Frigorífico da JBS é reaberto no Brasil enquanto América Latina se torna epicentro da COVID-19

Por Gabriel Lemos
28 Maio 2020

Publicado originalmente em 27 de maio de 2020

A empresa transnacional brasileira de processamento de carne JBS reabriu na quarta-feira passada, 20 de maio, seu frigorífico na cidade de Passo Fundo, no estado do Rio Grande do Sul. Auditores fiscais da Gerência Regional do Trabalho haviam interditado a unidade em 24 de abril após ter se tornado um foco de contágio do novo coronavírus na região, com 19 trabalhadores testados positivo.

Até a reabertura da planta, o número total de casos confirmados entre os 2.410 funcionários havia subido para 94. Apesar de não ter sido registrada nenhuma morte entre os trabalhadores, sete pessoas que entraram em contato com os infectados no frigorífico já morreram.

O governador do estado, Eduardo Leite (PSDB), e a ministra da Agricultura do governo Bolsonaro, Tereza Cristina, trabalharam em estreito contato para garantir que a unidade fosse reaberta. A decisão do Tribunal Superior do Trabalho a favor da JBS de terça-feira passada determinou a implementação de medidas de segurança como o uso obrigatório de máscara e “face Shields”, higienização constante e distanciamento entre os trabalhadores, que serão separados com lâminas de acrílico.

Essa decisão aconteceu depois de a JBS divulgar um prejuízo de R$ 5,9 bilhões no primeiro trimestre deste ano, contra um lucro líquido de R$ 1,1 bilhão no mesmo período de 2019.

Trabalhadores em frigorífico de frango no Rio Grande do Sul (Crédito: Ministério Público do Trabalho/RS)

A reabertura do frigorífico da JBS em Passo Fundo aconteceu dois dias antes de a Organização Mundial da Saúde anunciar que a América Latina se tornou o novo epicentro da pandemia do novo coronavírus. O Brasil, o país que mais está sofrendo com a pandemia na região, pela primeira vez na semana passada atingiu mais de 1.000 mortes por COVID-19 em um único dia, ultrapassando a Rússia e se tornando o segundo país com o maior número de casos atrás apenas dos EUA. Na terça-feira, o Brasil tinha 23.622 mortes e 377.780 casos confirmados da doença. Estudos mostraram que o número real pode ser 14 vezes maior.

Apesar de o maior número de casos se concentrar em grandes metrópoles, como nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, a pandemia do novo coronavírus está se espalhando rapidamente para as áreas empobrecidas do interior do Brasil. Um estudo da Fiocruz, a mais importante instituição epidemiológica no país, mostrou que no último mês o número de casos em municípios de até 20.000 habitantes aumentou 50%. Hoje, as cidades brasileiras com a maior taxa de casos e de mortes estão no estado do Amazonas, que não possui nenhum leito de UTI fora da capital Manaus.

Como tem acontecido em muitos países do mundo, particularmente nos EUA, os frigoríficos têm sido um vetor para a propagação do vírus para muitas pequenas cidades do interior do país. O Brasil é o maior produtor e exportador de carne bovina e avícola do mundo.

Em abril, 42 dos 446 frigoríficos do país tiveram suas atividades interrompidas para deter a propagação do novo coronavírus. Apenas no Rio Grande do Sul, 2.079 trabalhadores em 21 frigoríficos haviam testado positivo para o novo coronavírus até segunda-feira, o que equivale 32,1% dos casos no estado.

Setor de corte de frigorífico no Rio Grande do Sul (Crédito: Ministério Público do Trabalho/RS)

A cidade de Passo Fundo, onde a planta da JBS foi reaberta na semana passada, possuía até 11 de maio o mesmo número de mortes por COVID-19 do que a capital do estado, Porto Alegre, que possui sete vezes mais habitantes. A cidade possui a maior taxa de mortalidade pelo coronavírus do estado, com 135,7 casos por 100.000 habitantes, contra 35,8 na capital.

A BBC Brasil informou em 13 de maio que a cidade de Ibirapuitã teve seus primeiros casos “importados” de Passo Fundo. A pequena cidade de 5 mil habitantes já possui uma das maiores taxas de casos do Rio Grande do Sul, 360 por 100.000 habitantes.

No mesmo dia que a fábrica da JBS reabriu, o jornal local Campo Grande News noticiou que um funcionário indígena da JBS na cidade de Dourados, no Mato Grosso do Sul, foi contaminado pelo novo coronavírus e levou a doença para a aldeia Bororó, infectando 31 indígenas. Junto com a aldeia Jaguapiru, Bororó faz parte da Reserva Indígena Dourados, onde vivem 18 mil indígenas.

O jornal também informou que 16 funcionários da JBS de Dourados entraram em isolamento na última terça-feira depois de apresentarem sintomas da COVID-19. Todos eles moram na cidade vizinha de Rio Brilhante, que possui 37 mil habitantes.

Em outra cidade do Mato Grosso do Sul, Guia Lopes da Laguna, o frigorífico da empresa Brasil Global Industrial, que possuí 300 funcionários, tornou-se um foco de contágio da COVID-19 depois de um caminhoneiro vindo de São Paulo contaminar 5 funcionários. Até 20 de maio, 61 funcionários já tinham testado positivo e outros 190 esperavam o resultado do exame. Na segunda-feira, Guia Lopes da Laguna era a oitava cidade no Brasil com maior incidência de casos, com 1.627 casos por 100.000 habitantes.

Os recentes desenvolvimentos na indústria de frigoríficos no Brasil fazem parte de um fenômeno mundial. Como o World Socialist Web Site mostrou, os frigoríficos se tornaram um foco de contágio da COVID-19 nos EUA, onde 12 mil trabalhadores já foram infectados pelo vírus mortal e 50 mortes foram registradas até 23 de maio. Centenas de trabalhadores de frigoríficos e abatedouros já foram infectados na Alemanha e na Irlanda do Norte, onde um trabalhador na Moy Park já morreu de COVID-19.

Muitas dessas infecções e mortes aconteceram em frigoríficos controlados pela JBS. Em 2015, a JBS comprou a irlandesa Moy Park da também brasileira Marfrig. Nos EUA, onde a JBS possui 60 unidades, a empresa comprou a Swift Foods em 2007, a Pilgrim’s Pride em 2009 e a divisão de suínos da Cargill em 2015. Depois de ter comprado em 2012 a XL Foods, a JBS passou a atuar também no Canadá, e desde 2007 atua na Austrália, onde adquiriu a Australian Meat Holdings, o Tasman Group e o Primo Group.

A primeira aquisição internacional da JBS aconteceu em 2005, quando comprou a maior produtora e exportadora de carne da Argentina, a Swift-Armour, tornando-se a maior produtora de carne da América Latina. Dois anos depois, com a aquisição da Swift Foods, a JBS tornou-se a maior produtora de carne do mundo. Hoje, a transnacional brasileira emprega mais de 260 mil funcionários em 30 países.

A internacionalização da JBS aconteceu durante os governos do Partido dos Trabalhadores (PT), que por 13 anos – de 2003 a 2016 – foi o partido de governo preferido da burguesia brasileira.

Como parte de sua assim chamada política “neodesenvolvimentista”, os governos do PT utilizaram o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para financiar a internacionalização e a fusão de grandes empresas brasileiras com o objetivo de o Brasil criar suas próprias “campeãs nacionais” – i.e., grandes empresas apoiadas pelo estado nacional com alcance global. Essa política teve início em 2005, no final do primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando o BNDES pela primeira vez utilizou sua operação de Investimento Direto no Exterior para financiar a compra da Swift-Armour da Argentina pela JBS.

De 2005 até 2013, o BNDES desembolsou R$ 12,8 bilhões no grupo controlador da JBS, J&F, tanto através de empréstimos para a “campeã nacional” brasileira quanto pela compra de ações e de debentures. Hoje, a subsidiária do BNDES responsável por essas operações, BNDES Participações (BNDESPAR), possui 21% da JBS. Essa enorme injeção de capital fez o faturamento da JBS saltar de R$ 4 bilhões em 2006 para R$ 170 bilhões em 2016.

O total de recursos do BNDES e do BNDESPAR no processo de internacionalização da JBS e de outras “campeãs nacionais” aumentou mais de cinco vezes de 2003, o primeiro ano do governo Lula, até 2010, quando atingiu o recorde de R$ 168 bilhões. Entre outras “campeãs nacionais” impulsionadas pelo PT via BNDES estão a gigante da construção civil, Odebrecht, que durante os governos petistas passou a atuar em grandes obras na África, em toda a América Latina e mesmo os EUA, e a Fibria, que foi criada em 2009 a partir da fusão financiada pelo BNDES de duas grandes empresas nacionais de celulose e hoje é a maior produtora de celulose do mundo.

Porém, ao contrário das “campeãs nacionais” chinesas e sul-coreanas, que supostamente inspiraram a política “neodesenvolvimentista” do PT, o financiamento do BNDES se deu principalmente em empresas produtoras de commodities e de produtos de baixa e média tecnologia. Esse processo fortaleceu o agronegócio brasileiro e fez o país se posicionar no mercado global como um importante exportador de commodities.

Essas operações realizadas pelo BNDES aproximaram ainda mais o PT das camadas mais poderosas da burguesia brasileira, que ano após ano aumentava o financiamento eleitoral do partido. Nas eleições de 2006, um ano após a primeira aquisição internacional da JBS e quando Lula foi reeleito presidente, a empresa doou R$ 2,5 milhões para as campanhas eleitorais do PT, um valor 5 vezes maior do que aquele doado ao PSDB, o segundo colocado na disputa presidencial. Na eleição presidencial de 2010, vencida pela candidata do PT Dilma Rousseff, a JBS doou R$ 9 milhões ao partido, um valor 3 vezes maior do que ao PSDB, de novo o segundo colocado. Na última eleição presidencial que permitiu doação empresarial, em 2014, o PT foi o partido que mais recebeu doações de grandes empresas brasileiras, particularmente das “campeãs nacionais”.

O empresário Emílio Odebrecht, cujo conglomerado recebeu R$ 28 bilhões do BNDES entre 2008 e 2015, relatou em depoimento de delação premiada em 2017 que Lula, no final da década de 1970, “criou as condições para que pudesse ter uma relação diferenciada com os sindicatos” – i.e., encerrar greves antes que as reivindicações dos trabalhadores fossem atendidas.

Em meados da década de 1990, a CUT, a central sindical controlada pelo PT, respondeu aos ataques brutais contra os direitos dos trabalhadores e às políticas de abertura econômica do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) voltando a formação e a atuação sindical para a criação e a gestão de fundos de pensão. Realizada em contato com a AFL-CIO dos EUA, o Fundo Solidário da Federação dos Trabalhadores de Quebec e a CGT francesa, essa transformação foi liderada por Luiz Gushiken, ex-presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo e ex-ministro do governo Lula. Na década de 1970, ele, junto com Antônio Palocci – ex-ministro da Fazenda de Lula e hoje em prisão domiciliar por corrupção –, havia sido membro da lambertista Organização Socialista Internacionalista, que promoveu a criação do PT.

Em 2003, quando Lula chegou à presidência, ele deixou claro essa transformação dizendo que “o sindicato precisa compreender o papel que tem os fundos de pensão”, uma vez que o “sindicalismo de contestação já passou ... embora eu possivelmente tenha me notabilizado por isso.” Junto com o BNDES, os fundos de pensão de empresas estatais, os principais deles controlados por lideranças sindicais do PT, foram os principais financiadores da política de “campeãs nacionais”.

Esses desenvolvimentos expõem não só o PT como um partido burguês, como também o caráter pró-corporativo da CUT e dos sindicatos controlados pela central sindical.

Hoje, em meio à pandemia de COVID-19, os trabalhadores de frigoríficos e de todos os setores ameaçados pelo vírus mortal devem formar comitês de base de segurança contra os impulsos de lucro de grandes corporações globais como a JBS, que são apoiadas por sindicatos pró-corporativos e partidos como o PT. Esses comitês devem organizar os trabalhadores internacionalmente e lutar pela reestruturação da sociedade com base na necessidade social e não no lucro privado – ou seja, pelo socialismo.

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