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A Turquia, a guerra contra o Irã e o ressurgimento da luta de classes

Estamos publicando a seguir o discurso proferido por Ulaş Sevinç, presidente do Sosyalist Eşitlik Partisi – Dördüncü Enternasyonal (Partido Socialista pela Igualdade – Quarta Internacional), no Ato Online do Dia Internacional dos Trabalhadores de 2026, realizado pelo Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI) e pelo World Socialist Web Site (WSWS) em 1º de maio.

Discurso de Ulaş Sevinç no Ato Internacional Online de Primeiro de Maio de 2026. Os discursos foram traduzidos para 14 idiomas, incluindo o português.

Em nome do Sosyalist Eşitlik Partisi–Dördüncü Enternasyonal (Partido Socialista pela Igualdade – Quarta Internacional), celebramos o Primeiro de Maio com os trabalhadores de todo o mundo e enviamos nossas saudações revolucionárias a todos. Estamos celebrando este Primeiro de Maio em meio à guerra imperialista contra o Irã, em condições em que a classe trabalhadora turca está se libertando de décadas de opressão e entrando em cena, ao que a classe dominante e seu aparato estatal têm respondido com uma ofensiva violenta.

A resistência dos trabalhadores da Mineradora Doruk, que partiram de Eskişehir em 13 de abril e caminharam cerca de 190 quilômetros até Ancara para lutar por seus salários atrasados e outros direitos usurpados, colocou a luta de classes no centro da agenda do país. A população de Ancara, bem como artistas, acadêmicos e trabalhadores de outras fábricas, declararam sua solidariedade aos trabalhadores da Mineradora Doruk, liderados pelo Sindicato Independente dos Trabalhadores da Mineração. O governo respondeu com gás lacrimogêneo, bloqueios policiais e prisões.

Foto da marcha dos trabalhadores da Mineradora Doruk, em 14 de abril de 2026.

Essa luta faz parte de um movimento operário independente em ascensão. A luta de classes, que foi sufocada durante anos pela repressão estatal, pelas traições das burocracias sindicais e pela política identitária, está ressurgindo. No início deste ano, os mineiros da Polyak em İzmir romperam uma barricada da polícia, assumiram o controle da mina e levantaram a questão da “necessidade de os trabalhadores assumirem o controle da governança do país”. Aproximadamente 5.000 trabalhadores do armazém da Migros continuaram sua greve selvagem, desafiando a pressão policial.

Este movimento em ascensão aponta para o poder social que precisa ser mobilizado para se opor à guerra imperialista e atender às urgentes aspirações sociais e democráticas do povo: a classe trabalhadora internacional.

A perseguição aos líderes do movimento sindical independente é uma forma de intimidar toda a classe trabalhadora. Başaran Aksu, um dos dirigentes do Sindicato Independente dos Trabalhadores da Mineração, foi preso quando tentava se juntar à marcha dos trabalhadores da Mineradora Doruk. Mehmet Türkmen, presidente do sindicato independente do setor têxtil BİRTEK-SEN, está preso há seis semanas por causa de um discurso em que contou a verdade aos trabalhadores em greve. Esra Işık, que defendeu a Floresta de Akbelen e as terras dos moradores, continua presa. Essa repressão faz parte de uma onda mais ampla de prisões que tem como alvo jornalistas, advogados e dirigentes sindicais de oposição.

Da esquerda para a direita: Başaran Aksu, Doğukan Akan, Esra Işık e Mehmet Türkmen, prisioneiros da guerra de classes na Turquia.

Não é por acaso que essa pressão se intensificou especialmente depois que os EUA e Israel lançaram sua guerra contra o Irã. A classe dominante turca, que também se prepara para a guerra, não pode tolerar que a classe trabalhadora — que deverá arcar com todo o custo da guerra — aja de forma independente em defesa de seus próprios interesses.

O principal objetivo da eliminação dos direitos democráticos e da instauração de uma ditadura é reprimir a mobilização política independente da classe trabalhadora antes mesmo que ela consiga se consolidar. A classe trabalhadora deve responder a esse ataque, que tem como alvo direitos constitucionais fundamentais, como a liberdade de expressão, o direito de votar e de se candidatar, o direito de se manifestar e o direito à greve, com sua própria contra-ofensiva.

Isso exige uma organização independente de todo o aparato sindical, incluindo a burocracia da central sindical DİSK, que ignora a resistência da Mineradora Doruk e se recusa a defender os prisioneiros da luta de classes. Comitês independentes de base devem ser estabelecidos em todas as fábricas, todas as minas, todos os bairros e todas as escolas. Esses comitês devem se unir além das fronteiras por meio da Aliança Operária Internacional de Comitês de Base (AOI-CB), pois os trabalhadores enfrentam uma ofensiva capitalista global que só pode ser combatida com uma estratégia global.

Os trabalhadores devem inscrever em suas bandeiras a exigência pela liberdade de todos os prisioneiros da guerra de classes. Isso deve ser parte integrante do apelo pela liberdade de todos os presos políticos em todo o mundo, especialmente do socialista ucraniano e nosso camarada Bogdan Syrotiuk, preso em abril de 2024 por sua postura internacionalista contra a guerra.

Ninguém deve se deixar enganar pela retórica “pró-trabalhadores” do Partido Popular Republicano (CHP), que agora se encontra sob repressão judicial. Trata-se de um partido que impõe salários de miséria aos trabalhadores nas cidades onde governa, reprime greves e, em seu relatório de setembro de 2025 à OTAN, declarou o Irã como fonte de instabilidade e defendeu a expansão da OTAN para o Oriente Médio. O histórico dos aliados socialdemocratas do CHP na Alemanha, Reino Unido e França está repleto de guerras imperialistas, cortes sociais e usurpação de direitos democráticos.

A guerra que os EUA e Israel lançaram contra o Irã é uma guerra imperialista de agressão apoiada pela OTAN. Nessa guerra, pelo menos 3.375 pessoas foram mortas no Irã, incluindo pelo menos 376 crianças. No Irã, mais de 3 milhões de pessoas foram deslocadas internamente. Com a destruição de escolas, hospitais e outras infraestruturas civis, a pobreza e o desemprego atingiram proporções enormes. A guerra agravou a insegurança alimentar em toda a região e também levou a uma crise hídrica. As economias dos regimes árabes, que enfrentaram retaliação iraniana por apoiarem o ataque dos EUA e de Israel, esperam uma grave contração. Os trabalhadores são forçados a pagar o preço da guerra, bem como o alto custo de vida.

O governo do presidente Recep Tayyip Erdoğan não se limitou a ficar em silêncio enquanto Trump ameaçava aniquilar a civilização iraniana e fazer o país voltar à Idade da Pedra. Ao assinar a Declaração de Riad — que nem sequer menciona os Estados Unidos e condena o Irã por exercer seu direito à autodefesa —, deixou inequivocamente clara sua posição na guerra. As bases na Turquia continuam a servir de infraestrutura para a guerra. O petróleo do Azerbaijão ainda segue para Israel via Turquia. Após o início da guerra contra o Irã, a OTAN implantou sistemas de defesa aérea Patriot nas bases de Incirlik e Kürecik. Além disso, a cúpula da OTAN deste ano será realizada em Ancara, em julho.

Os ministros das Relações Exteriores da Turquia, do Azerbaijão, do Catar, do Bahrein, do Egito, da Jordânia, do Kuwait, do Líbano, do Paquistão, da Arábia Saudita, da Síria e dos Emirados Árabes Unidos numa reunião em Riad, na Arábia Saudita, em 18 de março de 2026. [Photo: TC_Disisleri/X]

Essa atitude colaboracionista, fruto da dependência militar-estratégica e financeira da classe dominante em relação ao imperialismo, é diametralmente oposta à atitude da classe trabalhadora. De acordo com pesquisas, mais de 90% da população turca se opõe à guerra injusta contra o Irã e às bases americanas na Turquia.

O governo Erdoğan está tentando desviar essa oposição atribuindo a culpa pela guerra exclusivamente a Israel. Mas o sionismo israelense funciona como o cão de guarda do imperialismo americano na região. A política dos EUA não é ditada por Israel. Apresentar o ataque ao Irã como uma guerra meramente israelense nada mais é do que servir de cobertura para o imperialismo americano e de cumplicidade ao governo Trump.

A tensão entre a Turquia e Israel não se limita à manipulação da opinião pública interna. Trata-se de um resultado da crescente rivalidade entre dois aliados do imperialismo americano, que busca o domínio total no Oriente Médio. Existe uma contradição irreconciliável entre a postura de Ancara — que aderiu ao chamado Conselho de Paz de Gaza de Trump e aconselhou o regime iraniano a se render sem lutar — e a posição da população turca, que se solidariza com os povos palestino e iraniano e odeia o imperialismo e o sionismo.

Nessas circunstâncias, ficou mais claro do que nunca que exortar o governo Erdoğan a tomar medidas em prol da “paz e da democratização” e a resolver a questão curda é um engodo destinado a ocultar a verdade dos trabalhadores. O objetivo das negociações entre Ancara e o PKK não é atender às legítimas reivindicações democráticas do povo curdo. O objetivo é garantir que a burguesia turca e curda cheguem a um acordo alinhado com os EUA e que a classe trabalhadora seja colocada sob controle internamente.

Além disso, a alegação de uma “paz democrática” sob o imperialismo é um grande engano. Vladimir Lenin, em 1915, durante a Primeira Guerra Mundial, escreveu o seguinte sobre esse assunto: “O pacifismo, a pregação da paz em abstrato, é um dos meios de enganar a classe trabalhadora. Sob o capitalismo, e especialmente em sua fase imperialista, as guerras são inevitáveis... a ideia de que uma paz democrática é concebível sem uma série de revoluções é profundamente equivocada.”

Vladimir Lenin em seu escritório no Kremlin, em Moscou, por volta de 1919 [AP Photo]

Na Turquia, no Irã, na Síria e no Iraque, o sujeito da luta pelo reconhecimento dos direitos democráticos do povo curdo não é esta ou aquela potência imperialista ou governo burguês, mas a classe trabalhadora. Os trabalhadores não podem levar adiante a luta pelo socialismo sem defender os direitos democráticos de seus irmãos e irmãs das nações oprimidas.

Nessa luta, a classe trabalhadora americana, europeia e internacional é aliada dos trabalhadores de nacionalidades curda, turca, árabe, persa, judaica e outras. Como explicou Leon Trotsky em sua Teoria da Revolução Permanente, a concretização de todas as tarefas democráticas pendentes e a luta contra o imperialismo só podem ser realizadas sob a direção da classe trabalhadora. Isso significa lutar por uma Federação Socialista do Oriente Médio. O sucesso dessa luta, que faz parte da luta pela revolução socialista mundial, depende da construção da direção revolucionária da classe trabalhadora.

A fundação do Sosyalist Eşitlik Partisi (Partido Socialista pela Igualdade) em junho de 2025, como a seção turca do Comitê Internacional da Quarta Internacional, representa um passo decisivo nessa luta. Trata-se da primeira vez que um partido é criado na Turquia com base no programa internacionalista e nos princípios do trotskismo. Quase um ano se passou, confirmando a ênfase do CIQI na posição crítica da Turquia na geopolítica global e na luta de classes, bem como no potencial de seu proletariado multinacional na luta global contra o capitalismo e o imperialismo.

Neste Primeiro de Maio, convocamos os trabalhadores, os intelectuais e os jovens de toda a região a se unirem a nós nesta luta e a se mobilizarem para construir novas seções do CIQI.

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