“Não vamos morrer em nossas cabines!” – Greves selvagens e protestos de operadores de call center estouram em todo Brasil

Por nossos repórteres
26 Março 2020

Desde a última quinta-feira, 19 de março, uma série de greves selvagens e protestos tem mobilizado milhares de trabalhadores de call centers em várias cidades, de norte a sul do Brasil. Eles têm se levantado contra as condições inseguras de trabalho diante da pandemia de COVID-19. Esse movimento faz parte de uma onda global de greves selvagens, incluindo em fábricas automotivas na Itália, Espanha e nos EUA e em outras indústrias de outros países.

Um dos primeiros protestos estourou contra a transnacional com base na Itália, AlmaViva, que possui sedes em 11 cidades brasileiras e emprega 37.000 trabalhadores no país.

Três dias antes do início dos protestos na AlmaViva do Brasil, o jornal italiano Agenzia Italia havia reportado que os 2.800 trabalhadores da empresa em Palermo estavam organizando uma falta coletiva, exigindo o fechamento da empresa após um caso confirmado de COVID-19 entre os operadores. No dia seguinte, a sede de Palermo foi fechada e implementado o serviço de home office.

Protesto de funcionários da empresa de telemarketing Liq, no Recife, exigindo condições seguras de trabalho contra a COVID-19

Trabalhadores da AlmaViva na cidade de São Paulo, onde ocorreu um protesto e uma paralisação na última sexta-feira, relataram ao WSWS que ficaram sabendo que a sede na Itália havia sido fechada em decorrência da pandemia. Um deles, Ingra, disse: “Foi muito estranho para uma multinacional igual a AlmaViva. Eles deveriam ter experiência pelo que já havia acontecido na Itália e realmente não se prontificaram de forma alguma.”

Essa atitude foi a mesma tomada por absolutamente todas as empresas de telemarketing no Brasil. Elas ignoraram os alertas e orientações da Organização Mundial da Saúde, assim como os resultados desastrosos já vistos em outros países, e forçaram a continuidade regular de suas atividades, mesmo após o coronavírus já ter infectado milhares de pessoas no Brasil e existirem casos dentro das próprias empresas.

No entanto, os trabalhadores brasileiros assimilaram rapidamente as experiências internacionais e perceberam que, assim como a classe trabalhadora de outros países, eles estavam colocados numa posição extremamente arriscada.

“No começo da semana passada estava tendo muito burburinho, porque obviamente está sendo chocante as imagens que estamos tendo do resto do mundo. Querendo ou não, a globalização trás esse tipo de ‘problema’: as pessoas sabem o que está acontecendo”, declarou ao WSWS o operador Elias, de 24 anos, também da AlmaViva do Brasil.

A crise do coronavírus potencializa as condições sub-humanas de trabalho nesses locais, colocando em risco a vida dos operadores. “É um call center, aquela velha história, um monte de cabine todas próximas, ambiente com cerca de 100 pessoas, totalmente fechado, sem janelas por causa do barulho”, contou Elias.

Outra operadora da AlmaViva, Cris, de 28 anos, relatou ao WSWS que uma de suas colegas está internada com suspeita de COVID-19. “Acredito que tenha algum caso [na empresa], sim, só não foi descoberto ainda”, disse. “Porque a gente, que trabalha em call center, vai trabalhar resfriado, com enxaqueca, com dor, porque um dia que a gente falte já faz falta no nosso bolso.”

Elias relatou que a única medida tomada na semana passada pela AlmaViva foi, “a partir da terça, ou quarta-feira, colocar um frasco de Veja e um paninho descartável, e no horário de troca de turno eles deixavam a gente limpar, nós mesmos, a nossa P.A. [Posição de Atendimento] e ir passando o mesmo pano e o mesmo Veja para a galera. Os supervisores não tinham nenhuma informação para passar. A gente perguntava as coisas, queria saber se iria ter paralisação e eles não falavam nada.”

Alguns trabalhadores no grupo de risco da COVID-19, como Ian, que sofre de doenças respiratórias, pararam de ir ao trabalho. “Eu fui o primeiro da minha equipe a simplesmente não ir e depois buscar uma forma de justificar essas faltas”, disse. “É realmente uma sensação de que, ou nós lutamos sozinhos por nossa saúde e sofremos alguma retaliação da empresa, ou morremos na P.A..”

Contudo, na quinta-feira, os operadores da AlmaViva em São Paulo começaram a articular uma paralisação através de um grupo no Whatsapp. Elias disse que, “no meio da quinta-feira, me adicionaram a um grupo da paralisação e, na última pausa do dia, distribuíram vários panfletos. Até o fim do expediente esse grupo já tinha juntado mais de 250 pessoas.”

A empresa tentou reprimir o movimento. Elias relatou que ele e seus colegas foram reunidos na tarde de quinta-feira, quando o coordenador do setor declarou que, “basicamente, o que interessa para empresa, acima de tudo, é o lucro deles. Eles não poderiam simplesmente parar as operações e manter a gente em casa recebendo. Então, na possibilidade de suspender as operações a gente não ia receber nada.” O coordenador ainda falou que iriam implementar medidas de home office, mas que “da operação da qual nós fazemos parte, que tem cerca de 100 pessoas, apenas dez iriam fazer”.

“Eu fiquei revoltadíssimo”, disse Elias. “Obviamente não fiquei calado e perguntei: ‘Tá, tudo que você está falando é o que o seu empregador mandou você falar, mas o que você acha, com esse Veja, ou esse álcool em gel que vocês vão trazer, a gente vai estar seguro? Vocês acreditam de verdade nisso?’ E aí o cara começou a enrolar e falar que se suspendesse a gente, íamos ficar sem salário. Depois outra coordenadora me chamou de canto, para falar que eu nem sabia o que era uma pandemia para eu estar agitando a galera. É muito injusto.”

Apesar do terrorismo, os trabalhadores aderiram massivamente à paralisação no dia seguinte e, durante o final de semana, continuaram discutindo pelas redes sociais a continuidade do movimento nos próximos dias.

Como Cris declarou, “Não é só São Paulo, só capital, várias cidades em vários estados paralisaram. É necessário o cuidado com a saúde do funcionário. Hoje a empresa vê a gente como um número… Então, a paralisação não é somente pra fazer alarde, ou pra não trabalhar. Temos o direito de reivindicar os nossos direitos e correr atrás de que não tenhamos nenhum problema no futuro com a nossa saúde e dos nossos entes queridos.”

As paralisações que estouraram em todo o país ocorreram em múltiplas sedes das mesmas empresas, várias delas transnacionais como a AlmaViva. Existem algumas até maiores, como a Atento, que só no Brasil emprega mais de 80 mil trabalhadores, e possui mais 70 mil funcionários em outros 12 países. As sedes dessas empresas costumam reunir milhares de trabalhadores, na maioria jovens, que se dividem nas chamadas operações. Eles recebem os salários mais baixos possíveis, que sofrem descontos regulares e ficam abaixo do mínimo estipulado pela legislação brasileira, de R$ 1.039. Um dos entrevistados, por exemplo, relatou receber cerca de R$ 700.

Na sede da AlmaViva em Belo Horizonte, Minas Gerais, que presta atendimento ao Banco Itaú, um representante da empresa declarou a trabalhadores que protestavam na sexta-feira: “A AlmaViva, a liderança, a alta gestão, mais o Itaú e o governo estão envolvidos e preocupados com o cenário do coronavírus”. Ele foi interrompido pelas vaias dos trabalhadores revoltados, que sabem que isso é uma mentira. Além da sede de São Paulo e Belo Horizonte, entre quinta e sexta-feira, foram registrados protestos e paralisações na AlmaViva em Teresina, no Piauí, e em Guarulhos, também no estado de São Paulo.

Em Goiânia, capital de Goiás, milhares de trabalhadores paralisaram as operações na quinta-feira e saíram em protesto pela Avenida 136, onde estão sediadas grandes empresas de telemarketing, como a Atento e a BTCC. Eles depois bloquearam a rodovia federal BR 153, nas proximidades. Outras greves selvagens e protestos aconteceram no Recife, em Pernambuco; em Salvador e Feira de Santana, na Bahia; em Curitiba, no Paraná; e outras cidades no estado de São Paulo, como Poá e Bauru.

Esses protestos e paralisações aconteceram independentemente dos sindicatos corporativos. Após a mobilização dos trabalhadores, a Federação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Telecomunicação e Operadoras de Mesas Telefônicas (Fenattel), ligada à CUT, a central sindical dirigida pelo Partido dos Trabalhadores (PT), declarou que entrou em contato com as empresas para garantir que fossem tomados cuidados contra a transmissão do coronavírus. Eles, na verdade, só estabeleceram medidas – como disponibilizar álcool em gel e orientar os funcionários a lavar as mãos – para permitir que as empresas continuem funcionando.

Questionado sobre o sindicato, Elias disse: “Não acho justo eu ter um posicionamento sobre o trabalho [deles], por não conhecer o que eles estão fazendo. Mas eu não tive contato com ninguém do sindicato, nem ouvi falar. Você falou que eles disseram estar em contato com a empresa… Com a empresa, com os trabalhadores, não.”

Roma, um operador da Tel Telemática, de Feira de Santana, no interior da Bahia, relatou ao WSWS que lá “ocorreram manifestações entre quinta e sexta-feira na frente da empresa, pedindo que as atividades parem”. Segundo ele, “o sindicato foi lá só uma vez semana passada.”

“Para falar a verdade eu nem sei quem são”, ele disse, “só vão lá quando é eleição de chapa e no mais não sei mesmo o que fazem… Ah, recebem o desconto dos nossos contracheques.” Questionado se o sindicato vem assim que surge uma revolta para acalmar os trabalhadores, respondeu: “Sem dúvidas... e depois some”.

Em outra sede da empresa em que Roma trabalha, em Salvador, a capital da Bahia, os trabalhadores fizeram uma greve selvagem na quinta e sexta-feira. Contornando o sindicato, eles formaram uma comissão de base. “Nós, da comissão dos funcionários, estamos representando mais de 2 mil pessoas”, informou um membro. O sindicato apareceu depois e afirmou que iria negociar condições mais seguras com a empresa para o trabalho poder continuar.

Operadores de Salvador também criaram uma página de denúncias no Instagram, chamada senzala80, com o slogan: “Que direito seu foi roubado em empresas de call center? Não temos vínculo com o sindicato, não acreditamos nele, somos proletariados como você.” A página tentou pressionar o governador da Bahia, Rui Costa (PT), a fechar as empresas de call center no estado. Contudo, todos os seus comentários foram apagados pelo governador e eles foram bloqueados.

A página respondeu ao governador em uma postagem: “A sua quarentena é seletiva. Temos que morrer porque somos pobres, temos que ficar naquela empresa na Boa Viagem, levar doenças para as nossas famílias. Já tem pessoas infectadas lá dentro, isso será uma tragédia anunciada.”

A resposta do governo de Rui Costa, ao lado dos sindicatos da CUT, mostra o grau de comprometimento do Partido dos Trabalhadores em garantir os interesses do lucro capitalista. As ações deles complementam aquelas do presidente fascista Jair Bolsonaro.

Bolsonaro respondeu à onda de protestos revisando o decreto que definia quais eram serviços essenciais durante a epidemia de coronavírus, incluindo o atendimento de call centers. A legislação permite a “determinação de realização compulsória” dessa atividade, suspendendo o direito de greve dos trabalhadores.

Essa medida repressiva foi questionada pelos operadores. Os trabalhadores entendem que “tem alguns call centers específicos que têm sentido continuarem num período de necessidade, como o que atende planos de saúde, porque seriam essenciais”, como afirmou Elias. Mas esse, absolutamente, não é o caso. “O governo abriu precedentes para uma empresa como a AlmaViva decidir que eu vou continuar, durante uma pandemia, a vender planos para a [empresa de telecomunicações] Vivo.”

Cris também contestou: “Falar pra mim que o telemarketing de empresas privadas, AlmaViva, TMKT, Saitel, Tivit, Atento, entre outras têm serviços essenciais? Não têm.” Ian complementou: “Sem oferta ativa [de serviço de vendas], o Brasil não para, só as grandes empresas que param de lucrar. O mundo pode estar naufragando e eles ainda nos querem batendo metas.”

Os interesses de lucro das corporações transnacionais estão em conflito direto com o interesse social da grande maioria da população do planeta. A classe trabalhadora brasileira só será capaz de defender sua saúde e condições de vida através da crise do coronavírus se essa luta for travada internacionalmente.

Ao conhecer o WSWS, um operador de call center brasileiro pediu a seus colegas: “Vamos ajudar. Vamos mostrar a realidade aí. O site é mundial.” Nós recomendamos fortemente que esse conselho seja seguido.