Trabalhadores paralisam produção na Fiat Chrysler no Canadá por perigo do coronavírus

Por Shannon Jones
17 Março 2020

Publicado originalmente em 14 de março de 2020

Trabalhadores da fábrica da Fiat Chrysler (FCA) na cidade de Windsor, no Canadá, realizaram uma paralisação na quinta-feira diante da ameaça de propagação do novo coronavírus na fábrica e após descobrirem que um trabalhador na fábrica de sistemas de transmissão da FCA em Kokomo, nos Estados Unidos, havia sido diagnosticado com a doença potencialmente mortal. A linha de montagem em Windsor é a maior fábrica da FCA no Canadá e emprega 6 mil trabalhadores na produção das vans Dodge Caravan e a Chrysler Pacifica.

A administração da fábrica confirmou que um trabalhador da linha de montagem de Windsor estava em auto-quarentena após a sua possível exposição ao vírus. De acordo com as últimas notícias, a administração retomou a produção na tarde de sexta-feira após a intervenção do Ministério do Trabalho e do maior sindicato do setor privado do Canadá, o Unifor. No mesmo dia em que os trabalhadores realizaram a paralisação na fábrica em Windsor, foi noticiado que a esposa do primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, havia sido diagnosticada com o novo coronavírus.

Trabalhadores na fábrica da FCA em Windsor

Uma declaração publicada pela administração da FCA dizia: “O Ministério do Trabalho visitou a fábrica em 12 de março para investigação e determinou que os nossos protocolos e locais de trabalho são seguros. Nós trabalhamos com o sindicato local e os dirigentes do Unifor, assim como com autoridades governamentais para lidar com essa questão.”

A declaração não explicou porque as linhas de montagem com milhares de trabalhadores estariam seguras, enquanto municípios e estados em toda a América do Norte estão declarando estado de emergência, fechando escolas e escritórios da administração públicae proibindo grandes eventos públicos para tentarem deter a propagação potencialmente catastrófica da infecção pelo COVID-19.

A paralisação dos trabalhadores da FCA em Windsor reflete a crescente revolta e frustração dentro das fábricas automotivas em toda a América do Norte, onde os trabalhadores estão exigindo a suspensão das operações para proteger a saúde e segurança dos trabalhadores, de suas famílias e da comunidade à medida que a escala da pandemia do coronavírus se torna mais amplamente conhecida.

Um trabalhador da GM na cidade de St. Catherines, na província canadense de Ontário, escreveu ao Boletim dos Trabalhadores Automotivos do WSWS dizendo: “Praticamente nada está sendo feito. Tanto a administração quanto os dirigentes sindicais estão dormindo ao volante pelo que me disseram.”

Enquanto isso, o estado de Michigan, nos EUA, por ordem executiva, fechou escolas e universidades e proibiu eventos com mais de 250 pessoas por causa da ameaça do COVID-19. Entretanto, a ordem não inclui fábricas e escritórios.

Enquanto a produção industrial em toda a América do Norte continua a todo vapor, a Ford e a GM estão dizendo aos funcionários que não trabalham nas fábricas, incluindo aqueles nos escritórios e com altos cargos na administração, para trabalharem o máximo possível de casa para impedir a propagação do vírus.

Na enorme linha de montagem da FCA em Sterling Heights (SHAP, na sigla em inglês), ao norte de Detroit, relatos não confirmados se espalharam sobre múltiplos potenciais casos de COVID-19 entre os funcionários da fábrica. Apesar de não ter havido declarações oficiais da empresa ou do Sindicato dos Trabalhadores Automotivos (UAW, na sigla em inglês) confirmando ou negando esses relatos, os trabalhadores contatados pelo Boletim dos Trabalhadores Automotivos do WSWS expressaram revolta e desprezo pelo descaso da administração e do UAW com a sua saúde e segurança.

Um trabalhador da SHAP disse ao Boletim dos Trabalhadores Automotivos: “Eles estão dizendo para não entrarmos em pânico. Como alguém pode dizer isso quando não estão protegendo nossa saúde? Eles obtiveram lucros ilimitados por nove anos. Quanto é o bastante? As pessoas estão revoltadas com isso.

“Não conseguimos acreditar no sindicato. Nós estamos muito irritados com eles. Se eles não vão lutar por nós, então não precisamos deles. Para que servem?

“Às 9h30 ou 10h00 da noite [de quinta-feira] eles tinham um formulário, elaborado pela administração, em que os supervisores queriam que colocássemos nossos nomes dizendo que devemos lavar nossas mãos; nos precaver contra o vírus. Se você não o assinasse, eles disseram que você receberia uma advertência. Eles não nos deram uma cópia do formulário. Ele estava em uma prancheta.

“Nós achamos que era um documento feito para livrá-los da responsabilidade caso as pessoas pegassem o vírus. Isso é o que todos acham. Muitos não assinaram. Depois, eles voltaram e advertiram as pessoas que não assinaram o formulário.

“Nós descobrimos que um trabalhador ligou para o seu primo, que é um representante do sindicato na JNAP [linha de montagem da FCA de Jefferson North, em Detroit], e contou para eles que havia um caso confirmado lá. A administração sabia disso.”

Ele falou que existem relatos de trabalhadores na SHAP que podem ter contraído o vírus: “As pessoas estão prontas para paralisar a produção. Meu departamento inteiro disse que eles não viriam hoje ou amanhã, mas foi dito a eles que receberiam advertências.

“Eles não se importam com a administração; eles são a favor de colocar em primeiro lugar sua família e seus filhos. Se eles contraírem o vírus e o levarem para casa, seus bebês podem ser infectados.”

Outro trabalhador da SHAP escreveu: “Eles não têm feito nada. Eu acho que eles não deveriam estar mantendo a produção funcionando. Há dois casos na minha fábrica, e eles não fizeram nada sobre isso. Eles dizem que vão montar um local para limpar as mãos, mas não se vê nada.

“Eles claramente não se importam com os trabalhadores da linha de montagem e não consideram fechar as fábricas, mas estão falando sobre fechar escritórios corporativos.”

Um trabalhador na fábrica de sistemas de transmissão da FCA em Kokomo escreveu para o Boletim dos Trabalhadores Automotivos sobre a confirmação de um caso de COVID-19 na instalação. “Nós tivemos vários casos confirmados com trabalhadores na fábrica de sistemas de transmissão em Tipton e eles estão encobrindo isso e nos fazendo trabalhar. Se isso não abrir os olhos das pessoas, nada vai abrir.

“Essa empresa e o sindicato não dão a mínima para qualquer um de nós. Nós somos tratados como animais. Nós somos um bando de escravos para os ricos e suas famílias e nós seremos sempre até que as pessoas tomem de volta o que é delas por direito.”

Um trabalhador da linha de montagem da GM em Kansas City, no estado de Kansas (EUA), escreveu: “nós ouvimos que o supervisor do turno B tem o vírus e hoje uma garota no turno C achou que estava com o vírus, e eles não se importaram. Eles nem mesmo iam levá-la para o ambulatório. Fui eu que desinfectou a sua pistola e armário de peças e treinei o substituto que fez o seu serviço pelo resto do dia. Nós chamamos nosso líder do setor e contamos aos supervisores e ligamos para o departamento de saúde e segurança. Eles não fizeram nada além de nos dizer que não havia nenhuma chance de ela ter o vírus.”

Trabalhadores em outras fábricas da Ford, Chrysler e GM relataram experiências parecidas. Em uma postagem nas redes sociais, trabalhadores da linha de montagem da GM em Flint, no estado de Michigan (EUA), perguntaram ao dirigente local do UAW o que aconteceria se os trabalhadores na fábrica contraíssem o COVID-19; a administração fecharia a fábrica?

O UAW está ignorando as preocupações dos trabalhadores e garantindo que a produção não seja interrompida. Em resposta aos trabalhadores, o dirigente da Área 598 do UAW, Eric Welter, disse: “As decisões estão saindo do 39º andar do RenCen”, referindo-se ao escritório da presidente Mary Barra na sede da GM no Centro Renaissance em Detroit. “Tudo indica que as políticas irão continuar mudando conforme a propagação do vírus continuar. Não se trata de uma negociação; está sendo impulsionada por especialistas de saúde [no Centro de Controle e Prevenção de Doenças].”

A decisão de manter as fábricas funcionando não está sendo impulsionada por especialistas de saúde, mas pelos interesses de lucro das corporações e acionistas de Wall Street. Longe de representar os interesses dos trabalhadores nessa perigosa situação, o UAW funciona como polícia da administração da empresa.

O Boletim dos Trabalhadores Automotivos está exigindo que a produção seja interrompida até que a propagação do COVID-19 seja contida. Ao mesmo tempo, os trabalhadores devem receber integralmente seu salário e benefícios durante os fechamentos. Para garantir isso, nós chamamos a formação de comitês de base em todas as fábricas, bairros e locais de trabalho para lutar pelos interesses independentes dos trabalhadores. Nenhuma confiança pode ser colocada nas garantias da administração ou do UAW sobre a segurança no local de trabalho. O princípio guia deve ser que as vidas das pessoas têm precedência sobre os lucros empresariais.

O trabalhador da SHAP disse ao Boletim dos Trabalhadores Automotivos: “Isso é um exemplo do capitalismo. Tudo é pelo lucro. Eles não ligam para a saúde. Eles se importam com seus acionistas e CEOs. Os trabalhadores não valem nada – [custam] 15 dólares por hora. Uma vez que eles se livrarem dos mais velhos, para eles será bom.”

Um trabalhador no complexo da Jeep/FCA em Toledo, no estado de Ohio (EUA), escreveu: “Eu estou muito assustado com essa situação... A fábrica só nos entregou documentos para assinarmos sobre o vírus... Eles não nos deram qualquer kit de higiene. Eu tenho o meu próprio... Nem vieram falar conosco pessoalmente. Eu entendo que eles não querem perder dinheiro, mas por que arriscar que sejamos infectados pelo vírus? Deus proíba que qualquer um de nós pegue o vírus, porque então ninguém vai poder sequer produzir os carros da Jeep.”

O Boletim dos Trabalhadores Automotivos está interessado em suas experiências. Nós pedimos que os trabalhadores nos enviem um e-mail – autoworkers@wsws.org – com informações sobre as condições na sua fábrica e que se inscrevam no nosso boletim para que tenham atualizações regulares e mais informações sobre a formação de comitês de base para agir coletiva e independentemente diante da ameaça do COVID-19.

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[13 de março de 2020]