Publicado originalmente em inglês em 4 de maio de 2026
Em 1º de maio, em um comentário que pareceu despretensioso, Donald Trump declarou abertamente as intenções de seu governo em relação a Cuba com aterradora clareza.
Em declarações para uma plateia endinheirada no Forum Club of the Palm Beaches, Trump referiu-se a “Cuba, que vamos tomar quase imediatamente”. O comentário provocou risos da plateia, levando-o a elaborar: “Cuba tem problemas. Vamos resolver um primeiro. Eu gosto de terminar o trabalho. Na volta do Irã, talvez o porta-aviões USS Abraham Lincoln chegue, pare a uns 100 metros da costa, e eles dirão: ‘Muito obrigado. Nós nos rendemos!’”
Longe de ser uma piada, o discurso resume a verdadeira trajetória da política externa dos EUA. No mesmo dia, Trump assinou uma ordem executiva designando Cuba como uma “ameaça incomum e extraordinária”, ampliando consideravelmente as sanções contra a ilha. A ordem visa não apenas o Estado cubano, mas também empresas estrangeiras que atuam nos setores de segurança, energia, finanças, mineração “ou qualquer outro setor… conforme determinado pelo Secretário do Tesouro, em consulta com o Secretário de Estado”.
Essa escalada ocorre após a declaração de estado de emergência nacional contra Cuba em janeiro, que ameaçou impor tarifas a qualquer país que fornecesse combustível à ilha.
No entanto, a mais recente ordem executiva marca uma mudança tática em relação às licenças anteriores, que permitiam canais limitados para a entrada de capital americano em Cuba por meio de entidades privadas. Essa aparente mudança de estratégia, que buscava cultivar camadas dentro da classe capitalista cubana e do aparato estatal dispostas a colaborar com Washington em uma operação de mudança de regime, representa uma forte escalada na ameaça de ação militar.
O desenvolvimento do fiasco dos EUA no Irã aumenta o perigo do que Trump acredita ser uma rápida capitulação de Havana e uma vitória política que ele poderá obter antes das eleições de meio de mandato em novembro.
Essas medidas políticas e econômicas estão se desdobrando em paralelo com uma maior militarização da região. Um dia antes das declarações de Trump, a Marinha dos EUA anunciou que sua “frota híbrida está pronta” após a conclusão dos exercícios Flex 2026 em Key West, no estado da Flórida — a apenas 145 quilômetros da costa norte de Cuba.
Os exercícios enfatizaram “maior alcance, decisões mais rápidas e ações decisivas” no Caribe e na América Central. Embora oficialmente enquadrados como operações antidrogas, os exercícios incorporaram sistemas avançados de inteligência artificial, plataformas não tripuladas e capacidades de integração de resposta rápida.
A escala, a localização e a sofisticação tecnológica dessas manobras contradizem seu propósito declarado. O Flex 2026 ocorreu em frente a Cuba, coincidindo com missões intensificadas de coleta de informações para mapear as defesas da ilha, incluindo voos de drones MQ-4C Triton e aeronaves de reconhecimento RC-135 Rivet Joint, amplamente utilizadas para preparar ataques de precisão.
O exercício Flex 2026 também testou um cenário de “destruição em cadeia” contra supostos “barcos do narcotráfico”, enquanto o Pentágono intensifica sua onda de execuções extrajudiciais que já matou pelo menos 186 pescadores no Caribe e no Pacífico, falsamente acusados de tráfico de drogas, evidenciando o caráter ilegal da atividade militar dos EUA na região.
A doutrina de “guerra híbrida” que está sendo testada — refinada por meio de conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio — agora está sendo direcionada a Cuba. Essa estratégia integra operações cibernéticas, guerra de inteligência, pressão econômica e força militar convencional em uma campanha unificada para a mudança de regime.
Esses acontecimentos expõem a fraude da retórica de “segurança hemisférica” de Washington. Em um contexto de intensificação das rivalidades globais e da erosão da hegemonia dos EUA, o Caribe está sendo mais uma vez transformado em um palco para agressões imperialistas.
Contudo, para além da importância geopolítica de Cuba, cujas águas controlam a maior parte do tráfego marítimo da Costa Leste e do Golfo dos EUA com destino ao Canal do Panamá, o imperialismo americano prepara um ataque histórico contra Cuba em retaliação à revolução de 1959.
No discurso de abertura do Ato Internacional Online de Primeiro de Maio, organizada pelo Comitê Internacional da Quarta Internacional, o presidente do Conselho Editorial do WSWS, David North, explicou:
Repudiamos o bloqueio a Cuba, o estrangulamento deliberado de todo um povo por meio do corte de combustível e de sanções. Mesmo depois de dois terços de um século, a classe dominante dos EUA nunca se reconciliou com a Revolução Cubana. Entre 1959 e 1960, o regime de Castro expropriou cerca de 1,8 bilhão de dólares em bens de empresas americanas. No mesmo golpe, a revolução desmantelou o império mafioso que floresceu sob a ditadura de Batista.
A escalada atual se baseia diretamente na visita da delegação da Casa Branca a Havana em 10 de abril — a primeira desde 2016 — que, na prática, entregou um ultimato de guerra ao governo cubano. Durante o encontro, autoridades americanas exigiram amplas concessões econômicas e políticas como pretexto para a escalada, incluindo a libertação de todos os presos políticos em poucas semanas, a maior abertura da economia e indenização por bens americanos expropriados.
O governo Trump buscou criar um pretexto para a guerra. Em meados de abril, a Casa Branca informou ao Congresso que Cuba teria supostamente auxiliado no recrutamento de 5 mil combatentes para a Rússia na guerra na Ucrânia. Na realidade, o governo cubano iniciou processos criminais contra indivíduos acusados de tráfico humano relacionado aos esforços de recrutamento.
Enquanto isso, a situação econômica da ilha continua a se deteriorar sob o peso do bloqueio americano. A chegada, no final de março, do navio-petroleiro russo Anatoly Kolodkin — autorizado por Trump a atravessar o bloqueio — proporcionou apenas um alívio passageiro, fornecendo combustível suficiente para aproximadamente dez dias após o refinamento. Um segundo navio-tanque a caminho de Cuba foi recentemente observado mudando de rota, permanecendo a semanas de distância com uma carga menor.
A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, denunciou a “chantagem e as ameaças” de Washington contra Havana, reafirmando a solidariedade formal de Moscou. Porém, os carregamentos limitados de combustível da Rússia são menos uma expressão principista de apoio do que uma moeda de troca em negociações mais amplas com os Estados Unidos sobre a Ucrânia, Oriente Médio e outros pontos de tensão geopolítica.
Diante da crescente pressão, Havana respondeu com uma política contraditória, combinando concessões e retórica nacionalista. Por um lado, autoridades cubanas abriram as portas para investimentos estrangeiros “sem restrições” e forneceram garantias a empresas americanas durante negociações secretas envolvendo setores do governo cubano.
Por outro lado, o governo emitiu alertas sobre um perigo militar iminente. No Dia Internacional dos Trabalhadores, o presidente cubano Miguel Díaz-Canel e seu antecessor, Raúl Castro, lideraram uma marcha de centenas de milhares de pessoas até a embaixada dos EUA, denunciando ameaças de intervenção militar e convocando a população a se preparar para defender o país.
Ao mesmo tempo, Havana continua a apelar para o apoio de potências rivais. No final de abril, durante um encontro em Moscou envolvendo organizações stalinistas e nacionalistas burguesas que formavam a chamada “Rede Socialista Internacional”, Fidel Castro Smirnov, neto de Fidel Castro, denunciou o embargo dos EUA, afirmando que ele custou a Cuba mais de US$144 bilhões e agora está “asfixiando” a ilha. As suas palavras — “Fidel está aqui conosco. Sonhando, seguindo em frente” — foram recebidas com aplausos em pé.
Essa participação ressalta os esforços da liderança cubana, juntamente com figuras como os sandinistas da Nicarágua e Evo Morales da Bolívia, para manter laços com Moscou enquanto lidam com a crescente agressão dos EUA.
Essas manobras revelam a falência fundamental da elite dominante cubana e de todas as lideranças nacionalistas burguesas. Enquanto uma ala apela à Rússia e à China, outra, segundo relatos, mantém conversas com Washington visando supervisionar uma transição para um regime pró-EUA, semelhante aos acontecimentos na Venezuela, onde setores da liderança chavista supervisionaram a transformação do país em uma semicolônia americana após o sequestro do presidente Nicolás Maduro.
A convergência de sanções, preparativos militares e ultimatos políticos deixa claro que o governo Trump está preparando o terreno para um confronto direto com Cuba. As ameaças abertas de Trump, a expansão da guerra econômica e o envio de recursos militares avançados para o Caribe apontam para o mesmo objetivo: a reimposição de um regime fantoche semelhante ao de Fulgencio Batista.
Para os trabalhadores em Cuba, nos Estados Unidos e em toda a América, esses acontecimentos levantam questões urgentes e decisivas. A defesa de Cuba não pode ser confiada a uma liderança que busca acomodação com o imperialismo, nem a qualquer setor do establishment do Partido Democrata que há muito tempo apoia a mudança de regime em Cuba.
A luta contra a guerra e o imperialismo exige a mobilização independente da classe trabalhadora em escala internacional, utilizando seu poder econômico para pôr fim ao embargo dos EUA contra Cuba e a qualquer agressão militar.
