Estamos publicando a seguir o discurso proferido por David North, presidente do Conselho Editorial Internacional do World Socialist Web Site, na abertura do Ato Online do Dia Internacional dos Trabalhadores realizado pelo WSWS e pelo Comitê Internacional da Quarta Internacional em 1° de maio.
Camaradas, trabalhadores, jovens, amigos e apoiadores do Comitê Internacional da Quarta Internacional de todos os continentes aqui reunidos: Iniciamos este ato de Primeiro de Maio com uma declaração de solidariedade a todos aqueles que hoje estão na linha de frente da resistência contra a violência imperialista e a reação capitalista.
Em nome da classe trabalhadora internacional, denunciamos a guerra de agressão imperialista travada pelos Estados Unidos e por Israel, com o apoio de todas as outras potências imperialistas, contra o Irã. A classe trabalhadora não pode ter dúvida quanto à sua posição nesta guerra: ela defende incondicionalmente o direito do povo iraniano de defender seu país contra o ataque terrorista lançado em 28 de fevereiro de 2026. Esta é uma guerra que viola todos os princípios do direito internacional. Trata-se de um crime contra a paz, definido no julgamento dos líderes nazistas de 1945-46 em Nuremberg como o Crime Internacional Supremo.
Em 7 de abril, Trump declarou em um comunicado escrito: “Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser trazida de volta”. Essas palavras viverão para sempre na infâmia. Essa ameaça horrível foi a expressão politicamente mais obscena da brutalidade com que esta guerra foi conduzida pelos Estados Unidos e seus cães de ataque israelenses-sionistas.
Desde o início da guerra, mais de 13.000 alvos no Irã foram atingidos. Ao menos 3.375 iranianos foram mortos, incluindo 376 crianças. O número de feridos ultrapassa 26.000.
O bombardeio de cidades iranianas, o assassinato de seus cientistas e líderes políticos e seus familiares, a morte de crianças, a destruição da infraestrutura do Irã e o mergulho de toda uma região na guerra são atos deliberados de potências imperialistas que buscam impor seu domínio por meio de assassinatos em massa.
Denunciamos com a mesma veemência o ataque genocida em curso contra o povo palestino em Gaza e contra o povo do Líbano. Os crimes cometidos pelo Estado de Israel, com o pleno apoio e a participação ativa dos Estados Unidos e das potências europeias — o assassinato de dezenas de milhares de crianças palestinas, a destruição deliberada de hospitais, escolas, sistemas de água e habitações, e o uso da fome como arma de guerra — constituem atrocidades que estabelecem irrefutavelmente o caráter historicamente reacionário do projeto sionista etnonacionalista.
Honramos também hoje a memória das vítimas não identificadas assassinadas nas águas ao largo da costa da América Latina — mais de 180 pescadores e trabalhadores — despedaçados em seus pequenos barcos por mísseis americanos no Caribe e no Pacífico, no que o Pentágono chama cinicamente de “ataques preventivos” contra o tráfico de drogas. As vítimas não têm nome na imprensa imperialista. Suas famílias não receberam nenhum pedido de desculpas, nenhuma indenização, nenhum reconhecimento de que existiram. Mas eram trabalhadores tentando sustentar suas famílias, massacrados pelo exército mais poderoso da Terra em nome de uma campanha de terror contra os povos da América Latina.
Repudiamos o bloqueio a Cuba, o estrangulamento deliberado de todo um povo por meio do corte de combustível e de sanções. Mesmo depois de dois terços de um século, a classe dominante dos EUA nunca se reconciliou com a Revolução Cubana. Entre 1959 e 1960, o regime de Castro expropriou cerca de 1,8 bilhão de dólares em bens de empresas americanas. No mesmo golpe, a revolução desmantelou o império mafioso que floresceu sob a ditadura de Batista.
Os cassinos foram fechados, os hotéis nacionalizados, os mafiosos presos ou expulsos, e estima-se que 100 milhões de dólares em investimentos da Máfia desapareceram dos registros da noite para o dia. O pior é que o regime revolucionário teve a audácia de fechar os bordéis que atendiam turistas americanos ricos, militares, executivos de empresas e congressistas dos EUA. O imperialismo americano jamais perdoou o povo cubano por essa insolência, por essa violação imperdoável do privilégio imperialista.
Denunciamos o sequestro do presidente Nicolás Maduro, da Venezuela, capturado durante uma campanha de bombardeio em Caracas em 3 de janeiro e entregue à CIA e aos saqueadores corporativos da Chevron e da Shell — um ato explícito de pirataria imperialista. Esses crimes incorporam a ilegalidade que hoje prevalece no mundo. A “ordem internacional baseada em regras”, da qual as potências imperialistas falam com tanta solenidade, revelou-se uma fraude gigantesca. A única lei que opera é a lei da força, exercida por uma oligarquia capitalista que não reconhece nenhuma restrição, nenhuma fronteira, nenhuma constituição, nenhum tribunal e nenhuma vida humana como obstáculos aos seus interesses.
Manifestamos, neste Primeiro de Maio, nossa solidariedade a todos os trabalhadores que hoje são vítimas da perseguição da guerra de classes — àqueles que foram presos, colocados em listas negras, demitidos, deportados, incriminados e encarcerados pelo crime de resistir à exploração, opor-se à guerra ou defender os direitos democráticos da classe trabalhadora.
Enviamos nossas saudações ao nosso camarada Bogdan Syrotiuk, o jovem líder trotskista ucraniano da Jovem Guarda dos Bolcheviques-Leninistas, preso há mais de dois anos pelo regime de Zelensky por sua corajosa oposição à guerra fomentada pela OTAN e por sua defesa da unidade dos trabalhadores russos e ucranianos. A alegação dos promotores do Estado ucraniano de que Bogdan apoia a invasão russa foi amplamente desmascarada por sua defesa legal. As declarações de Bogdan publicadas no World Socialist Web Site refutam as acusações contra ele. Ele é um opositor tão intransigente do regime capitalista de Putin quanto do governo fantoche pró-imperialista de Zelensky. Convocamos a classe trabalhadora a lutar pela liberdade de Bogdan.
Enviamos nossa solidariedade aos líderes operários presos na Turquia. Exigimos a libertação imediata de Mehmet Türkmen, presidente do Sindicato Unido dos Trabalhadores Têxteis, de Tecelagem e do Couro (BİRTEK-SEN), detido em meados de março e que agora pode ser condenado à prisão e e proibido de exercer atividades políticas pelo “crime” de dizer aos trabalhadores a verdade sobre o conluio entre corporações, o Estado e a burocracia sindical. Saudamos Başaran Aksu, o corajoso líder do Sindicato Independente dos Trabalhadores das Minas (Bağımsız Maden-İş) e coordenador organizativo do UmutSen, que liderou a histórica marcha dos mineiros de Doruk da cidade de Eskişehir até a capital, Ancara, e foi preso repetidas vezes no período recente. Saudamos com entusiasmo a notícia de que as reivindicações dos mineiros foram atendidas.
Mas as lutas continuam. Exigimos a libertação de Esra Işık, a jovem líder que defende as florestas e os meios de subsistência dos aldeões contra o saque das mineradoras, e de todos os prisioneiros da guerra de classes detidos pelo regime de Erdoğan. Suas prisões fazem parte de uma ofensiva deliberada da classe dominante turca contra um movimento operário independente em reemergência, ofensiva que se intensificou à medida que a Turquia é atraída cada vez mais para a guerra imperialista contra o Irã.
Nos Estados Unidos, não há trégua na perseguição aos imigrantes. Declaramos nossa solidariedade a Hayam El Gamal e seus cinco filhos, que neste momento estão sendo submetidos a uma campanha de punição coletiva pelo governo Trump. Em flagrante desafio a inúmeras ordens judiciais, o governo Trump continua seus esforços para deportá-los. A perseguição a essa família, que não cometeu nenhum crime, pretende ser um aviso a toda a classe trabalhadora: que nenhuma proteção constitucional, nenhuma ordem judicial, nenhum direito democrático serão tolerados como obstáculo aos métodos de Estado policial que estão sendo preparados contra todos os trabalhadores nos Estados Unidos, cidadãos e não cidadãos igualmente.
Exigimos, portanto, a libertação imediata e incondicional de cada trabalhador imigrante, de cada estudante, de cada homem, mulher e criança capturado na rede do ICE e hoje mantido na rede de campos de concentração construída nos Estados Unidos. Dizemos: fechem North Lake; fechem Dilley; fechem Folkston, Otay Mesa, Krome, “Alligator Alcatraz” e todas as instalações onde seres humanos são detidos sem acusação, sem julgamento e sem esperança. A luta para libertar os detidos é a luta pela defesa dos direitos democráticos de toda a classe trabalhadora.
Por fim, renovamos hoje nossas condolências às famílias de Renée Nicole Good e Alex Pretti, assassinados por agentes do ICE e da Patrulha de Fronteira em Minneapolis. Suas mortes não serão esquecidas. Eles não terão morrido em vão.
A oposição à guerra imperialista, a defesa inabalável dos direitos democráticos e a luta contra todas as formas de opressão de classe animam nossa celebração do Primeiro de Maio. É com esse espírito que abrimos o ato de hoje.
No entanto, a celebração do Primeiro de Maio não deve se limitar a declarações de solidariedade internacional. Deve ser também a ocasião para uma análise objetiva da situação mundial atual, pois é com base nessa análise que se formula a estratégia da classe trabalhadora. Essa tarefa adquire hoje a maior urgência, já que este Primeiro de Maio se realiza em meio a um estágio crítico da crise do sistema capitalista mundial.
A guerra contra o Irã e o encerramento de um período de 35 anos
A guerra contra o Irã marca o encerramento de um período histórico distinto de 35 anos que começou com a dissolução da URSS em 1991.
A guerra contra o Irã não pode ser compreendida como um episódio isolado, nem como a política de um determinado presidente, nem meramente como produto do lobby israelense. O regime israelense e seus lobistas nos Estados Unidos, naturalmente, têm agitado por uma guerra contra o Irã há décadas. Mas a narrativa que circula hoje tanto na direita antissemita e nacionalista do “America First” quanto em setores da pseudoesquerda pequeno-burguesa — de que a guerra foi imposta a um establishment de política externa americana relutante pelo AIPAC [Comitê de Assuntos Públicos Estados Unidos–Israel, um grupo de lobby pró-Israel nos EUA], Netanyahu e o Estado israelense — é inteiramente falsa e serve de apologia ao imperialismo americano. Implica que, se não fosse por Israel, a política externa dos Estados Unidos estaria repleta de benevolência.
Essa narrativa absurda desvia o movimento antiguerra da luta contra o imperialismo americano — a principal força contrarrevolucionária do mundo — em direção a um compromisso com ele. Implica que nada mais seria necessário além de remover a influência dos sionistas.
Esse conto de fadas político se desfaz ao menor exame do registro histórico. Primeiro, a classe dominante dos EUA não precisa de conselhos — muito menos de incentivos — de ninguém sobre como e quando empregar a violência assassina. É a maior especialista mundial na organização da violência em massa, com um histórico sangrento que remonta ao genocídio filipino na primeira década do século 20, aos brutais esforços para suprimir a Revolução Mexicana na década de 1910, às repetidas invasões da América Central e do Sul, ao lançamento de duas bombas atômicas sobre o Japão, ao assassinato de 3 milhões de coreanos entre 1950 e 1953 e de número igual de vietnamitas entre 1961 e 1973. E há ainda todas as guerras travadas no Oriente Médio nos últimos 30 anos.
Para esclarecer os fatos históricos: o próprio Israel é uma criação dos Estados Unidos, que o armaram e financiaram por 78 anos. Ele tem funcionado como um posto avançado militarizado do imperialismo americano no Oriente Médio.
Ademais, o imperialismo dos EUA jamais se reconciliou com a Revolução Iraniana de 1979, que derrubou o regime fantoche do Xá, posto no poder pelo golpe orquestrado pela CIA em 1953. O Irã foi nomeado entre os principais adversários em cada declaração de Estratégia de Segurança Nacional dos EUA desde 2006. Foi alvo de operações secretas, um regime de sanções, assassinatos e ameaças militares sob os governos de Clinton, Bush, Obama, no primeiro mandato de Trump, Biden e agora no segundo mandato de Trump. A guerra contra o Irã é o corolário da política bipartidária do imperialismo americano, perseguida por mais de três décadas.
Mas, em seu sentido mais fundamental, a guerra imperialista não é mero produto de decisões subjetivas, influências malignas e políticas ruins. É antes o resultado e a expressão das duas contradições objetivas essenciais do próprio sistema capitalista: primeiro, entre a propriedade privada das forças produtivas e o caráter social da produção; e, segundo, a contradição entre o caráter global da produção econômica e o sistema de Estados-nação dentro do qual o poder político e a acumulação de capital continuam a ser organizados. A globalização da produção nas últimas cinco décadas integrou o trabalho dos operários de todos os continentes em um único processo planetário, interligado por cadeias de suprimentos, fluxos financeiros e redes de informação de uma densidade sem precedentes.
Todo o desenvolvimento econômico e político dos últimos 35 anos corroborou essa análise marxista da dinâmica da crise global.
A dissolução da União Soviética em 1991 foi proclamada pela classe dominante americana como um triunfo histórico do capitalismo. O pretenso “fracasso do socialismo”, afirmava-se, abriu caminho para a restauração do mundo capitalista tal como era antes da Revolução Socialista de Outubro. Tudo o que havia ocorrido após a revolução — a ascensão da classe trabalhadora internacional, o monumental movimento global das massas oprimidas contra o imperialismo e os avanços sociais conquistados após a derrota da Alemanha nazista em 1945 e a vitória da Revolução Chinesa em 1949 — seria revertido.
No entanto, essa perspectiva catastrófica se baseava em uma avaliação falsa das causas da dissolução da URSS e de seu significado global. O que fracassou na União Soviética não foi o socialismo, mas o regime stalinista do nacionalismo antissocialista, que era uma repudiação do internacionalismo marxista que havia inspirado a Revolução de Outubro. O programa stalinista do “socialismo em um só país”, que desvinculou a construção do socialismo na URSS da luta internacional da classe trabalhadora contra o capitalismo global, provou ser econômica e politicamente falido.
Baseando-se na análise de Trotsky sobre a traição stalinista à Revolução de Outubro, o Comitê Internacional da Quarta Internacional previu claramente as consequências das políticas nacionalistas da burocracia soviética. Em 1987, quatro anos antes da dissolução da URSS, ele declarou:
A escassez de tecnologia e as persistentes contradições entre a indústria e a agricultura só podem ser resolvidas por meio do acesso ao mercado mundial. Existem apenas dois caminhos para a integração da União Soviética nesse mercado: o de Gorbachev, que conduz à restauração capitalista, e o da revolução socialista mundial.
Gorbachev tomou o primeiro caminho. A dissolução da URSS em dezembro de 1991 foi a consumação dessa traição: a burocracia stalinista, que havia começado como coveira da Revolução de Outubro, terminou como a fração mais corrupta e voraz da nova oligarquia russa, liderada hoje por Putin.
Para o imperialismo americano, a mesma contradição subjacente produziu uma resposta diferente, mas igualmente não determinada pelo livre arbítrio. Confrontado com a erosão irreversível de sua supremacia econômica — a ascensão dos concorrentes industriais japoneses e alemães, a emergência da China como poderosa força econômica e industrial, o esvaziamento da produção doméstica, o peso crescente dos déficits comerciais e orçamentários —, o capitalismo americano não conseguia recuperar sua posição por meios econômicos. O único instrumento que ainda possuía com preponderância esmagadora era a força militar.
As três décadas seguintes de militarismo destruíram o Iraque, a Iugoslávia, o Afeganistão, a Líbia, a Síria, a Ucrânia e outros países. Além de terem tirado milhões de vidas, destruído sociedades inteiras e gerado a maior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial, essas guerras terminaram em desastres e não conseguiram reverter a sorte do imperialismo americano.
As bombas e mísseis americanos causaram devastação em todo o mundo. Mas, paralelamente às operações militares do imperialismo americano, crescia a crise do capitalismo americano e mundial. A escalada imperialista foi acompanhada por uma série de crises financeiras cada vez mais profundas: a crise do peso mexicano de 1994, a crise asiática de 1997, o calote russo e o colapso do Long-Term Capital Management em 1998, o estouro da bolha das empresas de internet em 2000, a crise financeira global de 2008, a crise da dívida soberana europeia de 2010-12, o choque da pandemia de 2020 e os sinais acumulados de uma crise do sistema do dólar desde 2022.
A manifestação mais visível e ameaçadora da crise global centrada nos EUA é o crescimento vertiginoso da dívida nacional. Em 2001, ela estava em torno de 5,8 trilhões de dólares. Hoje se aproxima de 40 trilhões de dólares. Uma manifestação ainda mais historicamente e economicamente significativa da crise do capitalismo americano é o preço do ouro. Na Conferência de Bretton Woods de 1944, que estabeleceu o status do dólar como moeda de reserva mundial, o valor de uma onça de ouro foi fixado em US$ 35.
Esse valor prevaleceu até que o governo Nixon abandonou o sistema de Bretton Woods em 1971. Isso pôs em movimento uma ascensão implacável do preço do ouro, que no último ano assumiu caráter explosivo. O preço de uma onça de ouro está hoje em aproximadamente US$ 4.600. Em outras palavras, o valor do dólar em relação ao ouro — que por vários milhares de anos funcionou como medida de valor — caiu mais de 99% em pouco mais de meio século.
Esse é o marco dentro do qual os 35 anos de 1991 a 2026 devem ser compreendidos. Eles constituem um único processo histórico: a tentativa do capitalismo americano de superar, pela aplicação da violência militar, uma contradição que não conseguia superar por meios econômicos. As guerras são partes essenciais de uma trajetória contínua, impulsionada pela mesma contradição não resolvida entre a economia mundial e o sistema de Estados-nação que produziu as duas guerras mundiais do século XX.
Guerra no exterior e ditadura em casa
Mas a guerra contra o Irã não é apenas mais um episódio de uma longa série de operações militares. As repercussões desta guerra conferem a este conflito um caráter explicitamente global — especificamente, uma guerra global travada pelas potências imperialistas contra a classe trabalhadora internacional. Desde 13 de abril, a Marinha dos Estados Unidos bloqueou os portos iranianos no Golfo Pérsico. As consequências já são sentidas por bilhões de pessoas que não tiveram nenhuma participação no início desta guerra.
O impacto mais grave da guerra recai sobre a segurança alimentar no mundo em desenvolvimento. O bloqueio resultará no agravamento das fomes já em curso em Gaza e no Sudão, na transição de mais países de uma situação de crise para níveis de emergência ou catástrofes de insegurança alimentar, e em um aumento da mortalidade concentrado entre crianças e idosos em muitos países nos próximos 12 a 18 meses.
Essas consequências são resultado direto de decisões tomadas em Washington e Jerusalém. As pessoas que pagarão por essas decisões, com fome e com suas vidas, são agricultores da África Oriental, famílias do Sul da Ásia e crianças de países que não tiveram qualquer participação no conflito original.
A guerra contra o Irã expôs não apenas os objetivos predatórios do imperialismo americano no exterior, mas a realidade social e política do regime que a conduz internamente. Trump é o produto, a personificação e o corolário de um processo prolongado — econômico, social e político — enraizado no colapso do capitalismo americano e na putrefação de sua classe dominante.
A estrutura política dos Estados Unidos está sendo alinhada com seus fundamentos sociais: a dominação da sociedade por uma pequena oligarquia que controla uma riqueza descomunal e considera todas as restrições legais, democráticas e morais como impedimentos intoleráveis aos seus interesses. A ascensão de Trump é a expressão dessa realidade.
A guerra contra o Irã está sendo financiada por meio de um ataque frontal aos direitos sociais da classe trabalhadora. O orçamento de Trump para o ano fiscal de 2027 solicita aproximadamente 1,5 trilhão de dólares para a “defesa” — o maior nível de gastos militares da história americana moderna e uma escalada massiva dos preparativos não apenas para a guerra contra o Irã, mas para uma guerra global contra a China e a Rússia. Este é, no sentido mais direto, um orçamento para uma guerra mundial.
E como isso será pago? O próprio Trump respondeu com brutal franqueza. Os programas sociais, declarou, devem ser sacrificados porque “estamos travando guerras”, e insistiu: “Não é possível cuidarmos de creches, Medicaid, Medicare. ... Temos que cuidar de uma coisa: proteção militar.” Medicare, Medicaid, Seguridade Social, educação, habitação e toda proteção social mínima conquistada pela classe trabalhadora ao longo do último século serão saqueados para financiar o militarismo, o enriquecimento da oligarquia e o aparato repressivo do Estado.
O que está ocorrendo nos Estados Unidos não é simplesmente uma crise política nacional. É uma convulsão de importância histórica mundial. Os Estados Unidos, outrora estabilizadores do capitalismo mundial, tornaram-se a maior fonte de instabilidade global. O colapso das formas democráticas nos Estados Unidos, a guinada para o gangsterismo aberto na política, a subordinação de toda a vida social aos interesses da oligarquia e o impulso para redividir o mundo pela violência militar expressam a crise de toda a ordem capitalista em sua forma mais concentrada e explosiva.
Os mesmos processos subjacentes são evidentes em todos os principais países capitalistas. A crise do capitalismo é internacional, e o mesmo vale para a tendência à ditadura e à guerra. A classe dominante europeia está abandonando rápida e descaradamente sua fraseologia hipócrita de pacifismo, revivendo suas longas tradições de militarismo imperialista e proclamando que a classe trabalhadora e a juventude devem estar preparadas para lutar e morrer como seus avós e bisavós fizeram nas duas guerras mundiais do século passado. Isso não é mera retórica. As potências europeias da OTAN já estão engajadas em uma guerra de facto contra a Rússia. A Ucrânia foi transformada no equivalente, para a OTAN, do papel desempenhado por Israel no Leste Europeu.
Em sua análise das experiências históricas do século passado, o Comitê Internacional destacou que as mesmas contradições que produziram a Primeira Guerra Mundial em 1914 resultaram na revolução socialista na Rússia em 1917. A mesma dinâmica histórica está em ação hoje. A crise global do capitalismo que subjaz à erupção da violência imperialista também prepara a explosão da luta revolucionária pela classe trabalhadora internacional.
A segunda metade da década da revolução socialista
No início da década de 2020, o World Socialist Web Site antecipou o surgimento de uma renovação do movimento revolucionário da classe trabalhadora internacional. Ultrapassamos agora a metade da década. O Comitê Internacional está convencido de que o desenvolvimento objetivo da crise global está corroborando essa perspectiva.
Os primeiros cinco anos da década foram dominados por uma intensificação da marcha das elites dominantes em direção à reação política. Não se tratou de uma série de acidentes ou da obra de demagogos isolados, mas da resposta sistêmica de uma oligarquia global incapaz de resolver o aprofundamento da crise do capitalismo por meios democráticos. A pandemia de COVID-19, durante a qual governos subordinaram milhões de vidas às exigências do lucro corporativo, expôs a oposição irreconciliável entre os interesses sociais da classe trabalhadora e os interesses financeiros de uma minoria dominante.
A eclosão da guerra na Ucrânia, o genocídio em Gaza, o bombardeio do Irã, o sequestro do presidente Maduro da Venezuela e as ameaças contra o México, a Groenlândia, o Panamá e Cuba revelaram que as potências imperialistas, lideradas pelos Estados Unidos, estão respondendo à crise por meio de uma redivisão violenta do mundo.
Nos centros imperialistas, essa ofensiva externa tem sido inseparável de uma guinada ao autoritarismo interno: o retorno de Trump e a construção aberta de uma ditadura presidencial nos Estados Unidos; a ascensão de Milei na Argentina, de Meloni na Itália e de governos de extrema direita em toda a Europa; o desmantelamento sistemático dos direitos democráticos, a militarização da polícia, a perseguição a imigrantes e a criminalização da dissidência. Enquanto isso, a riqueza global dos bilionários disparou para 18,3 trilhões de dólares em 2025, mesmo com demissões em massa, destruição de empregos impulsionada pela inteligência artificial, inflação e desmantelamento de programas sociais intensificando o ataque às condições de vida de bilhões de trabalhadores.
É inegável que a primeira metade da década testemunhou uma erupção de reação capitalista e militarismo imperialista. A guerra mundial não é uma ameaça futura, mas uma realidade que se desdobra no presente. Mas as mesmas contradições do sistema capitalista que se manifestam na guerra e na repressão também provocaram uma erupção da luta de classes global.
A segunda metade da década está sendo cada vez mais caracterizada pela erupção da tendência contrária — a luta social em escala internacional. Em 1845, Marx escreveu: “Com a profundidade da ação histórica, crescerá o tamanho da massa cuja ação ela é.” Em uma confirmação inicial dessa perspectiva, massas de trabalhadores estão sendo atraídas para a luta social e política.
No primeiro trimestre de 2026, ocorreram 458 greves em apenas oito países europeus, incluindo cinco greves gerais a nível nacional ou regional. Isso representa uma aceleração mensurável em relação a períodos comparáveis de 2025. O primeiro trimestre de 2026 já produziu greves gerais nacionais na Bélgica (12 de março) e na Itália (9 de março), greves gerais regionais na Andaluzia e no País Basco, ambos na Espanha (8 e 17 de março), uma greve geral no norte do Chipre e uma greve geral nacional na Argentina em fevereiro — uma densidade de greves gerais em um único trimestre que supera o ritmo já considerável de 2025. Aproximadamente 1,7 milhão de funcionários públicos do estado indiano de Maharashtra entraram em greve.
Com base em índices objetivos — número de greves, tamanho das mobilizações, distribuição geográfica, amplitude setorial, duração, margens de aprovação de greves e frequência de confrontos com as forças do Estado — os primeiros meses de 2026 representam uma escalada clara e mensurável do conflito de classes em relação aos níveis de 2025.
Houve manifestações em massa contra o ICE nos Estados Unidos, atraindo milhões de pessoas, incluindo 8 milhões na mobilização “Sem Reis” de 28 de março. Houve greves de 42.000 trabalhadores da Universidade da Califórnia e de 31.000 trabalhadores de saúde da Kaiser.
Essas lutas são uma expressão objetiva de uma classe trabalhadora internacional entrando em combate contra as condições impostas pela mesma crise que impulsiona a oligarquia em direção ao fascismo e à guerra. Essas lutas se desenrolam em todos os continentes e em todos os setores principais da economia, simultaneamente e cada vez mais em conflito direto não apenas com empregadores e governos, mas também com as burocracias sindicais que funcionam como uma força policial corporativa antigreve.
A questão decisiva do presente período é qual dessas duas tendências prevalecerá. A classe dominante respondeu ao aprofundamento da crise de seu sistema com fascismo e guerra, a militarização da sociedade, a supressão dos direitos democráticos, o ataque a imigrantes e dissidentes políticos e a preparação de conflitos que carregam em si a ameaça de catástrofe nuclear. A classe trabalhadora está respondendo com a única força capaz de deter essa trajetória rumo ao desastre — a mobilização de seu próprio poder social coletivo. O resultado não está predeterminado. Será definido pelas lutas em curso e pela consciência política, organização e liderança que a classe trabalhadora desenvolver no curso dessas lutas.
O que se pode afirmar com certeza é que o período de equilíbrio social relativo chegou ao fim. As condições objetivas identificadas no início da década — o colapso da ordem capitalista do pós-guerra, a impossibilidade de continuar os antigos métodos de governar, a necessidade de transformação revolucionária ou de mergulho na barbárie — não apenas foram confirmadas, mas se intensificaram. Os primeiros meses de 2026 marcam o ponto em que a resistência da classe trabalhadora emergiu como uma força global, enfrentando a ofensiva da oligarquia em uma escala que coloca as questões fundamentais da época — guerra ou paz, ditadura ou democracia, socialismo ou barbárie — diretamente na agenda histórica.
Construir a Quarta Internacional!
Os cínicos e céticos desmoralizados da pseudoesquerda pequeno-burguesa descartarão essa perspectiva como fantasia. Prostrando-se perante a classe dominante, são firmes crentes na invencibilidade e permanência do capitalismo. Sua atitude em relação à classe trabalhadora é uma mistura de medo e desprezo.
Mas a perspectiva revolucionária do movimento trotskista, liderado pelo Comitê Internacional da Quarta Internacional, está fundamentada na avaliação mais realista dos processos econômicos e sociais objetivos que operam em escala global.
A mesma globalização da produção que impulsionou as contradições da ordem existente produziu — como um fato objetivo e estrutural — a maior classe trabalhadora internacional da história da humanidade. O número precisa ser compreendido concretamente. Desde 1980, o desenvolvimento das forças produtivas mundiais aumentou o tamanho da classe trabalhadora em mais de 2 bilhões de pessoas. Pela primeira vez na história da humanidade, a maioria da população mundial vive em cidades, número que cresce em milhões a cada semana.
Mais de 500 cidades têm agora populações superiores a 1 milhão de habitantes, representando cerca de um quarto da humanidade; pelo menos 31 delas são megacidades com mais de 10 milhões de habitantes, e estima-se que 90% do comércio mundial flua por algumas dezenas desses centros. Estima-se que 1 bilhão de trabalhadores africanos entrarão na força de trabalho global nas próximas décadas. Os bilhões de trabalhadores que se deslocaram do campo atrasado da Índia, China, América Latina e África para os circuitos globalizados da produção, como o WSWS caracterizou, “saltaram séculos em uma única geração”.
Processos sociais e econômicos objetivos estão gerando lutas revolucionárias. A deterioração cotidiana do nível de vida, a escala descomunal da desigualdade social, a corrupção grotesca e os crimes da classe dominante estão provocando a indignação e a fúria das massas.
Mas essa indignação precisa ser desenvolvida em uma luta politicamente consciente e internacionalmente unificada contra o capitalismo.
E isso traz à tona o problema central desta época histórica: a resolução da crise de direção revolucionária na classe trabalhadora. É preciso romper o domínio dos velhos e reacionários instrumentos do regime capitalista — os partidos capitalistas existentes, as burocracias sindicais, as organizações do nacionalismo burguês, os inúmeros agrupamentos pequeno-burgueses. É preciso estabelecer a independência política da classe trabalhadora em relação a todos os agentes da classe dominante.
Isso exige a construção da Quarta Internacional, o movimento trotskista mundial liderado pelo Comitê Internacional. Em seu programa está concentrado um vasto acervo de experiências revolucionárias que abarca um século de luta.
Reconhecemos que as seções do Comitê Internacional ainda não são partidos de massa. Mas isso não é uma falha — é a expressão do longo período de reação política durante o qual as velhas burocracias socialdemocratas, stalinistas, trabalhistas e sindicais conseguiram suprimir a luta de classes.
Mas, como Trotsky afirmou: “As leis da história são mais poderosas do que os aparatos burocráticos.” A intensificação da crise capitalista está radicalizando as massas, e isso criará as condições para um imenso crescimento do movimento trotskista.
Em maio de 1940, no Manifesto da Quarta Internacional, escrito por Trotsky apenas três meses antes de seu assassinato por um agente stalinista, o incomparável estrategista da revolução socialista mundial explicou:
Na história, a guerra não raramente foi a mãe da revolução precisamente porque abala regimes obsoletos até seus alicerces, enfraquece a classe dominante e acelera o crescimento da indignação revolucionária entre as massas oprimidas.
Uma situação desse tipo está emergindo. O simples fato de a classe dominante americana ter colocado um gangster na Casa Branca e confiado a gestão de seus assuntos ao submundo é a prova irrefutável de sua falência histórica.
Diante dos maiores obstáculos, o Comitê Internacional da Quarta Internacional tem trabalhado incansavelmente para preparar os setores avançados da classe trabalhadora para a crise presente. Criamos o World Socialist Web Site, que nos últimos 28 anos serviu como instrumento incomparável de análise política e orientação estratégica. Ele travou uma luta incessante para preservar a herança do marxismo e a continuidade histórica da luta pelo socialismo.
Os partidos filiados ao Comitê Internacional estiveram à frente da luta contra as burocracias sindicais pró-imperialistas e corporativistas por meio do desenvolvimento da Aliança Operária Internacional de Comitês de Base (AOI-CB). Seu objetivo não é influenciar as burocracias sindicais existentes, mas organizar uma insurreição de base contra elas e transferir o poder para os comitês de fábrica e outros locais de trabalho.
A Juventude e Estudantes Internacionais pela Igualdade Social (JEIIS), orientada pelo CIQI, educa a geração mais jovem como marxistas, oferece uma alternativa revolucionária às políticas desmoralizantes da política de protesto e direciona suas energias para as lutas da classe trabalhadora.
O CIQI desenvolveu “Socialism AI”, lançado no World Socialist Web Site em dezembro de 2025. Enquanto a classe dominante utiliza a IA com o objetivo de enriquecer a si mesma, empobrecer os trabalhadores e intensificar a exploração, o Comitê Internacional está utilizando o vasto potencial dessa tecnologia para avançar e acelerar a luta pelo socialismo.
Todos os diferentes elementos do trabalho do Comitê Internacional estão direcionados ao objetivo de construir a Quarta Internacional como o Partido Mundial da Revolução Socialista que derrotará a barbárie capitalista e assegurará o futuro da humanidade. Esse partido será construído pelos trabalhadores, pela juventude e pelos intelectuais socialistas que tirarem as conclusões necessárias das experiências desta época e tomarem seu lugar em suas fileiras.
Aos trabalhadores que lutam contra o ICE, aos grevistas nos piquetes, aos estudantes que se opõem ao genocídio nos campi universitários, aos milhões nas ruas de todos os continentes: a questão colocada agora não é se devemos lutar, mas como lutar e sob qual bandeira.
Nossa resposta a essas questões é esta: o caminho a seguir é a luta consciente e organizada da classe trabalhadora internacional pelo poder. A bandeira é a da Quarta Internacional.
Construam seções do Comitê Internacional da Quarta Internacional em todos os países. Assumam a luta pelo socialismo. Em frente rumo à revolução socialista mundial!
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