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Os crimes dos seguidores de Bandera contra o povo ucraniano: notas de um trotskista ucraniano

Publicado originalmente em inglês em 8 de abril de 2023, este artigo de Bogdan Syrotiuk, usando o pseudônimo de Stepan Geller, apresenta um relato único e arrepiante dos crimes dos fascistas ucranianos de Stepan Bandera contra os trabalhadores e a juventude da Ucrânia a partir de entrevistas originais.

Monumento em homenagem a Stepan Bandera em Lviv. [AP Photo/Bernat Armangue]

Os cúmplices nazistas da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) e de sua ala paramilitar, o Exército Insurgente Ucraniano (UPA), bem como seus líderes, estiveram envolvidos em muitos crimes, inclusive contra o povo ucraniano. No entanto, hoje, para muitos na Ucrânia, seus nomes sinistros não são sinônimos de criminosos, mas sim de heróis nacionais. Ruas, estádios e cafés levam seus nomes, e monumentos são erguidos em sua homenagem por todo o país.

Os nacionalistas burgueses ucranianos sempre argumentaram que a República Socialista Soviética da Ucrânia não era um Estado legítimo como a atual Ucrânia burguesa e, portanto, a Ucrânia soviética não era, de forma alguma, a Ucrânia.

Para eles, a libertação da ocupação fascista pelo Exército Vermelho em outubro de 1944 e a vitória sobre o fascismo na Alemanha em maio de 1945 não constituíram uma libertação, nem uma vitória, mas uma nova ocupação da Ucrânia pela Rússia Soviética. Eles só aceitam como legítimo o Estado ucraniano proclamado no verão de 1941, quando o Batalhão Nachtigall e o destacamento “Roland”, de Stepan Bandera, entraram na cidade soviética de Lvov (Lviv), ocupada pelos nazistas, e o Estado capitalista ucraniano que surgiu como resultado da restauração do capitalismo e da liquidação da União Soviética pela burocracia stalinista [em 1991]. Aqueles que não compartilhavam ou não compartilham de sua visão de uma Ucrânia capitalista estarão sujeitos à repressão política por parte dos nacionalistas burgueses ucranianos.

A OUN de Bandera e oficiais nazistas em uma comemoração conjunta dedicada à fundação do Estado ucraniano no oeste da Ucrânia, em 7 de julho de 1941.

De 1944 a 1953, uma guerra civil assolou o oeste da Ucrânia, recém-sovietizada, entre a OUN-UPA, por um lado, e o Exército Vermelho liderado pelos stalinistas, por outro. Ao longo desse período, a OUN-UPA, que anteriormente havia colaborado com os nazistas, recebeu financiamento, armas e outros tipos de apoio das potências imperialistas e de seus serviços secretos, incluindo a recém-fundada CIA.

Os historiadores acreditam hoje que quase 25 mil militares, policiais e guardas de fronteira soviéticos, 2.500 membros do partido e cerca de 600 dirigentes de fazendas coletivas e conselhos de aldeias foram mortos nessa guerra civil pela OUN-UPA nas regiões ocidentais da Ucrânia. Entre os assassinados estavam 30 secretários de comitês distritais, 32 presidentes e vice-presidentes de comitês executivos distritais, 37 secretários de comitês regionais do partido e do Komsomol [a organização de juventude do Partido Comunista da União Soviética] e centenas de deputados dos sovietes locais. Segundo o historiador Grzegorz Rossoliński-Liebe, a OUN-UPA também assassinou mais de 20 mil civis ucranianos.

Isso não inclui as muitas dezenas e até centenas de milhares de judeus e poloneses na Ucrânia que foram massacrados por fascistas ucranianos durante a ocupação nazista do país. Infelizmente, os números totais de pessoas assassinadas pelos seguidores de Bandera foram silenciados pela história, mas as lembranças de suas atrocidades e do sangue derramado do povo soviético na Ucrânia estão profundamente enraizadas na consciência da classe trabalhadora.

Vítimas civis polonesas do massacre do UPA em Lipniki, em 26 de março de 1943.

Você não encontrará essas memórias em nenhum livro, embora devesse encontrá-las. Tive a sorte de conversar com algumas pessoas que sobreviveram a essas atrocidades e, graças ao WSWS, suas memórias agora podem ser compartilhadas com um público internacional.

Ao longo da minha vida, conheci muitas pessoas que moldaram minha opinião sobre os seguidores de Bandera mais do que qualquer fonte escrita. A primeira conversa casual que tive foi com minha vizinha idosa, a quem eu conhecia há muito tempo e com quem mantive uma amizade até sua morte, em 2021. Durante nosso passeio de verão em 2012, ela me contou sobre um incidente que lhe aconteceu quando era jovem.

Ela se lembrou de uma vez em que estava em um café perto da estação ferroviária, sentada à mesa com um homem que havia conhecido ali. Enquanto conversava com ela, ele avistou um homem sentado não muito longe deles. Ele o reconheceu imediatamente como seguidor de Bandera e chamou a atenção dela para ele. Após esse incidente, ela logo soube que seu conhecido havia sido encontrado na floresta com a garganta cortada. Isso aconteceu no oeste da Ucrânia.

Minha segunda conversa sobre os seguidores de Bander e seus crimes ocorreu em março de 2013. Um senhor idoso contou a mim e a alguns amigos sobre sua infância em um vilarejo na região de Ivano-Frankivsk. O que ele nos contou sobre os horrores que testemunhou quando criança foi chocante. Quatro anos depois dessa conversa, sugeri que nos encontrássemos novamente para que eu pudesse registrar suas memórias por escrito. Aqui está o que gravei há quase 6 anos.

Nasci em 1934. Minha prima foi morta pelos seguidores de Bandera apenas porque foi trabalhar na cantina depois da guerra, preparando comida para os soldados soviéticos.

[Também me lembro que, certo dia] À noite, bateram na janela da nossa casa de camponeses; meu padrasto abriu a porta, e eles gritaram para ele: “Pare! Você tem uma Browning?” E ele respondeu: “Onde eu teria conseguido uma? Sou apenas um operário da construção civil!”

Então amarraram suas mãos com arame farpado e, no dia seguinte, já em outra aldeia, o encontraram em um poço, jogado de cabeça para baixo junto com outros de etnia polonesa.

O homem também relembrou como, certo dia, quando estava indo para outra aldeia,

vi um homem parado perto de uma árvore à beira da estrada. Gritei para ele: “Para onde o senhor está indo? O senhor pode ir para onde eu estou indo?” Gritei novamente: “Senhor!” Decidi então me aproximar dele, toquei nele — ele havia sido enforcado.

Ele se filiou ao Komsomol, mas, como relembrou: “Tive medo de contar à minha mãe que havia me filiado ao Komsomol, para que ela não ficasse preocupada comigo, pois eles poderiam me denunciar [aos nacionalistas ucranianos]”. Ele continuou:

[Um dia] eu estava nadando com meus amigos no rio, e havia dois homens do grupo de Bandera sentados ao nosso lado. Eles estavam sentados ali, se gabando: “Chegamos à cabana, tínhamos um monte de coisas boas [armas] e nos sentíamos fortes, então matamos todos; e olha só, a velhinha estava viva, e começamos a atirar nela: ela se virou, e só conseguimos matá-la com o terceiro tiro.”

Ele também relembrou como, certa vez, o NKVD distribuiu panfletos entre os grupos da UPA: “Se vocês se renderem às autoridades soviéticas, nada lhes acontecerá”. Muitos [combatentes do UPA] realmente saíram das florestas, mas foram mortos naquela mesma noite pelos combatentes de Bandera, juntamente com toda a sua família.”

Ele continuou:

Certa vez, conheci uma garota em nosso bairro e, pouco tempo depois, a vi caída no meio da rua com a cabeça arrancada, ao lado de um seguidor de Bandera que também estava morto. Eles provavelmente haviam fugido da perseguição do NKVD, e o seguidor de Bandera se explodiu junto com ela usando uma granada. As principais forças dos seguidores de Bandera no terreno eram, em sua maioria, kulaks abastados, que possuíam muitos pedaços de terra.

A última lembrança que registrei a partir de suas palavras lança luz sobre a lenda de que os seguidores de Bandera lutaram contra os nazistas durante a ocupação.

Dizem que os seguidores de Bandera lutaram contra os nazistas — em toda a minha vida, lembro-me de apenas uma ocasião em que um alemão atirou em um seguidor de Bandera. Foi quando os dois, bêbados, começaram a atirar um no outro. O alemão matou o seguidor de Bandera na hora, enquanto este conseguiu chegar ao hospital. — Os seguidores de Bandera não estavam lutando contra os alemães. Se os alemães estavam atirando em algum lugar, eles fugiam ou se escondiam. Quando nossas tropas os atacavam, eles lutavam ao lado dos alemães contra o Exército Vermelho

Minha terceira conversa foi com meu vizinho, que nasceu em 1937. Após a guerra, ele se mudou para o norte da região de Khmelnitsky enquanto seu pai servia no Exército Vermelho. Ele me contou que, certa vez, seu pai, junto com seus soldados, foi à floresta buscar lenha. Eles foram atacados por combatentes de Bandera, e seu pai ficou traumatizado em consequência do ataque.

Na casa onde moravam, os seguidores de Bandera tinham armas escondidas. Só descobriram isso depois de um acidente, quando um homem da mesma idade que ele se explodiu com uma granada enquanto pescava. Ele também me contou uma história que tinha ouvido na aldeia: os seguidores de Bandera estavam morrendo de fome e procurando comida. E muitos na aldeia, seja por medo ou simplesmente por não quererem, não lhes deram nada. Um senhor idoso, para proteger sua vaca, dormia com ela no estábulo, amarrando-a à sua perna. Bem, isso não adiantou nada — quando acordou, encontrou apenas a cabeça dela amarrada à sua perna e o que restava dela.

A última conversa ocorreu por volta de novembro de 2018. Foi uma conversa com uma senhora idosa que me contou sobre a grande tragédia de sua vida: ela ficou viúva aos 18 anos porque seu marido, que havia ido para o oeste da Ucrânia, foi morto por combatentes de Bandera durante uma viagem de negócios. Houve outras conversas nas quais me contaram como os homens de Bandera levavam soldados soviéticos feridos de um hospital militar e depois os matavam e queimavam na floresta. Sobre como invadiram os quartéis onde os soldados soviéticos dormiam e os mataram.

Quando você ouve todas essas lembranças e histórias de pessoas que viveram tudo isso em primeira mão, percebe o quanto era verdadeiro o relato do escritor comunista ucraniano Yaroslav Halan. Em seu famoso livro “O que não tem nome?”, ele escreveu:

Uma menina de 14 anos não suporta ver carne. Quando, na sua presença, as pessoas vão fritar um bife de costela, ela empalidece e treme como uma folha de álamo.

Há alguns meses, numa noite de pardais, homens armados chegaram a uma cabana de camponeses perto da cidade de Sarna e esfaquearam os donos. A menina observou com horror a agonia de seus pais.

Um dos bandidos apontou a ponta da faca para a garganta da criança, mas, no último minuto, uma nova “ideia” surgiu em sua mente.

Viva pela glória de Stepan Bandera! E, para garantir que você não morra de fome, vamos deixar comida para você. Vamos lá, rapazes, cortem um pouco de carne de porco para ela!..

Os “rapazes” gostaram da ideia. Eles pegavam pratos e tigelas das prateleiras; e, poucos minutos depois, diante da menina desesperada, uma montanha de carne crescia a partir dos corpos sangrando de seu pai e de sua mãe.

É a isso que chegaram os bandidos degenerados que se autodenominam “nacionalistas ucranianos” – Bandera, Bulbov, Melnikov. Suas ações nos últimos anos constituem uma cadeia ininterrupta de atrocidades selvagens, comportamentos monstruosamente desenfreados e provocações sem igual.

Halan, que foi correspondente soviético nos Julgamentos de Nuremberg de 1948 contra os líderes da Alemanha nazista, foi assassinado em seu escritório por seguidores de Bandera, que lhe desferiram onze golpes de machado na cabeça em Lvov (Lviv), em 1949.

O corpo do escritor antifascista soviético Yaroslav Halan após seu assassinato pelas mãos de dois membros da OUN em 24 de outubro de 1949.

Hoje, assim como naquela época, os crimes daqueles que se autodenominam sucessores ideológicos e seguidores de Bandera são quase incontáveis. Assim como naquela época, eles são uma matilha sangrenta de chacais a serviço do capital, correndo de um capitalista para outro. Mas, ao trocarem de patrões, não mudam sua essência. Não há nada além de atraso e ódio bestial em seus rostos e mentes. Suas ideias são reacionárias.

No entanto, essas mesmas ideias de Bandera são hoje promovidas não apenas pelos imperialistas e pelos nacionalistas burgueses ucranianos que querem justificar os crimes da OUN-UPA, mas também por aqueles que se autodenominam comunistas-nacionalistas ucranianos, que querem justificar todos esses horrores, alegando que tudo isso foi causado pela política adotada por Stalin no oeste da Ucrânia.

Mas será possível justificar aqueles que transformaram as cidades e vilas do oeste da Ucrânia em um verdadeiro inferno, que torturaram mães e crianças, que encheram os poços com cadáveres de ucranianos e russos, judeus e poloneses?

Sim, muitos entre eles foram intimidados, enganados, ofendidos e injustamente reprimidos, mas não há fundamento para retratar os fascistas seguidores de Bandera como lutadores pela “liberdade” contra o stalinismo.

Nós, trotskistas ortodoxos, defendemos que a verdade histórica sobre os eventos ocorridos nas regiões do oeste da Ucrânia na década de 1940 e no início da década de 1950 deve ser estabelecida e esclarecida. A burocracia stalinista recusou-se a combater o fascismo ucraniano por meio da mobilização da classe trabalhadora e, em vez disso, recorreu à repressão burocrática violenta, muitas vezes tendo como alvo pessoas totalmente inocentes. Como trotskistas, sempre condenamos veementemente – e continuamos a condenar até hoje – o stalinismo e a repressão e violência a ele associadas.

No entanto, isso não pode, de forma alguma, justificar o terror e o genocídio nacional e político desencadeados pelos nacionalistas burgueses e fascistas ucranianos. Aqueles que semearam morte, medo, dor e lágrimas em solo ucraniano, que derramaram sangue nas cabanas dos camponeses, que encheram poços de cadáveres, não podem ser considerados heróis nacionais. Só se pode dizer uma coisa — Que vergonha! — Que vergonha para todos aqueles que, sob o pretexto de criticar o stalinismo, tentam justificar os crimes das gangues da OUN.

O povo da Ucrânia e de todo o mundo deve saber e nunca deve esquecer de quem os imperialistas se valeram e continuam se valendo na luta pela hegemonia e pela manutenção da opressão dos trabalhadores sob o jugo do capital.

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