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Brasil atinge 1,5 milhão de casos de coronavírus e desemprego recorde

O Brasil iniciou o mês de julho superando o marco de 60.000 mortes causadas pela COVID-19 e chegando a 1,5 milhão de casos confirmados de coronavírus. Esses números terríveis, superados internacionalmente apenas pelos Estados Unidos, são o resultado de uma política deliberada de negação de toda e qualquer medida de saúde pública para conter a disseminação do vírus mortal.

Quando o Brasil registrava os primeiros casos de COVID-19, em meados de março, o presidente fascista Jair Bolsonaro se declarou radicalmente contra o fechamento das atividades econômicas. Afirmou que os trabalhadores não poderiam manter, ao mesmo tempo, sua saúde e sua renda. Ou enfrentavam a contaminação generalizada, ou demissões em massa: a morte pelo vírus, ou a morte pela fome.

Hoje, passados quase quatro meses, a realidade provou que tal "escolha" era radicalmente falsa. Os lares da classe trabalhadora brasileira estão sendo devastados simultaneamente pela doença e pelo desemprego.

Fila do transporte em Belém, Pará. [Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil]

Na última terça-feira, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) anunciou que, de março a maio, cerca de oito milhões de trabalhadores perderam seus empregos no país. Pela primeira vez desde que o instituto iniciou a pesquisa, em 2012, mais da metade da população em idade de trabalhar está desocupada.

Essa catástrofe social, contudo, é responsabilidade não somente do gênio sociopata de Bolsonaro, mas do conjunto dos partidos políticos da ordem, incluindo a autodeclarada oposição encabeçada pelo Partido dos Trabalhadores (PT). As divergências iniciais em torno da política oficial em resposta à pandemia desapareceram por completo, dando lugar a uma "frente ampla" pela operação normal das atividades econômicas em condições extremamente inseguras.

A sequência de declarações dadas em março por Bolsonaro, minimizando a COVID-19 como uma "gripezinha", e defendendo uma política de imunidade de rebanho, afirmando que a pandemia era como uma "chuva" em que todos deveriam se molhar, causou espanto e indignação na população brasileira e internacional. Ele despontou como o líder mundial com o desprezo mais abertamente declarado pela vida humana.

Surfando numa onda de "panelaços" da classe média contra o governo, os rivais burgueses de Bolsonaro trataram de se apresentar como políticos de um tipo essencialmente diferente, razoáveis e comprometidos com a vida. O governador de São Paulo, João Doria, do Partido Social Democrata Brasileiro (PSDB), declarou em 25 de março nas redes sociais: "Presidente, no nosso estado temos 40 mortos por covid-19, dos 46 em todo o Brasil. São pessoas que tinham RG, CPF, e familiares que continuarão sentindo sua falta. Não são mortos de mentirinha, presidente. E essa não é apenas uma 'gripezinha'"

O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel do Partido Social Cristão (PSC), que, assim como Doria, se elegeu em 2018 como um representante local de Bolsonaro, declarou na mesma ocasião: "Ressuscitar a economia a gente consegue. Ressuscitar quem morreu é impossível".

Esses políticos direitistas foram abertamente elogiados pelo PT e seus aliados. Numa postagem no Twitter, compartilhada por Doria, o ex-presidente petista Luís Inácio "Lula" da Silva, afirmou: "A gente tem que reconhecer que quem está fazendo o trabalho mais sério nessa crise são os governadores e os prefeitos".

Em São Paulo e no Rio de Janeiro, foram erguidos grandes hospitais de campanha com milhares de leitos para tratar a COVID-19 e o Consórcio do Nordeste, sob liderança dos governadores do PT e seus aliados, estabeleceu um Comitê Científico de Combate ao Coronavírus. Essas políticas acobertaram o fato de que nenhum dos estados adotou medidas sérias de combate ao vírus, com testagens massivas e rastreamento dos contatos. As únicas atividades encerradas oficialmente foram o comércio, escolas e lazer.

No entanto, a indústria automotiva, arrastando atrás de si as fábricas de autopeças e outros setores produtivos, suspenderam suas atividades declaradamente por uma expectativa de "baixa demanda de mercado" em consequência da crise econômica global. Isso ajudou a criar a impressão de que um fechamento rigoroso da economia fora decretado.

Assim como os governos locais, os sindicatos se valeram desses fechamentos para posar como defensores da vida dos trabalhadores. Já depois das montadoras terem anunciado férias coletivas, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, um dos principais sindicatos do país, estampou na capa de seu jornal: "Ou as empresas param… ou nós paramos a empresa".

Mas, por fora dos sindicatos e contra sua vontade, uma onda de greves selvagens e protestos estourou nos locais de trabalho, denunciando a insuficiência das medidas adotadas pelos governos e empresas contra a disseminação do vírus.

No final de março, trabalhadores de call centers de todo Brasil cruzaram os braços contra o funcionamento inseguro das empresas em meio à pandemia, erguendo a palavra de ordem: "não vamos morrer na P.A. (posição de atendimento)!". Um grupo de operadores que fizeram greve na Bahia confrontou o governador Rui Costa do PT, que preside o Consórcio do Nordeste: "A sua quarentena é seletiva. Temos que morrer porque somos pobres, temos que ficar naquela empresa na Boa Viagem (bairro), levar doenças para as nossas famílias. Já tem pessoas infectadas lá dentro, isso será uma tragédia anunciada".

Na mesma semana, em Santa Catarina, centenas de operários num frigorífico da JBS fizeram uma greve espontânea contra as condições inseguras de trabalho e foram brutalmente reprimidos pela polícia militar quando protestavam em frente à empresa.

Enquanto isso, os partidos burgueses deixavam de lado suas diferenças para articular conjuntamente as políticas fundamentais para a garantia dos interesses capitalistas diante da crise econômica aprofundada pela pandemia da COVID-19.

Entre o fim de março e início de abril, aprovaram a transferência de quantias gigantescas de dinheiro à elite corporativa e financeira. Por unanimidade, o Congresso aprovou um pacote de resgate corporativo de 700 bilhões de reais – dos quais menos de 15% foram destinados ao pagamento de um auxílio emergencial de 600 reais a trabalhadores que perderam sua fonte de renda – e passou o chamado "orçamento de guerra", que liberou o governo a gastar acima do permitido pela meta fiscal e o Banco Central a comprar, pela primeira vez na história, títulos podres de empresas.

No início de abril, o governo Bolsonaro criou, através de uma medida provisória, condições para as empresas suspenderem contratos de trabalho e cortarem salários dos trabalhadores em até 70%. Essas medidas foram imediatamente abraçadas pelos sindicatos que, as defendendo como única forma de preservar empregos, assinaram acordos dessa natureza em larga escala, atingindo quase 12 milhões de trabalhadores.

Com os problemas confrontando a acumulação capitalista tendo recebido respostas rápidas e contundentes, o coronavírus se espalhava em velocidade crescente em meio ao descaso governamental. Segundo o Worldometers, entre o início e o fim de abril, a média semanal de novos casos saltou de menos de 600 casos por dia a mais de 5.000. A contagem de mortes, no mesmo período, passou de cerca de 250 a quase 6.000.

Uma série de greves e protestos de profissionais de saúde irromperam pelo país denunciando uma situação muito mais grave nos hospitais do que estava sendo noticiada, com falta de equipamentos de proteção adequados aos trabalhadores e sem estrutura a pacientes. "Infelizmente o sistema público em Belém já colapsou", declarou um médico semanas antes do prefeito da capital paraense reconhecer o colapso da saúde e do sistema funerário.

Nos primeiros dias de maio, o Brasil rompeu o marco de 100.000 casos confirmados e várias capitais anunciaram a superlotação de seus hospitais. Pesquisadores estimaram, apontando para a subnotificação de casos, um número real de cerca de 2 milhões de infecções já naquela altura. Alguns estados, como Pará e Ceará, decretaram "lockdowns", mesmo que em termos bem pouco rigorosos.

Contudo, uma mudança de perspectiva tomava forma no seio da burguesia internacional. Ao redor do mundo, as elites dominantes adotaram uma nova política – canonizada na máxima do presidente americano Donald Trump, "a cura não pode ser pior que a doença" – de suspensão de todas as medidas de contenção do vírus e reabertura prematura da economia.

A classe dominante brasileira se unificou em torno da campanha genocida liderada por Bolsonaro de "guerra aos lockdowns". O presidente sociopata e obscurantista emergiu como um representante consistente dos interesses do conjunto da classe capitalista.

Os cabeças de dezenas de associações industriais e comerciais brasileiras marcharam ao lado de Bolsonaro até o Supremo Tribunal Federal para dizer que as medidas de contenção da pandemia já tinham ido longe demais. Os empresários declararam sua preocupação de que a retomada mundial das operações econômicas, especialmente na Ásia, ameaçaria a competividade do capitalismo brasileiro. Afirmaram que as condições já estavam prontas para o retorno geral da produção no país.

As demandas criminosas da classe dominante não foram confrontadas por nenhum governo local, pelo contrário. Ao invés de segurar a retomada da produção, governadores e prefeitos atiraram as restrições para o alto e se encaminharam para a reabertura de todas as atividades. Em São Paulo, o estado mais afetado pela pandemia, Doria recuou de uma proposta já apresentada de lockdown e, no sentido oposto, anunciou planos de reabertura do comércio.

As consequências dessa política se expressaram numa súbita ascensão da Bolsa de Valores brasileira, que registrou o melhor mês de maio desde 2009.

Os sindicatos cumpriram um papel central nesse processo. Desde abril, promoveram uma campanha pela retomada da indústria brasileira em meio à pandemia, como um assunto de "interesse estratégico" nacional. Dando voz aos interesses mais reacionários da classe dominante brasileira, os presidentes da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e da Força Sindical, as maiores centrais sindicais do país, escreveram um artigo conjunto atacando a dependência do Brasil de produtos fabricados na China.

Assim que as grandes empresas decidiram retomar suas operações, esses mesmos sindicatos trataram de forçar os trabalhadores para dentro dos locais de trabalho mortíferos, afirmando que as empresas haviam estabelecido protocolos absolutamente seguros.

A retomada geral do trabalho e a reabertura do comércio levou a explosões de casos em grandes empresas, infectando centenas ou milhares de trabalhadores de uma só vez. Surtos de COVID-19 em frigoríficos levaram à contaminação de cidades inteiras, assim como da maior reserva indígena do Brasil, ameaçando a extinção de povos nativos.

Belas palavras em defesa da vida foram proferidas pelos políticos da burguesia quando o país não atingira nem 50 mortes pela COVID-19. Hoje, Doria e Witzel se calam frente a mais de 15.000 mortes registradas em São Paulo e 10.000 no Rio de Janeiro. O terceiro estado com maior número de óbitos é o Ceará, governado por Camilo Santana do PT, com mais de 6.000 mortes registradas.

O Estado burguês fracassou em conter a transmissão da COVID-19 em todas as frentes. Todas as unidades frigoríficas no país fechadas pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) foram reabertas dias ou semanas depois, provocando novos surtos do vírus. Recentemente, um frigorífico contaminado seguiu operando por uma semana após ter seu fechamento decretado pelo MPT e só teve suas operações de fato suspensas quando os trabalhadores cruzaram os braços.

A única força social defendendo a vida humana de forma intransigente é a classe trabalhadora, através de suas greves e protestos. Só a expansão desse movimento pode impedir que o coronavírus cause outras centenas de milhares de mortes desnecessárias e evitáveis. Todos os setores sociais comprometidos com o progresso da humanidade, incluindo cientistas e pesquisadores, devem se voltar à classe trabalhadora e auxiliá-la a estabelecer seu controle sobre a economia e a sociedade.

Mas a tarefa essencial para a realização de tal perspectiva é a mobilização política independente da classe trabalhadora internacional, unificada em torno de um programa de medidas socialistas que confronte os interesses do lucro individual que hoje governam a sociedade. É necessário construir partidos revolucionários, seções do Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI), enquanto a liderança do movimento dos trabalhadores no Brasil e em todos os países.

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