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Perspectivas

Os protestos no Irã, a agressão imperialista e a luta pelo poder operário

Publicado originalmente em inglês em 11 de janeiro de 2026

O World Socialist Web Site condena a escalada de ameaças de ação militar contra o Irã pela Casa Branca. O presidente fascista e aspirante a ditador do imperialismo americano está — segundo suas próprias palavras e o New York Times — preparando um ataque militar iminente contra o Irã.

Imagem capturada de um vídeo divulgado em 9 de janeiro de 2026 pela televisão estatal iraniana mostrando um homem filmando veículos em chamas durante uma noite de protestos em massa em Zanjan, no Irã. [AP Photo/Iranian state TV]

Isso será apresentado de forma espalhafatosa com o mais cínico e absurdo de todos os pretextos: que os EUA estão atacando o Irã para “defender o povo iraniano”.

Poucos dias após Trump ordenar um ataque criminoso à Venezuela, que matou pelo menos 80 pessoas, o sequestro de seu presidente, Nicolás Maduro, e a tomada da vasta riqueza petrolífera do país, ele está, segundo inúmeras notícias, a poucos dias e possivelmente horas de iniciar uma guerra com o Irã.

Em 10 de janeiro, o Times informou que o Pentágono apresentou ao presidente Trump “uma série de opções, incluindo ataques a locais não militares em Teerã”. O próprio Trump ameaçou repetidamente atacar o Irã. Nos bastidores de uma reunião com altos executivos do setor petrolífero dos EUA em 9 de janeiro, convocada para discutir a tomada do petróleo da Venezuela por Washington, Trump declarou: “Vamos atingi-los com muita força onde dói”.

Quando Trump realizou uma reunião de guerra com o primeiro-ministro israelense em sua propriedade, Mar-a-Lago, em 29 de dezembro, ele e seus assessores citaram o programa nuclear do Irã como motivo para os EUA atacarem novamente o país. Hoje, com cinismo desenfreado, ele aponta a crescente repressão da República Islâmica aos protestos antigovernamentais como justificativa para atacar o Irã, apresentando-se como um “libertador”, à maneira de Hitler.

Protestos em massa nascidos da crescente crise econômica têm convulsionado o Irã desde 28 de dezembro e, nos últimos dias, teriam se espalhado por todas as partes do país.

O regime nacionalista burguês iraniano, liderado pelo clero xiita, tem respondido cada vez mais com a repressão. Desde 8 de janeiro, ele bloqueou o acesso à internet e aos telefones celulares, fez prisões em massa e reprimiu violentamente os protestos.

Em 9 de janeiro, o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, prometeu que o governo “não recuaria” diante de “vândalos” e “sabotadores”. O procurador-geral do Irã advertiu que qualquer pessoa que participar dos protestos será considerada “inimigo de Deus”, tornando-se passível, se condenada, à pena de morte.

Grupos de direitos humanos sediados fora do Irã fizeram variadas afirmações sobre o número de manifestantes mortos, variando de dezenas a mais de 100. O governo, por sua vez, destacou a morte de mais de uma dezena de agentes de segurança e o que descreve como ataques armados a delegacias de polícia.

Devido à repressão da República Islâmica — ela própria uma indicação da base social cada vez mais estreita do regime — e à hostilidade implacável da mídia corporativa ocidental a um Irã que não é diretamente subserviente ao imperialismo, é difícil obter uma imagem precisa dos protestos no país.

Porém, qualquer tendência progressista no Irã teria que repudiar imediatamente o “apoio” de Trump, denunciar a ameaça de uma ação militar iminente dos EUA e exigir a remoção imediata das sanções punitivas que estão estrangulando a economia iraniana.

Sem dúvida, existem profundas queixas sociais entre os trabalhadores e os camponeses iranianos. A República Islâmica é um regime capitalista repressivo. Ela se consolidou por meio da supressão violenta de todas as organizações de esquerda e independentes da classe trabalhadora após a Revolução de 1979, que derrubou a ditadura monárquica tirânica do xá imposta pelos EUA.

Nos últimos anos, a partir dos protestos em massa que eclodiram contra a pobreza e a desigualdade social em dezembro de 2017, a classe trabalhadora iraniana emergiu como uma força combativa. Nos últimos meses, aconteceram greves e protestos de mineiros, trabalhadores do setor petrolífero, da saúde e de transporte, entre outros.

No entanto, a atual onda de protestos não foi iniciada pelos trabalhadores. Em vez disso, como o próprio aiatolá Khamenei reconheceu, eles começaram entre os bazaaris, ou seja, lojistas e comerciantes provenientes de setores da burguesia e da pequena burguesia iranianas que tradicionalmente têm sido, para usar as próprias palavras de Khamenei, um pilar do regime.

Embora setores dos trabalhadores e desempregados tenham sem dúvida sido arrastados pelos protestos, a classe trabalhadora não interveio em massa e, mais significativamente ainda, não interveio como uma força independente que avança com suas próprias reivindicações e emprega seus próprios métodos de luta de classes.

Pelo contrário, tudo indica que os protestos estão assumindo um caráter cada vez mais pronunciado de direita, com forças reacionárias e pró-imperialistas dentro do Irã e e também fora dele em toda a região, Washington e outras capitais imperialistas procurando se aproveitar deles.

Os trabalhadores e oprimidos no Irã devem estar atentos. Em 2013, a oposição em massa ao presidente egípcio Mohamed Morsi, cujo governo se mostrou manifestamente incapaz de atender a qualquer uma das reivindicações sociais que impulsionaram a Revolução de 2011, foi explorada pelos setores mais poderosos da burguesia e das forças armadas para levar ao poder uma ditadura selvagem sob o comando do general el-Sisi, que continua governando até hoje.

A mídia ocidental destaca agora o apoio dos manifestantes ao filho do xá, o “príncipe herdeiro” Reza Pahlavi. Radicado nos EUA desde 1978, ele convocou os oponentes da República Islâmica a “tomarem o controle dos centros das cidades” e apelou a Trump para que cumprisse suas ameaças de atacar o Irã.

Existem evidências de que alguns dos videos que supostamente mostram manifestantes expressando apoio ao retorno de uma monarquia pró-EUA foram adulterados. Seja como for, não existe razão para desconsiderar que setores da burguesia e da pequena burguesia iranianas anseiam pelo retorno de uma monarquia tirânica, servindo como cliente de Washington e sob o xá.

Enquanto isso, nacionalistas curdos aliados ao imperialismo americano e, em alguns casos, aliados abertamente a Israel, estão lançando ataques armados.

Se essas forças prevalecerem, elas levarão ao poder um regime neocolonial. Tal regime entregaria o petróleo do Irã às mesmas potências imperialistas, lideradas pelos EUA, que há décadas travam uma campanha implacável de agressão e guerra econômica contra o povo iraniano, permitiria que o Irã fosse usado como base para a ofensiva militar-estratégica de Washington contra a China e a Rússia e exploraria e reprimiria impiedosamente a classe trabalhadora.

A classe trabalhadora iraniana não pode suportar a subjugação imperialista, nem a privação econômica e a repressão política da República Islâmica. Ela deve intervir como uma força política independente em oposição ao imperialismo, a todas as instituições da República Islâmica e a todas as frações da burguesia iraniana.

Os trabalhadores da América do Norte e da Europa, por sua vez, devem se opor incansavelmente à contínua agressão imperialista contra o Irã – seja na forma de um ataque militar direto, de ações secretas e do uso das frações pró-imperialistas da burguesia e do establishment clerical-político, ou da contínua campanha de guerra econômica.

Todos são elementos da campanha do imperialismo americano, em conjunto com seu cão de ataque sionista israelense, para estabelecer, por meio da guerra, do terror de Estado e da mudança de regime, um “novo Oriente Médio” sob a hegemonia desenfreada dos EUA. Esse objetivo predatório, como o ataque de Trump à Venezuela e a apreensão de seu petróleo, é inseparável dos preparativos de Washington para a guerra com a China e outros rivais estratégicos.

É tarefa da classe trabalhadora iraniana acertar as contas com a República Islâmica. Trump, seus oponentes ostensivos do Partido Democrata e seu lacaio entronizado, Reza Pahlavi, querem sua escravidão.

Khamenei e o establishment clerical da República Islâmica apontam para a agressão e as ameaças de Trump para justificar sua repressão e má administração. Mas o regime iraniano, dividido internamente, provou ser totalmente incapaz de dar qualquer resposta progressista à campanha cada vez mais intensa de intimidação e agressão liderada pelo imperialismo americano. Isso porque, em última análise, ele próprio é um instrumento do imperialismo. A sua oposição ao imperialismo, tal como é, se dá apenas do ponto de vista da expansão das possibilidades de exploração da própria burguesia iraniana.

Durante décadas, o establishment político da República Islâmica esteve profundamente dividido entre uma fração liderada pelo falecido ex-presidente Hashemi Rafsanjani, seu protegido, o ex-presidente Hassan Rouhani, e agora o atual presidente Masoud Pezeshkian, ansiosos por uma reaproximação com Washington e as potências imperialistas europeias; e uma fração oposta, liderada pelos chamados “principalistas” e pela Guarda Revolucionária Islâmica, que favorecem laços mais estreitos com a China e a Rússia para negociar com mais dureza com o imperialismo. Khamenei tem agido como um governante bonapartista, alternando entre favorecer uma fração e a outra, enquanto tenta manobrar entre as potências imperialistas e maiores e os trabalhadores e camponeses do Irã.

Ambas as frações desmantelaram sistematicamente as concessões sociais que foram feitas à classe trabalhadora e às massas rurais logo após a revolução, implementando políticas neoliberais e pró-investidores, aprofundando ainda mais a pobreza e a insegurança econômica em meio a uma desigualdade social cada vez maior. Ambas as frações procuraram colocar todo o peso do confronto do Irã com o imperialismo sobre os ombros dos trabalhadores.

Mesmo após o ataque dos EUA e de Israel em junho passado, Teerã redobrou seus esforços para chegar a um acordo com Trump, apenas para ser rejeitada a cada passo. Essa incapacidade está enraizada na dinâmica de classe: o maior medo do regime é a ameaça da classe trabalhadora.

Para derrotar o imperialismo no Oriente Médio, é necessária a mobilização unificada da classe trabalhadora e das massas oprimidas – muçulmanas, judias e cristãs, árabes, turcas, curdas, israelenses e iranianas – na luta pela igualdade social e pelos direitos democráticos para todos, contra todos os regimes capitalistas e todas as divisões comunitárias e sectárias que eles promovem. Dizer que isso não pode ser feito com base nos apelos islâmicos reacionários do regime da República Islâmica e na ideologia populista xiita é afirmar o óbvio.

Toda a história do Irã moderno – desde o fracasso da Revolução Constitucional no início do século XX e a derrubada do regime nacionalista de Mosaddegh em 1953, passando pelo sequestro e repressão da Revolução Iraniana de 1979 e os 47 anos da República Islâmica – demonstra que a única estratégia viável para a classe trabalhadora iraniana é a estratégia da Revolução Permanente. 

Formulada inicialmente por Leon Trotsky, a estratégia da Revolução Permanente animou a Revolução Russa de 1917 e a luta contra a burocracia nacionalista stalinista, que usurpou o poder da classe trabalhadora em condições de isolamento da revolução e, por fim, restaurou o capitalismo. Ela estabelece que, na época imperialista, as tarefas democráticas associadas às revoluções burguesas históricas dos séculos XVIII e XIX — incluindo a independência e a unidade nacional e a separação da Igreja do Estado — só podem ser realizadas através do estabelecimento do poder operário e como parte da luta pela revolução socialista mundial.

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