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“Escudo das Américas” de Trump prepara escalada da violência imperialista na América Latina

Trump com chefes de Estado latino-americanos de direita na cúpula “Escudo das Américas”. [Photo: whitehouse.gov]

No sábado, doze dos líderes políticos mais reacionários e corruptos da América Latina se reuniram com o presidente americano Donald Trump em uma infame cúpula regional batizada de “Escudo das Américas”. Realizada sob o pano de fundo da guerra criminosa de aniquilação de Washington contra o Irã, a cúpula reafirmou o objetivo do imperialismo americano de estabelecer sua dominação neocolonial direta sobre a América Latina por meio de violência irrestrita e da promoção de regimes ditatoriais alinhados à sua estratégia geopolítica.

A reunião, realizada no clube de golfe de Trump no sul da Flórida, contou com a presença dos presidentes da Bolívia, Chile, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai e Trinidad e Tobago. Os líderes do México, Brasil e Colômbia — que juntos respondem por mais de 60% tanto do PIB quanto da população da região — foram deliberadamente excluídos por Washington, bem como outros governos regionais considerados de “esquerda”.

A cúpula foi convocada por Trump, em suas próprias palavras, para estabelecer uma “nova coalizão militar para erradicar os cartéis criminosos que assolam nossa região”. Ele a batizou de “Coalizão das Américas contra os Cartéis”.

A retórica fraudulenta do combate aos “cartéis do narcotráfico” vem sendo cinicamente utilizada pelo governo Trump como pretexto para uma onda crescente de agressão e intervenção política em toda a região. O “narcoterrorismo” foi o inimigo fabricado para justificar o lançamento da campanha em curso de assassinatos a mísseis de pescadores no Caribe e no Pacífico Oriental, bem como a invasão da Venezuela e o sequestro de seu presidente em 3 de janeiro. Nas últimas semanas, os militares dos EUA realizaram uma nova série de operações com “tropas em solo” no México, Colômbia e Equador sob o pretexto de expandir a guerra ao “narcoterrorismo” pela região.

O arcabouço e as declarações feitas na cúpula “Escudo das Américas” deixaram evidente como essas múltiplas frentes de violência imperialista na América Latina, assim como a guerra contra o Irã, são partes interconectadas da mesma estratégia virulenta de dominação global e, mais especificamente, do preparo americano para a guerra contra a China.

Significativamente, Trump abriu o discurso a seus lacaios latino-americanos vangloriando-se da destruição bárbara do Irã. “Está sendo incrível, destruímos 42 navios da marinha, alguns deles muito grandes, em três dias”, declarou Trump de forma obscena.

O aspirante a Führer americano passou então ao tema do combate ao “narcoterrorismo” na América Latina, afirmando: “Vamos usar mísseis. Querem que usemos um míssil? Eles são extremamente precisos. ‘Piu’, bem dentro da sala de estar. É o fim daquele integrante do cartel”.

Diante do massacre no Irã, ele poderia ter dito de forma mais precisa: “‘Piu’, bem dentro da sala de aula. É o fim de 160 meninas”.

Trump continuou:

Todos os líderes aqui presentes estão unidos na convicção de que não podemos e não toleraremos mais a desordem em nosso hemisfério. A única maneira de derrotar esses inimigos é desencadeando o poder de nossas forças militares. Temos que usar nossas forças militares. Vocês têm que usar as suas forças militares. Vocês não podem combater essas pessoas com — e vocês têm ótimas polícias, têm polícias excelentes, mas eles ameaçam suas polícias. Eles intimidam suas polícias. Vocês têm que usar suas forças militares.

Apontando àquele que é hoje o principal palco da campanha persistente de Washington por “mudança de regime” na América Latina, Trump proclamou: “À medida que alcançamos uma transformação histórica na Venezuela, também aguardamos com expectativa a grande mudança que em breve chegará a Cuba”.

Os mesmos objetivos de aniquilação de toda uma sociedade que Washington persegue no Irã por meio de bombardeios em massa são empregados contra a ilha de Cuba, localizada a apenas 200 quilômetros de onde Trump discursava, por meio da imposição de um bloqueio energético. A provocação deliberada da fome e adoecimento em massa e de um colapso social foi abertamente celebrada pelo presidente fascista dos EUA. “Cuba está no fim da linha”, declarou Trump. “Eles estão bem no fim da linha. Não têm dinheiro. Não têm petróleo. Têm uma filosofia ruim. Têm um regime ruim que é ruim há muito tempo.”

Como um mafioso, Trump declarou cinicamente, apontando para os lacaios políticos latino-americanos em sua plateia: “Fiquei surpreso, mas quatro de vocês disseram: ‘Pode nos fazer um favor e se encarregar de Cuba?’ Vou resolver isso, pode deixar.” Mesmo que seu governo tenha “foco agora no Irã”, ele disse que o secretário de Estado, Marco Rubio, poderia “tirar uma hora” para “fechar um acordo em Cuba. Esse vai ser fácil.”

Significativamente, enquanto se vangloriava de ter privado Cuba de suas importações de petróleo da Venezuela, Trump elogiou efusivamente a presidente “interina” venezuelana, Delcy Rodriguez. “Ela está fazendo um excelente trabalho em parceria conosco”, disse o presidente americano. A líder chavista, falando como um encarregado colonial, retribuiu o elogio horas após a cúpula. “Reafirmamos nosso compromisso de desenvolver relações duradouras baseadas no respeito mútuo, na igualdade e na adesão ao direito internacional”, escreveu Rodriguez, enquanto Maduro, sequestrado, permanece numa cela nos EUA.

Enquanto elogiou Rodriguez, Trump atacou diretamente a presidente mexicana Claudia Sheinbaum em seu discurso. Ele afirmou que “os cartéis governam o México” e que o país “é o epicentro da violência dos cartéis” — argumentos que foram lançados contra a Venezuela antes de sua invasão. Trump relembrou especificamente a recusa de Sheinbaum em “deixá-lo erradicar os cartéis”, isto é, de permitir o envio de tropas e bombardeios dos EUA ao México.

Sheinbaum vem respondendo consistentemente às pressões de Trump através da acomodação. Tentando evitar que os EUA lancem uma operação militar unilateral no país, seu governo está direcionando o próprio Estado mexicano à promoção de uma guerra contra os “cartéis do narcotráfico” e, na prática, à intensificação da repressão contra a classe trabalhadora. Em fevereiro, o governo Sheinbaum promoveu uma operação com apoio dos EUA para matar o chefe do CJNG (Cartel Jalisco Nueva Generación), resultando em uma onda de violência contra a população civil. Dando continuidade à acomodação covarde ao imperialismo dos EUA, Sheinbaum relativizou os comentários mais recentes de Trump como sendo insignificantes.

O mesmo caminho catastrófico está sendo trilhado pelos demais representantes dos falidos governos da “Maré Rosa” da América Latina.

O presidente colombiano Gustavo Petro, que anteriormente havia declarado que qualquer ação militar americana contra a Venezuela seria tratada como “uma agressão contra a América Latina”, moderou sua posição após encontrar Trump na Casa Branca no início de fevereiro de 2026. Em 1º de março de 2026, o governo Petro anunciou operações conjuntas com o Equador e os Estados Unidos, deslocando 20.000 soldados para combater o tráfico de drogas.

O mesmo vale para o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva. Lula busca sistematicamente realizar uma reunião bilateral com Trump, que estava prevista para ocorrer em Washington na época da cúpula “Escudo das Américas”, para a qual não foi convidado. Em troca das boas graças de Trump, Lula oferece o firmamento de uma parceria EUA-Brasil para combater o crime em seu país.

A cúpula de sábado culminou na assinatura de uma Declaração Conjunta de Segurança ideologicamente baseada no “corolário Trump” à Doutrina Monroe, que reivindica o direito dos EUA sobre o Hemisfério Ocidental e todos os seus recursos e a contra-atacar a influência regional da China. Os signatários declararam a intenção de cooperar com Washington para “aumentar a segurança no Hemisfério Ocidental” e em “esforços referentes à segurança de fronteiras, ao combate ao narcoterrorismo”, bem como à “segurança de infraestrutura crítica” — um eufemismo para combater a influência da China. A frase orwelliana “Promover a ‘Paz pela Força’” foi adotada como lema do “Escudo”.

A militarização da América Latina proclamada na cúpula “Escudo das Américas” possui as mais profundas implicações históricas e políticas.

O apelo de Trump ao emprego sistemático das forças militares na repressão interna regional é um projeto para restaurar as ditaduras militares patrocinadas pelos EUA que desencadearam um reinado de terror político e a tortura e assassinatos em massa de trabalhadores e jovens latino-americanos.

A gangue criminosa que posou ao lado do chefão da máfia dos EUA para uma foto de família em Miami era composta por herdeiros políticos diretos desses crimes históricos. Entre os mais proeminentes estavam o presidente fascista argentino, Javier Milei, e o presidente-eleito chileno, José Antonio Kast, que foi receber diretrizes em Washington quatro dias antes de sua posse. Kast, filho de um oficial nazista fugido para o Chile, é ele próprio um admirador confesso da ditadura assassina de Augusto Pinochet, que governou o país de 1973 a 1990.

O evento organizado por Trump no sábado remete diretamente a outra cúpula regional ocorrida 50 anos atrás, em 25 de novembro de 1975, na capital chilena sob a ditadura Pinochet. Denominada “Primeira Reunião Interamericana de Inteligência Nacional”, o encontro reuniu oficiais militares fascistoides da Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai para estabelecer a infame “Operação Condor”, uma rede integrada de repressão política assassina e conspiração de golpes em toda a região.

Uma diferença significativa em relação à cúpula de Trump é que a reunião de Pinochet em 1975 foi realizada em segredo, e o estabelecimento formal da “Operação Condor” só veio a público com a abertura dos “Arquivos do Terror” paraguaios em 1992. Ainda mais encoberta era a participação dos Estados Unidos nesses crimes por meio do fornecimento de apoio logístico pela CIA a golpes políticos e de treinamento e infraestrutura às agências de repressão assassinas em toda a América Latina.

O tempo em que o imperialismo americano conseguia manter sua imagem como líder do “mundo livre” ficou para trás. A promoção escancarada por Washington de assassinatos de Estado e ditaduras tem, contudo, implicações explosivas que estão muito além de seu controle.

Como o World Socialist Web Site tem insistido, o surto violento do imperialismo americano não é um sinal de força, mas de profunda crise histórica. Suas intervenções criminosas e a desestabilização da ordem burguesa em todo o mundo se combinam a uma extrema crise política dentro dos próprios Estados Unidos. As contradições do sistema imperialista estão conduzindo à maior erupção da luta de classes da história, na qual as lutas sociais dos trabalhadores da América do Sul, Central e do Norte assumirão a forma de um processo revolucionário inseparável de caráter socialista.

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