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Montadoras paralisam produção em 18 fábricas no Brasil

Nesta semana, dez montadoras instaladas no Brasil – Volkswagen, Volkswagen Caminhões e Ônibus, Mercedes-Benz, General Motors, Nissan, Toyota, Renault, Volvo, Scania e Honda – suspenderam total ou parcialmente sua produção, mantendo em casa mais de 50.000 trabalhadores, por um período que varia de 5 até 15 dias, dependendo da fábrica.

A paralisação foi uma iniciativa das próprias empresas e, em meio ao descontrole da pandemia no país, foi noticiada como um esforço no combate à COVID-19. O Brasil registrou até agora mais de 320.000 mortes por COVID-19, com um recorde de 3.869 mortes na quarta-feira. Março terminou como o mês mais mortal de toda a pandemia.

Trabalhadores da Ford no pátio da fábrica de Taubaté, em São Paulo, terça-feira, 12 de janeiro de 2021, um dia após a Ford anunciar que fechará três fábricas no Brasil e deixará de produzir automóveis no país sul-americano onde opera desde 1919. (Andre Penner/AP)

Primeira a anunciar a medida seu fechamento, a Volkswagen, que emprega cerca de 15.000 trabalhadores no país, declarou que suspenderia a produção de suas quatro fábricas por 12 dias “a fim de preservar a saúde de seus empregados e familiares”. Mercedes-Benz, Scania, Nissan, Renault e Honda fizeram anúncios semelhantes.

Mas há outras razões que empurram empresas como essas, movidas a bilhões de dólares, a interromper sua produção e consequentemente seus lucros – e a primeira delas certamente não é a “saúde de seus empregados”.

Antes de tudo, é importante lembrar que a medida foi tomada exclusivamente por empresas do setor automobilístico, que está passando por uma profunda reestruturação produtiva com redução substancial da força de trabalho em todo o mundo e atualmente enfrenta um desabastecimento de peças.

Uma reportagem da Folha de São Paulo de 18 de março relatou que a primeira montadora a parar no Brasil por falta de circuitos eletrônicos foi a fábrica da Honda em Sumaré, no estado de São Paulo, que emprega aproximadamente mil trabalhadores. A produção já havia sido paralisada durante uma semana em fevereiro e mais dez dias em março – e nesta semana está parada novamente.

Outras já haviam feito paradas pontuais ou reduzido a produção, como Toyota, Volkswagen, Renault, Volvo e Mercedes-Benz. Segundo a mesma reportagem, a Volkswagen Caminhões e Ônibus (VWCO) vinha mantendo veículos incompletos no pátio a espera de peças e, quando as peças chegavam, os funcionários tinham que fazer hora extra para terminar o serviço. Agora a VWCO está com a planta totalmente paralisada, de 29 de março a 4 de abril, mantendo em casa seus 3.500 trabalhadores.

A Volvo, que acompanhou o movimento de suas concorrentes no discurso de combate à pandemia, foi uma das únicas a admitir que a medida também se deu pela instabilidade na cadeia de abastecimento de peças. Sua fábrica em Curitiba, no estado do Paraná, não foi totalmente paralisada, mas a produção foi reduzida durante os últimos oito dias, com cerca de 2.000 trabalhadores a menos.

Fica claro que houve um cálculo das empresas. Prevendo a necessidade de próximas paralisações devido à instabilidade na cadeia produtiva e prevendo cortes pela reestruturação em curso, muitas delas, senão todas, aproveitaram as condições da pandemia para justificar suas paralisações como um ato benevolente de interesse dos seus trabalhadores. Foi uma forma, ao mesmo tempo, de prevenir uma ação operária em resposta ao aumento de infecções nas fábricas.

No polo industrial do ABC, na grande São Paulo, que está neste momento com cinco fábricas paralisadas (Mercedes, Volks, Scania, Toyota e GM – totalizando cerca de 30 mil trabalhadores parados), o Sindicato dos Metalúrgicos (SMABC) apresentou a suspensão da produção como uma conquista de suas negociações com as empresas.

Há poucas semanas, à medida que a pandemia se agravava no país e especialmente em São Paulo, o sindicato era criticado por trabalhadores que viam crescer as mortes entre seus companheiros.

Na página do Facebook do CSE (Comitê Sindical de Empresa) da Mercedes, que é um braço do sindicato, uma trabalhadora comentou a notícia da morte de um colega:

“Muito triste isso.... Triste também muita gente se contaminando dentro da empresa e ela ainda diz que vem tudo de fora. Coincidência um setor ter mais de 6 pessoas contaminadas vindo de fora?? Quantos mais vão precisar morrer para alguém tomar uma atitude. Muitos vão trabalhar com medo de se contaminar e contaminar alguém de casa que pode ser de risco. Mas a empresa só quer saber de produção pois aí dentro somos apenas mais um número que morreu eles vão lá e coloca outro no lugar. Na família não tem substituição não.”

Outros trabalhadores alertaram para a falta de condições básicas de prevenção. “O álcool em gel falta em muitos dispenser, o da minha área de lazer por exemplo só viu álcool quando instalou”, comentou um deles. “Vai 11:00 no refeitório e veja a aglomeração. Um convite para o contágio.”, disse outro.

“Já passou da hora do sindicato organizar uma paralisação da fábrica. Ano passado quando não estávamos em uma situação desse nível, houve [férias] coletivas e revezamento bimestral dos funcionários... Agora que estamos num cenário muito pior, estamos todos trabalhando normalmente!”, disse outra trabalhadora.

Os comentários são de trabalhadores da Mercedes de São Bernardo do Campo, que já contabiliza seis mortes de operários, sendo que quatro delas ocorreram só em março. A planta tem o segundo maior número de infecções da região, segundo apuração do Diário do Grande ABC. Com um total de 8.500 trabalhadores, a Mercedes-Benz teve 1.447 (17%) trabalhadores contaminados.

A primeira da lista é a Volkswagen: 1.560 ou 18,3% dos cerca 8.500 funcionários, e registrava cinco mortes até 21 de março. Na Scania, 761 ou 19% dos aproximadamente 4.000 empregados foram infectados, e um morreu. Na Toyota, 137 ou 9,1% dos 1.500 colaboradores.

Tentando minimizar a condição insegura das montadoras, que têm um índice de contaminação três vezes maior do que a média nacional, o presidente do SMABC, Wagner Santana, declarou ao Diário do Grande ABC que essa diferença ocorre porque as montadoras teriam testado 100% dos seus empregados e que, se o país fizesse testagem em massa, a média nacional seria igual ou maior do que a das montadoras. Mas o comentário de um trabalhador da GM rebateu esse argumento: “Testou 100%? Trabalho em montadora e não teve isso não.”

O esforço do sindicalista em proteger a empresa ainda foi além. Reproduzindo o discurso dos gestores capitalistas, ele insinuou que os trabalhadores se contaminam em casa ou na rua, e não nos locais de trabalho.

“Por mais que [as montadoras] passem a sensação de muita segurança, já que realmente fazem o possível para deixar o ambiente de trabalho mais seguro, ainda mais se compararmos com alguém que trabalhe em loja (...) e tenha que pegar ônibus lotado para chegar até lá, o peão não está seguro. Até porque ele não mora na montadora. Ele circula. Vai para casa, com sua família, vai ao supermercado”, argumentou Santana.

A lealdade explícita do sindicato às montadoras é fundamental para que qualquer resposta à pandemia se dê conforme os interesses desses grupos capitalistas transnacionais. Os termos da suspensão da produção reforçam isso: as empresas estão considerando os dias parados como “folgas”, que deverão ser compensadas posteriormente pelos trabalhadores.

Algumas dessas montadoras ainda contam com o calendário de feriados municipais. Na tentativa de conter a propagação catastrófica da pandemia, várias cidades anteciparam feriados estabelecendo um período de dez dias seguidos sem dias úteis, exatamente nesta semana. Outras optaram por dar férias coletivas e, nesses casos, os trabalhadores não precisarão pagar com trabalho, mas perderam seu direito a escolher o período de férias.

Além disso, o período estabelecido dessas paralisações é totalmente insuficiente para contribuir de fato com o combate à pandemia. Na maior parte dessas fábricas, o trabalho voltará ao normal a partir do dia 6 abril. Com o ritmo atual da pandemia no Brasil, com médias diárias de mais de 75.000 novas infecções e mais de 3.000 mortes, não há possibilidade de que a situação fique sob controle em menos de uma semana; na verdade, as expectativas são de que essa situação piore. Ou seja, os operários voltarão a se infectar nos ambientes inseguros das fábricas e as mortes voltarão a aumentar.

Esse caminho da morte deve ser rejeitado pelos operários de toda a indústria automobilística com uma greve que impeça a volta ao trabalho e exija o pagamento integral dos salários pelo período necessário de isolamento. Todos os custos devem ser pagos com os lucros acumulados pelas montadoras, e não com demissões, lay-off ou horas extras.

Essa política só pode ser defendida a partir da formação de comitês de base independentes dos sindicatos. Esses comitês devem apelas a todos os setores da classe trabalhadora por uma greve geral que para deter a pandemia, fechando todas as atividades econômicas não essenciais e garantindo renda integral para todas as famílias trabalhadoras.

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