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“Hondurasgate” expõe o legado vivo da Operação Condor nas Américas

Publicado originalmente em inglês em 8 de maio de 2026

Um vazamento de gravações de áudio do Signal, WhatsApp e Telegram — publicado pelo Diario Red e pela plataforma investigativa Hondurasgate — expôs o que equivale a uma Operação Condor moderna: uma conspiração transnacional apoiada pelos EUA, envolvendo Washington, Tel Aviv, Buenos Aires e o Estado hondurenho, para desestabilizar governos em toda a América Latina, instaurar regimes policiais e preparar a repressão violenta da oposição social em todo o hemisfério.

Trump e Juan Orlando Hernández em 2017. [Photo: @SDEHonduras]

As gravações, supostamente autenticadas com o software forense Phonexia Voice Inspector, revelam conversas entre o ex-presidente hondurenho e narcotraficante condenado Juan Orlando Hernández (JOH), o atual presidente hondurenho Nasry Asfura, a vice-presidente María Antonieta Mejía e outros agentes de direita sobre a criação de “células de informação”, o financiamento de campanhas de desinformação, a prisão ou assassinato de opositores e a coordenação de uma ofensiva continental contra o “câncer da esquerda”.

A importância dos vazamentos vai muito além de Honduras. Esses planos emergem em meio à adesão aberta do governo Trump ao que chama de “Escudo das Américas”, o “Corolário Trump” à Doutrina Monroe e a estratégia mais ampla da “Grande América do Norte”, que visam reafirmar a hegemonia direta dos EUA sobre o Hemisfério Ocidental por meio da força militar, coerção econômica e subversão política.

Esses planos não são direcionados apenas ao exterior. Eles são inseparáveis ​​do rápido desenvolvimento de formas autoritárias de governo dentro dos próprios Estados Unidos.

Em 6 de maio, o governo Trump anunciou uma nova “Estratégia Antiterrorismo dos EUA” que expande enormemente os poderes domésticos do Poder Executivo, fortalece as autoridades de vigilância, amplia a categoria de “extremismo” e integra ainda mais as agências militares e de inteligência à governança civil.

Os mesmos métodos desenvolvidos em operações imperialistas no exterior — execuções extrajudiciais, censura, guerra psicológica, policiamento militarizado e repressão política — estão sendo cada vez mais preparados para serem usados contra a classe trabalhadora nos Estados Unidos.

As gravações vazadas oferecem um vislumbre extraordinário de como esses planos estão sendo colocados em prática. De acordo com o material divulgado, Hernández — perdoado pelo presidente Donald Trump após receber uma sentença de 45 anos nos Estados Unidos por tráfico de drogas — discute planos para estabelecer uma unidade de propaganda digital e “jornalismo” nos EUA, destinada a espalhar notícias falsas e desestabilizar os governos do México, Colômbia e Honduras.

Em uma suposta conversa com Asfura, Hernández pede US$ 150 mil para alugar um apartamento nos Estados Unidos, onde a operação seria sediada. “Vamos montar uma célula, Sr. Presidente”, diz Hernández. “Daqui, dos Estados Unidos, uma célula de informações, para que não possam nos rastrear lá em Honduras. Vai ser como um site de notícias latino-americano.”

Ele se vangloria de ter conversado recentemente com o presidente argentino Javier Milei: “Conversei com o presidente Javier Milei por telefone e foi um sucesso. Muito, muito, muito bom, e acho que neste momento podemos fazer grandes coisas por toda a América Latina. Há alguns processos contra o México, alguns contra a Colômbia e, principalmente, contra Honduras, contra a família Zelaya.”

Asfura responde prometendo mais verbas estatais desviadas da Secretaria de Infraestrutura e Serviços Públicos de Honduras. “Vamos enviar mais US$ 150 mil”, afirma.

O ex-presidente hondurenho Manuel Zelaya foi deposto em um golpe militar em 2009, apoiado pelo Departamento de Estado sob a então Secretária de Estado Hillary Clinton, enquanto sua esposa, Xiomara Castro, foi a presidente de Honduras de 2022 até janeiro de 2026.

Em outra suposta conversa, Hernández diz à vice-presidente María Antonieta Mejía que a operação tem o apoio de “alguns republicanos” e visa “atacar e erradicar o câncer da esquerda” em toda a América Latina. Ele afirma que Milei está contribuindo com US$ 350 mil e menciona o apoio de contatos mexicanos não identificados.

Os vazamentos lançaram uma luz sinistra sobre uma reunião em 6 de maio entre Milei e Asfura em Los Angeles, no contexto da conferência anual do Instituto Milken, que se tornou um centro de estratégia contra o espectro do socialismo.

Os vazamentos também apontam para o envolvimento direto de redes políticas israelenses. Hernández supostamente afirma que o financiamento para seu indulto presidencial “veio de um grupo de rabinos e pessoas que apoiavam Israel”, enquanto em outra gravação ele diz que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, “teve tudo a ver” com a obtenção de sua libertação.

A hipocrisia e a criminalidade expostas aqui são estarrecedoras. Hernández foi condenado em um tribunal de Manhattan, em Nova York, por ajudar no tráfico de mais de 400 toneladas de cocaína para os Estados Unidos e por receber subornos do Cartel de Sinaloa, incluindo US$ 1 milhão de Joaquín “El Chapo” Guzmán. O seu irmão, Juan Antonio Hernández, recebeu uma sentença de prisão perpétua por acusações semelhantes.

No entanto, essa mesma figura agora teria sido transformada em um operador-chave da estratégia regional de Washington.

Isso expõe completamente o caráter fraudulento da narrativa sobre o “narcoterrorismo” usada para justificar o ataque à Venezuela e a escalada das operações militares dos EUA em toda a América Latina e Caribe. A questão nunca foi o combate ao narcotráfico. Washington está perfeitamente disposto a empregar políticos condenados por ligações com cartéis quando isso serve a objetivos estratégicos mais amplos: recolonizar a região, conter a China, suprimir governos de esquerda e preparar repressão em massa contra a classe trabalhadora.

As gravações supostamente incluem discussões sobre prender ou assassinar opositores políticos. Uma voz identificada como sendo de Cosette López-Osorio, funcionária do Conselho Nacional Eleitoral, é ouvida afirmando sobre o opositor Marlon Ochoa: “Primeiro: prisão ou morte. É assim que vou dizer — prisão ou morte.”

Outra gravação mostra pressão sobre parlamentares hondurenhos para que usem violência e repressão contra a oposição. “Em Honduras, vocês precisam de força, precisam de logística, precisam de sangue”, diz uma voz identificada como sendo de Hernández. “Rebater violência com violência. É isso que o presidente Trump diz.”

Os vazamentos detalham ainda mais os planos para transformar Honduras em um estado cliente de corporações americanas e do Pentágono. Durante sua presidência, Hernández defendeu as notórias ZEDEs — Zonas Especiais de Emprego e Desenvolvimento Econômico — que, na prática, entregariam partes de Honduras à governança corporativa privada, fora das leis trabalhistas, das regulamentações ambientais e da supervisão democrática do país.

Um desses projetos, Próspera, atraiu investimentos dos bilionários Peter Thiel e Marc Andreessen, aliados de Trump. Localizado na ilha de Roatán, o projeto foi concebido como um paraíso fiscal e um enclave desregulamentado para empresas de biotecnologia, criptomoedas e empresas do setor financeiro.

A Suprema Corte de Honduras declarou as ZEDEs inconstitucionais em 2024. Mas, sob o novo governo do Partido Nacional, há planos em andamento não apenas para revivê-las e expandi-las, mas também para entregar grandes projetos de infraestrutura — incluindo a Ferrovia Interoceânica de Honduras — a corporações americanas, ao mesmo tempo em que se reduz a participação chinesa.

A mesma agenda inclui a expansão das bases militares americanas e medidas de austeridade drásticas direcionadas à classe trabalhadora.

A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, respondeu publicamente aos vazamentos esta semana. Embora tenha denunciado a existência de uma rede internacional de direita, ela se concentrou no papel da Argentina — e não de Washington — e descartou qualquer ameaça de que essas conspirações afetem seu próprio governo.

Por sua vez, o presidente colombiano Gustavo Petro limitou-se a denunciar Netanyahu por libertar JOH “para destruir os governos colombiano e mexicano”, isentando Trump ou o governo dos EUA de qualquer responsabilidade. É importante ressaltar que as eleições presidenciais na Colômbia serão realizadas em 31 de maio. O candidato apoiado por Petro, Iván Cepeda, lidera as pesquisas, mas deverá enfrentar um segundo turno contra o fascista Abelardo de la Espriella.

Em meio ao escândalo, em 7 de maio, o presidente brasileiro Lula da Silva seguiu os passos de Petro no início deste ano ao beijar o anel de Trump em Washington. A acomodação consistente a Trump pelos três governos nominalmente de “esquerda” nos países mais poderosos da região é a demonstração mais clara de que o nacionalismo burguês não oferece nenhuma maneira de se opor à opressão imperialista ou ao fascismo.

O legado histórico da Operação Condor

A revelação da conspiração “Hondurasgate” ocorre meio século após o lançamento da Operação Condor. Assim como hoje, o terror brutal da Operação Condor não surgiu em um vácuo político.

Os governos reformistas que precederam as ditaduras militares — a Unidade Popular de Salvador Allende no Chile, o governo nacionalista de João Goulart no Brasil e o peronismo na Argentina — defenderam o Estado capitalista e seu aparato repressivo contra movimentos pré-revolucionários da classe trabalhadora e subordinaram sistematicamente seus governos a Wall Street e ao imperialismo americano. Enquanto isso, seus aliados stalinistas e pablistas insistiram que os trabalhadores deveriam primeiro apoiar os nacionalistas “progressistas” e promoveram coligações de frentes populares com eles. Agindo como um freio político à mobilização independente dos trabalhadores, essas forças abriram caminho para golpes militares e ditaduras apoiados pelos EUA, com dezenas de milhares pagando com a própria vida por essas traições políticas.

Com o apoio e incentivo irrestrito do governo dos EUA, e com a CIA desempenhando o papel principal, regimes militares de direita foram estabelecidos no Brasil, Bolívia, Argentina, Uruguai e Chile. Essas ditaduras uniram forças com regimes no Paraguai e em outros lugares para lançar a Operação Condor, uma ação conjunta entre agências de polícia secreta latino-americanas e a CIA para caçar e assassinar esquerdistas e exilados revolucionários além das fronteiras nacionais.

A Operação Condor foi lançada oficialmente em outubro de 1975, quando o chefe da inteligência chilena, Manuel Contreras, convocou representantes da Argentina, Uruguai, Paraguai e Brasil em Santiago para estabelecer um “banco de informações” conjunto e “forças-tarefa” multinacionais. Exilados políticos podiam ser sequestrados, torturados, desaparecidos e assassinados em qualquer lugar do continente sem autorização judicial, transformando a América Latina no que o WSWS descreveu acertadamente como um “labirinto de horrores”.

Esquadrões da morte da polícia secreta cruzavam fronteiras livremente, enquanto exilados eram caçados e levados de volta a centros de tortura e câmaras de execução. O próprio Contreras testemunhou posteriormente que os assassinatos realizados pela DINA, a polícia secreta chilena, haviam sido organizados em conjunto com a aprovação da CIA.

O governo israelense desempenhou um papel auxiliar crucial na sustentação dessas redes terroristas, servindo como um canal para o fornecimento de armas e operações secretas dos EUA, onde Washington buscava uma negação plausível. Conselheiros israelenses treinaram o exército guatemalteco sob a ditadura de José Efraín Ríos Montt. Quando o Congresso restringiu a venda de armas ao Chile após o assassinato de Orlando Letelier em Washington, em 1976, Israel interveio para armar a ditadura de Pinochet.

O escândalo “Hondurasgate” demonstra que essa máquina de repressão imperialista jamais foi desmantelada.

Uma diferença crucial, contudo, é que a rede Condor original operava em grande parte em segredo. Hoje, o imperialismo americano sequer tenta manter a fachada de defender a “democracia” ou o “mundo livre”.

A operação exposta no “Hondurasgate” se desenrola em meio à escalada das ameaças do EUA em toda a região. Trump ameaçou repetidamente com ação militar no México sob o pretexto de combater o crime organizado. Ele intensificou as ameaças e provocações contra Petro na Colômbia, enquanto simultaneamente expandia as operações navais e os ataques com drones no Caribe e no Oceano Pacífico Oriental. Sinalizando os planos estadunidenses de agressão militar em meio ao embargo de combustível em curso contra a ilha, diversos voos de drones de reconhecimento foram recentemente relatados perto de Cuba.

“Hondurasgate” expõe a implementação avançada dos métodos da Operação Condor — a máquina de terror continental da CIA — em um contexto de crescente crise global e conflito de classes.

Os trabalhadores de toda a América precisam tirar as conclusões necessárias. A defesa dos direitos democráticos e a oposição à ditadura não podem ser confiadas a nenhuma fração da classe dominante, seja em Washington ou entre os governos nacionalistas burgueses da América Latina.

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