Publicado originalmente em inglês, em duas partes, em 29 e 30 de dezembro de 2025
Com a maior frota naval dos EUA já reunida nas costas da América do Sul e uma série implacável de assassinatos realizados por meio de ataques com mísseis contra pequenas embarcações – matando mais de 100 civis desarmados até agora – o governo Trump intensificou sua campanha de violência imperialista na região. Essa escalada foi acompanhada por um novo documento de Estratégia de Segurança Nacional que proclama orgulhosamente um novo “corolário Trump” à Doutrina Monroe.
A Venezuela e suas reservas de petróleo, as maiores do planeta, são o alvo imediato das operações predatórias do imperialismo americano. Trump deixou isso explícito em declarações à mídia e em postagens raivosas nas redes sociais. Ele prometeu que os ataques militares dos EUA só iriam se intensificar “até que eles devolvam aos Estados Unidos da América todo o Petróleo, Terras e outros Bens que nos roubaram anteriormente”. Cumprindo essas ameaças, Washington realizou a apreensão pirata de petroleiros em alto mar e impôs um bloqueio, um ato direto de guerra, com o objetivo de subjugar a Venezuela pela fome.
Porém, o chamado “corolário Trump”, bem como as declarações fascistas e mafiosas do presidente americano, deixam claro que os objetivos de Washington vão muito além da Venezuela.
Eles representam uma tentativa de recolonização da América Latina como um todo e a subordinação abjeta de toda a região aos interesses de lucro dos EUA e à preparação do Pentágono para uma guerra mundial.
Essa campanha tomou forma concreta em ameaças de bombardear o México, ataques ao presidente colombiano Gustavo Petro e a imposição de tarifas de 50% contra o Brasil em apoio ao condenado conspirador golpista e ex-presidente fascista Jair Bolsonaro. Essas medidas foram acompanhadas pela intervenção descarada de Washington em recentes eleições, incluindo ameaças de represálias econômicas punitivas contra as populações da Argentina e Honduras caso elas não votassem em candidatos alinhados a Trump.
A origem e a evolução da intervenção dos EUA na Venezuela
Historicamente, a Venezuela desempenhou um papel importante na evolução da doutrina imperialista dos EUA no Hemisfério Ocidental. Isso se deve, em parte, à sua vasta riqueza petrolífera que, no auge do domínio da companhia Standard Oil, representava metade dos lucros que os capitalistas americanos extraíam da América Latina.
No entanto, o intervencionismo dos EUA na Venezuela antecede em pouco mais de uma década o início da exploração petrolífera em larga escala, tendo começado com a chamada Crise na Venezuela de 1902-1903.
Naquela época, há 123 anos, Alemanha, Reino Unido e Itália enviaram uma frota de navios de guerra para as costas da Venezuela. Navios bombardearam portos, matando dezenas de pessoas, e tropas estrangeiras tomaram o controle das alfândegas. O pretexto foi a recusa do governo da Venezuela, liderado na época pelo presidente Cipriano Castro, em pagar suas dívidas.
Castro chegou ao poder em 1899, mas enfrentou uma “Revolução Libertadora” liderada pelo homem mais rico da Venezuela, Antonio Matos, e apoiada pelo capital estrangeiro, particularmente pela empresa americana New York and Bermudez, pela alemã Gran Ferrocarril de Venezuela e pela francesa Sociedad Francesa de Telégrafos Submarinos.
Após uma amarga guerra civil que devastou a economia da Venezuela e esvaziou os cofres do Estado, Castro se recusou a cumprir as exigências dos imperialistas britânicos, que fizeram grandes empréstimos pendentes; dos credores alemães, que haviam investido fortemente no país; e dos seus parceiros juniores na Itália, cujos cidadãos dominavam grande parte dos negócios e do comércio da Venezuela.
As potências europeias exigiram o pagamento imediato das dívidas pendentes e uma indenização pelas propriedades destruídas na guerra civil que elas mesmas haviam promovido. Elas estavam determinadas a impor sua vontade por meio de um bloqueio naval. Castro ignorou os ultimatos, ao mesmo tempo em que apelou aos sentimentos nacionalistas populares, que explodiram em tumultos e saques de empresas estrangeiras.
O presidente dos Estados Unidos, Theodore Roosevelt, um imperialista assumido, não se opunha, em princípio, ao uso da agressão armada pelas grandes potências capitalistas para extrair riqueza dos países oprimidos. Ele teria dito a um diplomata alemão: “Se algum país sul-americano se comportar mal em relação a qualquer país europeu, que o país europeu o castigue”. Ele acrescentou, entretanto, que “a punição não deve assumir a forma de aquisição de território por qualquer potência não americana”.
Esse aviso foi uma reafirmação da Doutrina Monroe, um dos pilares da política externa dos EUA, enunciada pela primeira vez pelo presidente James Monroe, que em 1823 declarou: “Os continentes americanos, pela condição de liberdade e independência que assumiram e mantêm, não devem ser considerados, daqui em diante, como objetos de futura colonização por qualquer potência europeia”.
Até o final do século, essa advertência anticolonialista e de inspiração democrática contra os monarcas da Europa já havia sofrido uma contínua transformação. Ela foi invocada pelo governo dos Estados Unidos para justificar a anexação do Texas como um estado escravista e o roubo, por meio da guerra, de mais da metade do território do México em 1848. Esse processo se acelerou rapidamente com a Guerra Hispano-Americana de 1898, a apreensão dos territórios coloniais espanhóis pelos EUA e o surgimento dos Estados Unidos no cenário mundial como uma grande potência imperialista, determinada a assumir o controle dos mercados e das fontes de matérias-primas e mão de obra barata por meio da agressão militar.
Na crise de 1902, o governo Castro na Venezuela apelou a Washington para mediar o conflito por causa das dívidas pendentes. Roosevelt aceitou e exortou os governos britânico e alemão a se retirarem. Enquanto os britânicos se mostraram receptivos, o kaiser Guilherme II, que havia supervisionado a ascensão da Alemanha como potência militar com o maior exército do mundo e uma frota naval perdendo apenas para a britânica, estava determinado a garantir o “lugar ao sol” do capitalismo alemão.
Roosevelt temia que a Alemanha usasse a crise da Venezuela para tomar bases navais importantes que controlavam as rotas marítimas do Caribe e, em particular, o acesso a um canal estratégico planejado através do istmo do Panamá, ligando o Oceano Atlântico e o Pacífico. Ele emitiu um ultimato à Alemanha para que aceitasse a mediação dos EUA e retirasse seus navios de guerra.
O presidente dos EUA informou ao embaixador alemão que Washington estava reunindo sua própria frota naval próximo a Porto Rico, sob o comando do almirante George Dewey, que ganhou fama internacional por infligir uma derrota decisiva à frota espanhola na batalha da Baía de Manila, nas Filipinas, em 1898. Diante da perspectiva de uma guerra com os EUA em condições nas quais seria difícil abastecer ou reforçar sua frota, a Alemanha recuou.
O conflito sobre a Venezuela foi fundamental para a elaboração do que ficou conhecido como o Corolário Roosevelt à Doutrina Monroe, anunciado pelo presidente dos EUA em seu discurso anual ao Congresso em 1904. Isso se deveu, em grande parte, ao fato de que as potências europeias que realizaram o bloqueio, tendo levado seu caso ao Tribunal Permanente de Arbitragem em Haia, receberam tratamento preferencial em relação aos EUA no pagamento de indenizações.
Saturado de arrogância imperialista, o discurso de Roosevelt admitia que as nações latino-americanas que se comportassem “com eficiência e decência razoáveis” não tinham nada a temer dos Estados Unidos. Porém, ele acrescentou: “As transgressões crônicas ou a impotência que resulta em um afrouxamento geral dos laços da sociedade civilizada podem, na América, como em qualquer outro lugar, exigir, em última instância, a intervenção de alguma nação civilizada”.
Roosevelt deixou claro que o imperialismo americano se arrogava o direito exclusivo de exercer o “poder policial internacional” no Hemisfério Ocidental. Se os países latino-americanos fossem “castigados”, seus portos bombardeados, seus cidadãos massacrados e suas alfândegas confiscadas, os Estados Unidos fariam isso, e não seus rivais europeus.
A versão ampliada da Doutrina Monroe realizada por Roosevelt foi rapidamente implementada através de uma onda de intervenções, invasões e ocupações. Esse massacre imperialista foi resumido sucintamente pelo Major-General Smedley Butler, do Corpo de Fuzileiros Navais, em 1935. Ao rever a sua carreira de 33 anos como fuzileiro naval, Butler declarou:
Passei a maior parte do meu tempo como um capanga de alto escalão para as grandes empresas, para Wall Street e para os banqueiros. Em resumo, eu era um criminoso; um gângster do capitalismo. Ajudei a tornar o México e, especialmente, Tampico seguros para os interesses petrolíferos americanos em 1914. Ajudei a tornar o Haiti e Cuba lugares decentes para os rapazes do National City Bank coletarem receitas. Ajudei a saquear meia dúzia de repúblicas da América Central em benefício de Wall Street. Ajudei a purificar a Nicarágua para a International Banking House of Brown Brothers entre 1902 e 1912. Levei luz à República Dominicana para os interesses açucareiros americanos em 1916. Ajudei a tornar Honduras adequada para as empresas de frutas americanas em 1903. Na China, em 1927, ajudei a garantir que a Standard Oil seguisse seu caminho sem ser molestada. Olhando para trás, eu poderia ter dado algumas dicas a Al Capone. O melhor que ele conseguiu foi operar seu esquema em três bairros. Eu operei em três continentes.
A Venezuela não foi poupada de forma alguma. Washington ajudou a planejar o que seria hoje classificado como uma operação de mudança de regime em 1908, instalando o vice-presidente e ex-companheiro de armas de Castro, Juan Vicente Gómez, no palácio presidencial enquanto Castro buscava tratamento médico na Europa.
Gómez, que imediatamente convidou Washington a enviar navios de guerra para “estabilizar” a situação, governaria o país como ditador até sua morte em 1935. Ele também convidou Matos, o rico banqueiro que liderou a chamada “Revolução Libertadora” apoiada pelo capital estrangeiro, a retornar à Venezuela para assumir o comando das relações exteriores.
A ditadura de Gómez era conhecida por sua brutal repressão, que incluiu o fechamento das universidades da Venezuela por uma década em retaliação aos protestos estudantis e o uso sistemático de assassinatos, desaparecimentos e métodos de tortura emprestados da Inquisição Espanhola para reprimir toda a oposição política.
Os oponentes políticos eram presos sem julgamento e, em muitos casos, morriam lentamente de fome na infame prisão La Rotunda, em Caracas. Milhares deles trabalharam até a morte em grupos de prisioneiros acorrentados usados para construir rodovias e trilhos ferroviários. Outras dezenas de milhares fugiram para o exílio.
Apelidado de “O Bagre”, Gómez tornou-se internacionalmente famoso. A revista Time comparou sua repressão àquela de Hitler, Mussolini e Stalin: “A polícia secreta da Alemanha, Rússia e Itália são organizações notáveis. Elas se tornam insignificantes diante daquela do ditador Gómez”.
Em sua obra de 1941, Inside Latin America [Por dentro da América Latina], o autor e jornalista americano John Gunther traçou um retrato assustador do ditador venezuelano: “O Bagre era – não vamos ignorar o fato – um canalha assassino. Ele recorria a torturas de brutalidade inconcebível; prisioneiros políticos, que eram milhares, levavam suas vidas acorrentados por grilhões que os tornavam aleijados permanentes, quando não eram pendurados de cabeça para baixo – pelos testículos – até morrerem. Outros se tornavam lodo humano, literalmente. Gómez era capaz de escolher um em cada dez por sorteio e enforcá-los — com ganchos de carne enfiados em suas gargantas!” (Ênfase no original).
A repressão selvagem de Gómez, juntamente com seu anticomunismo veemente e ódio aos sindicatos, foi bem recebida por Washington e pelas empresas petrolíferas americanas, que emergiram como força dominante na Venezuela após a perfuração do primeiro poço em 1912 na Bacia de Maracaibo. Em pouco mais de uma década, a Venezuela emergiria como o maior exportador e o segundo maior produtor mundial de petróleo, atrás apenas dos Estados Unidos.
Gómez arrogou-se o poder unilateral de entregar concessões a empresas estrangeiras, incluindo, principalmente, a Standard Oil dos Rockefellers, cedendo-lhes o controle sobre vastas áreas do território. Ele se tornou rapidamente o homem mais rico da Venezuela, deixando que Wall Street e as empresas petrolíferas saqueassem a maior parte da riqueza do país e usando uma parte de seus subornos para comprar a lealdade de seus apoiadores e dos militares.
A Venezuela e o imperialismo americano durante a Guerra Fria
A Venezuela assumiu uma importância estratégica ainda maior para o imperialismo americano e seus interesses de lucro após a nacionalização da indústria petrolífera mexicana pelo presidente Lázaro Cárdenas em 1938. Com suas reservas de petróleo monopolizadas por multinacionais americanas e anglo-holandesas, a Venezuela tornou-se crucial para abastecer as forças armadas americanas durante a Segunda Guerra Mundial, bem como para impulsionar o boom econômico do pós-guerra e o militarismo crescente da Guerra Fria.
Após a morte do “Bagre” Gómez, uma sucessão de generais ocupou a presidência. Eles gradualmente afrouxaram o controle da ditadura, legalizando finalmente o Partido Comunista e os sindicatos e aprovando a primeira lei reformando o setor petrolífero do país em 1943. Entretanto, uma tentativa de impor outro presidente sem eleições populares provocou a chamada “Revolução de Outubro” de 1945, liderada pela Ação Democrática (AD) – o partido democrático burguês de Rómulo Betancourt – e um grupo de oficiais militares mais jovens organizados na União Militar Patriótica, cujo membro mais proeminente era Marcos Pérez Jiménez.
O novo governo liderado por Betancourt iniciou uma série de reformas, embora tenha rejeitado os apelos pela nacionalização das atividades petrolíferas estrangeiras. Em 1947, a Venezuela realizou sua primeira eleição direta e universal, vencida de forma esmagadora pelo candidato da AD, o romancista venezuelano Rómulo Gallegos. Entre suas ações mais notáveis estava o aumento do imposto sobre os lucros das empresas petrolíferas estrangeiras de 43% para 50% (um acordo conhecido como “50/50”, que seria posteriormente adotado por outros grandes países produtores de petróleo, incluindo a Arábia Saudita). As ações de Gallego não eram populares entre as empresas petrolíferas, e ele foi derrubado pelos militares apenas nove meses após o início de seu mandato.
A Venezuela seria submetida a mais uma década de ditadura brutal, liderada pelo coronel Marcos Pérez Jiménez. A odiada Diretoria de Segurança Nacional da ditadura militar impôs um reinado de terror, que empregou assassinatos, desaparecimentos, tortura e a detenção de milhares de prisioneiros políticos em campos de concentração e prisões. O regime desfrutava das melhores relações com as empresas petrolíferas e o capital estrangeiro, que foram convidados a explorar o país e seus recursos. Pelos serviços prestados na repressão das massas e na facilitação da obtenção de lucros, o presidente dos Estados Unidos, Dwight Eisenhower, condecorou Pérez Jiménez com a Legião do Mérito.
Pérez Jiménez seria vítima de outro golpe “civil-militar” que começou em 1º de janeiro de 1958. Ele fugiu do país com centenas de milhões de dólares roubados do tesouro público, encontrando um refúgio confortável primeiro em Miami Beach e, posteriormente, sob a proteção da ditadura de Franco na Espanha.
Ao visitar a Venezuela no final de uma viagem pela América Latina, apenas cinco meses após a queda de Pérez Jiménez, o vice-presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, tornou-se alvo da intensa ira popular contra o imperialismo americano por seu apoio à ditadura e décadas de exploração. Atingido por lixo e cuspes assim que saiu do avião, Nixon escapou por pouco em uma comitiva que foi novamente atacada por multidões que cercaram seu carro, quebrando suas janelas com pedras, canos e pedaços de madeira. O vice-presidente dos Estados Unidos mal conseguiu conter um de seus agentes do serviço secreto, que havia sacado sua arma e gritado: “Vamos pegar alguns desses filhos da puta”.
Quando a notícia da recepção de Nixon chegou a Washington, Eisenhower ordenou o envio de fuzileiros navais e paraquedistas para a base naval dos EUA na Baía de Guantánamo, em Cuba, e despachou aviões de guerra para Curaçao para resgatar o vice-presidente. Por fim cancelada, a “Operação Poor Richard”, como ficou conhecida, foi um constrangimento para Nixon e provocou indignação em toda a América Latina.
Nos anos seguintes, o governo da Ação Democrática de Betancourt tornou-se um modelo para Washington como um regime anticomunista, mas civil, comprometido com a defesa da propriedade privada e dos interesses do capital estrangeiro, ao mesmo tempo em que reprimia os movimentos políticos à sua esquerda. Betancourt abraçou a “Aliança para o Progresso” de Kennedy, declarando que era necessário “ajudar os pobres para salvar os ricos”. Durante visitas frequentes a Washington, Betancourt cultivou relações com a burocracia da federação sindical AFL-CIO, que o ajudou no desenvolvimento de um aparato sindical anticomunista leal ao governo e às empresas petrolíferas.
A Venezuela foi considerada uma “democracia modelo” durante um período em que golpes militares apoiados pela CIA levaram ditaduras brutais ao poder em grande parte da América do Sul. A Doutrina Monroe passou por mais uma revisão, desta vez com o corolário Kennan, em homenagem ao diplomata norte-americano George F. Kennan, autor da política de contenção em relação à União Soviética. Aplicada à América Latina, ela se tornou a doutrina de “segurança nacional”, segundo a qual qualquer ameaça revolucionária vinda de baixo deveria ser considerada uma manifestação do expansionismo soviético e reprimida impiedosamente.
Na realidade, a “democracia” da Venezuela não era menos implacável do que os regimes de tortura impostos por Washington em outras partes do hemisfério. O governo e sua odiada agência de polícia secreta, a DISIP, reprimiram selvagemente os movimentos guerrilheiros incipientes, juntamente com ativistas de esquerda e sindicais. Segundo as próprias estimativas do governo, quase 900 civis venezuelanos foram assassinados ou desapareceram pelas forças repressivas sob os chamados regimes “democráticos”.
Sob a presidência de Carlos Andrés Pérez, aliado próximo de Betancourt e cofundador da AD, o governo venezuelano nacionalizou a indústria petrolífera em 1976, em meio aos fortes aumentos de preços que acompanharam as crises de energia daquele período. Ao contrário das alegações de Trump de que a Venezuela “roubou” petróleo e terras dos EUA, as empresas petrolíferas foram indenizadas com cerca de US$ 1 bilhão. Além disso, nem o petróleo nem as terras jamais foram propriedade dos EUA, com a Standard Oil e outras empresas saqueando os recursos sob generosas concessões concedidas por sucessivos regimes venezuelanos.
“O excremento do diabo”
A nacionalização sob um governo capitalista não alterou as relações de classe fundamentais na Venezuela. O país continuou totalmente dependente da renda de uma única commodity, o petróleo, que vendia predominantemente aos EUA, ficando vulnerável às flutuações do mercado.
As mesmas estruturas e até os mesmos gerentes venezuelanos empregados pelas empresas estrangeiras permaneceram em seus cargos. As empresas petrolíferas estrangeiras continuaram suas operações e obtiveram lucros sob novos nomes como subsidiárias da PDVSA, a empresa estatal de petróleo. As tentativas de empregar a substituição de importações para diversificar a economia fracassaram, deixando a Venezuela dependente das importações para 80% de seus alimentos, bem como da maior parte de seus produtos manufaturados.
Juan Pablo Pérez Alfonzo, um proeminente político venezuelano que serviu como ministro da Energia de Betancourt, advertiu com perspicácia: “Daqui a dez anos, daqui a vinte anos, vocês verão; o petróleo nos levará à ruína. O petróleo é o excremento do diabo”. O país contraiu um caso clássico da “doença holandesa”, em que o domínio da economia por um único setor de exportação (petróleo) leva ao atrofiamento de outros setores, como manufatura e agricultura, deixando o país vulnerável a crises graves quando os preços de exportação caem.
As presidências alternadas da AD e de seu rival amigável, o partido democrata-cristão COPEI, supervisionaram uma escalada da desigualdade social e da corrupção desenfreada, enquanto as dívidas do país aumentavam constantemente. Ao retornar para um segundo mandato no poder, Carlos Andrés Pérez respondeu à queda acentuada dos preços do petróleo abrindo ainda mais os campos de petróleo do país à exploração por empresas estrangeiras e impondo um drástico programa de “terapia de choque” ditado pelo Fundo Monetário Internacional, que incluía um aumento de 100% nos preços dos combustíveis.
As massas de venezuelanos empobrecidos reagiram ao ataque aos padrões de vida com uma revolta popular que ficou conhecida como Caracazo. O governo retaliou com lei marcial e repressão sangrenta, apontando metralhadoras para multidões desarmadas e arrastando pessoas de suas casas em bairros pobres para execuções sumárias. Os eventos sinalizaram o colapso do suposto consenso anticomunista liberal que havia dominado após a queda de Pérez Jiménez.
Seguiu-se uma agitação contínua, marcada por uma tentativa frustrada de golpe de Estado em 1992, liderada por um jovem oficial, Hugo Chávez. Ele assumiu a presidência seis anos depois, em uma eleição que viu a destruição nas urnas da AD e do COPEI, ambos amplamente odiados por sua corrupção e defesa dos interesses capitalistas às custas das massas.
Dando início ao que ficou conhecido como a “Maré Rosa” da América Latina, o governo Chávez utilizou os altos preços do petróleo para financiar programas sociais que melhoraram a educação e a saúde, ao mesmo tempo em que reduziram a pobreza. Essas reformas bastante modestas foram seguidas pelo novo governo consolidando laços econômicos e políticos com Cuba, ao mesmo tempo em que condenava a invasão dos Estados Unidos do Afeganistão, levando a uma animosidade crescente por parte de Washington.
Esse atrito culminou em um golpe apoiado pelos EUA em abril de 2002, que levou Chávez a ser brevemente deposto e preso, antes que protestos em massa forçassem sua recondução ao cargo. Juntando-se ao grupo de oficiais militares, representantes de grandes empresas e burocratas ligados à AFL-CIO que apoiaram o golpe estava María Corina Machado, a direitista financiada pelos EUA que recentemente recebeu o Prêmio Nobel da Paz por apoiar uma guerra dos EUA para a mudança de regime.
Em 2007, o governo Chávez realizou outra rodada de nacionalizações, revertendo a crescente privatização e transferência de operações para empresas sediadas nos Estados Unidos que havia ocorrido na década anterior. Essa medida foi tomada somente depois que a ExxonMobil e a ConocoPhillips se recusaram a permitir que o governo assumisse participações majoritárias nos novos contratos de concessão.
Após a morte de Chávez e sua sucessão por Nicolás Maduro em 2013, uma queda nos preços do petróleo, agravada pela imposição de sanções econômicas punitivas iniciadas sob o governo democrata de Barack Obama e intensificadas desde então, levou a uma dramática retração da economia venezuelana, migração em massa para o exterior e uma queda vertiginosa nos padrões de vida.
A intervenção dos EUA se intensificou, incluindo através de planos de golpe, tentativas de assassinato e até mesmo o desembarque de mercenários nas costas da Venezuela. O governo Trump tentou impor seu próprio presidente, o legislador de direita não eleito e amplamente desconhecido Juan Guaidó, cujo “governo interino” não conseguiu obter apoio popular, provando ser hábil apenas em roubar milhões de dólares em fundos de ajuda dos EUA.
“A história não se repete, mas muitas vezes rima.” O envio de frotas estrangeiras para as costas da Venezuela, que levou à proclamação de dois corolários à Doutrina Monroe, com 123 anos de diferença, parece confirmar essa frase, atribuída ao célebre escritor, humorista e anti-imperialista Mark Twain.
Theodore Roosevelt, entretanto, aproveitou a crise de 1902 para alterar a Doutrina Monroe de acordo com os interesses vorazes do imperialismo americano como potência global em ascensão. O “corolário” Trump, embora faça uma reverência a Roosevelt, é a expressão da crise cada vez mais insolúvel e da perda de hegemonia global dessa mesma potência, que ela busca desesperadamente superar por meio do militarismo e da agressão.
A China já ultrapassou os EUA como principal parceiro comercial da América do Sul e deve ultrapassá-los em toda a América Latina e no Caribe até 2035. Ela está realizando investimentos em infraestrutura em grande escala, desde o novo porto de águas profundas em Chancay, no Peru, até a criação de redes 5G, que os EUA são incapazes de igualar. Enquanto isso, a União Europeia também busca seu próprio acesso às fontes de matérias-primas estrategicamente vitais da região.
Nestas condições, o documento da Estratégia de Segurança Nacional publicado pela Casa Branca em 4 de dezembro afirma:
Após anos de negligência, os Estados Unidos irão reafirmar e aplicar a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental e proteger nossa pátria e nosso acesso a regiões geográficas estratégicas em toda a região. Negaremos aos concorrentes de fora do hemisfério a capacidade de posicionar forças ou outros recursos ameaçadores, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais em nosso hemisfério. Esse “Corolário Trump” à Doutrina Monroe é uma restauração sensata e potente do poder e das prioridades americanas, consistente com os interesses de segurança dos Estados Unidos.
O caminho traçado por essa nova versão da Doutrina Monroe parece, à primeira vista, mais delirante do que “bom senso”. Ele representa, mais do que em qualquer outro momento histórico, o caminho certo para a guerra. Os objetivos declarados pelo governo Trump não podem ser alcançados sem a conquista militar e o confronto militar direto com a China e a Rússia, ambas potências nucleares.
Ao mesmo tempo, a tentativa de impor grilhões neocoloniais à América Latina provocará inevitavelmente uma gigantesca erupção da luta de classes em todo o Hemisfério Ocidental.
As alternativas nunca foram tão claras. A classe trabalhadora deve unir suas lutas além das fronteiras nacionais, nas Américas e além, para pôr fim ao capitalismo, ou este sistema moribundo arrastará a humanidade para o abismo de uma terceira guerra mundial nuclear.
Leia mais
- EUA, tirem as mãos da América Latina! Parar a onda de assassinatos de Trump!
- Não à agressão imperialista dos EUA contra a Venezuela! Pela unidade da classe trabalhadora nas Américas!
- Quem são os EUA para pregar “democracia” à Venezuela?
- Brasil e EUA celebram 200 anos de relações diplomáticas enquanto Washington arrasta América Latina para guerra global
- A reorganização da América Latina pela nova guerra imperialista
