O Agente Secreto, o filme mais recente de Kleber Mendonça Filho, conquistou amplo público no Brasil e internacionalmente desde seu lançamento, em novembro de 2025. O filme mais premiado do Festival de Cannes de 2025, O Agente Secreto concorreu ao Oscar deste ano nas categorias melhor filme, melhor ator, melhor filme internacional e melhor direção de elenco.
Ambientado em Recife, capital de Pernambuco, em 1977, O Agente Secreto foi adequadamente descrito pela Les Cahier du Cinéma como um “thriller com toques fantásticos evocando a ditadura militar” brasileira de 1964-85.
O filme acompanha o personagem em fuga, Marcelo (Wagner Moura), cuja real identidade e fragmentos da própria história são revelados no decorrer da trama. Ele é um ex-professor e pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco, agora perseguido por assassinos de aluguel à mando do empresário paulista, Henrique Ghirotti (Luciano Chirolli).
As operações corruptas de Ghirotti dentro da companhia estatal brasileira de energia, Eletrobras, entraram em choque com pesquisas inovadoras no desenvolvimento de baterias à lítio lideradas por Marcelo, que resistiu ao fechamento de seu laboratório universitário. Por telefone, um amigo do pesquisador alerta que Ghirotti têm aliados no aparato estatal e “mexeu os pauzinhos” para inserir Marcelo em uma lista de vigilância da Polícia Federal que o impede de sair legalmente do país.
Em O Agente Secreto, os interesses privados da elite capitalista demonstram-se inseparáveis do próprio Estado e de sua máquina repressiva assassina, e são indiferentes a qualquer restrição legal ou moral. O retrato da classe dominante – marcada por um desprezo absoluto pelos interesses coletivos, pela cultura e pela vida humana – é, sem dúvidas, o aspecto mais forte e universal do filme de Mendonça.
Em um contexto no qual a oligarquia capitalista mundial aboliu efetivamente quaisquer restrições legais, morais e diplomáticas e está proclamando uma nova era de exercício do poder pela violência nua e crua, o apelo de O Agente Secreto entre o público internacional é expressão de uma reorientação política e intelectual de massas à esquerda.
Kleber Mendonça Filho é jornalista por formação e um expoente dos círculos intelectuais e artísticos da capital pernambucana, um centro cultural histórico no Brasil e cenário da maioria das obras do diretor. Pernambuco foi o berço das Ligas Camponesas e palco de grandes lutas rurais, com auge no início dos anos 1960, que foram posteriormente massacradas pelo regime militar. O movimento camponês fundado por Francisco Julião, defensor de um programa de reforma agrária dentro do marco do Estado nacional burguês, desenvolveu-se sob inspiração direta da Revolução Cubana de 1959. Essas concepções políticas influenciaram profundamente a intelectualidade e a juventude estudantil de esquerda no país, e suas marcas são evidentes sobre a visão de mundo de Mendonça Filho.
A perseguição a cientistas durante a ditadura militar no Brasil, bem como a colaboração direta entre o grande capital e os instrumentos de repressão do regime – temas centrais em O Agente Secreto –, são fatos amplamente documentados.
A Comissão Nacional da Verdade (CNV) concluiu, em 2014, que mais de 80 empresas estabeleceram vínculos ativos com o aparato repressivo da ditadura militar. O caso da Volkswagen é provavelmente o mais notório. A justiça brasileira concluiu que a empresa automotiva estabeleceu uma colaboração “persistente e consistente” com o regime para perseguir trabalhadores combativos. Operários eram interrogados e torturados dentro da própria fábrica da montadora, na região do ABC de São Paulo.
A repressão do regime militar a cientistas também foi particularmente agressiva. A CNV estimou que entre 800 e mil pesquisadores foram vítimas de perseguição, que incluiu um movimento de cassação em massa de cargos universitários.
O interesse dos autores e do público de O Agente Secreto pelo período da ditadura militar no Brasil provém de uma compreensão de que essas questões históricas não pertencem a um passado encerrado. Não por acaso, seu sucesso vem na sequência da gigantesca repercussão internacional de Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, outro filme brasileiro sobre a violência política no regime de 1964.
A parte final de O Agente Secreto é uma das sequências mais fortes do filme, e, sem dúvidas, a mais tocante. Em cenas passadas na atualidade, acompanhamos a jovem pesquisadora Flávia (Laura Lufési) acessando um acervo histórico em fitas cassete, no qual se encontram depoimentos de Marcelo. Fica então claro que as lacunas deixadas pela narrativa a respeito do personagem principal são expressão concreta de um apagamento de crimes históricos. A tarefa de conectar os fragmentos e extrair deles a verdade é assumida como uma luta pessoal por Flávia, que precisa confrontar as limitações extremas do projeto de pesquisa privada no qual trabalha e suas próprias condições materiais precárias.
Em uma entrevista durante os prêmios BAFTA, Mendonça Filho argumentou: “Eu não queria, na verdade, criar um filme sobre o regime militar, mas ter ele como um pano de fundo inevitável da trama”. Fazendo referência ao governo do ex-presidente fascista Jair Bolsonaro (2018-2022), o diretor continuou:
Ao reconstruir o passado, 50 anos atrás no Brasil, você conseguirá inevitavelmente algumas reflexões sobre o que acontece no Brasil hoje... Particularmente, porque, nos últimos 10 anos, nós tivemos o retorno da extrema direita à cena política de uma forma bastante brutal, e trazendo novamente alguns dos mesmos valores que o regime militar impôs ao Brasil.
Após ganhar o prêmio de Melhor Ator de Filme de Drama no Globo de Ouro 2026, Wagner Moura declarou:
A ditadura ainda é uma cicatriz aberta na vida brasileira. Isso aconteceu há apenas 50 anos. Nós recentemente tivemos, de 2018 a 2022, um presidente de extrema-direita, fascista, que é uma manifestação física dos ecos da ditadura. Então, a ditadura ainda está muito presente na vida brasileira.
Além de uma carreira premiada como ator, Moura dirigiu e produziu o longa-metragem Marighella (2019), sobre o membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e líder guerrilheiro da Aliança Libertadora Nacional (ALN), Carlos Marighella, executado pelo regime militar em 1969. O governo Bolsonaro conseguiu impedir o lançamento do filme no Brasil durante dois anos em um ato aberto de censura.
Em outra ocasião, Moura declarou ao New York Times: “Bolsonaro agora está na cadeia, então, nos livros de história, ele será o fascista eleito pelos brasileiros que tentou um golpe de Estado.”
Ecos da ditadura
Em setembro de 2025, dois meses antes do lançamento de O Agente Secreto, Bolsonaro foi condenado a 27 anos de prisão pela tentativa de golpe de Estado que culminou na insurreição fascista de 8 de janeiro de 2023. Junto do ex-presidente, foram condenados um rol de líderes militares que integravam o núcleo duro da conspiração golpista e mais de uma dezena de oficiais que agiram como braço executivo do plano violento de tomada do poder. Eles representam, como bem disse Moura, manifestações físicas dos ecos da ditadura na estrutura de poder político burguês estabelecida no Brasil.
O governo de Jair Bolsonaro foi marcado não somente por esforços constantes para subverter o regime democrático brasileiro, como também por ataques ideológicos e cortes orçamentários à educação e à cultura. Entre 2019 e 2022, o financiamento governamental às universidades foi reduzido em 14%.
É bem verdade que os ecos da ditadura ressoaram com especial força durante o mandato presidencial de Bolsonaro. Entretanto, as tendências repressivas e autoritárias do Estado brasileiro e ataques sociais continuaram avançando sobre o atual governo de Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT). A busca constante de Lula e o PT por acomodar-se aos militares, à oligarquia financeira e ao imperialismo americano sob Trump somente deixaram a classe trabalhadora no Brasil mais vulnerável às forças por trás do golpe de 2023.
A condenação de Bolsonaro e seus co-conspiradores fascistas, longe de uma página virada em um livro de história, marcou uma intensificação das contradições explosivas acumuladas sob o sistema político burguês apodrecido no Brasil. Ao que tudo indica, as eleições presidenciais de outubro serão dominadas pela disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. Tamanha é a desmoralização da gestão capitalista do PT, que o filho boçal do ex-presidente fascista preso, cujo programa é dar continuidade aos objetivos golpistas do 8 de janeiro de 2023, aparece em empate técnico com Lula nas pesquisas de intenção de voto.
Embora seja nossa opinião que uma atitude social e política saudável prevaleça em O Agente Secreto, existem definitivamente aspectos problemáticos no filme. Suas fraquezas artísticas e políticas emanam da influência de ideias nacionalistas e do identitarismo e outras teorias pós-modernas que produzem uma imagem distorcida das relações sociais.
Os piores momentos de O Agente Secreto são aqueles em que o diretor se dedica a construir alegorias didáticas, que são politicamente vulgares e pouco convincentes. É o caso da casa de pensão comandada por Dona Sebastiana (Tânia Maria), que abriga Marcelo em Recife.
“É muito bom a gente poder ajudar”, diz Sebastiana ao lhe apresentar um quarto e um maço de dinheiro. Os “refugiados”, como são apresentados os moradores dessa espécie de comuna, são representações simbólicas dos grupos sociais identificados como oprimidos pelo poder vigente: um casal de exilados angolanos, um jovem LGBTQ expulso de casa, etc.
Nem os “refugiados” e nem a rede de apoio financeiro e logístico por trás dessa operação altamente arriscada possuem vínculos e objetivos políticos claros. Ao contrário, eles parecem ser movidos por valores abstratos de solidariedade que se sobrepõem deliberadamente à política. “Fui comunista, depois fui anarquista. Ou foi o contrário, não lembro,” diz Dona Sebastiana em um raro momento do filme em que questões dessa natureza são mencionadas. Essa inverossímil comunidade samaritana em meio à ditadura é um espelho, na realidade, das concepções políticas atuais da pseudoesquerda: sua rejeição reacionária do marxismo e seus apelos desmoralizados pela supressão de diferenças de princípio e unidade em torno de frentes burguesas “de esquerda” para combater o “mal maior” do fascismo.
Problemas semelhantes aparecem no antagonismo entre Marcelo e Ghirotti. O empresário paulista, em toda sua ignorância, reacionarismo, racismo e brutalidade, é uma representação genuína de um tipo social constituidor da elite brasileira. Contudo, O Agente Secreto tem pouco a dizer sobre a natureza dessas características sociais execráveis e parece indicar explicações suprahistóricas e racialistas.
No mesmo sentido, a obra de Mendonça Filho exacerba as diferenças históricas, econômicas e culturais entre o Nordeste e o Sudeste do Brasil, criando um antagonismo falso e reacionário. O filme dá a entender, por exemplo, que o ímpeto de Flávia por revelar os crimes históricos cometidos contra Marcelo não é determinado tanto pela consciência da sua importância política e histórica, mas por laços genéticos; diferente de uma colega que abandona a difícil investigação, Flávia – como parte substancial da massiva classe trabalhadora de São Paulo – é neta de migrantes nordestinos nascidos em Pernambuco.
Marcelo e seu laboratório de inovação tecnológica são representações de um projeto nacional desenvolvimentista no Brasil com o qual as políticas de privatização e “livre mercado” da ditadura militar entraram em choque. A Eletrobrás, empresa que Ghirotti busca usar em benefício de seus lucros privados, foi uma das grandes companhias estatais concebidas sob o governo nacionalista de Getúlio Vargas e efetivamente criada durante o governo de João Goulart, derrubado pelo golpe financiado pela CIA de 1964.
A ofensiva montada por Ghirotti ao laboratório de Marcelo parece ser motivada, acima de tudo, por um sentimento antinacionalista irracional. Essa não é uma temática nova na história política brasileira. A representação de uma falsa divisão entre um setor “nacionalista” e outro “entreguista” da burguesia nacional foi o carro chefe da política stalinista do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que desarmou a classe trabalhadora e preparou a tomada do poder pelos militares fascistas. Variantes dessa linha nacionalista burguesa falida permanecem sendo promovidas pelos defensores do PT.
A classe trabalhadora e a juventude no Brasil, que estão em um processo de radicalização política acelerado, só poderão responder efetivamente à ofensiva violenta do imperialismo americano e à guinada ditatorial da classe dominante brasileira se romperem com um programa nacionalista burguês e abraçarem a via do internacionalismo socialista.
Não atribuímos ao cinema e à arte em geral a tarefa de formular uma perspectiva política acabada para esse movimento de massas em gestação. O Agente Secreto, na medida em que fornece insights genuínos sobre relações sociais e históricas e dá certa forma a sentimentos políticos progressistas que inspiram massas da população brasileira e mundial, é uma contribuição relevante.
Leia mais
- Ainda Estou Aqui: um retrato sério da vida sob a ditadura militar no Brasil chega a milhões de pessoas
- No 60º aniversário do golpe militar de 1964: construir a seção brasileira do CIQI!
- Incêndio destrói Cinemateca Brasileira, maior acervo audiovisual da América do Sul: o resultado da política do governo de Bolsonaro
