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Perspectivas

Delcy Rodríguez agradece Trump na ONU: chavismo e fascismo americano se abraçam

Na noite de terça-feira, no luxuoso hotel Lotte New York Palace, Donald Trump recebeu a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, acompanhada pelo secretário de Estado Marco Rubio, pelo secretário do Tesouro Scott Bessent, pela chefe de gabinete Susie Wiles e pelo vice-chefe de gabinete Stephen Miller.

Delcy Rodríguez com Donald Trump, em 22 de setembro. [Photo: @delcyrodriguezv]

De acordo com o Axios, Trump foi quem mais falou e entreteve sua convidada com um relato da operação militar de “precisão” que prendeu seu antecessor, Nicolás Maduro, em 3 de janeiro. Horas antes, ela ficou sentada com o olhar vazio enquanto Trump se gabava, da tribuna da Assembleia Geral da ONU, de que as tropas americanas “prenderam o ditador fora da lei, o verdadeiro criminoso Nicolás Maduro”, e concluía: “Ao vencedor pertencem os espólios”.

Maduro e sua esposa, Cilia Flores, estavam numa cela do Centro de Detenção Metropolitano do Brooklyn, a cerca de 16 km de distância. Rodríguez postou mais tarde uma foto sua sorrindo ao lado de Trump, chamando o encontro de “histórico”.

No dia seguinte, ela discursou na Assembleia Geral. Agradeceu a Trump por sua “disposição em retomar o caminho das relações diplomáticas e da cooperação” e elogiou o acordo de 28 de agosto, que concedeu às forças armadas invasoras o controle majoritário sobre um quinto das reservas de petróleo da Venezuela — as maiores do mundo —, classificando-o como “um dos maiores já assinados”. Em seguida, prometeu eleições no “momento certo”.

O que ela omitiu dizia mais do que as palavras. Não houve uma única palavra sobre Maduro e Flores, nem sobre as mais de 100 pessoas mortas na invasão. Ela também não mencionou Wilber Rafael Garcés Pérez, o motorista venezuelano da DoorDash de 28 anos baleado por um agente do ICE em Austin no domingo e preso com a bala ainda alojada perto da coluna, nem os imigrantes venezuelanos que morreram sob custódia do ICE.

A encenação foi humilhante como nunca, do início ao fim. Rodríguez chegou na segunda-feira em um jato particular registrado nos EUA e foi recebida pelo encarregado de negócios de Washington em Caracas, John Barrett, com um beijo na bochecha.

O Wall Street Journal publicou a manchete “De vice-presidente de um ‘ditador’ a aliada de Trump”, lembrando que, em 2019, ela havia dito à mesma Assembleia que a Venezuela “não se ajoelha diante de nenhuma potência imperial”. Belén Fernández, da Al Jazeera, escreveu que ela “voltou para agradecer ao homem que concretizou” a mudança de regime e a apropriação de recursos contra as quais ela já havia alertado. O Financial Times observou que ela “teve que demonstrar deferência a Washington de uma forma que a maioria dos líderes consideraria humilhante”.

Em setembro de 2019, como vice-presidente de Maduro, Rodríguez liderou a campanha “Chega de Trump”, que, segundo o governo, reuniu 13 milhões de assinaturas contra as sanções dos EUA. Ela prometeu entregar as petições à ONU. “Chega de Trump, tanto para a Venezuela quanto para a humanidade, porque sabemos que ele é uma ameaça internacional”, declarou ela. Sete anos depois, a ameaça internacional ocupou seu país, prendeu seu presidente e tomou seu petróleo. Ela agradeceu a ele por isso.

O que, então, é “histórico”? Nunca antes um governo que se dizia socialista e anti-imperialista realizou uma rendição tão descarada da soberania nacional e, em seguida, voou para Nova York para comemorá-la diante do mundo. Isso tem implicações importantes para os trabalhadores em todos os lugares.

Na Venezuela, o aparato estatal construído pelo chavismo — seu exército, polícia e serviços de inteligência — agora defende diretamente os interesses das empresas petrolíferas americanas e dos credores de Wall Street. Nos Estados Unidos, o mesmo governo que Rodríguez elogia está construindo um estado policial contra os imigrantes e a classe trabalhadora, e apresenta a Venezuela como um modelo para a “Doutrina de Donroe” no hemisfério.

Para os trabalhadores em todo o mundo, os chavistas estão demonstrando o que os nacionalistas burgueses e seus admiradores da pseudoesquerda farão quando o imperialismo apontar uma arma para suas cabeças.

Rodríguez agradeceu a Trump por apoiar a “reintegração” da Venezuela nos fóruns multilaterais. Sua participação na ONU não significa nada disso. Trata-se da entrada do país na servidão colonial. Washington arrecada as receitas do petróleo da Venezuela e as mantém em uma conta que controla. O Financial Times informou que Caracas deve solicitar ao Departamento de Assuntos Econômicos, Energéticos e Comerciais do Departamento de Estado — dirigido até agosto por Caleb Orr, assessor de 32 anos do secretário de Estado Marco Rubio — permissão para gastar seu próprio dinheiro com salários de professores ou medicamentos.

Estão proibidos pagamentos a empresas chinesas ou russas. O secretário de Energia, Chris Wright, declarou que Pequim não terá direito às receitas do petróleo venezuelano, suspendendo o pagamento de pelo menos US$ 10 bilhões em empréstimos chineses. Nenhuma carga venezuelana chegou à China desde janeiro, e as joint ventures russas foram encerradas.

O episódio refuta a fantasia de que a ordem pós-guerra dominada pelos EUA dará lugar pacificamente a um mundo “multipolar”. O imperialismo americano está reagindo ao seu declínio confiscando recursos estratégicos à força das armas e expulsando seus rivais do que considera seu quintal. Isso só pode ser interpretado como os estágios iniciais de uma guerra mundial.

Washington teme “protestos de rua em massa”

Os arquitetos do protetorado dos EUA sabem que ele está construído sobre um vulcão. “Um governo democrático vai enfrentar protestos de rua em massa contra a inflação e a economia”, disse uma fonte dos EUA ao Axios. “Isso poderia ameaçar tudo.” Em uma coletiva de imprensa na quarta-feira, Rubio explicou que a “verdadeira ameaça” seria “eleger alguém que herde um desastre econômico e social absoluto”. A dívida da Venezuela deve primeiro ser reestruturada para seus credores, e só então as eleições poderão ocorrer.

A promessa de eleições sem data definida é uma fachada. A forma política exigida por um regime completamente subordinado ao imperialismo — que deve extrair a riqueza da nação para o capital estrangeiro enquanto os trabalhadores recebem salários de fome — é um Estado policial fascista. Como Leon Trotsky explicou em 1938: “Nos países latino-americanos, o fascismo é a expressão da dependência mais servil do imperialismo estrangeiro”.

Na década de 1970, Washington instalou ou apoiou ditaduras militares fascistas no Chile, na Argentina, no Uruguai, na Bolívia, no Brasil, no Paraguai e no Peru para impor os ditames do capital americano a uma classe trabalhadora rebelde, assassinando e fazendo desaparecer dezenas de milhares de pessoas. O regime de Rodríguez, apoiado pelo mesmo alto comando militar que serviu a Maduro e agora se reporta a Rubio, está sendo preparado para assumir esse papel.

A tensão já está aumentando. Cortes de energia de até 16 horas por dia em Aragua, Carabobo e partes de Caracas têm provocado protestos noturnos, com moradores bloqueando avenidas em Maracay e batendo em panelas em Guacara. Para esta quinta-feira, professores do ensino fundamental e médio, professores universitários, trabalhadores industriais e aposentados convocaram um protesto nacional em todos os 24 estados, exigindo salários dignos. Professores universitários relatam um salário-base inferior a um dólar por mês.

A história venezuelana está repleta dessas revoltas contra a subserviência ao imperialismo. A greve geral de janeiro de 1958 derrubou a ditadura de Marcos Pérez Jiménez. Em fevereiro de 1989, quando o presidente Carlos Andrés Pérez impôs um pacote do FMI que dobrou os preços dos combustíveis da noite para o dia, os trabalhadores se levantaram no Caracazo, em Caracas e em uma dúzia de outras cidades, e o exército massacrou centenas, possivelmente milhares de pessoas. Na falta de uma direção revolucionária própria, a classe trabalhadora viu sua raiva ser aproveitada por uma fração do corpo de oficiais liderada por Hugo Chávez.

O chavismo usou a bonança do petróleo da década de 2000 para comprar paz social com programas de assistência social limitados, enquanto a participação do setor privado na economia crescia e os bancos venezuelanos se tornavam os mais lucrativos do mundo. Ele nunca rompeu a dependência do país do petróleo ou do capital financeiro. Quando os preços despencaram e as sanções se intensificaram, a elite governante e a nova camada de capitalistas chavistas, a boliburguesia, transferiram todo o fardo da crise para as costas da classe trabalhadora.

Sob a pressão dos Estados Unidos, eles trocaram agora o petróleo do país e seus laços com Pequim e Moscou pela garantia de Washington de que suas próprias posições e fortunas serão preservadas. É a isso que a defesa do capitalismo inevitavelmente conduziu.

A “Maré Rosa” e a Revolução Permanente

O mesmo processo se desenrolou em toda a “Maré Rosa”. O Partido dos Trabalhadores no Brasil, o peronismo na Argentina, o MAS na Bolívia e o movimento liderado por Rafael Correa no Equador administraram o capitalismo, desarmaram politicamente a classe trabalhadora e abriram as portas para a direita.

Seu colapso confirma a teoria da revolução permanente de Trotsky: em países oprimidos pelo imperialismo, a burguesia nacional não pode conquistar independência genuína nem realizar as tarefas fundamentais da revolução democrática, pois teme seus próprios trabalhadores muito mais do que teme o imperialismo. Pelo contrário, como Trotsky estabeleceu e a Revolução Russa de Outubro de 1917 comprovou, essas tarefas só podem ser realizadas sob a direção da classe trabalhadora, que é compelida a tomar o poder e adotar medidas socialistas, ao mesmo tempo em que busca a extensão de sua revolução internacionalmente.

De todos os movimentos da “Maré Rosa” o chavismo na Venezuela foi apresentado — especialmente pelas tendências revisionistas pablistas que romperam com o trotskismo — como o exemplo de um novo caminho para a libertação da opressão imperialista e até mesmo para o socialismo. Entre esses elementos da pseudo-esquerda, alguns chegaram ao ponto de apresentar o governo de Chávez como a pedra angular para a construção de uma “Quinta Internacional”. Desse prognóstico, não sobrou pedra sobre pedra.

Somente o Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI) preparou a classe trabalhadora para esses acontecimentos. Há 65 anos, o CIQI travou uma luta implacável contra a tentativa pablista de retratar o castrismo como uma nova via para o socialismo, que tornava supérflua a mobilização política independente da classe trabalhadora e a construção de uma direção marxista em sua vanguarda. Os trabalhadores da América Latina ainda estão pagando o preço pelas derrotas e traições infligidas sob a bandeira de substituir a revolução proletária pelo guerrilheirismo pequeno-burguês.

O único caminho a seguir para os trabalhadores venezuelanos é uma ruptura política com todas as frações da burguesia, incluindo o chavismo e as forças pseudoesquerdistas pequeno-burguesas que atuaram como seus defensores. A tarefa decisiva é a de assimilar as lições da longa história de luta do trotskismo contra o revisionismo e sua articulação com as lutas turbulentas de todo o período passado. Esse é o alicerce insubstituível para a construção de seções do CIQI em toda a América Latina e para a união da classe trabalhadora em todo o hemisfério e internacionalmente na luta pela revolução socialista mundial.

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