Publicado originalmente em inglês em 5 de março de 2026
Enquanto o governo Trump desencadeava uma campanha de bombardeios em grande escala contra o Irã — em violação aberta da Constituição e do direito internacional —, a maioria dos dirigentes sindicais americanos permaneceu em silêncio.
A AFL-CIO, federação nacional de sindicatos cujos sindicatos filiados somam mais de 15 milhões de membros, não emitiu nenhuma declaração. O Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Automotiva (UAW), o Sindicato dos Trabalhadores em Comunicações dos EUA (CWA), o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Siderúrgica (USW), o Teamsters [um sindicato que abrange diversas categorias, como transporte e alimentação], a Federação Americana de Funcionários Estaduais, Municipais e Distritais, o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Alimentos e do Comércio (UFCW), a Associação Nacional de Educação e dezenas de outros sindicatos também não emitiram nenhuma declaração.
As redes sociais da AFL-CIO e dos principais sindicatos estão repletas de promoções de políticos do Partido Democrata, relatos das últimas greves que a burocracia está gerenciando ou já traiu, divulgação de propaganda anti-China e imagens sobre o Mês da Mulher. Mas, quando os bombardeios começaram em 28 de fevereiro e continuaram nos dias seguintes, os departamentos de comunicação dessas organizações não publicaram uma única postagem se opondo à guerra.
A escala do que foi desencadeado sobre o povo iraniano é terrível. Nos primeiros dias da campanha de bombardeios, a liderança política e militar do Irã foi assassinada. Quase 1.000 pessoas foram mortas, incluindo mais de 100 crianças, quando as forças dos EUA e de Israel atacaram deliberadamente uma escola só para meninas no sul do Irã.
O custo dessa guerra criminosa está sendo imposto à classe trabalhadora americana, que se opõe de forma esmagadora a ela. Os preços dos combustíveis já estão subindo. Os custos dos alimentos seguirão o mesmo caminho. Se tropas terrestres forem enviadas para ocupar o Irã — e a lógica de tal operação aponta precisamente nessa direção —, serão os filhos e as filhas da classe trabalhadora, e não os filhos dos executivos corporativos e do setor financeiro que lucram com a guerra, que serão enviados para lutar e morrer.
Os custos serão financiados por meio de cortes brutais no Medicaid, na Previdência Social, na educação pública e em todos os outros programas sociais dos quais os trabalhadores dependem para sobreviver. O mesmo governo que enviou forças paramilitares para prender imigrantes e assassinar cidadãos americanos nas ruas de Minneapolis pretende usar medidas de guerra para criminalizar a oposição política à guerra.
O silêncio da burocracia sindical é um ato deliberado de apoio e cumplicidade. Também permanecem calados os setores “de esquerda” do aparato sindical, como o presidente do UAW, Shawn Fain, o diretor da Região 9A do UAW, Brandon Mancilla, a presidente da Associação de Comissários de Bordo (AFA-CWA) e líder dos Socialistas Democráticos da América (DSA), Sara Nelson, e os dirigentes dos Sindicatos dos Professores de Chicago (CTU) e de Los Angeles (UTLA).
As exceções que confirmam a regra
Sabendo que existe uma oposição popular esmagadora à guerra, um pequeno número de sindicatos quebrou o silêncio e emitiu declarações críticas. No entanto, o caráter político de suas declarações é tão revelador quanto o silêncio da maioria. As declarações do Sindicato Nacional de Enfermeiros (NNU) e do Sindicato Internacional dos Funcionários de Serviços (SEIU) combinam frases que soam radicais com apelos ao Congresso e ao Partido Democrata.
A declaração do NNU condena o ataque como “mais um ato imperialista de guerra”, invoca a “ação militar unilateral de Trump na Venezuela” e declara que “esta missão é uma extensão da lealdade fascista de Trump à classe bilionária e uma continuação de décadas de intervenção dos EUA no Irã, começando com a derrubada do governo democraticamente eleito de Mossadegh em 1953”.
O SEIU afirma:
A guerra prejudica os trabalhadores, os pobres, as mulheres e as crianças. Enquanto governantes autoritários, aspirantes a ditadores e bilionários que financiam a violência sem fim conspiram juntos para enriquecer e obter cada vez mais poder, são os trabalhadores comuns que pagam o preço.
E continua:
O SEIU apoia os trabalhadores no Irã e em todo o mundo que lutam por uma vida melhor e mais segura. Sabemos do poder dos trabalhadores quando se unem e nos oporemos a esta e a qualquer outra medida deste governo que prejudique os trabalhadores, nossas famílias e nossas comunidades.
Mas, ao mesmo tempo em que declara que “os enfermeiros apelam à solidariedade internacional entre os trabalhadores”, o NNU apela ao Congresso dos EUA “para que tome todas as medidas necessárias para pôr fim a esta guerra”, insistindo que só ele tem “o poder de o fazer, bloqueando o financiamento e aprovando uma resolução sobre os poderes de guerra”.
O SEIU chega exatamente à mesma conclusão: “O Congresso deve agir imediatamente para pôr fim a esta agressão inconstitucional e proteger os trabalhadores nos Estados Unidos, no Irã e em todo o mundo”.
Este é o mesmo Congresso e Partido Democrata que financiaram a escalada militar durante décadas, apoiaram sanções que estrangularam o povo iraniano e apoiaram repetidamente a agressão dos EUA no Oriente Médio.
O NNU está defendendo a mesma linha de Bernie Sanders, cuja resposta ao ataque foi declarar que “o Senado deve se reunir imediatamente e votar uma Resolução de Poderes de Guerra pendente, que eu apoiarei veementemente”.
Na quarta-feira, a resolução foi, como era de se esperar, rejeitada no Senado, após ser bloqueada por quase todos os republicanos e um democrata, John Fetterman. Ela teria sido vetada por Trump mesmo se tivesse sido aprovada; outra resolução na Câmara não é vinculativa.
O aparato do NNU mantém os laços institucionais mais estreitos com Sanders. Vários líderes do NNU são membros do Instituto Sanders, onde foram treinados na retórica do “Medicare para Todos” e outras receitas reformistas.
Também deve ser lembrado que a afiliada do NNU, a Associação de Enfermeiros do Estado de Nova York, traiu a recente greve de 15.000 enfermeiros da cidade de Nova York, violando até mesmo seu próprio estatuto social na tentativa de impor um contrato favorável às empresas.
A Federação Americana de Professores (AFT) fornece talvez o exemplo mais instrutivo.
Em 18 de fevereiro, a cúpula da AFT aprovou uma resolução se solidarizando com as manifestações contra o governo de Teerã, protestos liderados principalmente por forças de direita alinhadas com o filho do ex-xá e apoiando a intervenção militar dos EUA para facilitar um golpe.
Aprovada antes do início da campanha de bombardeios, a resolução se opunha à intervenção dos EUA apenas por motivos táticos, declarando que “uma invasão só pode ajudar a causa dos teocratas autoritários no Estado iraniano e atrasar o dia em que os iranianos finalmente serão livres e capazes de se governar”. Em outras palavras, não porque uma invasão seria um crime de guerra, mas porque seria contraproducente para o imperialismo dos EUA.
Após o lançamento das bombas, a presidente da AFT, Randi Weingarten, respondeu não condenando a guerra, mas criticando sua irregularidade constitucional. Trump, disse ela, “tem repetidamente contornado o Congresso para se envolver inconstitucionalmente em atos de guerra, incluindo hoje. Isso está errado”.
Weingarten personifica a fusão do aparato sindical com o Departamento de Estado. Weingarten viaja regularmente pelo mundo em apoio às operações de mudança de regime dos Estados Unidos. Ela viajou para a Ucrânia em 2014 para apoiar o golpe de direita de Maidan e tem sido uma defensora vocal da guerra por procuração dos EUA e da OTAN contra a Rússia. Ela também é uma sionista convicta que emitiu declarações hipócritas e evasivas sobre o genocídio em Gaza meses após seu início.
Agora, ela manifesta sua oposição ao bombardeio do Irã por motivos formais. Se o Congresso, dominado pelos republicanos, tivesse aprovado formalmente o ataque com antecedência, ela não teria apresentado nenhuma objeção.
Tenentes sindicais a serviço do capital
O silêncio da burocracia sindical é a expressão de uma camada social que há muito tempo evoluiu — usando a frase do líder socialista Daniel De Leon — para “tenentes sindicais a serviço do capital”.
O aparato sindical americano tem um longo histórico de apoio à guerra imperialista.
A Federação Americana do Trabalho (AFL), o Congresso das Organizações Industriais (CIO) e a AFL-CIO, após se fundirem em 1955, apoiaram o militarismo dos EUA durante a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, a Guerra da Coréia, a Guerra do Vietnã e as guerras das últimas três décadas no Oriente Médio e na Europa do Leste.
Somente sob imensa pressão dos trabalhadores radicalizados pela Guerra do Vietnã é que o UAW rompeu temporariamente com a AFL-CIO em 1968. Mesmo assim, a ruptura foi parcial e o UAW retomou a aliança em 1981.
Por meio do Instituto Americano para o Desenvolvimento do Sindicalismo Livre (AIFLD) — financiado pela CIA e por grandes corporações americanas — e seu sucessor, o Solidarity Center, a AFL-CIO participou de décadas de operações secretas destinadas a minar sindicatos militantes e instalar governos pró-EUA no exterior.
No Irã, o aparato internacional da AFL liderado por Jay Lovestone desempenhou um papel nos eventos que levaram ao golpe organizado pela CIA em 1953 — Operação Ajax — que derrubou o primeiro-ministro democraticamente eleito Mohammad Mossadegh.
As marcas da AFL-CIO também estão presentes no golpe militar de 1973 no Chile, que afogou em sangue o governo socialista de Salvador Allende. Seus agentes apoiaram campanhas de desestabilização na Venezuela, Ucrânia e outros lugares.
O presidente Biden reconheceu abertamente essa relação quando disse ao Conselho Executivo da AFL-CIO, em julho de 2024, que a federação era sua “OTAN doméstica”.
O maior representante sindical dessa operação é o presidente do UAW, Shawn Fain, que tem promovido abertamente o “arsenal da democracia” da Segunda Guerra Mundial como modelo para a integração do aparato sindical na produção de guerra atual.
Em troca da imposição de um compromisso de não realizar greves e da conversão dos sindicatos em instrumentos de disciplina no trabalho durante a Segunda Guerra Mundial, o governo Roosevelt instituiu o desconto automático das contribuições sindicais — o que os tesoureiros sindicais chamavam de “maná do céu” —, resolvendo de uma só vez a precariedade financeira da burocracia sindical. O acordo de então é o mesmo acordo de hoje: a burocracia garante a paz no trabalho e a lealdade política; o Estado garante seus interesses institucionais. Os filhos e filhas da classe trabalhadora pagam por esse acordo com suas vidas.
Um movimento antiguerra de massa baseado na classe trabalhadora
Mais uma vez, organizações pseudoesquerdistas estão promovendo a mentira de que a burocracia sindical pode ser pressionada a liderar um movimento contra a guerra. O Left Voice [que faz parte da rede de sites da Corrente Revolução Permanente - Quarta Internacional (CRP-QI), que no Brasil publica o Esquerda Diário], por exemplo, defende “um movimento antiguerra e anti-imperialista nas ruas, nos nossos locais de trabalho e nas escolas”, no qual “os trabalhadores precisam desempenhar um papel de liderança, dado o seu poder estratégico para deter o imperialismo”.
Mas não será a burocracia da AFL-CIO que construirá tal movimento. Uma camada social que funciona como uma “OTAN doméstica” para a classe dominante americana, que passou décadas auxiliando o imperialismo dos EUA no exterior e que respondeu ao bombardeio em massa do Irã com silêncio cúmplice, é incapaz de liderar uma luta contra a guerra.
A construção de um movimento antiguerra de massa cabe à própria classe trabalhadora — às bases, aos jovens e estudantes, e a todos aqueles que compreendem que esta guerra, como todas as guerras do imperialismo americano, está sendo travada para servir aos interesses da classe dominante, às custas dos trabalhadores de ambos os lados do conflito.
Tal movimento deve basear-se em quatro princípios.
Primeiro, deve ser politicamente independente dos dois partidos do imperialismo americano — os republicanos, que iniciaram esta guerra, e os democratas, que tentarão administrá-la enquanto se apresentam, se necessário, como opositores.
Segundo, deve estar livre do domínio do aparato sindical — aquela camada burocrática privilegiada que se posiciona do outro lado das barricadas de classe.
Terceiro, deve ser genuinamente internacionalista, reconhecendo que os trabalhadores e jovens iranianos que estão sendo mortos pelas bombas americanas não são inimigos, mas irmãos e irmãs de classe em uma luta comum contra o capitalismo e a guerra.
Quarto — e decisivo —, deve ser socialista. A guerra imperialista não é uma aberração do capitalismo, mas sua expressão inevitável.
A Aliança Operária Internacional de Comitês de Base, que começou a construir organizações independentes para a autodeterminação da classe trabalhadora nos locais de trabalho nos Estados Unidos e internacionalmente, fornece a estrutura para tal luta.
A tarefa urgente é transformar a oposição generalizada a esta guerra — tanto nos Estados Unidos como internacionalmente — numa força política organizada, antes que os custos, medidos em vidas de trabalhadores no Irão e na devastação social imposta aos trabalhadores nos Estados Unidos, aumentem ainda mais.
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