Brasil tem surtos de COVID-19 em indústrias frigoríficas e mineradoras

Por Tomas Castanheira
18 Junho 2020

Publicado originalmente em 17 de junho de 2020

A política de retorno ao trabalho e suspensão de todas medidas de contenção do novo coronavírus é a nova realidade aceita, promovida pelos políticos, a mídia e a elite empresarial-financeira brasileira. Eles não estão abalados pela ascensão de novos casos e mortes pela doença, que, segundo números oficiais, já matou mais de 45.000 pessoas no Brasil.

Um comercial do Banco Bradesco declara: "Todo mundo entende a importância de ficar em casa agora. Mas a gente sabe que para você isso não foi possível". Então, apresenta imagens de operários, trabalhadores da limpeza, profissionais da saúde, entregas e outros serviços, incluindo, é claro, seus próprios funcionários bancários: "Gente que acorda cedo, que rala, que se arrisca. Gente que está fazendo o que precisa ser feito".

Em nome da retomada do fluxo de lucros aos bancos e acionistas, esses trabalhadores estão sendo enviados a locais de trabalho extremamente inseguros, para serem contaminados em massa pela COVID-19 e levarem a doença a seus familiares e vizinhos. Foi isso que garantiu o "melhor mês de maio desde 2009" à bolsa de valores brasileira.

Trabalhadores em frigorífico da JBS no Rio Grande do Sul. (Crédito: MPT)

Surtos de coronavírus estão estourando em grandes empresas, atingindo centenas de milhares de trabalhadores por todo o país. Cidades constituídas em torno de grandes plantas frigoríficas e de mineradoras estão sofrendo com contaminações em massa.

Um mapeamento feito pela Universidade do Vale do Taquari (Univates) em Lajeado, cidade com alta concentração de frigoríficos no interior do Rio Grande do Sul, concluiu que o índice de contaminação na cidade é 14 vezes maior que no resto do estado. Entre os mais de 16 mil trabalhadores de frigoríficos, a chance de ser infectado é 207% maior.

No início de maio, um frigorífico da BRF Foods em Lajeado foi fechado pelo Ministério Público por apresentar sério risco à saúde da cidade. Foi reaberto oito dias depois, após um acordo envolvendo a destinação de R$ 1,2 milhões a hospitais locais.

O mesmo padrão se repete nos frigoríficos de todo o país. No Mato Grosso do Sul, na região central do país, o Ministério Público do Trabalho (MPT) já notificou mais de 30 indústrias do setor por não seguirem as recomendações sanitárias mais básicas.

Um dos piores surtos de coronavírus no estado ocorreu na unidade da JBS de Dourados, onde mais de 400 dos cerca de 4.000 funcionários testaram positivo para a COVID-19.

A reserva indígena de Dourados, onde vivem cerca de 16 mil pessoas, a maior concentração de índios no país, já possui 86 casos confirmados de coronavírus. A transmissão comunitária na reserva teve início após uma moradora que trabalha na planta da JBS ter sido contaminada no trabalho.

Em uma declaração de emergência, as lideranças indígenas Guarani & Kaiowá alertam que a população da reserva, sem infraestrutura de saúde e moradia, "está diante de mais um massacre com a chegada da COVID-19".

A JBS respondeu afastando os trabalhadores infectados e os indígenas que trabalham na fábrica e dando continuidade normal à produção, alegando que possui "um rigoroso protocolo de controle e prevenção da doença". Anunciou ainda a doação de R$ 21 milhões à saúde pública do Mato Grosso do Sul, para "compensar" a devastação que está causando.

As condições de trabalho já terríveis nos frigoríficos brasileiros podem ainda ser pioradas. Em nome das corporações frigoríficas, o deputado federal Celso Maldaner do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) está propondo a eliminação dos intervalos obrigatórios para trabalhadores operando sob baixas temperaturas nos frigoríficos.

Outra série de surtos de COVID-19 ocorre nas cidades onde a Companhia Vale do Rio Doce realiza suas operações de mineração. Em Canaã dos Carajás, Pará, onde estão localizados o maior complexo da Vale e a maior mina de ferro a céu aberto do mundo, o índice de contaminação por COVID-19 entre seus habitantes é de quase 4%. Até 10 de junho, eram 1.417 casos confirmados, para uma população de 36.027 habitantes.

Após a empresa realizar testes rápidos entre seus funcionários, as várias cidades de Minas Gerais onde a Vale realiza explorações revelaram altos índices de contaminação. Em Itabirito, de 100 casos confirmados, 94 são de funcionários da Vale. Em Ouro Preto e Barão dos Cocais, cerca de 80 por cento dos casos confirmados são de mineiros.

O complexo de minas da Vale na cidade de Itabira – onde é realizada cerca de 10% da produção da empresa – foi interditado pelo MPT pela segunda vez em 6 de junho, após o surgimento de dezenas de novos casos de coronavírus entre os cerca de 5.000 trabalhadores. No final de maio, o complexo fora interditado após ser reportada a existência de mais de 200 trabalhadores infectados.

As condições de trabalho averiguadas pela investigação são totalmente inseguras: os trabalhadores são aglomerados na troca de turnos e são transportados dentro de vans apertadas. A operação dentro de cabines fechadas é também um fator de risco potencial, que ajuda a transformar as minas em criadouros da COVID-19.

Os trabalhadores da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), a maior indústria de aço do Brasil e da América Latina, também estão ameaçados. O MPT solicitou o fechamento da mina da CSN em Congonhas, o que foi negado pela justiça. Segundo o MPT, a vigilância sanitária "constatou falhas nas medidas de proteção, aglomeração no transporte e falta de distanciamento entre trabalhadores em alguns pontos da empresa, como refeitórios".

Até mesmo nos escritórios da CSN, localizados em São Paulo, funcionários denunciaram que a empresa mantém atividades presenciais sob condições inseguras, como falta de higienização e refeitórios apertados, mesmo depois de dezenas de colegas terem sido contaminados.

Existe uma raiva crescente entre os trabalhadores da CSN, que além do alto risco no trabalho, recebem salários baixíssimos. Em Volta Redonda, onde está localizada sua principal usina, os trabalhadores se revoltaram, no início do mês, com o fechamento de um acordo pelo sindicato que congela os salários por dois anos.

Em centenas de comentários na internet os trabalhadores denunciaram o processo de votação online como uma fraude. Os operários afirmam que foram coagidos pelos funcionários de alta patente a votarem contra a greve e ameaçados com demissão caso votassem a favor. "Essa, votação como sempre, ela é manipulada, não temos como acompanhar nada. Eu não acredito que o peão tenha aceitado isso. Não dá para acreditar nesse sindicato", disse um trabalhador.

A situação dos trabalhadores nos frigoríficos e mineradoras não é um caso à parte. As vidas dos trabalhadores estão em perigo na maioria dos locais de trabalho.

Na semana passada, trabalhadores da Petrobras realizaram manifestações em frente à Refinaria Presidente Bernardes, em Cubatão, onde mais de 130 petroleiros foram infectados e 3 morreram de COVID-19. De acordo com a Petrobras, entre os funcionários de todo o país, há mais de 1.000 casos confirmados.

É urgente que os trabalhadores de base organizem comitês de segurança nos locais de trabalho de todo o país, para elaborar procedimentos seguros e regulamentos para suas atividades, e inspecionar sua implementação.

Recomendamos fortemente que os trabalhadores leiam nossa declaração, "Construir comitês de base em fábricas e locais de trabalho pelo Brasil para impedir a transmissão da COVID-19 e salvar vidas!" e entrem em contato.