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Novo Partido Anticapitalista francês nega golpe fascista de Trump em Washington

Publicado originalmente em 10 de janeiro de 2021

Milhões de pessoas no mundo inteiro estão chocadas e alarmadas com as cenas de 6 de janeiro de uma multidão fascista, incitada pelo presidente bilionário, Donald Trump, invadindo o Capitólio em Washington. Na França, âncoras de notícias chocados reconhecem que a invasão foi historicamente sem precedentes.

O Partido Socialista pela Igualdade (EUA) chamou por uma investigação completa, pública e transmitida em tempo real sobre essa tentativa de golpe fascista. A tarefa principal é alertar e mobilizar politicamente a classe trabalhadora internacional. Em contraste, os partidos pseudo-esquerdistas da classe média alta, tal como o Novo Partido Anticapitalista (NPA) francês, estão respondendo com tentativas de anestesiar a classe trabalhadora, negando que houve tentativa de golpe e promovendo o Partido Democrata de Biden, o presidente eleito.

Bandeira do Novo Partido Anticapitalista. (Crédito: Wikimedia Commons)

O site do NPA, Révolucion Permanente, publicou um artigo intitulado "A invasão do Capitólio e a decadência do imperialismo americano", traduzido livremente da sua filial norte-americana, o Left Voice. O artigo nega que ocorreu uma tentativa de golpe e ataca aqueles que estão alertando sobre o golpe os chamando de "burgueses":

A invasão do Capitólio não foi uma insurreição ou um golpe, como insinuam os membros da imprensa burguesa, mas mostra uma extrema-direita que, longe de aceitar a derrota depois de 3 de novembro, foi de fato encorajada durante a transição. Ela é a mesma extrema-direita que se mobilizou contra os protestos do Black Lives Matter no meio do ano, contra as restrições da COVID-19 e pela recontagem de votos em estados-chave durante as eleições.

A revista do NPA, L’Anticapitaliste, tranquilizou os seus leitores: "A extrema-direita está crescendo lentamente. A extrema-direita ainda é marginal nos Estados Unidos". A revista afirmou não saber quem organizou ou liderou a revolta de extrema-direita liderada por Trump: "Os desordeiros foram expulsos antes que contra-manifestações pudessem ser organizadas". Apesar de muitos serem membros de grupos de extrema-direita, tal como os Proud Boys, nenhum grupo parecia liderar as operações. A mídia chamou os desordeiros de 'insurgentes'".

Mesmo enquanto surgem vídeos da polícia do Capitólio abrindo os portões e acenando para que os grupos de extrema direita invadissem o prédio, o NPA tranquilizou os seus leitores, pois a ameaça do fascismo seria mínima. O partido afirmou sem hesitação que Wall Street, o Pentágono e a polícia dos EUA podem ser confiados para apoiar a democracia:

O sistema democrático permanece em vigor, mesmo que esteja sob forte pressão. Nenhum setor da classe capitalista ou da máquina estatal apoiou as tentativas de Trump de varrer o sistema eleitoral e judicial. Mais de 100 presidentes de corporações assinaram um documento que fazia oposição a qualquer questionamento dos resultados das eleições de 3 de novembro, e as forças armadas rejeitaram firmemente os apelos por uma intervenção. Trump teve que encarar o fato de que o controle do governo não dá controle absoluto sobre as alavancas do estado.

Essas tentativas precárias de negar a crescente virada da burguesia americana para um regime fascista se baseiam em mentiras. O golpe foi organizado e liderado pelo presidente Trump, que discursou para a multidão antes de ela atravessar a polícia do Capitólio para tomar o edifício. Trump tem seguido essa estratégia desde que lançou uma tentativa de golpe durante os protestos internacionais em massa contra o assassinato policial de George Floyd em Minneapolis em junho – ele apelou para as milícias de extrema-direita e tentou enviar ilegalmente os militares contra os manifestantes nos EUA em uma primeira tentativa de golpe.

Trump teve o apoio de centenas de legisladores republicanos ao denunciar falsamente os votos predominantemente democratas enviados por correio os chamando de fraudulentos, a fim de negar a legitimidade das eleições. Os seus associados trabalharam de perto com grupos de extrema-direita como os Proud Boys para intimidar e ameaçar as autoridades eleitorais em estados-chave. Apoiadores da extrema-direita foram presos pouco antes de tentarem invadir a capital do estado de Michigan, Lansing, fazendo planos para sequestrar e assassinar a governadora do estado, Gretchen Whitmer.

Ao mesmo tempo em que continuava negando os resultados das eleições de novembro de 2020, Trump anunciou que mobilizaria os seus apoiadores para protestar em frente ao Capitólio em 6 de janeiro, enquanto o congresso se reunia para certificar formalmente o resultado da eleição. Vários manifestantes de extrema-direita no Capitólio possuíam algemas de plástico, podendo ter feito deputados reféns. Significativamente, as autoridades do Pentágono inicialmente recusaram pedidos desesperados de deputados e senadores para que a Guarda Nacional fosse enviada para retomar o Capitólio da multidão de Trump.

Depois, a declaração do NPA de que Trump não tem apoio na classe capitalista estadunidense ou na máquina estatal para levar adiante uma política fascista não é apenas ridícula, mas criminosamente complacente.

Trump somente conseguiu se manter no cargo após as suas múltiplas violações à Constituição dos EUA, que seu juramento de posse exige que ele proteja, porque forças poderosas em Wall Street e entre os militares e as agências de inteligência dos Estados Unidos estão discutindo se devem criar uma ditadura fascista. A classe dominante apóia por unanimidade a sua política assassina de "imunidade de rebanho" durante a pandemia de COVID-19. Como resultado, as ações em Wall Street terminaram o dia em índices confortáveis no dia 6 de janeiro, mesmo enquanto uma multidão de extrema-direita tomava o Capitólio.

Tendo promovido uma falsa e complacente posição sobre a tentativa de golpe de Trump, o NPA tenta encobrir a sua política reacionária se declarando uma organização "anticapitalista", crítica tanto a Trump quanto aos democratas. O Révolucion Permanente acrescentou:

A esquerda tem que tirar conclusões rapidamente e apoiar toda a resistência contra a austeridade capitalista e a opressão racista com um programa que visa desafiar o capitalismo como um todo. A subordinação ao Partido Democrata é um câncer que afeta grande parte da esquerda estadunidense: há espaço para a construção de uma organização da classe trabalhadora e dos oprimidos completamente independente do Partido Democrata.

Biden agiu para encobrir um golpe fascista e defender o Partido Republicano, expondo a falência dos democratas e dos grupos de classe média, tal como os Socialistas Democráticos dos EUA (DSA), que procuraram subordinar os trabalhadores e a juventude aos democratas e minimizar o golpe. Biden reagiu ao golpe apelando para que Trump aparecesse em rede nacional e cancelasse o golpe que ele mesmo estava iniciando. Ele também elogiou co-conspiradores de Trump, como o senador Mitch McConnell, e afirmou que os Estados Unidos precisam que o Partido Republicano seja "forte".

Isso também expõe partidos pequeno-burgueses como o NPA, que fazem algumas críticas aos democratas enquanto trabalham em aliança com eles. De fato, em seu artigo, o Révolucion Permanente elogiou imediatamente uma fração "progressista" do Partido Democrata, que a publicação afirmou que se voltaria para a esquerda em resposta a futuras crises indefinidas. A publicação escreveu:

...o Partido Democrata é confrontado com sua própria crise interna entre a ala do establishment, liderada por Nancy Pelosi e Chuck Schumer, e a ala progressista do Squad (legisladores considerados mais à esquerda como Alexandria Ocasio-Cortez, Ilhan Omar, Ayanna Pressley e Rashida Tlaib) e Bernie Sanders, que são a expressão política do crescente descontentamento com a liderança do Partido Democrata. Essa insurgência conseguiu conter um crescente movimento de esquerda nos Estados Unidos e revigorar o Partido Democrata, mas como os democratas serão provavelmente forçados a implementar medidas de austeridade no futuro, essas tensões provavelmente chegarão a um ponto de ebulição.

O NPA aplaude Sanders, Ocasio-Cortez dos DSA, e democratas aliados porque, apesar dos seus chamados fraudulentos por "independência" em relação aos democratas, ele trabalha com essas figuras que se alinharam ao encobrimento do golpe fascista por Biden. O porta-voz do NPA, Olivier Besancenot, publica freqüentemente entrevistas e artigos na revista estadunidense ligada a essa ala do Partido Democrata, a Jacobin. Sanders e Ocasio-Cortez têm mantido um silêncio ensurdecedor sobre o apoio mais amplo da classe dominante e do aparato do Estado ao golpe.

Isso torna o NPA cúmplice de um contínuo encobrimento do significado do golpe de 6 de janeiro. Na verdade, todas as alas do Partido Democrata – sejam aquelas em torno de Biden, ou ao redor das forças rotuladas como "progressistas" pelo NPA – reagiram ao golpe de Trump procurando minimizá-lo. A fração democrata que o NPA chama de "progressista" defendia uma política tão complacente e estúpida quanto o impotente apelo de Biden a Trump e ao Partido Republicano.

O editor da Jacobin, Bhaskar Sunkara, também negou que Trump havia tentado um golpe fascista e tentou minimizar a questão. Ele tuitou: "Qual é a vantagem de dizer 'isto é um golpe de estado?’ Eu simplesmente não entendo a vantagem de encontrar os rótulos mais extremos para coisas ruins".

A "vantagem" de afirmar que "isto é um golpe" é que é verdade, e alerta a classe trabalhadora nos EUA e internacionalmente para o perigo claro e presente do fascismo. Não é um "rótulo extremo", mas uma caracterização política que aponta para a tarefa essencial nesta situação: mobilizar a classe trabalhadora internacional em uma luta irreconciliável contra o estado avançado dos preparativos para um regime autoritário da aristocracia financeira.

O golpe em Washington é um aviso urgente não apenas para os americanos, mas também para a classe trabalhadora internacional e em particular a européia. Nos 30 anos desde que o regime stalinista dissolveu a União Soviética em 1991, houve uma legitimação acelerada do fascismo pelas classes dirigentes de todos os países. Agora, conforme a revolta da classe trabalhadora se acumula contra décadas de austeridade da União Européia (UE) e a sua política assassina de "imunidade de rebanho" para a COVID-19, é amplamente admitido que os planos para golpes fascistas e assassinatos em larga escala estão em um estágio avançado de preparação em toda a Europa.

Na Alemanha, onde o professor de extrema-direita, Jörg Baberowski, reabilitou publicamente Hitler como alguém "não cruel", as redes neonazistas são conhecidas por terem organizado listas de políticos para serem executados por esquadrões da morte de extrema-direita. Em 2019, o político conservador, Walter Lübcke, foi assassinado pela extrema-direita. Na França, após o presidente Emmanuel Macron ter saudado o ditador fascista Philippe Pétain como um "grande soldado" em meio aos protestos dos "coletes amarelos", o general Pierre de Villiers também está hoje agitando pelo domínio militar na imprensa de extrema-direita.

Talvez o caso mais evidente seja na Espanha, onde o início de protestos contra as políticas de "imunidade de rebanho" levou a um planejamento generalizado no exército para um golpe fascista. Saudando o golpe fascista de 1936 do general Francisco Franco, que iniciou a Guerra Civil Espanhola, grupos de oficiais franquistas começaram a escrever cartas ao rei exigindo que ele os apoiasse contra o governo eleito. Nas conversas de WhatsApp vazadas para a imprensa, esses oficiais saudaram o golpe de Franco e chamaram pelo assassinato de "26 milhões de pessoas", sua estimativa do número de eleitores de esquerda na Espanha.

É impossível se opor ao fascismo sem lutar por uma mobilização internacional da classe trabalhadora, politicamente independente dos partidos burgueses e sob uma perspectiva socialista.

Isso requer uma ruptura consciente e de princípios com toda a camada internacional de partidos de pseudo-esquerda da classe média alta, como o NPA. Durante décadas, eles procuraram bloquear um movimento político independente da classe trabalhadora, insistindo que a classe trabalhadora tinha que estar ligada a alianças com os partidos imperialistas ou stalinistas que lhes ofereciam influência política e poder. Quando o ex-líder estudantil Alain Krivine e sua Liga Comunista Revolucionária (LCR) fundaram o NPA em 2009, Krivine propôs uma plataforma política, com a seguinte declaração:

O NPA não reivindica uma relação específica com o trotskismo, mas uma continuidade com aqueles que, nos últimos dois séculos, enfrentaram o sistema até o fim. O NPA é um partido pluralista e democrático. [Ele tem tido] a participação de camaradas de vários partes do movimento social, da esquerda antiglobalização, da ecologia política, dos camaradas do PS [Partido Socialista, um partido social-democrata de austeridade e guerra imperialista] e do PCF [Partido Comunista Francês stalinista, principal parceiro de coalizão do PS], do movimento anarquista, e da esquerda revolucionária. Sem se tornar brando, o NPA tem tudo para vencer, abrindo-se ainda mais.

O WSWS explicou na época que a LCR estava criando o NPA para romper qualquer tênue associação que retivesse com o trotskismo, o que o partido via como um obstáculo para o giro à direita que estava preparando com o PS, a burocracia sindical, e o resto do establishment político.

Essa análise foi confirmada rapidamente pelos acontecimentos. Em 2011, em resposta aos levantes revolucionários da classe trabalhadora no Egito e na Tunísia, o NPA aclamou as guerras da OTAN para mudança de regime na Líbia e na Síria – lideradas pelo governo democrata de Obama, e em aliança com a Al Qaeda – chamando-as de "revoluções democráticas". O NPA também apoiou o golpe de Estado de 2014 em Kiev, apoiado pela OTAN e liderado por fascistas, que depôs um presidente pró-russo e mergulhou o país em uma guerra civil.

Além disso, em 2014, como parte da perspectiva do "partido de esquerda amplo" de se aliar aos partidos imperialistas que sustentaram a sua criação, o NPA apoiou a criação do Podemos – um partido "populista de esquerda" na Espanha criado por um grupo de professores stalinistas em torno de Pablo Iglesias e da filial espanhola do NPA, os Anticapitalistas. O NPA saudou a eleição do aliado grego de Podemos, o Syriza ("a Coalizão da Esquerda Radical") em 2015. O Podemos chegou ao poder em 2019 em um governo de coalizão com o pró-empresarial Partido Socialista Espanhol (PSOE).

A entrada desses partidos de pseudo-esquerda em posições de poder e influência no Estado capitalista terminou em desastre para a classe trabalhadora. O Syriza formou um governo de coalizão com o partido de extrema-direita, os Gregos Independentes (ANEL), e traiu completamente as suas promessas eleitorais de acabar com a austeridade da UE, impôs outros bilhões em cortes de programas sociais e criou campos de concentração para refugiados do Oriente Médio nas ilhas gregas.

Durante as eleições presidenciais francesas de 2017, o Partido Socialista pela Igualdade (França) lutou para alertar a classe trabalhadora sobre as políticas de extrema-direita de Macron. Quando houve um segundo turno entre Macron e a candidata neofascista, Marine Le Pen, o partido chamou por um boicote ativo da classe trabalhadora, advertindo que Macron não era uma alternativa ao regime neofascista que Le Pen procuraria estabelecer. Isso foi confirmado posteriormente pela saudação de Macron a Pétain e pela sua repressão feroz aos crescentes protestos e greves contra a austeridade e violência policial.

Entretanto, o NPA se recusou a tomar uma posição pública sobre as eleições, subordinando-se aos chamados predominantes na mídia pró-PS pelo voto em Macron.

O Podemos, atualmente no poder, está seguindo as mesmas políticas de austeridade, guerra e "imunidade de rebanho" que os outros governos em toda a Europa, e minimizando agressivamente o perigo de um golpe fascista contra o seu governo. Na Espanha, os golpistas têm o apoio de Santiago Abascal, o líder do partido fascista, Vox, que viajou no ano passado para se reunir com Trump em Washington. A tentativa de golpe de 6 de janeiro e a resposta patética do Partido Democrata estão encorajando essas forças.

Entretanto, o vice-primeiro-ministro Pablo Iglesias descartou os apelos de centenas de oficiais espanhóis aposentados e ativos por um golpe fascista, com o codenome de Operação Albatross, tratando-os como irrelevantes. Ele insistiu que a classe trabalhadora não precisava tomar qualquer medida: "O que esses senhores dizem, na idade deles e já aposentados, em uma conversa com algumas bebidas a mais, não representa nenhuma ameaça".

Na verdade, a ameaça é enorme. Iglesias e o Podemos se opõem à mobilização da classe trabalhadora contra essa ameaça não porque ela seja exagerada, mas porque um movimento político da classe trabalhadora levaria a protestos em larga escala contra as suas próprias políticas de austeridade, guerra e "imunidade do rebanho".

A tentativa de golpe de Estado de 6 de janeiro em Washington é um aviso irrefutável de que amplos setores da aristocracia financeira estão determinados a estabelecer um regime fascista. Há uma oposição profunda, historicamente estabelecida na classe trabalhadora contra essa política, e uma militância e vontade de lutar crescentes. Porém, alertar e mobilizar a classe trabalhadora requer uma oposição consciente à pseudo-esquerda à medida que ela age para desmobilizar a classe trabalhadora. O abrandamento dos preparativos para golpes fascistas pela pseudo-esquerda em ambos os lados do Atlântico não é apenas complacente e falso, mas também politicamente criminoso.

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