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Antes de se encontrar com Trump na Casa Branca, Lula sanciona sequestro de Maduro pelo imperialismo dos EUA

Ao longo das últimas duas semanas, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (Partido dos Trabalhadores – PT) manifestou suas intenções abertas de trabalhar em estreito contato com o presidente Donald Trump e líderes de extrema direita da América do Sul aliados do aspirante a ditador dos EUA.

Trump e Lula na Malásia, em 26 de outubro de 2025. [Photo: Ricardo Stuckert/PR]

Em 26 de janeiro, Lula e Trump tiveram uma conversa por telefone de 50 minutos. No X, o presidente brasileiro, saudou “o bom relacionamento construído nos últimos meses” com o governo americano. Foi a quarta vez que ambos os presidentes conversaram desde outubro passado, quando Lula passou a se referir a Trump cada vez frequentemente como seu “amigo”.

Segundo Lula, essas conversas resultaram “no levantamento de parte significativa das tarifas aplicadas a produtos brasileiros”, que foram taxados em 50% em julho passado com o objetivo político aberto de tentar reverter a iminente condenação do ex-presidente fascista e aliado de Trump, Jair Bolsonaro, pela tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 no Brasil.

Como parte do esforço para reverter parcial ou integralmente as tarifas impostas a ainda mais produtos e aprofundar as relações com o governo Trump, inclusive com a possibilidade de investimentos americanos no Brasil, Lula anunciou na postagem no X que viajará aos Estados Unidos em março para se encontrar com o presidente americano.

Com essa viagem, Lula está seguindo os passos tomados pelo presidente colombiano Gustavo Petro, que na semana passada encontrou-se com Trump na Casa Branca. Ao tentarem negociar com Trump, os dois maiores representantes desta segunda onda de governos nacionalistas burgueses associados à Maré Rosa estão encobrindo a busca do imperialismo americano de dominar todo o Hemisfério Ocidental enquanto se prepara para uma guerra contra a China.

Porém, como se o anúncio da visita em si não tivesse exposto Lula suficientemente, o conteúdo da cooperação que Lula quer levar adiante com Trump é ainda mais revelador. 

Lula também escreveu no X que reiterou a Trump a “proposta, encaminhada ao Departamento de Estado [dos EUA] em dezembro, de fortalecimento da cooperação no combate ao crime organizado”. Segundo ele, ela “foi bem recebida pelo presidente norte-americano”.

Essa proposta de Lula deve ser analisada no contexto da ofensiva que o governo Trump está realizando contra a América Latina para afastar a influência da China, da Rússia e, em menor grau, do Irã da região. Ela ganhou um salto qualitativo depois da publicação da Estratégia de Segurança Nacional em dezembro e da Estratégia de Defesa Nacional no mês passado, que apresentaram o “corolário Trump” à doutrina Monroe e reafirmaram o domínio do imperialismo dos EUA no Hemisfério Ocidental.

Nesse quadro, o combate ao crime organizado e ao assim chamado “narcoterrorismo” por Washington tem sido utilizado como pretexto para pressionar governos latino-americanos a se alinharem aos objetivos estratégicos dos EUA. Ao longo dos últimos meses, essa dinâmica foi vista na ofensiva do governo Trump contra a Venezuela, com as forças armadas dos EUA assassinando 130 civis em pequenas embarcações na costa da Venezuela e culminando na invasão 3 de janeiro e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores.

A guerra comercial de Trump e a ofensiva de Washington contra a América Latina coincidiram com a derrota eleitoral de muitos governos associados à Maré Rosa, como a de Luis Arce na Bolívia e Gabriel Boric no Chile. Nas eleições presidenciais do ano passado, eles foram repudiados nas urnas por levarem adiante programas de austeridade e repressão que abriram o caminho para a chegada de extrema direita ao poder.

Esse processo tem soado o alarme do PT e de Lula, que será o candidato pelo PT na eleição presidencial deste ano no Brasil. Ao mesmo tempo, o presidente brasileiro quer se apresentar como um líder que Trump e os líderes latino-americanos aliados a ele possam confiar, evitando assim que o governo americano interfira na eleição brasileira, como aconteceu no ano passado na Argentina e em Honduras. 

Para isso, Lula tem se apropriado de questões historicamente associadas à extrema direita contra a crescente violência urbana no Brasil, uma preocupação crescente da população da região mais desigual do mundo. Desde o ano passado, uma das principais bandeiras de seu governo é aprovar no Congresso brasileiro uma Proposta de Emenda Constitucional da Segurança Pública que irá fortalecer o aparato policial no Brasil e reproduzir a lógica da guerra militar contra as drogas.

Em nível continental, Lula tem buscado cooperação não só com o governo Trump contra o crime organizado e o narcotráfico, mas também com líderes de extrema direita na região, muitos deles que têm implementado o “modelo Bukele” de repressão do presidente fascista de El Salvador.  Em agosto passado, logo após a imposição das tarifas de 50% sobre o Brasil, Lula se encontrou com o presidente do Equador, Daniel Noboa, que implementou seguidos estados de exceção que deram amplos poderes aos militares para supostamente combater o crime organizado e o narcotráfico em estreita cooperação com os EUA.

Após conversar com Trump, Lula se encontrou em 27 de janeiro com o presidente eleito do Chile, o fascista José Kast, e no dia seguinte com o presidente direitista da Bolívia, Rodrigo Paz, durante o Fórum Econômico Internacional da América Latina e Caribe, no Panamá. Justificando esses encontros, Lula declarou no Fórum: “Guiados pelo pragmatismo, podemos superar divergências ideológicas e construir parcerias sólidas e positivas dentro e fora da região.” A vitória eleitoral de Paz e Kast no ano passado foi amplamente saudada por Trump.

Depois de assumir o poder em novembro, Paz permitiu a volta da Agência de Combate às Drogas (DEA) dos EUA ao território boliviano, depois de ela ser banida do país em 2008 pelo então presidente Evo Morales (Movimento ao Socialismo – MAS). Em 24 de janeiro, a Folha de S. Paulo reportou que Morales pode ter o mesmo destino de Maduro, escrevendo: “O temor é que a polícia [boliviana], com apoio da DEA, tente prendê-lo e envolvê-lo em processos por narcotráfico.”

Já Kast, que tomará posse em março, nomeou dois ex-advogados do ditador Augusto Pinochet (1973-1990) para os ministérios da Defesa e da Justiça. Ele também escolheu a ex-procuradora María Trinidad Steinert Herrera para o ministério da Segurança Pública depois de ela ter ganhado notoriedade combatendo organizações criminosas internacionais como Tren de Aragua, que o governo Trump classificou como organização narcoterrorista que estaria ligada a Maduro. 

Ao mesmo tempo, o governo Lula tem fortalecido a cooperação e a integração entre os aparatos repressivos americano e brasileiro. Há décadas, a Polícia Federal brasileira possui relações próximas com o FBI, a CIA e a DEA, que inclui o treinamento de agentes brasileiros e o financiamento de programas e atividades da PF pelos órgãos americanos. No final de janeiro, o vice-diretor da CIA, Michael Ellis, visitou o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, “para reforçar a cooperação” e “o intercâmbio de informações, o enfrentamento a ameaças transnacionais e o papel estratégico do Brasil no continente americano”, escreveu a PF no X.

A volta de Maduro à Venezuela “não é a preocupação principal”

O papel de Lula na colaboração com Washington à medida que intensifica sua agressão contra a América Latina foi ainda mais exposto na quinta-feira da semana passada numa entrevista que ele concedeu ao UOL.

Perguntado sobre sua relação com Trump, Lula disse que eles têm que “sentar numa mesa, olhar um no olho do outro, ver quais são os problemas que afligem ele, quais são os que me aflige”, completando: “E vamos trabalhar juntos. Vamos estabelecer acordos em que a gente possa trabalhar juntos”.

Lula reforçou sua resposta nacionalista às tarifas de Trump, dizendo que “a única coisa que eu não discuto [no encontro que terá com Trump] é a soberania do meu país.” Ele continuou: “Mas discutir parcerias de indústrias, parceria na exploração de minérios, de minerais críticos, terras raras, discutir investimento, discutir sobre o aumento de exportação, tudo isso nós somos livres para discutir.”

A defesa da “soberania nacional” expõe o caráter de classe do governo Lula como um representante fiel da burguesia brasileira que foi atingida pelas tarifas e quer revertê-las o mais rápido possível. Também existe uma preocupação entre setores da elite dominante americana sobre o impacto das tarifas ao Brasil nos EUA, particularmente os seus efeitos sobre a inflação americana e a aproximação comercial entre o Brasil e a China, a principal parceira comercial brasileira.

Lula também foi questionado na entrevista ao UOL sobre o destino da Venezuela após o sequestro de Maduro. Em resposta à questão “Há algo a ser feito para que Maduro e a esposa voltem à Venezuela?”, Lula respondeu: “Essa não é a preocupação principal. A preocupação principal é a seguinte: …Há condições de fazer com que a democracia seja efetivamente respeitada na Venezuela e o povo possa participar ativamente?”

Prestes a se encontrar com Trump, Lula na prática está legitimando o sequestro de Maduro enquanto prioriza negociações com Washington para barganhar concessões comerciais. Além disso, Lula está avançando ilusões que a “democracia” na Venezuela pode supostamente ser restabelecida após os EUA transformarem o país num um protetorado semicolonial subordinado aos interesses geopolíticos e econômicos dos EUA e aos lucros de suas principais empresas petrolíferas.

A declaração de Lula sobre Maduro não pode ser vista isoladamente, mas como o resultado de um processo em relação à Venezuela que se iniciou desde que ele voltou ao poder para o seu terceiro mandato em 2023. No final daquele ano, Lula, atuando como mediador do imperialismo americano para tentar distensionar a crise política na Venezuela, participou do acordo de Barbados entre Maduro e a oposição venezuelana que abriu o caminho para a eleição presidencial de julho de 2024.

Após a eleição, Lula não reconheceu a vitória de Maduro, vocalizando a exigência da oposição venezuelana e do imperialismo americano para que as autoridades eleitorais na Venezuela divulgassem as atas de todas as seções eleitorais. Uma vez que isso não aconteceu, Lula passou a defender a realização de novas eleições, declarando na época: “a Venezuela vive um regime muito desagradável. Não acho que é ditadura ... É um governo com viés autoritário”. No final de 2024, o governo Lula foi o responsável por bloquear a entrada da Venezuela nos BRICS, o bloco econômico do qual fazem parte Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e mais meia dúzia de países, incluindo o Irã.

Independentemente do que Lula diga, ele e outros representantes da Maré Rosa na América Latina estão expostos como peças fundamentais nos esforços do imperialismo americano para tirar Maduro do poder e legitimar a ofensiva neocolonial de Trump contra a Venezuela e toda a região. A retórica anti-imperialista que tem marcado muitos governos da Maré Rosa desde o início do século, procurando avançar a integração latino-americana para supostamente se opor à hegemonia americana na região, em última análise não passa de acomodação e capitulação ao imperialismo americano. 

A classe trabalhadora latino-americana pagou um preço alto na segunda metade do século passado pela subordinação da socialdemocracia, do stalinismo e do pablismo a várias formas de nacionalismo burguês, desarmando politicamente as massas e abrindo o caminho para a implementação de ditaduras brutais em toda a região. 

Para evitar que isso se repita em um momento de aprofundamento da crise capitalista mundial, o único caminho a seguir dos trabalhadores latino-americanos é se unir através de todo o continente em uma luta independente pelo socialismo internacionalista. Isso requer a construção de seções do Comitê Internacional da Quarta Internacional em todos os países da América Latina.

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