Operários terceirizados na Fiat Chrysler em Detroit realizam paralisação enquanto trabalhadores exigem fechamento total da indústria automotiva

Por Shannon Jones
26 Março 2020

Publicado originalmente em 21 de março de 2020

A onda global de paralisações na indústria automotiva continuou na noite de quinta-feira, quando mais de 1.000 operários terceirizados especializados da construção civil cruzaram os braços nos canteiros de obra do Complexo Mack Engine da Fiat Chrysler (FCA) em Detroit, que será reaberto no final deste ano para produzir veículos da marca Jeep.

A ação dos operários aconteceu depois da administração ter exigido que continuassem trabalhando, apesar dos operários da produção da FCA já terem sido mandados para casa devido a preocupações com o coronavírus. Um operário no canteiro de obras do Complexo Mack Engine testou positivo para a COVID-19.

Um dos operários declarou à filial local da Fox: “Nós cruzamos os braços, fomos obrigados. Somos em mais de 1.000 pessoas. Esse coronavírus sobrevive mais tempo no aço e nós estamos construindo estruturas de aço.

“Não temos nenhum álcool em gel. Não há banheiro no local. Tem 2 banheiros no setor de montagem, mas há 400 eletricistas. Há 100 montadores de máquina e outros incontáveis trabalhadores terceirizados.

“Não sabemos qual será a repercussão. Nós realizamos essa paralização por estarmos preocupados conosco e com as nossas famílias.”

Logo após as ações espontâneas dos trabalhadores nas fábricas da Fiat Chrysler em Michigan e Ohio, na terça e quarta-feira, a maioria das montadoras na América do Norte, incluindo a FCA, Ford, General Motors, Volkswagen, BMW, Toyota e Honda, Nissan e outras fabricantes asiáticas menores, anunciaram o fechamento temporário das linhas de montagem durante uma a duas semanas.

A Tesla Motors, que havia tentado permanecer aberta durante um bloqueio governamental por motivos de “segurança nacional”, na região da Baía de São Francisco, foi a última grande montadora a anunciar o fechamento na quinta-feira.

Mas um acordo podre entre o Sindicato dos Trabalhadores Automotivos (UAW, na sigla em inglês) e a General Motors permitiu que o depósito de peças do Serviço de Atendimento ao Consumidor Pós-Vendas da empresa continue funcionando. Os trabalhadores podem entrar num programa de demissão voluntária, sem direito a auxílio desemprego adicional para funcionários temporários, ou continuar trabalhando.

As ações corajosas e determinadas dos trabalhadores da Fiat Chrysler no início desta semana geraram pânico nos escritórios do alto escalão da empresa e nos meios de comunicação do establishment, que mantiveram um silêncio completo sobre o que havia ocorrido, apresentando a suspensão de parte da produção automotiva como um gesto altruísta das empresas, após a insistência do UAW e motivada pela preocupação com a saúde e segurança dos trabalhadores.

As paralisações desta semana foram precedidas, na semana anterior, por uma paralisação parcial da fábrica da FCA em Windsor, no Canadá. “[Não foram nem os] sindicatos nem a FCA que nos mandaram para casa”, disse um trabalhador da fábrica de Windsor. “Nós somos seres humanos, mas isso não é levado em consideração, somente o dólar. A nossa saúde vem em primeiro lugar!”

Outros trabalhadores da indústria automotiva da América do Norte expressaram os mesmos sentimentos.

Um trabalhador da Toyota no Canadá escreveu ao Boletim dos Trabalhadores Automotivos do World Socialist Web Site: “Temos duas fábricas [no Canadá] e uma teve um caso confirmado do vírus. A empresa não fechou as portas e os funcionários, creio, não foram informados imediatamente, exceto aqueles que poderiam ter tido contato próximo, que foram mandados direto para casa.

“No entanto, quando tudo veio à tona, eles mandaram o turno da noite para casa às 23h, mas retomaram o trabalho normalmente na manhã seguinte. Ambas as plantas iriam passar por uma limpeza pesada em 23 e 24 de março e retomar a produção depois disso. Mas, creio eu, devido aos questionamentos insistentes através da internet, não só de membros da equipe, as atividades serão encerradas até 6 de abril.

“Eles iriam continuar produzindo, diferente das Três Grandes [GM, Ford e FCA]. Acredito que isso também possa ter sido um fator que contribuiu. O pessoal tinha realizado uma paralisação esta semana, mas foram informados pelo RH que tomariam falta. Eles estão cagando para os seus funcionários, é tudo em função do dólar!”

Um trabalhador da Tesla declarou à imprensa local: “Por que é que ainda estamos funcionando, expondo essas pessoas potencialmente ao coronavírus? Não faz sentido nenhum para mim.”

“Eu tenho colegas de trabalho que estão grávidas. Eu tenho colegas de trabalho que têm mais de 65 anos. Eles estão com medo. Eles já não sabem mais o que fazer.”

Apesar de ter mandado os operários da produção da fábrica de Jefferson North para casa, a Fiat Chrysler solicitou que os trabalhadores da manutenção continuassem indo trabalhar, ou seriam colocados em layoff por tempo indeterminado. Um trabalhador da fábrica de Jefferson North disse ao Boletim dos Trabalhadores Automotivos: “Ninguém tem informações concretas sobre o que está acontecendo”.

Observando que os trabalhadores da manutenção continuavam no serviço, ele disse: “Isso é totalmente o contrário do que a FCA tinha dito à imprensa local, que eles fechariam em toda a América do Norte, e esse não parece ser o caso. Eles estão tentando criar uma boa imagem de si mesmos, enquanto mantém seus funcionários no escuro sobre o que está acontecendo. Eles estão falando para as pessoas o que elas querem ouvir.”

“O que mais me incomoda é que não é que vai haver uma grande corrida para a compra de novos veículos enquanto a maior parte dos EUA estiver parada, o que me leva a crer que eles só querem formar um grande estoque para nos demitirem num futuro próximo até que as coisas se acalmem.”

Apesar do fechamento de grandes montadoras, os trabalhadores relataram que muitas, se não a maioria, das fábricas fornecedoras de autopeças ainda estão em funcionamento. Um trabalhador da Ventra Plastics em Grand Rapids, Michigan, escreveu: “Eles se recusaram até mesmo a comentar sobre [a] crise nacional que está acontecendo e não nos responderam o que ocorreria se faltássemos por [não termos] lugar para deixar nossos filhos depois que [as] escolas em nosso distrito foram fechadas até 6 de abril.”

“Quando perguntamos ao RH se isso acarretaria a nossa demissão, a resposta deles foi: ‘faça o que for melhor para você e sua família’. Enquanto as grandes concessionárias, que lucram tanto quanto essas grandes fabricantes de automóveis, estão pagando salários integrais aos seus funcionários, nós praticamente não tivemos um aviso prévio de 8 horas antes do encerramento das atividades hoje, 19 de março, em decorrência do fechamento das fábricas de Detroit.”

“Esse fechamento veio junto com uma carta de demissão e uma data de retorno em 30 de março, sem nenhuma compensação ao longo desse período. Eles tinham dito para nós anteriormente que, se Detroit e o Canadá não parassem, nós também não iríamos parar.

“É muito degradante para a humanidade o quanto essas empresas têm fome de dinheiro. Elas não tiveram sequer a decência de fornecer álcool em gel suficiente para toda a nossa fábrica, ou de tomar mais medidas reais de segurança/saúde. Essas são as piores empresas para se trabalhar. Temos que continuar revelando a verdade sobre essas empresas para, talvez um dia, vermos mudanças.”