Publicado originalmente em inglês em 28 de fevereiro de 2024, Bogdan Syrotiuk faz neste artigo um balanço político das consequências do golpe de Estado de 2014 em Kiev, que contou com o apoio do imperialismo americano e alemão e desempenhou um papel central na preparação da guerra da OTAN contra a Rússia na Ucrânia, que ainda está em curso.
Na semana passada, o regime autoritário de Volodymyr Zelensky comemorou o aniversário do golpe de extrema direita em Kiev, tendo como pano de fundo as terríveis consequências que o golpe de 2014 teve para a população de vários milhões de ucranianos e para a humanidade como um todo.
Esse golpe e a guerra que se seguiu, que já custou centenas de milhares de vidas ucranianas, foram deliberadamente instigados pelos imperialismos americano e alemão com o objetivo de levar ao poder um regime fantoche que estivesse disposto a entregar a Ucrânia ao controle direto deles.
Os conspiradores em Washington e Berlim conseguiram o apoio de partidos da oposição ao regime pró-Rússia de Viktor Yanukovych, entre os quais se destacava o Partido Svoboda, de tendência neofascista, que apoia abertamente as ações dos colaboradores nazistas da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN), de Stepan Bandera. Após o golpe, o Svoboda tornou-se o primeiro partido neofascista a integrar um governo na Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Os imperialistas estavam plenamente conscientes de que o golpe que estavam preparando levaria a uma escalada militar com a Rússia. Eles não tentaram evitá-la de forma alguma; pelo contrário, acreditavam que tal escalada militar era necessária para alcançar seus objetivos.
E após o golpe, que provocou a anexação da Crimeia pela Rússia em março de 2014 e a guerra civil no Donbass, na qual 3.400 pessoas foram mortas entre 2014 e 2022, a Ucrânia tem sido armada até os dentes pela OTAN e recebe exercícios militares anuais.
Os Estados Unidos e a OTAN também armaram e treinaram sistematicamente as forças ucranianas e formações de extrema direita, primeiro sob o regime de Poroshenko e, depois, sob o de Zelensky. Mesmo no período anterior à guerra aberta que eclodiu em 2022, as potências imperialistas e o governo de Kiev trabalharam em estreita colaboração com elementos neonazistas, como o Batalhão Azov, para travar uma guerra indireta contra a Rússia no leste da Ucrânia.
Todos esses fatos dão o golpe final na propaganda dos EUA sobre uma invasão repentina, inesperada e “não provocada” da Ucrânia pelo regime de Putin em fevereiro de 2022.
Embora a invasão de Putin tenha sido uma resposta desesperada à expansão da OTAN, isso não justifica as ações do regime de Putin nem altera seu caráter reacionário. Assim como o regime de Zelensky defende os interesses da oligarquia ucraniana, o regime de Putin defende os interesses da oligarquia russa. Ambos surgiram da destruição da União Soviética e da restauração do capitalismo pela burocracia stalinista e são profundamente hostis à classe trabalhadora.
Logo após o golpe, a classe trabalhadora da Ucrânia enfrentou ataques aos seus direitos sociais e democráticos. Começaram os incêndios criminosos contra sedes de partidos, a violência física contra membros de partidos e a proibição de partidos. O novo regime restringia diariamente o direito de manifestação e de reunião pacífica, enquanto permitia sem medo ataques fascistas. Os preços, a desigualdade e a pobreza aumentaram exponencialmente. As políticas adotadas pelo regime de Poroshenko e, agora, pelo governo de Zelensky beneficiaram a oligarquia, agravando a desigualdade e empurrando cada vez mais pessoas da classe trabalhadora para a extrema pobreza.
O golpe de Estado também intensificou os esforços do Estado para reabilitar os fascistas da época da Segunda Guerra Mundial, pertencentes à OUN e à sua ala paramilitar, o Exército Insurgente Ucraniano (UPA). O Partido Comunista e os símbolos comunistas foram proibidos, enquanto as forças fascistas foram reabilitadas e seus crimes glorificados ou minimizados. O novo regime passou a distorcer fatos históricos e a reescrever livros didáticos para seus próprios fins. Renomeou ruas e destruiu monumentos, incluindo os de muitos líderes da Revolução de Outubro e da Oposição de Esquerda trotskista ao stalinismo que eram originários da Ucrânia.
Entre os monumentos destruídos estava o do bolchevique Vitaly Primakov, filho adotivo do famoso escritor ucraniano Mykhailo Kotsiubynsky. Primakov foi membro do Comitê Militar Revolucionário que organizou a insurreição de Outubro em 1917, tornou-se comandante dos Cossacos Vermelhos ucranianos durante a guerra civil e, posteriormente, membro da Oposição de Esquerda.
Monumentos e ruas dedicados a Yevgeniia Bosh, líder do Partido Bolchevique e membro da Oposição de Esquerda na Ucrânia, bem como a Vladimir Antonov-Ovseenko, participante da revolta armada de Outubro em Petrogrado e comandante militar soviético que assinou a Declaração dos 46, foram renomeados ou demolidos. Um busto do famoso revolucionário e antimilitarista alemão Karl Liebknecht também foi destruído.
Ao mesmo tempo, desencadeou-se uma onda de ataques contra a verdade histórica sobre a vitória do povo soviético sobre a Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial. O governo tentou sistematicamente apresentar o Exército Vermelho aos olhos do povo ucraniano não como libertadores, mas como invasores da Ucrânia. E isso apesar do fato de que a esmagadora maioria da população ucraniana tem antepassados que lutaram nas fileiras do Exército Vermelho contra o fascismo!
Com o início da guerra em fevereiro de 2022, o governo começou a destruir monumentos aos soldados soviéticos por toda a Ucrânia ocidental, destruindo seus túmulos e os túmulos das vítimas dos nacionalistas burgueses ucranianos.
Tudo isso teve como objetivo minar a memória coletiva, a memória da classe trabalhadora, e suprimir a história e a verdade sobre as conquistas da Revolução de Outubro e a luta da Oposição de Esquerda contra o stalinismo.
É nessa história que se deve buscar as raízes dos acontecimentos de 2014 e da guerra na Ucrânia. Todos esses acontecimentos só podem ser compreendidos como resultado direto da dissolução da União Soviética em 1991 pela burocracia stalinista, o que levou à criação da Ucrânia burguesa.
A restauração do capitalismo foi o resultado da traição de Stalin ao programa internacionalista da Revolução de Outubro de 1917. Na Ucrânia, essa reação nacionalista serviu de base para a política de coletivização forçada e a consequente fome que matou milhões de pessoas, bem como para a distorção da política nacional bolchevique, que reprimiu as aspirações culturais e nacionais ucranianas e minou a unidade dos povos dentro da União Soviética.
Com a restauração do capitalismo na União Soviética, os nacionalistas burgueses começaram a ganhar força, inclusive na Ucrânia. Em setembro de 1989, foi formado o “Movimento Popular da Ucrânia pela Perestroika”, que se dedicava a fomentar a discórdia nacional entre as classes trabalhadoras russa e ucraniana e defendia o separatismo. No território do oeste da Ucrânia, os nacionalistas burgueses ucranianos começaram não apenas a desmontar monumentos a Lenin e aos soldados soviéticos. Sob o pretexto de combater o stalinismo, eles também reabilitaram os colaboradores fascistas e assassinos de mulheres, idosos e crianças da OUN-UPA (Organização dos Nacionalistas Ucranianos e Exército Insurgente Ucraniano). Eles os glorificaram erguendo monumentos a Bandera e batizando ruas com seu nome. Foi então que começaram as perseguições e os ataques contra trabalhadores de nacionalidade russa, comunistas e membros do Komsomol (a organização juvenil do Partido Comunista).
Os nacionalistas burgueses ucranianos em toda parte se envolveram nessa perseguição, usando a força não apenas contra os russos étnicos, mas também contra a língua russa, forçando muitos a deixar as cidades do oeste da Ucrânia.
Após a dissolução da União Soviética, o que havia começado na década de 1980 ganhou ainda mais força, especialmente durante a presidência de Viktor Yushchenko, que chegou ao poder após a “Revolução Laranja” de 2004, apoiada pelos EUA. Seu governo não apenas promoveu a glorificação dos fascistas, mas também concedeu a colaboradores nazistas, como Roman Shukhevych, o título de “heróis da Ucrânia”.
O governo levado ao poder pela Revolução Laranja de 2004, patrocinada pelos imperialistas ocidentais, e liderado por Viktor Yushchenko, buscou agressivamente promover os fascistas da OUN. Em 2007, os Correios da Ucrânia emitiram um selo em homenagem ao criminoso de guerra nazista e líder da UPA, Roman Shukhevych.
Mas, por mais forte que seja a máquina de propaganda e falsificação histórica, o proletariado da Ucrânia, mais cedo ou mais tarde, irá derrubá-la, vencendo não apenas a luta pela verdade histórica, mas também a luta contra o nacionalismo burguês ucraniano e aqueles a quem ele serve.
Já, a cada dia, cresce o número daqueles que não concordam com essa guerra, que percebem que suas causas fundamentais são a dissolução da União Soviética, o golpe de extrema direita ocorrido em fevereiro em Kiev e a expansão da OTAN. Há cada vez mais pessoas que estão despertando do torpor que durou uma década. Entre elas estão não apenas os trabalhadores ucranianos que foram condenados pelo regime autoritário de Zelensky por se recusarem a virar bucha de canhão, mas também aqueles que já estão na guerra. Eles olham para o governo de Kiev e percebem qual destino lhes espera. Já enfrentando injustiças, começam a refletir sobre o motivo pelo qual estão lutando e morrendo.
Alguns deles ainda acham que, assim que vencerem essa guerra, irão derrubar o governo que os enviou para a guerra. Outros já estão dispostos a desertar do campo de batalha ou a apontar suas armas contra “seu” regime. E esse sentimento existe não apenas na classe trabalhadora ucraniana, mas também na classe trabalhadora russa, que, em última análise, se encontra na mesma situação que a classe trabalhadora ucraniana.
Mais cedo ou mais tarde, essa guerra levará a uma explosão popular. No entanto, sem um partido operário independente e uma direção revolucionária, a classe trabalhadora ucraniana e russa não pode vencer. Acima de tudo, ela não pode vencer sem retornar às tradições internacionalistas da grande Revolução Proletária de Outubro. O renascimento dessas tradições só pode ser alcançado por meio da luta pelo trotskismo ortodoxo, que é o marxismo do século XXI e encarna as tradições bolcheviques. É por isso que os trabalhadores e jovens de mentalidade socialista que se opõem a esta guerra devem lutar pela construção das seções ucraniana e russa do Comitê Internacional da Quarta Internacional!
