ua) e ao Tribunal de Apelação de Mykolaiv (inbox@mka.court.gov.ua), com cópia para freebogdan@wsws.org.
