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APEOESP e pseudoesquerda abraçam política de imunidade de rebanho do governo de São Paulo

Com São Paulo e todo o Brasil enfrentando a ameaça de uma terceira onda da pandemia de COVID-19, o governador direitista João Doria (PSDB) anunciou na semana passada novas medidas que diminuem as restrições ao funcionamento dos serviços não essenciais. Esta semana estão também previstas medidas que ampliam o número máximo de alunos em salas de aula.

Mesmo diante de uma política aberta para subordinar as vidas humanas aos lucros privados, as organizações de pseudoesquerda e o sindicato dos professores de São Paulo, a APEOESP, têm mantido um silêncio complacente com a política de imunidade de rebanho do governador milionário.

São Paulo, o estado mais rico e populoso do Brasil, está no centro da tragédia da pandemia no país com 108 mil mortos pela COVID-19 e 3,2 milhões de casos, enquanto o Brasil possui 454 mil mortos e 16,2 milhões de casos. Depois de uma segunda onda devastadora em março e abril, nas primeiras semanas de maio houve uma pequena queda no número de casos, de mortes e de ocupação de leitos de UTI. Porém, no que muitos especialistas apontam como um novo surto, esta semana assistiu a um aumento de 19% no número de casos e, pela primeira vez desde o final de abril, a taxa de ocupação de leitos de UTI ultrapassou os 80%.

Professora em sala de aula com alunos, todos com máscaras, no primeiro dia de reabertura da E.E. Raul Antonio Fragoso, em 8 de fevereiro de 2021, durante a segunda onda da pandemia de COVID-19 na cidade de São Paulo, no Brasil (AP Photo/Andre Penner)

Na última coletiva de imprensa de atualização do suposto plano de contenção da pandemia, o Plano São Paulo, realizada na última quarta-feira, o governo Doria deixou claro sua política de normalização da morte ao abandonar as mais básicas medidas para conter a propagação do novo coronavírus. João Gabbardo, coordenador-executivo do comitê científico que orienta as políticas do governo, disse que, nas próximas quatros semanas, existe uma previsão de aumento de 10 mil para 11 mil no número de leitos de UTI ocupados e de aumento da média de 500 para 600 mortes por dia.

Doria compartilhando um tuite de Lula elogiando o governador de São Paulo por suas ações no combate à pandemia (Twitter)

Mesmo diante de tais números, que sem dúvida são subestimados e ignoram a propagação da variante indiana, detectada na quinta-feira no Brasil, o governo de São Paulo anunciou que, a partir de 1˚ de julho, os serviços não essenciais aumentarão o horário de funcionamento das 21h para as 22h e a ocupação máxima de 40% para 60%.

Essa nova flexibilização veio acompanhada do anúncio da vacinação de pessoas de 55 a 59 anos de idade e dos profissionais da educação de 18 a 46 anos a partir de 1˚ e 21 de julho, respectivamente. Os profissionais da educação acima de 47 anos já receberam a primeira dose em abril. Segundo o governador Doria, a intenção é “retomar as aulas a partir do segundo semestre com total segurança”. O secretário de educação, Rossieli Soares, disse que a vacinação dos profissionais de educação ainda permitirá “uma revisão sobre protocolos e quantitativos”, isto é, permitirá o aumento do número máximo de alunos em sala de aula.

São Paulo não poderia ter chegado a essa situação catastrófica sem a total complacência da APEOESP, afiliada à CUT, a central sindical controlada pelo Partido dos Trabalhadores (PT), e das organizações de pseudoesquerda que semeiam as ilusões de que qualquer luta deva ser levada adiante pressionando as burocracias sindicais e o PT. Direta ou indiretamente, elas estão promovendo o ex-presidente pelo PT, Luiz Inácio Lula da Silva, como a única opção na luta contra o governo do presidente fascistoide Jair Bolsonaro.

A presidente da APEOESP, a deputada estadual pelo PT Maria Isabel Noronha, conhecida como Bebel, saudou no mesmo dia a vacinação dos professores pelo governo Doria, dizendo que estava “muito satisfeita com a informação”. Ela ainda avançou a alegação fraudulenta que a “APEOESP conquistou a vacinação dos profissionais da educação”. Como Doria e Soares tem deixado bem claro, a vacinação de professores tem sido uma das maneiras de o governo forçar os professores a voltarem para as escolas inseguras com a pandemia fora de controle.

Bebel também não escreveu uma linha sequer em suas redes sociais ou na página do sindicato sobre a flexibilização em São Paulo. Pelo contrário, ela utilizou suas redes sociais para promover a candidatura de Lula depois de pesquisas eleitorais da semana passada mostrarem o ex-presidente como o primeiro colocado na disputa eleitoral no ano que vem. Depois de postar que “Lula irá se candidatar à presidência em 2022!”, escreveu que “BRASILEIRO QUER VOLTAR A TER ESPERANÇA. E O NOME DA ESPERANÇA, MAIS UMA VEZ, É LULA!” A celebração de Bebel da vacinação dos professores ecoou os elogios de Lula no ano passado à política de combate à pandemia de Doria.

Depois de a condenação de Lula ter sido anulada pelo Supremo Tribunal Federal em março, o ex-presidente nas últimas semanas tem tentado reconstruir as alianças políticas com os elementos mais direitistas da política brasileira que não só sustentaram os 13 anos de governo burguês do PT, como também fazem parte do governo Bolsonaro. Lula também tem contado com o apoio de importantes líderes do pseudoesquerdista Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), como o deputado federal Marcelo Freixo, o maior defensor no partido da “frente ampla” contra Bolsonaro. Desde o ano passado, a política de “frente ampla” tem sido implementada pela CUT, cujos dois últimos atos de Primeiro de Maio contaram com figuras como o odiado ex-presidente neoliberal Fernando Henrique Cardoso (PSDB), com quem Lula também se encontrou na semana passada.

Fernando Henrique Cardoso e Lula na semana passada (Twitter)

Enquanto isso, as escolas estaduais de São Paulo continuam abertas. A APEOESP e Bebel têm colocado toda o peso da ação do sindicato em uma decisão judicial que o governo Doria insiste em não cumprir, que proíbe a volta às aulas nas fases vermelha e laranja do Plano São Paulo. Hoje, São Paulo está em uma “fase de transição” entre as fases laranja e vermelha. Essa situação foi possibilitada depois de a APEOESP ter sabotado uma greve contra a reabertura de escolas em fevereiro, o que impediu que números maiores do que os atuais 2.500 casos e 90 mortes fossem registrados entre professores desde o início do ano letivo.

O papel da pseudoesquerda em sabotar a greve de professores

Essa sabotagem da greve foi realizada em conjunto com as várias tendências do PSOL que fazem parte da diretoria executiva do sindicato, principalmente a tendência morenista Resistência. A Resistência já tinha defendido que o início da greve fosse adiado por duas semanas, mesmo que isso significasse mais professores e alunos nas escolas e, consequentemente, mais contaminações e mortes. Em todas as assembleias até o sindicato encerrar de vez a greve, no início de março, quando o governo fechou as escolas com a explosão da segunda onda, a Resistência defendeu abertamente o fim da greve.

Hoje, a Resistência é uma das várias organizações de pseudoesquerda brasileira que estão ajudando a subordinar a luta dos trabalhadores a todas as instâncias possíveis do estado burguês e a Lula. Em seu último editorial no site Esquerda Online, a Resistência escreveu que, além de a esquerda “pressionar o Congresso ... para a abertura imediata do impeachment” de Bolsonaro, “Lula deveria colocar seu peso político em prol da campanha pelo Fora Bolsonaro”. Porém, Lula já deixou bem claro que não tem a intenção de fazer nada do tipo enquanto se prepara para a eleição do próximo ano.

Mas talvez não há organização de pseudoesquerda que consiga dar tantas acrobacias políticas e oferecer ao PSOL e ao PT, assim com à APEOESP e à CUT, uma melhor cobertura de esquerda do que outra organização morenista, o Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT), a seção brasileira da Fração Trotskista (FT). Entre as organizações que fazem parte da FT está o argentino Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS), que publica o site Izquierda Diario.

Desde a reabertura de escolas em São Paulo, o MRT tem insistido que a luta dos professores não é pelo fechamento de escolas até que a pandemia seja erradicada, mas para exigir do governo condições seguras de retorno às salas de aula. Ele tem alegado que é possível reabrir escolas “organizando a comunidade escolar por um retorno seguro”, ou seja, que “a comunidade escolar, junto aos professores, pode decidir sobre o retorno, e não Doria e Soares, que nada sabem sobre a realidade das nossas escolas.”

Isso, porém, é uma completa fraude. Em primeiro lugar, quaisquer protocolos anti-COVID-19 se mostraram impossíveis de serem implementados nas escolas com uma precária infraestrutura. Depois, se já é impossível solucionar uma pandemia global em nível nacional, como isso poderia ser realizado no nível local de cada escola permanece totalmente sem explicação pelos morenistas brasileiros.

Morenistas repetem oposição da direita para deter a pandemia

Essa posição foi justificada na declaração internacional de 18 de abril da Fração Trotskista, “O desastre capitalista e a luta por uma Internacional da Revolução Socialista”. Ignorando completamente o fato de a elite dominante europeia e americana ter fechado fábricas no início da pandemia depois de greves e paralisações selvagens de trabalhadores, ela repetiu as alegações da direita de que as medidas de distanciamento social representam “tentativas de cercear as liberdades e direitos democráticos,” exigindo ainda o “fim ... dos toques de recolher, que não servem de maneira alguma para enfrentar a pandemia.”

Essa posição é totalmente anticientífica e antimarxista. Na falta de medicamentos contra a COVID-19 e em meio a uma catastrófica campanha de vacinação, a única medida para se combater uma pandemia é a implementação de medidas de isolamento social.

Em nenhum momento da declaração eles se referem à necessidade de fechar serviços não essenciais e escolas para conter a pandemia. Essa política avançada pelo MRT tem sido acompanhada pela promoção da hidroxicloroquina e da ivermectina contra a COVID-19, dois medicamentos amplamente utilizados pelo fascistoide Bolsonaro em sua campanha para reabrir a economia que não possuem eficácia conta a doença.

Os morenistas tem também feito chamados vazios para a oposição à Bebel e ao PT na APEOESP, principalmente para as tendências do PSOL, incluindo a Resistência, a “constituir um polo antiburocrático com independência de classe” por “ampla democracia no sindicato” e para pressionar a direção do APEOESP a “mobilizar os professores.” Apesar disso, o MRT reconhece que a “oposição infelizmente aponta em outro sentido,” oferecendo uma “cobertura de esquerda” para Bebel e o PT. Mergulhados nos mesmos sindicatos que têm acumulado traições e se tornaram especialistas em organizar derrotas para a classe trabalhadora, eles mesmos estão procurando esconder que oferecem essa cobertura esquerda à APEOESP e ao PT.

Pela formação da Aliança Operária Internacional de Comitês de Base!

Por fora de todas as manobras imediatistas nos sindicatos, baseadas nas alianças políticas mais oportunistas do meio de classe média em que a pseudoesquerda atua, existe um processo tectônico que tem se acumulado há anos no Brasil, e que, como se viu mais recentemente na Colômbia, está a ponto de entrar em erupção.

Ao longo de toda a década passada, a juventude brasileira realizou ocupações seguidas de escolas secundárias e universidades, enquanto professores entraram em greves inúmeras vezes contra o congelamento salarial e reformas da previdência de governos do PSDB e do PT. Em 2019, no primeiro ano do governo Bolsonaro, milhões tomaram as ruas contra cortes no orçamento educacional. Em meio à pandemia, inúmeras greves e paralisações estouraram contra condições inseguras de trabalho entre operadores de call center, trabalhadores da saúde e da indústria, petroleiros, entregadores de aplicativos e, mais recentemente, metroviários. No final de abril, professores de escolas particulares em São Paulo realizaram paralisações contra as aulas presenciais, e, na semana passada, a greve dos professores das escolas municipais de São Paulo contra a reabertura de escolas completou 100 dias.

Em todas as vezes, os sindicatos como a APEOESP, com a ajuda da pseudoesquerda, trabalharam para isolar essas greves e protestos e canalizar essa enorme raiva em direção ao beco sem saída da política burguesa. Em 2018, a Resistência e o MRT apoiaram o candidato petista Fernando Haddad no segundo turno da eleição presidencial contra Bolsonaro. Agora, essas mesmas organizações minimizam as contínuas ameaças de golpe de Bolsonaro e semeiam a ilusão de que Lula e o PT podem resolver a crise existencial do capitalismo brasileiro.

A juventude, os professores e a classe trabalhadora como um todo precisam de uma outra perspectiva política. Com base nas históricas traições dos sindicatos e na compreensão de que deixaram de ser organizações da classe trabalhadora, o Comitê Internacional da Quarta Internacional defende uma ruptura completa com essas organizações pro-corporativas e a adoção de um programa socialista e internacionalista para colocar um fim ao sistema capitalista.

Para levar essa luta adiante, o CIQI está fazendo um chamado para a formação da Aliança Operária Internacional de Comitês de Base (AOI-CB), o único instrumento político cuja forma e conteúdo pode garantir à classe trabalhadora uma luta de sucesso contra a política de imunidade de rebanho da elite mundial e seus apologistas da pseudoesquerda.

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