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Mortes por COVID-19 aumentam entre os trabalhadores da Petrobras

O descontrole da pandemia de COVID-19 no Brasil tem tido efeitos particularmente devastadores na classe trabalhadora. Enquanto a classe dominante afirma, por meio de seus comunicados em cada empresa, que “segue os protocolos” e que os trabalhadores só se contaminam quando estão de folga, fica cada vez mais claro o papel dos locais de trabalho como focos de disseminação do vírus – e, consequentemente, como pontos estratégicos de combate à pandemia e de defesa da vida da população.

Semelhante ao que tem sido constatado nas fábricas, nos ônibus e outros locais de trabalho, as refinarias e plataformas de petróleo têm um índice de infecção acima da média nacional. No mês em que o Brasil ultrapassa a marca de meio milhão de mortos pela COVID-19, os trabalhadores da gigante de energia Petrobras veem disparar as mortes de seus colegas.

Segundo o monitoramento do Ministério de Minas e Energia (MME), houve um aumento de 125% nos últimos dois meses: de 20 mortes, em 5 de abril, para 45 em 15 de junho. Em relação ao total de infecções, foi registrado um aumento de 27% nesse mesmo período. Até agora, dos 46.416 trabalhadores diretos da Petrobras, 7.205 (15,5%) já se infectaram com o vírus, numa proporção acima da média nacional (aproximadamente 8%).

Trabalhadores em greve na Refinaria Landulpho Alves (RLAM) na Bahia (Twitter)

Esse levantamento, no entanto, sequer inclui os trabalhadores terceirizados, que em muitas unidades da Petrobras correspondem à metade ou até a maioria da força de trabalho. O registro do governo também não divulga as informações por unidade de produção, o que dificulta a checagem e o controle dos trabalhadores sobre esses dados. Segundo a contabilização da Federação Única dos Petroleiros (FUP), são, na verdade, mais de 80 mortes de trabalhadores por COVID-19 na Petrobras desde o início da pandemia.

Mesmo diante dos índices crescentes de infecções e mortes, a Petrobras está preparando uma volta ao trabalho presencial dos cerca de 20.000 funcionários dos setores administrativos que estão em home office. O retorno está previsto para acontecer gradualmente a partir de julho e deve coincidir com o auge de uma terceira onda de infecções e mortes no Brasil, de acordo com a projeção dos principais cientistas.

Além da exposição dos trabalhadores às infecções e da falta de dados sobre o impacto real da pandemia, a Petrobras está sendo acusada de promover tratamentos charlatães da COVID-19, recomendando a seus empregados medicamentos como a ivermectina. A FUP afirma ter recebido relatos de trabalhadores sobre essa prática e formalizou a denúncia através de um de seus sindicatos regionais, o Sindipetro do Norte Fluminense, apresentando como prova uma receita médica prescrita a um trabalhador.

A empresa negou ter dado essa orientação, mas em sua nota divulgada à imprensa defendeu a “autonomia” dos médicos e não condenou a prescrição do medicamento, que além de ser ineficaz contra a COVID-19, oferece riscos graves. Médicos de centros de referência no tratamento da COVID-19 em São Paulo, como o Hospital das Clínicas e o Emilio Ribas, alertaram para efeitos colaterais de medicamentos sem eficácia, como a ivermectina, que estão prejudicando o tratamento de doentes graves.

Em março, a OMS já havia reforçado sua recomendação de “não utilizar a ivermectina para pacientes com covid-19, independentemente do nível de gravidade, ou de duração dos sintomas”.

Apesar de todas essas advertências, o presidente Jair Bolsonaro estimula o uso da ivermectina, assim como da azitromicina e da hidroxicloroquina, todos ineficazes contra o vírus. Com a propaganda de que esses medicamentos oferecem um “tratamento precoce” à COVID-19, Bolsonaro está levando médicos e empresas das várias regiões país a adotarem o que ele chama de “kit covid”.

Uma reportagem da BBC News Brasil, publicada em março, reportou que ao menos quatro empresas fizeram a distribuição do “kit covid” para seus funcionários em São Paulo, no Paraná e em Santa Catarina. O caso da Petrobras, uma empresa global e gerida pelo governo, é ainda mais grotesco e alarmante.

Acompanhando a classe dominante como um todo, a estatal tentou se eximir da responsabilidade pelo aumento das infecções e mortes na empresa e atribuiu aos trabalhadores a responsabilidade pelo adoecimento. "Mesmo com todo o protocolo de prevenção adotado nas unidades e recomendações de cuidados individuais regularmente emitidas pela companhia, os colaboradores estão sujeitos aos riscos também nos momentos de deslocamento, rotinas pessoais, folga ou mesmo no teletrabalho.”, declarou.

Além do risco de morte pela COVID-19 nas unidades da Petrobras, o processo de privatização da estatal está agravando as condições de vida dos trabalhadores. De acordo com o Sindipetro Litoral Paulista, desde 2019 foram fechados 37.610 postos de trabalho na Petrobras e nas suas subsidiárias, com a demissão de 14.311 trabalhadores próprios e 23.299 terceirizados. O corte da força de trabalho significou o aumento de jornadas, aumentando a exposição dos trabalhadores a infecções e os riscos de acidentes.

Em março, os trabalhadores da RLAM e da Regap entraram em greve em resposta à venda dessas refinarias e aos surtos de COVID-19. No final de maio, os trabalhadores de três unidades da Petrobras Biocombustíveis (PBio) fizeram uma greve de duas semanas contra a privatização.

Apesar de essas greves se desenvolverem de forma generalizada pelo país, se estendendo com paralisações e protestos em várias outras unidades, elas foram sistematicamente divididas e isoladas pelos sindicatos e encerradas, mesmo diante do desenvolvimento de lutas contra infecções nos locais de trabalho em vários outros setores da classe trabalhadora, como professores e trabalhadores de transporte.

Com o surgimento de uma terceira onda nefasta da pandemia no Brasil, é urgente que os petroleiros rompam esse isolamento. Em oposição ao domínio dos sindicatos corporativos, os trabalhadores devem formar uma rede de comitês de base nas unidades da Petrobras e em todos os locais de trabalho, o que permitirá a coordenação das lutas nos diversos setores da classe trabalhadora e internacionalmente. Os trabalhadores da Petrobras devem se associar à construção da Aliança Operária Internacional dos Comitês de Base (AOI-CB). Essa aliança foi criada para coordenar as lutas dos trabalhadores através das fronteiras dos Estados e continentes e para armar essas lutas com um programa socialista internacionalista.

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